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Maria Lúcia V. Barbosa

Maria Lúcia V. Barbosa

Graduada em Sociologia e Política e Administração Pública pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e especialista em Ciência Política pela UnB. É professora da Universidade Estadual de Londrina/PR. Articulista de vários jornais e sites brasileiros. É membro da Academia de Ciências, Artes e Letras de Londrina e premiada na área acadêmica com trabalhos como "Breve Ensaio sobre o Poder" e "A Favor de Nicolau Maquiavel Florentino".
E-mail: mlucia@sercomtel.com.br

Domingo, 12 Novembro 2006 21:00

O Que Há Com Nossa Educação

Acrescente-se o atual sistema de cotas, que em nome da justiça social acirra preconceitos, e o resultado é a mediocrização ainda maior do ensino.

Sempre se falou na importância da educação. Continua-se falando. De fato, é a educação que permite a expansão do espírito humano, o progresso da sociedade como um todo, o acesso à igualdade de oportunidades própria das democracias. E um país onde a maioria recebe as luzes da educação se torna mais apto a competir com os demais no plano internacional, pois conhecimento é poder.

Entretanto, é necessário considerar que tipo de educação conduz ao desenvolvimento individual e coletivo, pois no Brasil, onde todos querem ser doutores, busca-se a quantidade em detrimento da qualidade, impõe-se a doutrinação no lugar do raciocínio, cultiva-se a erudição que não prepara para a prática.

Por conta disso, a sensação que se tem é a de que o ser humano nasce inteligente e a escola o emburrece. E na Universidade, com exceção de algumas instituições de nível superior que primam pela excelência, completa-se o bitolamento mental, pois quase não se cria conhecimento, mas apenas se imita o pensamento que vem de fora. Não se estimula a capacidade de pensar por conta própria, mas se aprisiona as mentes no método escolástico que impede a criatividade e a imaginação.

Ao mesmo tempo, não se pode deixar de constatar que a qualidade do ensino superior vem declinando. Num verdadeiro ciclo vicioso cursos ruins formam professores ruins, que ministram cursos piores para alunos cada vez piores. A Universidade coroa toda a soma de baixa qualidade de ensino que a antecede, perpetuando para cada aluno o que lhe vinha acontecendo em matéria de educação desde os seus três anos de idade.

Antes se criticava a elitização da Universidade, que selecionava com base na competência e absorvia alunos de renda mais alta. A mudança no sistema do vestibular, que facilitou a entrada de um número bem maior de estudantes de poder aquisitivo mais baixo, e a cópia do sistema de crédito das universidades norte-americanas, que aparentemente facilitou a vida de professores e alunos, foram medidas tomadas em nome da “democratização” do ensino. O resultado, porém, foi o da massificação. Sem estrutura e infra-estrutura para suportar a quantidade, a qualidade universitária se degradou. A decantada democracia converteu-se numa ilusão, pois aos alunos, inclusive aos de renda mais baixa, este tipo de Universidade não oferece a possibilidade de elevação de status na medida em que não os prepara adequadamente para enfrentarem o mercado de trabalho cada vez mais exigente.

À ilusão de democracia, somam-se certos simplismos democráticos. Em nome de uma abstrata igualdade que omite a diferenciação por níveis de conhecimento, nivela-se por baixo, deixando-se de lado os pilares em que se devem se assentar a Universidade: a hierarquia, o mérito, a competência. Acrescente-se o atual sistema de cotas, que em nome da justiça social acirra preconceitos, e o resultado é a mediocrização ainda maior do ensino.

A despeito, porém dessa situação, a Universidade continua atraindo e acolhendo cada vez mais estudantes. Entrar no curso superior é como um “rito de passagem”. É preciso transpor o ritual do vestibular e ingressar no fabuloso mundo do diploma. Este é o alvo, o símbolo mágico do poder que se espera vir a ter, e que muitas vezes não se alcança.

Especialmente nas ciências humanas, limitamo-nos a copiar idéias muitas vezes ultrapassadas ou a repetir com fervor ortodoxo fórmulas que apenas traduzem interesses ideológicos.

