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Maria Lúcia V. Barbosa

Maria Lúcia V. Barbosa

Graduada em Sociologia e Política e Administração Pública pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e especialista em Ciência Política pela UnB. É professora da Universidade Estadual de Londrina/PR. Articulista de vários jornais e sites brasileiros. É membro da Academia de Ciências, Artes e Letras de Londrina e premiada na área acadêmica com trabalhos como "Breve Ensaio sobre o Poder" e "A Favor de Nicolau Maquiavel Florentino".
E-mail: mlucia@sercomtel.com.br

Quarta, 31 Janeiro 2007 21:00

Muito Barulho Para Nada

Seja lá como for, a enorme platéia do circo Brasil demonstra complacência infinita para com as bravatas e despautérios do ilustre mandatário.

Não sei se o presidente Luiz Inácio acredita realmente no que diz em seus momentos de suprema empolgação consigo mesmo ou se apenas segue o treinamento de seus marqueteiros. O fato é que Sua Excelência alterna encenações onde se compara a Jesus Cristo, Tiradentes, Getúlio Vargas, JK e, às vezes, pretende ser maior que todos eles. Em certos momentos regride à Terra e apresenta ao respeitável público a tocante imagem do pobre operário, do retirante que continua imerso na mais desgrenhada miséria, e que chegou à presidência da República com a missão de salvar seus iguais. Os ricos que o digam.

Seja lá como for, a enorme platéia do circo Brasil demonstra complacência infinita para com as bravatas e despautérios do ilustre mandatário. E isso basta para que o PT, através de seu correligionário mais emblemático, se mantenha no poder. Até quando não se sabe.

Os escândalos de corrupção acontecidos no primeiro mandato, e que derrubaram os homens mais próximos e importantes do presidente; as “piadas de salão” de Delúbio Soares e demais companheiros; os aloprados, as promessas não cumpridas; os programas sociais fracassados; os impostos exorbitantes; o crescimento econômico pífio, nada vezes nada tolda a confiança no salvador da pátria, o qual foi reconduzido ao cargo com expressiva votação.

Embasbacada, a maior parte da população se identifica com aquele linguajar retumbante, com as metáforas futebolísticas, com as piadas e gracejos do senhor presidente. E o deslumbramento (talvez o mesmo que envolve os participantes do BBB) não pertence apenas aos mais pobres, mas a parcela significativa da classe média louca por quimeras esquerdistas, e aos ricos, felizes com os lucros auferidos através do capitalismo marxista do governo do PT.

Entretanto, se o presidente faz sucesso internamente, o mesmo não acontece no plano externo. Foi o que se viu 32ª Reunião de Cúpula do Mercosul, havida nos dias 18 e 19 deste, no Rio de Janeiro.

Na Reunião, Hugo Chávez, que com sua Lei Habilitante assumiu de vez a posição de ditador vitalício da Venezuela, mais uma vez foi a estrela do Encontro. Insultou como sempre os Estados Unidos, chamou a oposição venezuelana de lixo, discursou longamente apesar do presidente brasileiro ter pedido que todos falassem como ele, durante apenas treze minutos. Não contente, e do alto do seu nebuloso socialismo caudilhista do século 21, Chávez se arvorou em descontaminador da doença neoliberal no Mercosul, criticou o governo Brasil na pessoa de Marco Aurélio Garcia, debochou do companheiro Lula. Depois, se uniu ao seu seguidor boliviano, Evo Morales, para agredir o presidente colombiano, Álvaro Uribe. Evo Morales, na esteira do seu comandante da boina vermelha, também atacou o Brasil.

Naquela inútil Reunião nada foi resolvido. Por exemplo, não se discutiu a “guerra da celulose” entre Uruguai e Argentina ou a recente queixa da Argentina contra o Brasil na Organização Mundial de Comércio. Uruguai e Paraguai saíram insatisfeitos e o bate-boca foi geral. Muito barulho para nada.

Mas barulheira mesmo aconteceu por conta do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). O presidente havia afirmado que jamais seu governo faria um plano, mas está apresentando o Plano B com pompas e honras. Como Luiz Inácio passou quatro anos prometendo o “espetáculo do crescimento”, o que não aconteceu, é de se esperar que mais esse amontoado de intenções não passe de muito barulho para nada. No mais é torcer para que a economia não desande de vez sob a batuta da guerilheira Dilma e do revolucionário Mantega. É preciso lembrar, que o PAC está sendo criticado por governadores, empresários e centrais sindicais.

Depois das turbulências sul-americanas, Sua Excelência partiu em busca de outro mundo possível, não no Fórum Social, em Nairóbi, África, mas em Davos, Suíça. Foi vender o PAC aos detestáveis capitalistas, manipuladores do vil dinheiro, esse excremento do diabo. Todavia, como na Reunião do Mercosul, o presidente brasileiro não fez sucesso. Além disso, impressionou mal seus poucos ouvintes quando defendeu Hugo Chávez dizendo que este “foi eleito três vezes consecutivas de forma mais democrática possível”. Quanto a Evo Morales, Luiz Inácio repetiu que “o gás é dele, é a única riqueza dele, tem que nacionalizar”. Vem aumento do gás por aí.

Com outra mentalidade, o presidente do México, Felipe Calderón, disse ver na América Latina retrocesso na política com a volta de “ditaduras pessoais vitalícias”, e na economia com “expropriações e nacionalizações, que só empobrecem ainda mais os pobres”. Pelo menos ainda existem alguns líderes lúcidos nestes tristes trópicos. Coisa que anda a nos faltar. Aqui é muito barulho para nada.

Terça, 16 Janeiro 2007 21:00

Para Que Servem Homens-Carneiros

Afinal, para que escrever quando o eleitorado, em sua impressionante maioria, consagrou nas urnas a corrupção, a incompetência, a enganação, através da escolha de vários de seus representantes nos Poderes Executivo e Legislativo?

Fiz uma pausa nos artigos. Motivos particulares me levaram a deixar de lado esse meu “vício”, o de escrever. Porém, mais do que a sobrecarga de fatos do cotidiano fiquei desestimulada a dar continuidade ao difícil e árduo exercício de alinhar por escrito, idéias, opiniões e convicções. A sensação de inutilidade tomou conta de mim e me lembrei da letra de uma música: “inúteis, nós somos inúteis”.