Que existam influências marcantes do poderoso pensamento europeu, é perfeitamente normal. Que as aperfeiçoadas técnicas de pesquisa norte-americana norteiem nossos vacilantes passos nessa área, é até saudável. Nosso problema, porém, não é o das influências, mas a maneira como as absorvemos sem adaptá-las à nossa realidade.

Entrementes, a teoria marxista continua agradando em cheio. Os candentes discursos de Karl Marx dão a impressão ao estudante que são dirigidos a ele em particular e à sua sociedade como um todo. O jovem começa a se sentir “coitado”, “espoliado”, “oprimido”. Seu grande ideal converte-se na luta em defesa dos fracos explorados pelos fortes malvados. Para tanto é preciso cultivar o ódio à burguesia, ao capitalismo, ao Estados Unidos, ao neoliberalismo, à globalização. Enfim, tudo que trouxe progresso ao mundo.

Isso explica porquê a classe média, que freqüenta as universidades, vota no PT. Intoxicados mentalmente, universitários e os chamados intelectuais não têm condições de perceber a realidade. Nem a nacional, quanto mais a internacional. Provavelmente não sabem que caiu o Muro de Berlim. E, assim, se crê que só Marx e Lula salvam.

Diante dessas tristes constatações não é possível vislumbrar mudanças em nossa mentalidade do atraso, pelo menos à médio prazo. Como disse Nelson Rodrigues: “subdesenvolvimento não se improvisa, é obra de séculos”.

Sexta, 03 Novembro 2006 21:00

O Brasil Desunido

No momento, no Brasil desunido e tumultuado, os justos pagam pelos eleitores.

Em cadeia nacional de TV, na noite de 31 de outubro, o presidente reeleito pediu união nacional. Em seu pronunciamento convocou os partidos de oposição e a sociedade brasileira a participarem de uma agenda comum em torno de temas de interesse geral. Na verdade, novamente o governo petista não possui projeto de governo, mas tão somente de poder, e a sociedade emergiu das eleições com sentimentos difusos de desunião nunca existente com tamanha profundidade.

Tal situação derivou da retórica do presidente em campanha. Ele estimulou o ódio entre classes com sua persistente acusação contra as elites. Ao mesmo tempo, Luiz Inácio aguçou diferenças regionais e estaduais na medida em que conquistava o nordeste e o norte nos moldes de um oligarca. Desse modo, usando e abusando do poder econômico e político que a reeleição permite, o candidato e presidente conquistou abundantes votos entre os pobres de todos os Estados e, especialmente, das regiões mais carentes do Brasil.Vestido com o antigo figurino de operário ele se disse vítima das elites que seriam constituídas por ricos malvados e golpistas. Era como se não fizesse parte, como presidente da República, da atual elite do poder na qual se incorporaram seus poderosos companheiros de governo petista.

Sempre escorado em persuasiva propaganda LILS omitiu a corrupção deslavada que enlameou os quase quatro anos de seu primeiro mandato. Ele nada teve a ver com o PT nem foi responsável pelo que aconteceu, porque, aliás, nada sabe, nada viu. Em compensação, conseguiu o feito de colar em seu adversário, Geraldo Alckmin, a pecha de elitista, ao mesmo tempo em que o responsabilizava pelo governo passado entendido como maléfico. Parecia que o candidato não era Alckmin, mas FHC, do qual, aliás, o governo do PT copiou a política econômica e os projetos sociais.

Como Alckmin é paulista uma das estratégias do candidato Luiz Inácio baseou-se no ataque sistemático e contundente a São Paulo, que de modo estapafúrdio e a partir do cacoete esquerdista foi transformado em imperialista. Sua Excelência cuidadosamente omitiu que São Paulo o acolheu, como a tantos nordestinos, e lhe deu a oportunidade de ascender politicamente que jamais teria em Garanhuns. Também escondeu o apoio das elites financeiras paulistas e de outras regiões do Brasil que muito o ajudaram em sua segunda vitória, como tinham possibilitado a primeira.