Afinal, para que escrever quando o eleitorado, em sua impressionante maioria, consagrou nas urnas a corrupção, a incompetência, a enganação, através da escolha de vários de seus representantes nos Poderes Executivo e Legislativo? Seria o mesmo que enviar informações a um rebanho de homens-carneiros. Essas criaturas não raciocinam e muito menos lêem. Não dá para escrever aos carneiros, ainda que assumam a forma humana. Feliz em sua ignorância, no máximo o rebanho assiste ao Big Brother Brasil enquanto se identifica com os atores da encenação na sordidez das tramas, no mau-caratismo das ações, no exibicionismo que faz do sexo ato puramente animal.

Homens-carneiros reclamam, mas não agem. Ocasionalmente resmungam. Espertíssimos em certas atitudes, como passar os outros para trás, são facilmente enganados quando se trata do pai-Estado personificado em qualquer populista. É curioso, por exemplo, que nos aeroportos onde longas horas de espera ou vôos cancelados fazem de otários os usuários do transporte aéreo, desculpas esfarrapadas dadas por autoridades sejam aceitas com a naturalidade dos que gostam de se deixar enganar. A culpa é das companhias aéreas ou de algum ato imprevisível de São Pedro. O pai-Estado não erra nunca. Não existem controladores de vôos nem suas greves. Viva o governo. Nacionalize-se a pouca vergonha. Ela é nossa.

No Congresso Nacional prossegue o espetáculo deprimente das adesões partidárias ao poder central, sem que o rebanho perceba ou se importe. Para culminar, a bancada do PSDB aderiu ao petista e candidato a presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia, o redentor dos “mensaleiros” e de seu chefe, autor da promessa de dobrar o salário dos companheiros deputados. Resta saber se o abjeto gesto de submissão ao Executivo poderá mudar com a saída de Gustavo Fruet, como terceira via (Fruet deveria ter sido o candidato a governador no Paraná, mas o PSDB mais uma vez perdeu a oportunidade de se impor como oposição real) ou se os tucanos vão abandoná-lo e traí-lo como fizeram com Geraldo Alckmin.

Sempre disse e repito que a única oposição, estridente e implacável, foi a do PT que agora, na situação faz o que bem entende sob aplausos gerais. Sem oposição para valer estamos diante do partido único, disfarçado de partido dominante. Algo tão ao gosto de Hugo Chávez e de seus seguidores do socialismo primata da América Latina. Um socialismo que condenará o continente á morte por asfixia de ignorância.

Neste cenário está em marcha o retrocesso do País com seu crescimento pífio, sua violência infame e impune, sua farsa democrática. E a predição de uma Constituinte por nosso mandatário supremo, lembra os passos do “hermano” golpista da Venezuela rumo ao poder totalitário.

O que falta para nos venezuelarmos? A Imposição completa da censura aos meios de comunicação. A punição mais rigorosa a quem se opuser ao desgoverno petista. E, porque não, um terceiro, quarto, quinto, sexto mandato para o senhor Luiz Inácio que, sempre em descanso, se não está de férias, viaja, se não viaja, descansa, sabendo que tudo ruma para seu contentamento.

O Brasil está parado, descansando nas praias. O governo está parado aguardando o desfecho das barganhas congressuais. Se os ministros nunca fizeram grande coisa, agora estão completamente parados. E na paradeira geral seguem ser medo de ser felizes os revolucionários de outrora que não precisaram dar um só tiro para chegar ao poder, os socialistas de fachada que vivem como capitalistas, os democratas de mentirinha que amam as ditaduras de esquerda, os trambiqueiros de todos os partidos que tramam suas vantagens enquanto riem secretamente de seus eleitores, os homens-carneiros. Estes têm uma única e grande utilidade: servem para elegê-los.

Por conta de tudo isso me pergunto: vale a pena escrever? Talvez, esse ato inútil sirva como gesto de solidariedade para com a minoria dos brasileiros que possuem brio e dignidade. Talvez, sirva apenas como desabafo. Em todo caso, se todos se calarem será pior.

Domingo, 26 Novembro 2006 21:00

A "Colizão" do Presidente Luis Inácio

Enquanto partidos discutem sobre seu lugar na corte, Luiz Inácio confessa que não sabe o que fazer para, segundo sua expressão, “destravar o Brasil”.

O presidente Luiz Inácio parece estar entusiasmadíssimo com sua “colizão”, algo nunca dantes feito no país com a envergadura que ele está conseguindo. O PMDB, partido mais importante em termos numéricos, apresentou-se em peso ao balcão de negócios do governo, se bem que a natureza cambiante da política de modo geral, e do PMDB em particular, não permite certezas ou inclui lealdades.

Outros partidos como o PSB, o PC do B, o PL, o PP, naturalmente o próprio PT e mais alguns também desejam participar da “colizão” como meio de alcançar cobiçados ministérios ou altos cargos. Estão todos sedentos de poder e o presidente, sem medo de se feliz, vai adiando a distribuição dos prêmios. Como animador de auditório ele diz: “quem quer ministérios?” Mas tarda a remeter o “aviãozinho”, enquanto mãos frenéticas se levantam na esperança de alcançar a desejada recompensa.

O termo coalizão tem vários significados. No sentido político, segundo o Dicionário Aurélio, quer dizer: “acordo entre partidos para um fim comum” (seria interessante saber qual o fim comum da imensa colcha de ganâncias que o presidente Luiz Inácio se propôs a costurar). Contudo, dada a afoiteza com que os partidos disputam regalias, o sentido econômico que o Aurélio dá ao vocábulo talvez sirva melhor para explicar o tipo de coalizão que está em curso: “consórcio, convênio, ajuste, aliança ou fusão de capitais, de caráter criminoso, para impedir ou dificultar a concorrência, visando o aumento de lucros arbitrários”.

Com a “concorrência”, ou seja, o PSDB e o PFL, Sua Excelência não tem com o que se preocupar. Estes partidos durante seu primeiro mandato foram os mais leais a ele, os que o defenderam do próprio PT autofágico, treinado para disseminar a discórdia, habituado a tática de dividir para governar. Qualquer problema é só Luiz Inácio chamar as “oposições responsáveis”, aquelas que não farão “oposição negativa”, as que estão propensas ao diálogo e elas o protegerão. Qualquer resistência de membro oposicionista basta chamá-lo para uma voltinha no Aerolula. De volta das alturas do poder ele cairá de joelhos, rendido diante da majestade que lhe segreda coisas que o comum dos ouvidos jamais perceberão.