Quanto a Geraldo Alckmin, praticamente sozinho, traído muitas vezes pelo próprio PSDB, desenvolvendo uma campanha franciscana em contraste com a de Luiz Inácio, passou para o segundo turno contrariando as pesquisas. Mas Alckmin não logrou convencer a maior parte do eleitorado que, como o PT, mandou a ética às favas. Em vão o ex-governador de São Paulo deu exemplo de impressionante tenacidade e de grande competência administrativa. Seus discursos foram lúcidos, coerentes e objetivos, e seus eleitores pelo Brasil afora encarnaram a parcela dos que não se deixaram iludir pela propaganda enganosa, que não compactuaram com a corrupção, que não aceitaram o paternalismo que mantém os pobres sempre pobres.

Acabou vencendo Luiz Inácio com o voto das elites financeiras, dos beneficiários das bolsas esmolas, de parte da classe média que votara em Heloísa Helena e Cristovam Buarque, ambos PT para sempre em seus corações.

Entretanto, mesmo antes de iniciar o segundo mandato Luiz Inácio já experimenta de sua herança maldita: caos nos aeroportos causado pela greve dos controladores de vôo, sendo que o governo sabia desde 2003 das condições precárias de trabalho destes profissionais e não tomou as providências cabíveis; briga relativa a condução da política econômica, que promete esquentar entre “desenvolvimentistas” e “monetaristas”; ameaça de retomada das invasões de terras pelo MST que articula com a CUT e a UNE um período de paralisações em todo país; previsão pífia de crescimento; necessidade de redução de gastos, o que será difícil num governo de “coalizão” com companheiros, notadamente os do PMDB; previsão do aumento do gás da Bolívia e manutenção de forma humilhante da Petrobrás neste país como prestadora de serviço; ameaça a liberdade de imprensa, que foi demonstrada em vários episódios recentes.

Na Av. Paulista Luiz Inácio se vangloriou da vitória que lhe foi dada pelos “de baixo”, contra os “de cima”. Na verdade, os segundos são os que não voltaram nele, e que não o toleram, não por causa de sua origem, mas dos desmandos do seu governo. Os primeiros podem vir a se desencantarem com o salvador da pátria, pois jamais se viu um segundo mandato dar certo. No momento, no Brasil desunido e tumultuado, os justos pagam pelos eleitores.

Sábado, 21 Outubro 2006 21:00

Porque Lils e seus Petistas Mentem Tanto

A mentira do PT começa por seu líder simbólico, Luiz Inácio, passa pela propaganda enganosa e deságua nas invencionices que na campanha se avolumaram também como estratégia para desviar as atenções de assuntos indesejados.

Nunca dantes numa campanha se viu um festival de mentiras como o que assola o País. Por isso, mesmo que eu já tenha escrito sobre a mentira, voltarei ao tema. Inclusive, porque a arte de mentir é um dos fatores decisivos para que o PT deixe de ser governo e chegue ao poder, o que lembra o pensamento do irmão leigo Betto: “nós estamos no governo, mas não ainda no poder”. Como o piedoso frei Betto é admirador de Fidel Castro, exatamente como Luiz Inácio e demais companheiros, supõe-se que o projeto de permanência dos petistas é por tempo indeterminado e com características, senão totalmente cubanas, pelo menos venezuelanas.

Na verdade, o sucesso do candidato e presidente petista repousa em três pilares: a mentira, o abuso do poder econômico e político que a reeleição faculta, a falta de uma verdadeira oposição que fortalecesse a candidatura de Geraldo Alckmin.

A mentira do PT começa por seu líder simbólico, Luiz Inácio, passa pela propaganda enganosa e deságua nas invencionices que na campanha se avolumaram também como estratégia para desviar as atenções de assuntos indesejados, como aquele do dossiê arquitetado pelos “aloprados” na sua ânsia de prejudicar José Serra e, por tabela, atingir Geraldo Alckmin.

Como símbolo, Luiz Inácio, que serve para angariar os votos que ensejam o poder para o PT, de fato não existe como presidente da República. Não tem condições, digamos, técnicas, para exercer o cargo. Ele é uma mentira criada pelo partido. Isso explica tantas viagens. Melhor mantê-lo afastado. Governar ficou por conta do que se chamou de “núcleo duro”, constituído por José Dirceu, Antonio Palocci e Luiz Gushiken. Do triunvirato não restou nenhum. Pelo menos oficialmente. Os homens mais próximos e importantes do presidente caíram por causa de pesadas acusações que ainda pairam sobre eles, sem nada ter sido ainda esclarecido na Justiça. Num país sério, o presidente da República, que em última instância é o responsável por seu governo, já teria caído junto ou, pelo menos, dado satisfações mais convincentes à sociedade em vez de ficar dizendo que não sabe de nada como qualquer batedor de carteira flagrado no delito.

O presidente que foi sem nunca ter sido, deve muito também a seu construtor de mentiras e mitos, Duda Mendonça. Este utilizou fartamente os ensinamentos de Goebbbels: “o que buscamos não é a verdade, é o efeito produzido”. E foi do ministro da Propaganda de Hitler que Mendonça copiou a lei de ouro do marketing ao treinar seu pupilo mais ilustre: “quanto maior a mentira, mais ela passa”. Entretanto, foram as palavras do próprio Hitler que nortearam o sucesso de Luiz Inácio: “se você deseja a simpatia das massas, deve dizer-lhes as coisas mais estúpidas e as mais cruas”. E não é isso que o candidato e presidente não tem cessado de fazer?

Por outro lado, o PT tem forjado mentiras com relação ao adversário Geraldo Alckmin sobre privatizações, sua religiosidade, seu governo em São Paulo. O PT transforma Alckimin em Fernando Henrique e lança a culpa dos fracassos de seu governo no governo passado. É o álibi da “herança maldita”. Luiz Inácio, por sua vez, nada a tem a ver com o PT, com os crimes dos companheiros, com seu próprio governo. Existe o mal absoluto encarnado pelo PSDB, e o bem absoluto representado pelo PT, em que pese o incrível festival de corrupção do partido que durante esse mandato de Luiz Inácio já está em seu terceiro presidente, visto que os anteriores caíram também por conta de pesadas acusações.

Evidentemente, essa aceitação da mentira por nossa sociedade explica o sucesso do governo petista e de seu líder simbólico, ressalvando, como escrevi em um dos meus livros, O Voto da Pobreza e a Pobreza do Voto – a Ética da Malandragem, que existe no Brasil gente humilde que é trabalhadora e honesta. Lideranças que ultrapassam visões paroquiais e se agigantam na tentativa de romper com o ranço da mentalidade antiprogressista. Empreendedores. Elites intelectuais. Temos nossas “aristocracias” no sentido aristotélico de aristoi (os melhores). Mas o problema é que “os melhores” não são capazes de preencher a lacuna entre a classe dirigente e a massa.

Nestas eleições, e diante do entusiasmo que milhões de eleitores demonstram perante a mentira, recordo ao final desse artigo o pensamento de H.L. Mencken: “O homem é o caipira par excellence, um ingênuo incomparável, o bobo da corte cósmica. Ele é crônica e inevitavelmente tapeado, não apenas pelo outros animais e pelas artimanhas da natureza, mas também (e mais particularmente) por si mesmo – por seu incomparável talento para pesquisar e adotar o que é falso, e por negar ou desmentir o que é verdadeiro”. Por isso LILS e seus petistas mentem tanto. E fazem sucesso.

Segunda, 16 Outubro 2006 21:00

Apagão Moral

Nesta campanha, a sensação que se tem é a de que um apagão moral originado no governo petista, provocou profunda amnésia em grande parte da população.