O presidente reeleito sentou-se com Michel Temer (que foi oposição durante todo o primeiro mandato e até outro dia apoiava Geraldo Alckmin), com Orestes Quércia (que já foi denominado por Luiz Inácio de “ladrão de carrinho de pipoca”) e com outras lideranças do gigantesco PMDB que, diga-se em nome da justiça, nunca usou o subterfúgio da ética para esconder seus desígnios de poder pelo poder. Da reunião nasceu a “colizão” ou adesão e todos saíram do Palácio do Planalto com sorrisos de miss para figurar nas fotos.

Michel Temer, que comandou o espetáculo da coalizão, provavelmente no intuito de se manter na presidência do PMDB, poderá ser substituído pelo prestigiado ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Nelson Jobim, se este não ganhar um ministério. É que petistas costumam pagar com a destruição moral ou profissional a quem os ajuda. Recorde-se nesse sentido que o próprio presidente da República, o mais autêntico representante do PT, andou sacrificando até seus mais chegados companheiros para salvar seu precioso cargo. Se assim é com os amigos, o que poderá ele fazer com os que não são tão próximos?

Temer também pouco poderá fazer em termos partidários, na medida em que a chamada Santíssima Trindade do PMDB, integrada por José Sarney, Renan Calheiros e Jader Barbalho, é que diz o que pode ou não podem fazer os peemedebistas.

Entretanto, apesar de tudo aparentar um cenário róseo de entregas e salamaleques, no fundo ressoa a voz do PT, o verdadeiro partido dirigente que se encaminha para ser partido dominante. Assim, advertiu o ministro das Relações Institucionais, Tarso Genro, “que só irão participar do governo de coalizão os partidos aliados que comprometerem ao menos 80% de seus votos no Congresso em favor do governo federal” (O Estado de S. Paulo, 23/11/06). Isto na prática significa a perda de autonomia do Legislativo que subserviente votará o que o Executivo mandar. Fica evidente o desequilíbrio dos Poderes e, com ele, o retrocesso democrático. Ao mesmo tempo, Sua Excelência pede aos governadores que só lhe façam oposição daqui a quatro anos.

Enquanto partidos discutem sobre seu lugar na corte, Luiz Inácio confessa que não sabe o que fazer para, segundo sua expressão, “destravar o Brasil”. Um atestado de que durante quatro anos ele não foi capaz de proporcionar o prometido espetáculo do crescimento nem o será agora. Mas como está reeleito fará o que bem entender. Se a situação piorar a “colizão” será responsabilizada. O presidente não erra, de nada sabe, nada vê e continuará a ser aplaudido por seus quase 60 milhões de eleitores.

Segunda, 20 Novembro 2006 21:00

Sob o Signo do Caos

Se o primeiro mandato do PT foi medíocre em crescimento, marcado por uma profusão de escândalos de corrupção, escudado em propaganda enganosa que deturpou dados e iludiu eleitores, o segundo já começa sob o signo do caos.

Se o primeiro mandato do PT foi medíocre em crescimento, marcado por uma profusão de escândalos de corrupção, escudado em propaganda enganosa que deturpou dados e iludiu eleitores, o segundo já começa sob o signo do caos.

A situação caótica é mostrada de forma mais evidente através do apagão aéreo. Esse transtorno que inferniza a vida de milhões de brasileiros que utilizam vôos domésticos e internacionais, teve origem na queda do Boeing da Gol, tragédia na qual 154 pessoas morreram.

Sobre o infausto acontecimento, até agora não esclarecido, a primeira versão ventilada pelo ministro da Defesa, Waldir Pires, era a de que a culpa do acidente pertencia aos pilotos norte-americanos do jato Legacy que bateu no Boeing.

Os pilotos continuam com seus passaportes presos e impossibilitados de saírem do Brasil, e esse tratamento dado a criminosos deve fazer os compatriotas nacionalistas se rejubilam. Eles acreditam piamente que os culpados foram aqueles americanos maus e terroristas, que por um ataque de ruindade resolveram aniquilar a vida de 154 brasileiros inocentes. Um julgamento que, na verdade, se repete em tudo de ruim que nos acontece, porque é sempre mais fácil atribuir culpas do que nos responsabilizarmos por nossos próprios erros e mazelas.

Acrescente-se o antiamericanismo que foi exacerbado no governo petista, fiel cultor de Fidel Castro e de seu herdeiro Hugo Chávez, e não fica difícil concluir que o julgamento antecipado do ministro da Defesa fez sucesso. Estimulados por tais coisas, os advogados das vítimas do Boeing já entraram com pedido de indenização nos Estados Unidos. Entretanto, o acidente ainda está longe de uma real elucidação, conforme aponta um relatório preliminar:

O Legacy falou uma vez com o controle de vôo em Brasília às 15h51 e, apesar de sua identificação ter sumido do radar às 16h02, só começou a ser contado por rádio pela torre às 16h26, quase meia hora antes do acidente. Não se sabe porque a torre demorou tanto para tentar contato. Das 28 tentativas, só uma teve sucesso parcial. O Legacy voava a 37 mil pés, altitude igual a do Boeing. Devia ter passado a 36 mil pés em Brasília e depois para 38 mil pés. O relatório não esclarece porque Brasília não avisou o controle em Manaus para que alertasse o Boeing” (Folha de S. Paulo, 17/11/06).

Mais estranhezas, contudo, permeiam o apagão aéreo indicando que o caos pode ser mais profundo. Vejamos resumidamente quais são elas:

1ª) O ministro da Defesa solapou a autoridade da Aeronáutica ao tratar com os operadores de vôo, a maioria militar, sem a presença do comandante da Aeronáutica e de oficiais.

2ª) O ministro pareceu querer sindicalizar a questão, sendo que as FFAA não podem ser sindicalizadas, pois isso desvirtuaria suas funções constitucionais.

3ª) O ministro da Defesa parece não querer entender que “operação-padrão” significa greve, ou seja, grave insubordinação relacionada á hierarquia militar. Imagine-se, só para ilustrar, que numa hipotética guerra o general desse a ordem para as tropas avançarem e os soldados dissessem: “não vamos, estamos em greve”.

4ª) As FFAA, cujas condições salariais e materiais são cada vez mais precárias, têm com o apagão aéreo sua ruptura acelerada e sua ideologização acentuada. Será fácil, daqui a pouco, os militares brasileiros baterem continência para Hugo Chávez na zona militarizada que este vai criar na América Latina com o apoio dos países amigos.

Enquanto isso o presidente reeleito se diverte com a angústia dos ministros que querem ficar e com a ambição dos que querem entrar. Não lhe importa se a demora de sua decisão possa ocasionar o caos administrativo num país que já não prima por competência em gestão pública. Tão pouco importa ao reeleito se o MST acelera com ímpeto as invasões de terras, contidas durante a campanha para preservá-lo. O caos no campo, com conseqüências nefastas para o agronegócio já abalado pela incompetência governamental, não conta. E num governo que se recusa a cortar gastos e, portanto, a crescer, restará ao país o caos, sobretudo, para a classe média já tão penalizada pelo desemprego e pelos altos impostos.

O governo Luiz Inácio em seu segundo mandato parece se esmerar em nivelar por baixo. Não existem oposições para conter essa tendência. Não temos partidos políticos na expressão correta do termo. Não possuímos instituições que funcionem como anteparo entre o povo e o arbítrio governamental. O último bastião de resistência, a imprensa, está correndo sério risco no tocante à liberdade de expressão. Quanto ao povo, mais de 58 milhões de eleitores recompensaram a mediocridade.

Mas nada acontece de forma aleatória. A quem interessa o caos? A resposta fica com os leitores desse breve texto, se puderem ou quiserem dá-la.

Domingo, 12 Novembro 2006 21:00

O Que Há Com Nossa Educação

Acrescente-se o atual sistema de cotas, que em nome da justiça social acirra preconceitos, e o resultado é a mediocrização ainda maior do ensino.

Sempre se falou na importância da educação. Continua-se falando. De fato, é a educação que permite a expansão do espírito humano, o progresso da sociedade como um todo, o acesso à igualdade de oportunidades própria das democracias. E um país onde a maioria recebe as luzes da educação se torna mais apto a competir com os demais no plano internacional, pois conhecimento é poder.

Entretanto, é necessário considerar que tipo de educação conduz ao desenvolvimento individual e coletivo, pois no Brasil, onde todos querem ser doutores, busca-se a quantidade em detrimento da qualidade, impõe-se a doutrinação no lugar do raciocínio, cultiva-se a erudição que não prepara para a prática.

Por conta disso, a sensação que se tem é a de que o ser humano nasce inteligente e a escola o emburrece. E na Universidade, com exceção de algumas instituições de nível superior que primam pela excelência, completa-se o bitolamento mental, pois quase não se cria conhecimento, mas apenas se imita o pensamento que vem de fora. Não se estimula a capacidade de pensar por conta própria, mas se aprisiona as mentes no método escolástico que impede a criatividade e a imaginação.

Ao mesmo tempo, não se pode deixar de constatar que a qualidade do ensino superior vem declinando. Num verdadeiro ciclo vicioso cursos ruins formam professores ruins, que ministram cursos piores para alunos cada vez piores. A Universidade coroa toda a soma de baixa qualidade de ensino que a antecede, perpetuando para cada aluno o que lhe vinha acontecendo em matéria de educação desde os seus três anos de idade.

Antes se criticava a elitização da Universidade, que selecionava com base na competência e absorvia alunos de renda mais alta. A mudança no sistema do vestibular, que facilitou a entrada de um número bem maior de estudantes de poder aquisitivo mais baixo, e a cópia do sistema de crédito das universidades norte-americanas, que aparentemente facilitou a vida de professores e alunos, foram medidas tomadas em nome da “democratização” do ensino. O resultado, porém, foi o da massificação. Sem estrutura e infra-estrutura para suportar a quantidade, a qualidade universitária se degradou. A decantada democracia converteu-se numa ilusão, pois aos alunos, inclusive aos de renda mais baixa, este tipo de Universidade não oferece a possibilidade de elevação de status na medida em que não os prepara adequadamente para enfrentarem o mercado de trabalho cada vez mais exigente.

À ilusão de democracia, somam-se certos simplismos democráticos. Em nome de uma abstrata igualdade que omite a diferenciação por níveis de conhecimento, nivela-se por baixo, deixando-se de lado os pilares em que se devem se assentar a Universidade: a hierarquia, o mérito, a competência. Acrescente-se o atual sistema de cotas, que em nome da justiça social acirra preconceitos, e o resultado é a mediocrização ainda maior do ensino.

A despeito, porém dessa situação, a Universidade continua atraindo e acolhendo cada vez mais estudantes. Entrar no curso superior é como um “rito de passagem”. É preciso transpor o ritual do vestibular e ingressar no fabuloso mundo do diploma. Este é o alvo, o símbolo mágico do poder que se espera vir a ter, e que muitas vezes não se alcança.

Especialmente nas ciências humanas, limitamo-nos a copiar idéias muitas vezes ultrapassadas ou a repetir com fervor ortodoxo fórmulas que apenas traduzem interesses ideológicos.

Que existam influências marcantes do poderoso pensamento europeu, é perfeitamente normal. Que as aperfeiçoadas técnicas de pesquisa norte-americana norteiem nossos vacilantes passos nessa área, é até saudável. Nosso problema, porém, não é o das influências, mas a maneira como as absorvemos sem adaptá-las à nossa realidade.

Entrementes, a teoria marxista continua agradando em cheio. Os candentes discursos de Karl Marx dão a impressão ao estudante que são dirigidos a ele em particular e à sua sociedade como um todo. O jovem começa a se sentir “coitado”, “espoliado”, “oprimido”. Seu grande ideal converte-se na luta em defesa dos fracos explorados pelos fortes malvados. Para tanto é preciso cultivar o ódio à burguesia, ao capitalismo, ao Estados Unidos, ao neoliberalismo, à globalização. Enfim, tudo que trouxe progresso ao mundo.

Isso explica porquê a classe média, que freqüenta as universidades, vota no PT. Intoxicados mentalmente, universitários e os chamados intelectuais não têm condições de perceber a realidade. Nem a nacional, quanto mais a internacional. Provavelmente não sabem que caiu o Muro de Berlim. E, assim, se crê que só Marx e Lula salvam.

Diante dessas tristes constatações não é possível vislumbrar mudanças em nossa mentalidade do atraso, pelo menos à médio prazo. Como disse Nelson Rodrigues: “subdesenvolvimento não se improvisa, é obra de séculos”.

Sexta, 03 Novembro 2006 21:00

O Brasil Desunido

No momento, no Brasil desunido e tumultuado, os justos pagam pelos eleitores.