Nesta campanha, a sensação que se tem é a de que um apagão moral originado no governo petista, provocou profunda amnésia em grande parte da população. Prova disso é a indiferença de grande parte dos eleitores com relação aos copiosos escândalos prodigalizados pelos companheiros da alta hierarquia do PT. Tudo começou com o episódio do até agora impune Waldomiro Diniz, homem de confiança do então todo-poderoso “primeiro-ministro”, José Dirceu, sendo que os crimes e as aberrações das condutas governamentais vêm se acumulando velozmente nesta gestão presidencial, sem seja afetada a intenção de votos em Sua Excelência. Pelo menos é o que indicam os institutos de pesquisa, e mesmo que todos eles venham errando fragorosamente, só o fato do candidato e presidente ter passado para o segundo turno indica a aquiescência popular com relação a imoralidade pública que chegou a níveis nunca antes havidos na história do Brasil.

Num passado recente havia alguma capacidade de indignação no País, que podia ser sentida nas urnas. Como exemplo disto, recordo o debate que contribuiu para derrotar LILS, em que pese estar ciente, é claro, de que não foi este o único fator que contou para o fracasso do candidato petista em sua primeira campanha.

Em 1989, Lula enfrentou Fernando Collor de Mello e muitos outros candidatos, e as pesquisas indicavam o petista como favorito. Este era apoiado pelos chamados movimentos sociais, pelos intelectuais, por parte da Igreja Católica, todos de esquerda. Collor, então, usando uma estratégia que na época foi muito criticada pelo PT, levou na TV Globo a senhora Lurdes, que teve com Lula a filha de nome Lurian. Lurdes, que disse cobras e lagartos, contou, inclusive, que Lula mandou que ela abortasse a criança.

Antes do debate em que o petista teria que enfrentar Collor na poderosa Rede Globo, correu o boato que Lurdes também compareceria e que Collor levaria um dossiê com mais acusações de teor moral sobre o preferido das esquerdas. Nada disso aconteceu, mas o que se viu na TV foi um Lula tenso, acuado, apavorado, acovardado diante do vibrante e seguro “caçador de marajás”.

Mesmo com esse contratempo, às vésperas da decisão do segundo turno a euforia tomou conta dos petistas e das esquerdas brasileiras. Conforme registrei em um dos meus livros, América Latina – Em busca do Paraíso Perdido:

“Na revista Istoé Senhor, um longo artigo analisava uma pesquisa e, em determinado trecho, apontava para a direção do êxito do candidato petista. Segundo a matéria, baseada em dados colhidos a partir da mais rigorosa técnica metodológica, ‘a hipótese da vitória de Lula se configura, se continuar no mesmo ritmo, a tendência verificada no final de novembro para cá. A sangria da candidatura Collor e o crescimento de Lula indicam que há tempo para a virada” (Istoé Senhor, 20/11/1989, p.42).

Na mesma revista Leonel Brizola, derrotado por escassos quatrocentos mil votos na corrida do primeiro turno, afirmava: “Lula vai vencer, essa é minha convicção”. Logo em seguida, traçava um perfil nada favorável de Collor, ao qual se aliaria, pelo menos aparentemente, em 1992.

No dia 17 de dezembro, Lula beijou a cédula na hora de votar e fez declarações de vitória. Nas ruas seus eleitores e adeptos festejaram prematuramente, sacudindo as bandeiras vermelhas e emitindo o grito de guerra: “Lulalá”. Toda euforia, porém, se transformou em frustração, em amargura, em luto petista diante do resultado final. Collor vencera.

O resto da estória todos conhecem: as acusações de Pedro Collor, nunca comprovadas. As manifestações públicas, verdadeiros carnavais cívicos. A idéia do impeachment, levantada por Lula, que desde a humilhação passada no debate e na derrota sofrida, tinha acessos de revanchismo. A rapidez do julgamento do Congresso, contrastando com sua habitual lentidão. O impeachment.

Agora Lula e Collor se elogiam e se apóiam. Em campanha, o PT, sem nenhum escrúpulo, empreende uma guerra suja: acusa sem provas, difama, calunia, espalha inverdades, tenta demolir a reputação de Geraldo Alckmin, agride com baixarias sua família. Enquanto isso, institutos de pesquisa continuam a manter o petista cada vez mais acima do adversário. Até o resultado das enquetes sobre o debate na Band, quando Alckmin demonstrou preparo, autoridade e inequívoca superioridade sobre um Lula perdido entre papéis, acuado, amedrontado, acovardado, dão o petista como vencedor. Erraram de novo os institutos, ou esse resultado é fruto do apagão moral brasileiro? Só as urnas dirão a verdade em 29 de outubro.