Em cadeia nacional de TV, na noite de 31 de outubro, o presidente reeleito pediu união nacional. Em seu pronunciamento convocou os partidos de oposição e a sociedade brasileira a participarem de uma agenda comum em torno de temas de interesse geral. Na verdade, novamente o governo petista não possui projeto de governo, mas tão somente de poder, e a sociedade emergiu das eleições com sentimentos difusos de desunião nunca existente com tamanha profundidade.

Tal situação derivou da retórica do presidente em campanha. Ele estimulou o ódio entre classes com sua persistente acusação contra as elites. Ao mesmo tempo, Luiz Inácio aguçou diferenças regionais e estaduais na medida em que conquistava o nordeste e o norte nos moldes de um oligarca. Desse modo, usando e abusando do poder econômico e político que a reeleição permite, o candidato e presidente conquistou abundantes votos entre os pobres de todos os Estados e, especialmente, das regiões mais carentes do Brasil.Vestido com o antigo figurino de operário ele se disse vítima das elites que seriam constituídas por ricos malvados e golpistas. Era como se não fizesse parte, como presidente da República, da atual elite do poder na qual se incorporaram seus poderosos companheiros de governo petista.

Sempre escorado em persuasiva propaganda LILS omitiu a corrupção deslavada que enlameou os quase quatro anos de seu primeiro mandato. Ele nada teve a ver com o PT nem foi responsável pelo que aconteceu, porque, aliás, nada sabe, nada viu. Em compensação, conseguiu o feito de colar em seu adversário, Geraldo Alckmin, a pecha de elitista, ao mesmo tempo em que o responsabilizava pelo governo passado entendido como maléfico. Parecia que o candidato não era Alckmin, mas FHC, do qual, aliás, o governo do PT copiou a política econômica e os projetos sociais.

Como Alckmin é paulista uma das estratégias do candidato Luiz Inácio baseou-se no ataque sistemático e contundente a São Paulo, que de modo estapafúrdio e a partir do cacoete esquerdista foi transformado em imperialista. Sua Excelência cuidadosamente omitiu que São Paulo o acolheu, como a tantos nordestinos, e lhe deu a oportunidade de ascender politicamente que jamais teria em Garanhuns. Também escondeu o apoio das elites financeiras paulistas e de outras regiões do Brasil que muito o ajudaram em sua segunda vitória, como tinham possibilitado a primeira.

Quanto a Geraldo Alckmin, praticamente sozinho, traído muitas vezes pelo próprio PSDB, desenvolvendo uma campanha franciscana em contraste com a de Luiz Inácio, passou para o segundo turno contrariando as pesquisas. Mas Alckmin não logrou convencer a maior parte do eleitorado que, como o PT, mandou a ética às favas. Em vão o ex-governador de São Paulo deu exemplo de impressionante tenacidade e de grande competência administrativa. Seus discursos foram lúcidos, coerentes e objetivos, e seus eleitores pelo Brasil afora encarnaram a parcela dos que não se deixaram iludir pela propaganda enganosa, que não compactuaram com a corrupção, que não aceitaram o paternalismo que mantém os pobres sempre pobres.

Acabou vencendo Luiz Inácio com o voto das elites financeiras, dos beneficiários das bolsas esmolas, de parte da classe média que votara em Heloísa Helena e Cristovam Buarque, ambos PT para sempre em seus corações.

Entretanto, mesmo antes de iniciar o segundo mandato Luiz Inácio já experimenta de sua herança maldita: caos nos aeroportos causado pela greve dos controladores de vôo, sendo que o governo sabia desde 2003 das condições precárias de trabalho destes profissionais e não tomou as providências cabíveis; briga relativa a condução da política econômica, que promete esquentar entre “desenvolvimentistas” e “monetaristas”; ameaça de retomada das invasões de terras pelo MST que articula com a CUT e a UNE um período de paralisações em todo país; previsão pífia de crescimento; necessidade de redução de gastos, o que será difícil num governo de “coalizão” com companheiros, notadamente os do PMDB; previsão do aumento do gás da Bolívia e manutenção de forma humilhante da Petrobrás neste país como prestadora de serviço; ameaça a liberdade de imprensa, que foi demonstrada em vários episódios recentes.

Na Av. Paulista Luiz Inácio se vangloriou da vitória que lhe foi dada pelos “de baixo”, contra os “de cima”. Na verdade, os segundos são os que não voltaram nele, e que não o toleram, não por causa de sua origem, mas dos desmandos do seu governo. Os primeiros podem vir a se desencantarem com o salvador da pátria, pois jamais se viu um segundo mandato dar certo. No momento, no Brasil desunido e tumultuado, os justos pagam pelos eleitores.

Sábado, 21 Outubro 2006 21:00

Porque Lils e seus Petistas Mentem Tanto

A mentira do PT começa por seu líder simbólico, Luiz Inácio, passa pela propaganda enganosa e deságua nas invencionices que na campanha se avolumaram também como estratégia para desviar as atenções de assuntos indesejados.

Nunca dantes numa campanha se viu um festival de mentiras como o que assola o País. Por isso, mesmo que eu já tenha escrito sobre a mentira, voltarei ao tema. Inclusive, porque a arte de mentir é um dos fatores decisivos para que o PT deixe de ser governo e chegue ao poder, o que lembra o pensamento do irmão leigo Betto: “nós estamos no governo, mas não ainda no poder”. Como o piedoso frei Betto é admirador de Fidel Castro, exatamente como Luiz Inácio e demais companheiros, supõe-se que o projeto de permanência dos petistas é por tempo indeterminado e com características, senão totalmente cubanas, pelo menos venezuelanas.

Na verdade, o sucesso do candidato e presidente petista repousa em três pilares: a mentira, o abuso do poder econômico e político que a reeleição faculta, a falta de uma verdadeira oposição que fortalecesse a candidatura de Geraldo Alckmin.

A mentira do PT começa por seu líder simbólico, Luiz Inácio, passa pela propaganda enganosa e deságua nas invencionices que na campanha se avolumaram também como estratégia para desviar as atenções de assuntos indesejados, como aquele do dossiê arquitetado pelos “aloprados” na sua ânsia de prejudicar José Serra e, por tabela, atingir Geraldo Alckmin.

Como símbolo, Luiz Inácio, que serve para angariar os votos que ensejam o poder para o PT, de fato não existe como presidente da República. Não tem condições, digamos, técnicas, para exercer o cargo. Ele é uma mentira criada pelo partido. Isso explica tantas viagens. Melhor mantê-lo afastado. Governar ficou por conta do que se chamou de “núcleo duro”, constituído por José Dirceu, Antonio Palocci e Luiz Gushiken. Do triunvirato não restou nenhum. Pelo menos oficialmente. Os homens mais próximos e importantes do presidente caíram por causa de pesadas acusações que ainda pairam sobre eles, sem nada ter sido ainda esclarecido na Justiça. Num país sério, o presidente da República, que em última instância é o responsável por seu governo, já teria caído junto ou, pelo menos, dado satisfações mais convincentes à sociedade em vez de ficar dizendo que não sabe de nada como qualquer batedor de carteira flagrado no delito.

O presidente que foi sem nunca ter sido, deve muito também a seu construtor de mentiras e mitos, Duda Mendonça. Este utilizou fartamente os ensinamentos de Goebbbels: “o que buscamos não é a verdade, é o efeito produzido”. E foi do ministro da Propaganda de Hitler que Mendonça copiou a lei de ouro do marketing ao treinar seu pupilo mais ilustre: “quanto maior a mentira, mais ela passa”. Entretanto, foram as palavras do próprio Hitler que nortearam o sucesso de Luiz Inácio: “se você deseja a simpatia das massas, deve dizer-lhes as coisas mais estúpidas e as mais cruas”. E não é isso que o candidato e presidente não tem cessado de fazer?

Por outro lado, o PT tem forjado mentiras com relação ao adversário Geraldo Alckmin sobre privatizações, sua religiosidade, seu governo em São Paulo. O PT transforma Alckimin em Fernando Henrique e lança a culpa dos fracassos de seu governo no governo passado. É o álibi da “herança maldita”. Luiz Inácio, por sua vez, nada a tem a ver com o PT, com os crimes dos companheiros, com seu próprio governo. Existe o mal absoluto encarnado pelo PSDB, e o bem absoluto representado pelo PT, em que pese o incrível festival de corrupção do partido que durante esse mandato de Luiz Inácio já está em seu terceiro presidente, visto que os anteriores caíram também por conta de pesadas acusações.

Evidentemente, essa aceitação da mentira por nossa sociedade explica o sucesso do governo petista e de seu líder simbólico, ressalvando, como escrevi em um dos meus livros, O Voto da Pobreza e a Pobreza do Voto – a Ética da Malandragem, que existe no Brasil gente humilde que é trabalhadora e honesta. Lideranças que ultrapassam visões paroquiais e se agigantam na tentativa de romper com o ranço da mentalidade antiprogressista. Empreendedores. Elites intelectuais. Temos nossas “aristocracias” no sentido aristotélico de aristoi (os melhores). Mas o problema é que “os melhores” não são capazes de preencher a lacuna entre a classe dirigente e a massa.

Nestas eleições, e diante do entusiasmo que milhões de eleitores demonstram perante a mentira, recordo ao final desse artigo o pensamento de H.L. Mencken: “O homem é o caipira par excellence, um ingênuo incomparável, o bobo da corte cósmica. Ele é crônica e inevitavelmente tapeado, não apenas pelo outros animais e pelas artimanhas da natureza, mas também (e mais particularmente) por si mesmo – por seu incomparável talento para pesquisar e adotar o que é falso, e por negar ou desmentir o que é verdadeiro”. Por isso LILS e seus petistas mentem tanto. E fazem sucesso.

Segunda, 16 Outubro 2006 21:00

Apagão Moral

Nesta campanha, a sensação que se tem é a de que um apagão moral originado no governo petista, provocou profunda amnésia em grande parte da população.

Nesta campanha, a sensação que se tem é a de que um apagão moral originado no governo petista, provocou profunda amnésia em grande parte da população. Prova disso é a indiferença de grande parte dos eleitores com relação aos copiosos escândalos prodigalizados pelos companheiros da alta hierarquia do PT. Tudo começou com o episódio do até agora impune Waldomiro Diniz, homem de confiança do então todo-poderoso “primeiro-ministro”, José Dirceu, sendo que os crimes e as aberrações das condutas governamentais vêm se acumulando velozmente nesta gestão presidencial, sem seja afetada a intenção de votos em Sua Excelência. Pelo menos é o que indicam os institutos de pesquisa, e mesmo que todos eles venham errando fragorosamente, só o fato do candidato e presidente ter passado para o segundo turno indica a aquiescência popular com relação a imoralidade pública que chegou a níveis nunca antes havidos na história do Brasil.

Num passado recente havia alguma capacidade de indignação no País, que podia ser sentida nas urnas. Como exemplo disto, recordo o debate que contribuiu para derrotar LILS, em que pese estar ciente, é claro, de que não foi este o único fator que contou para o fracasso do candidato petista em sua primeira campanha.

Em 1989, Lula enfrentou Fernando Collor de Mello e muitos outros candidatos, e as pesquisas indicavam o petista como favorito. Este era apoiado pelos chamados movimentos sociais, pelos intelectuais, por parte da Igreja Católica, todos de esquerda. Collor, então, usando uma estratégia que na época foi muito criticada pelo PT, levou na TV Globo a senhora Lurdes, que teve com Lula a filha de nome Lurian. Lurdes, que disse cobras e lagartos, contou, inclusive, que Lula mandou que ela abortasse a criança.

Antes do debate em que o petista teria que enfrentar Collor na poderosa Rede Globo, correu o boato que Lurdes também compareceria e que Collor levaria um dossiê com mais acusações de teor moral sobre o preferido das esquerdas. Nada disso aconteceu, mas o que se viu na TV foi um Lula tenso, acuado, apavorado, acovardado diante do vibrante e seguro “caçador de marajás”.

Mesmo com esse contratempo, às vésperas da decisão do segundo turno a euforia tomou conta dos petistas e das esquerdas brasileiras. Conforme registrei em um dos meus livros, América Latina – Em busca do Paraíso Perdido:

“Na revista Istoé Senhor, um longo artigo analisava uma pesquisa e, em determinado trecho, apontava para a direção do êxito do candidato petista. Segundo a matéria, baseada em dados colhidos a partir da mais rigorosa técnica metodológica, ‘a hipótese da vitória de Lula se configura, se continuar no mesmo ritmo, a tendência verificada no final de novembro para cá. A sangria da candidatura Collor e o crescimento de Lula indicam que há tempo para a virada” (Istoé Senhor, 20/11/1989, p.42).