Tivesse eu a oportunidade, faria como cidadã brasileira as seguintes perguntas ao candidato e presidente: O senhor é a favor ou contra o aborto? Quem matou Celso Daniel e Toninho do PT? Por que não mostra o gasto com os cartões institucionais? De onde veio o dinheiro para pagar o dossiê Vedoin, que incriminaria José Serra? O senhor não sabia mesmo de todos os crimes e maracutaias dos seus companheiros mais chegados?

Sexta, 06 Outubro 2006 21:00

Uma Burca Para Alckmin

Tudo que Alckmin falar, tudo que fizer, será usado contra ele por petistas, exímios oposicionistas sempre tomados pela fúria sacrossanta da causa que tudo justifica. E se não houver motivo para abater o adversário, eles inventam.

Os resultados do segundo turno surpreenderam. Pelo menos diante do que mostravam todos os institutos de pesquisa. Parecia impossível que outro candidato à presidência da República pudesse superar o poderio econômico e político do presidente e candidato do PT.

Despido da fantasia de “Lulinha de paz e amor”, confeccionada por Duda Mendonça, um Lulão rugia raivoso nos palanques, como nos bons tempos em que incitava operários à greve. Nada poderia impedir que ele continuasse no cargo. Luiz Inácio mandava os adversários se prepararem para 2010. Falava de sua tentação de fechar o Congresso e, num daqueles freqüentes ataques de egolatria se comparou a Jesus Cristo e a Tiradentes, assumindo seu papel predileto de vítima tão rendoso em termos de votos.

Nem mesmo o escândalo do caríssimo dossiê, forjado para incriminar José Serra, e que seria pago aos Vedoin dos sanguessugas, poderia macular o homem mais ético do país. Aquilo fora idéia desastrada de seus fiéis e aloprados meninos para incrementar a campanha de Aloísio Mercadante. Mais um escândalo, menos um escândalo, não faria a menor diferença, pois todos sabem que o presidente nada sabe. Não sabe, inclusive, quem é seu guarda-costa Freud que o acompanha há dezessete anos. Tão pouco sabe quem é Ricardo Berzoine, seu ex-ministro, ex-coordenador de campanha, companheiro de longa data. O presidente nunca ouviu falar dos aloprados petistas: Osvaldo Bragas, Jorge Lorenzetti (churrasqueiro oficial), Expedito Veloso, Gedimar Passos, Valdebran Padilha, Hamilton Lacerda (coordenador de comunicação da campanha de Mercadante). Além do mais, existe o recurso à teoria da “culpa das elites”, pois o presidente da República não representa a elite do poder juntamente com os companheiros de governo. Da elite fazem parte os que o perseguem implacavelmente. Uma fantasia paranóica e tanto, mas que funciona.

Na certeza do apoteótico triunfo, o discurso da vitória de LILS já estava pronto. A festa na Avenida Paulista, programada pela CUT, seria estrondosa. Tarso Genro já convocara os demais partidos para se unirem em torno do governo petista. Mas as urnas, contrariando prognósticos e palpites, mostraram que Geraldo Alckmin havia passado para o segundo turno. Susto na corte. Pânicos entre as hostes vermelhas.

Nos Estados, muitas das previsões das pesquisas ditas científicas também esboroaram. Exceto onde seria óbvio o resultado, como em São Paulo e Minas Gerais que registraram estrondosa vitória dos candidatos do PSDB, José Serra e Aécio Neves. Na maioria do País o resultado das urnas não correspondeu aos das pesquisas. O que dizer, por exemplo, do que aconteceu no Rio Grande do Sul, no Paraná, na Bahia? Decididamente, as previsões meteorológicas, hoje dotadas do recurso de satélites, são bem mais confiáveis.

Se a campanha havia se desenrolado sem graça, com petistas esperançosos, mas envergonhados, sem coragem de por adesivos de Luiz Inácio nos carros, o segundo turno ameaça pegar fogo. Geraldo Alckmin que se cuide. Dele se espera que ande de burca, pudico, calado, quase oculto para não empanar o brilho do Lulinha paz e amor. Tudo que Alckmin falar, tudo que fizer, será usado contra ele por petistas, exímios oposicionistas sempre tomados pela fúria sacrossanta da causa que tudo justifica. E se não houver motivo para abater o adversário, eles inventam. O dossiê é a prova mais recente de como os companheiros são especialistas em forjar provas, atacar reputações de forma leviana, agir de modo inescrupuloso para manter o poder. O PT, nem Freud explica. Só Lombroso. Para piorar, Alckmin tem contra si muitos de seus correligionários e aliados.

Assim, quando Garotinho e sua mulher, a governadora Rosinha, apresentaram seu apoio a Alckmin, o fato foi transformado em heresia. Garotinho serviu para ter Benedita com vice quando foi governador. Serviu para apoiar Luiz Inácio, em 2002, no segundo turno. Serviu para dar apoio a candidata do PSOL, Heloísa Helena. Mas Alckmin tem que andar de burca. Não importa se Luiz Inácio tem o apoio de Fernando Collor, de Newton Cardoso, de Orestes Quércia, se gosta quando Maluf o chama de honesto. No Rio o palanque do candidato e presidente é composto pelos seguintes aliados: Marcelo Crivella (bispo da Igreja Universal que antes via em LILS o demônio em pessoa), Benedita da Silva (que em 2004 foi mandada embora do Ministério da Assistência Social por fazer viagem particular às custas do governo), Luiz Fernando Pezão (indicado por Garotinho como vice na chapa do candidato a governador, Sérgio Cabral), Sérgio Cabral (apoiado por Garotinho no primeiro turno), Márcio Fortes (afilhado de Severino Cavalcanti, que assumiu o Ministério das Cidades em 2005), Francisco Dornelles (ex-ministro do Trabalho de FHC) e Luiz Paulo Conde (lançado na política por Cesar Maia).

Conclusão: se Alckmin vencer, poderá ser considerado um prodígio de determinação e o maior gênio da arte de fazer política que o Brasil já viu.

Sábado, 30 Setembro 2006 21:00

A Herança Maldita do PT

Um segundo mandato da “quadrilha” daria aos seus integrantes o domínio total sobre a sociedade. Emergiria com maior clareza a ditadura do PT, porque prevaleceria de forma ainda mais acentuada do que agora, o Poder Executivo.

A campanha mais sem graça da história tornou-se, nestes dias que antecedem a votação, também a mais tensa. Como naquela sensação que precede uma tempestade, a inquietude tomou conta das pessoas de bem. Nestas a esperança se mescla ao medo, pois têm consciência do que ocorrerá se nas urnas for consagrado novamente o governo cujo partido se pretendeu o único ético, e que ao alcançar o cargo mais alto da República se tornou o mais corrupto de que se tem notícia. Corre-se o risco da consagração da herança maldita do próprio PT e, nesse sentido, façamos um exercício de futurologia para compreender melhor o que aconteceria caso Luiz Inácio fosse reeleito:

Um segundo mandato da “quadrilha” daria aos seus integrantes o domínio total sobre a sociedade. Emergiria com maior clareza a ditadura do PT, porque prevaleceria de forma ainda mais acentuada do que agora, o Poder Executivo.

O Congresso não precisaria ser fechado, conforme a tradição ditatorial, mas continuaria sendo anulado pela compra de parlamentares. Mensaleiros, sanguessugas, e quem sabe outras espécies daninhas à democracia, votariam, conforme costume, sob a batuta de José Dirceu devidamente reabilitado.

A Justiça seguiria submissa à vontade do dono, expressa no Supremo Tribunal Federal, na inibição das ações da Polícia Federal. Aos companheiros tudo continuaria permitido. Aos inimigos, a lei, os processos, as prisões.