Na mesma revista Leonel Brizola, derrotado por escassos quatrocentos mil votos na corrida do primeiro turno, afirmava: “Lula vai vencer, essa é minha convicção”. Logo em seguida, traçava um perfil nada favorável de Collor, ao qual se aliaria, pelo menos aparentemente, em 1992.

No dia 17 de dezembro, Lula beijou a cédula na hora de votar e fez declarações de vitória. Nas ruas seus eleitores e adeptos festejaram prematuramente, sacudindo as bandeiras vermelhas e emitindo o grito de guerra: “Lulalá”. Toda euforia, porém, se transformou em frustração, em amargura, em luto petista diante do resultado final. Collor vencera.

O resto da estória todos conhecem: as acusações de Pedro Collor, nunca comprovadas. As manifestações públicas, verdadeiros carnavais cívicos. A idéia do impeachment, levantada por Lula, que desde a humilhação passada no debate e na derrota sofrida, tinha acessos de revanchismo. A rapidez do julgamento do Congresso, contrastando com sua habitual lentidão. O impeachment.

Agora Lula e Collor se elogiam e se apóiam. Em campanha, o PT, sem nenhum escrúpulo, empreende uma guerra suja: acusa sem provas, difama, calunia, espalha inverdades, tenta demolir a reputação de Geraldo Alckmin, agride com baixarias sua família. Enquanto isso, institutos de pesquisa continuam a manter o petista cada vez mais acima do adversário. Até o resultado das enquetes sobre o debate na Band, quando Alckmin demonstrou preparo, autoridade e inequívoca superioridade sobre um Lula perdido entre papéis, acuado, amedrontado, acovardado, dão o petista como vencedor. Erraram de novo os institutos, ou esse resultado é fruto do apagão moral brasileiro? Só as urnas dirão a verdade em 29 de outubro.

Tivesse eu a oportunidade, faria como cidadã brasileira as seguintes perguntas ao candidato e presidente: O senhor é a favor ou contra o aborto? Quem matou Celso Daniel e Toninho do PT? Por que não mostra o gasto com os cartões institucionais? De onde veio o dinheiro para pagar o dossiê Vedoin, que incriminaria José Serra? O senhor não sabia mesmo de todos os crimes e maracutaias dos seus companheiros mais chegados?

Sexta, 06 Outubro 2006 21:00

Uma Burca Para Alckmin

Tudo que Alckmin falar, tudo que fizer, será usado contra ele por petistas, exímios oposicionistas sempre tomados pela fúria sacrossanta da causa que tudo justifica. E se não houver motivo para abater o adversário, eles inventam.

Os resultados do segundo turno surpreenderam. Pelo menos diante do que mostravam todos os institutos de pesquisa. Parecia impossível que outro candidato à presidência da República pudesse superar o poderio econômico e político do presidente e candidato do PT.

Despido da fantasia de “Lulinha de paz e amor”, confeccionada por Duda Mendonça, um Lulão rugia raivoso nos palanques, como nos bons tempos em que incitava operários à greve. Nada poderia impedir que ele continuasse no cargo. Luiz Inácio mandava os adversários se prepararem para 2010. Falava de sua tentação de fechar o Congresso e, num daqueles freqüentes ataques de egolatria se comparou a Jesus Cristo e a Tiradentes, assumindo seu papel predileto de vítima tão rendoso em termos de votos.

Nem mesmo o escândalo do caríssimo dossiê, forjado para incriminar José Serra, e que seria pago aos Vedoin dos sanguessugas, poderia macular o homem mais ético do país. Aquilo fora idéia desastrada de seus fiéis e aloprados meninos para incrementar a campanha de Aloísio Mercadante. Mais um escândalo, menos um escândalo, não faria a menor diferença, pois todos sabem que o presidente nada sabe. Não sabe, inclusive, quem é seu guarda-costa Freud que o acompanha há dezessete anos. Tão pouco sabe quem é Ricardo Berzoine, seu ex-ministro, ex-coordenador de campanha, companheiro de longa data. O presidente nunca ouviu falar dos aloprados petistas: Osvaldo Bragas, Jorge Lorenzetti (churrasqueiro oficial), Expedito Veloso, Gedimar Passos, Valdebran Padilha, Hamilton Lacerda (coordenador de comunicação da campanha de Mercadante). Além do mais, existe o recurso à teoria da “culpa das elites”, pois o presidente da República não representa a elite do poder juntamente com os companheiros de governo. Da elite fazem parte os que o perseguem implacavelmente. Uma fantasia paranóica e tanto, mas que funciona.

Na certeza do apoteótico triunfo, o discurso da vitória de LILS já estava pronto. A festa na Avenida Paulista, programada pela CUT, seria estrondosa. Tarso Genro já convocara os demais partidos para se unirem em torno do governo petista. Mas as urnas, contrariando prognósticos e palpites, mostraram que Geraldo Alckmin havia passado para o segundo turno. Susto na corte. Pânicos entre as hostes vermelhas.

Nos Estados, muitas das previsões das pesquisas ditas científicas também esboroaram. Exceto onde seria óbvio o resultado, como em São Paulo e Minas Gerais que registraram estrondosa vitória dos candidatos do PSDB, José Serra e Aécio Neves. Na maioria do País o resultado das urnas não correspondeu aos das pesquisas. O que dizer, por exemplo, do que aconteceu no Rio Grande do Sul, no Paraná, na Bahia? Decididamente, as previsões meteorológicas, hoje dotadas do recurso de satélites, são bem mais confiáveis.

Se a campanha havia se desenrolado sem graça, com petistas esperançosos, mas envergonhados, sem coragem de por adesivos de Luiz Inácio nos carros, o segundo turno ameaça pegar fogo. Geraldo Alckmin que se cuide. Dele se espera que ande de burca, pudico, calado, quase oculto para não empanar o brilho do Lulinha paz e amor. Tudo que Alckmin falar, tudo que fizer, será usado contra ele por petistas, exímios oposicionistas sempre tomados pela fúria sacrossanta da causa que tudo justifica. E se não houver motivo para abater o adversário, eles inventam. O dossiê é a prova mais recente de como os companheiros são especialistas em forjar provas, atacar reputações de forma leviana, agir de modo inescrupuloso para manter o poder. O PT, nem Freud explica. Só Lombroso. Para piorar, Alckmin tem contra si muitos de seus correligionários e aliados.

Assim, quando Garotinho e sua mulher, a governadora Rosinha, apresentaram seu apoio a Alckmin, o fato foi transformado em heresia. Garotinho serviu para ter Benedita com vice quando foi governador. Serviu para apoiar Luiz Inácio, em 2002, no segundo turno. Serviu para dar apoio a candidata do PSOL, Heloísa Helena. Mas Alckmin tem que andar de burca. Não importa se Luiz Inácio tem o apoio de Fernando Collor, de Newton Cardoso, de Orestes Quércia, se gosta quando Maluf o chama de honesto. No Rio o palanque do candidato e presidente é composto pelos seguintes aliados: Marcelo Crivella (bispo da Igreja Universal que antes via em LILS o demônio em pessoa), Benedita da Silva (que em 2004 foi mandada embora do Ministério da Assistência Social por fazer viagem particular às custas do governo), Luiz Fernando Pezão (indicado por Garotinho como vice na chapa do candidato a governador, Sérgio Cabral), Sérgio Cabral (apoiado por Garotinho no primeiro turno), Márcio Fortes (afilhado de Severino Cavalcanti, que assumiu o Ministério das Cidades em 2005), Francisco Dornelles (ex-ministro do Trabalho de FHC) e Luiz Paulo Conde (lançado na política por Cesar Maia).

Conclusão: se Alckmin vencer, poderá ser considerado um prodígio de determinação e o maior gênio da arte de fazer política que o Brasil já viu.

Sábado, 30 Setembro 2006 21:00

A Herança Maldita do PT

Um segundo mandato da “quadrilha” daria aos seus integrantes o domínio total sobre a sociedade. Emergiria com maior clareza a ditadura do PT, porque prevaleceria de forma ainda mais acentuada do que agora, o Poder Executivo.

A campanha mais sem graça da história tornou-se, nestes dias que antecedem a votação, também a mais tensa. Como naquela sensação que precede uma tempestade, a inquietude tomou conta das pessoas de bem. Nestas a esperança se mescla ao medo, pois têm consciência do que ocorrerá se nas urnas for consagrado novamente o governo cujo partido se pretendeu o único ético, e que ao alcançar o cargo mais alto da República se tornou o mais corrupto de que se tem notícia. Corre-se o risco da consagração da herança maldita do próprio PT e, nesse sentido, façamos um exercício de futurologia para compreender melhor o que aconteceria caso Luiz Inácio fosse reeleito:

Um segundo mandato da “quadrilha” daria aos seus integrantes o domínio total sobre a sociedade. Emergiria com maior clareza a ditadura do PT, porque prevaleceria de forma ainda mais acentuada do que agora, o Poder Executivo.

O Congresso não precisaria ser fechado, conforme a tradição ditatorial, mas continuaria sendo anulado pela compra de parlamentares. Mensaleiros, sanguessugas, e quem sabe outras espécies daninhas à democracia, votariam, conforme costume, sob a batuta de José Dirceu devidamente reabilitado.

A Justiça seguiria submissa à vontade do dono, expressa no Supremo Tribunal Federal, na inibição das ações da Polícia Federal. Aos companheiros tudo continuaria permitido. Aos inimigos, a lei, os processos, as prisões.

Parte da Igreja, prudentemente calada, continuaria a apoiar a inoperância dos programas sociais, o descumprimento das promessas feitas. Afinal, o PT não deixa de ser o filho dileto da Ecclesia e ela sempre o abençoará.

Tasso Genro consumaria a união dos partidos em torno do chefe, o que equivaleria a jogar uma pá de cal na bem comportada oposição Se não existe oposição, tão pouco prevalece a democracia, que continuaria a existir apenas na farsa das “oposições responsáveis”, quer dizer, dóceis, amestradas, coniventes com o poder centralizado.

Entidades de classe, que no passado tiveram ação política marcante, continuariam omissas. E a imprensa, comprada ou amordaçada, seria um pálido simulacro do Quarto Poder.

A vitória da ignorância sobre a razão, da indiferença sobre a consciência, mostraria que em vez de cultura cívica nosso país possui uma cultura cínica, pois a maioria dos eleitores chancelaria com seu voto a depravação da política. Tal indiferença com relação a imoralidade pública refletiria o que somos enquanto nação.

Ao que tudo indica, o crescimento econômico continuaria pífio sob o governo daquele que muitas vezes prometeu o espetáculo do crescimento, mas jogou o Brasil na rabeira, inclusive, dos países latino-americanos.

Por fim, haveria o maior engodo da história: o povo votaria no pai Lula e seria governado por Hugo Chávez, o todo-poderoso comandante das esquerdas latino-americanas. Viraríamos de vez uma monumental República das Bananas, com direito a expropriações por parte de Evo Morales e chacotas de Kirchner que parece ver no colega Luiz Inácio uma piada viva. Sem falar na China que vem se divertindo conosco depois que o governo do PT abriu as portas a essa grande “nação amiga”.

Se as pessoas de bem que existem no Brasil forem em número insuficiente, prevalecerá mais uma vez nessa eleição a cara de Luiz Inácio, identificada com a cara do povo como ele mesmo disse. Mas o correto seria afirmar que a plebe tem a cara desse presidente, na medida em que o termo plebe traduz o que há de negativo no conceito de povo.

Num segundo mandato a propaganda enganosa continuaria a cumprir seu objetivo de anestesiar qualquer manifestação de clarividência popular e o PT seguiria com seu plano de manutenção do poder, que é no mínimo de trinta anos. Afinal, como abrir mão das delícias da corte, das viagens maravilhosas, do luxo que desfruta o pobre operário, sua mulher, sua família, seus companheiros? Não dá para perder tanto.

Dotado de coração magnânimo, de bondade infinita, o reeleito perdoaria seus companheiros mais íntimos, os quais chamou de “traidores”, “imbecis”, “insanos” “aloprados”, rompantes que não passaram de mais uma pantomima para convencer os otários de que ele nada sabe, nada vê e que não tem nada a ver com seu partido nem com seu governo. Uma vez reunida, a quadrilha jamais seria vencida.

O senhor Luiz Inácio não modificaria seu modo peculiar de governar fazendo churrascos, jogando partidas de futebol na Granja do Torto, viajando no confortável e luxuoso aerolula. E para movimentar mais o cenário político, quem sabe seu partido não pediria o impeachment retroativo de Fernando Henrique.

No próximo domingo as urnas mostrarão se existem brasileiros em número suficiente para evitar a herança maldita do PT. Então, saberemos se temos cara de povo ou de plebe.

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