Parte da Igreja, prudentemente calada, continuaria a apoiar a inoperância dos programas sociais, o descumprimento das promessas feitas. Afinal, o PT não deixa de ser o filho dileto da Ecclesia e ela sempre o abençoará.

Tasso Genro consumaria a união dos partidos em torno do chefe, o que equivaleria a jogar uma pá de cal na bem comportada oposição Se não existe oposição, tão pouco prevalece a democracia, que continuaria a existir apenas na farsa das “oposições responsáveis”, quer dizer, dóceis, amestradas, coniventes com o poder centralizado.

Entidades de classe, que no passado tiveram ação política marcante, continuariam omissas. E a imprensa, comprada ou amordaçada, seria um pálido simulacro do Quarto Poder.

A vitória da ignorância sobre a razão, da indiferença sobre a consciência, mostraria que em vez de cultura cívica nosso país possui uma cultura cínica, pois a maioria dos eleitores chancelaria com seu voto a depravação da política. Tal indiferença com relação a imoralidade pública refletiria o que somos enquanto nação.

Ao que tudo indica, o crescimento econômico continuaria pífio sob o governo daquele que muitas vezes prometeu o espetáculo do crescimento, mas jogou o Brasil na rabeira, inclusive, dos países latino-americanos.

Por fim, haveria o maior engodo da história: o povo votaria no pai Lula e seria governado por Hugo Chávez, o todo-poderoso comandante das esquerdas latino-americanas. Viraríamos de vez uma monumental República das Bananas, com direito a expropriações por parte de Evo Morales e chacotas de Kirchner que parece ver no colega Luiz Inácio uma piada viva. Sem falar na China que vem se divertindo conosco depois que o governo do PT abriu as portas a essa grande “nação amiga”.

Se as pessoas de bem que existem no Brasil forem em número insuficiente, prevalecerá mais uma vez nessa eleição a cara de Luiz Inácio, identificada com a cara do povo como ele mesmo disse. Mas o correto seria afirmar que a plebe tem a cara desse presidente, na medida em que o termo plebe traduz o que há de negativo no conceito de povo.

Num segundo mandato a propaganda enganosa continuaria a cumprir seu objetivo de anestesiar qualquer manifestação de clarividência popular e o PT seguiria com seu plano de manutenção do poder, que é no mínimo de trinta anos. Afinal, como abrir mão das delícias da corte, das viagens maravilhosas, do luxo que desfruta o pobre operário, sua mulher, sua família, seus companheiros? Não dá para perder tanto.

Dotado de coração magnânimo, de bondade infinita, o reeleito perdoaria seus companheiros mais íntimos, os quais chamou de “traidores”, “imbecis”, “insanos” “aloprados”, rompantes que não passaram de mais uma pantomima para convencer os otários de que ele nada sabe, nada vê e que não tem nada a ver com seu partido nem com seu governo. Uma vez reunida, a quadrilha jamais seria vencida.

O senhor Luiz Inácio não modificaria seu modo peculiar de governar fazendo churrascos, jogando partidas de futebol na Granja do Torto, viajando no confortável e luxuoso aerolula. E para movimentar mais o cenário político, quem sabe seu partido não pediria o impeachment retroativo de Fernando Henrique.

No próximo domingo as urnas mostrarão se existem brasileiros em número suficiente para evitar a herança maldita do PT. Então, saberemos se temos cara de povo ou de plebe.

Quinta, 21 Setembro 2006 21:00

O Abominável Governo do PT

O mais recente escândalo envolvendo novamente companheiros da intimidade do presidente da República confirma a incômoda sensação de que o Brasil está sendo governado não por um partido, mas por uma máfia oficializada.

O mais recente escândalo envolvendo novamente companheiros da intimidade do presidente da República confirma a incômoda sensação de que o Brasil está sendo governado não por um partido, mas por uma máfia oficializada.

É de conhecimento geral que não existem apenas vestais em outros partidos, que a corrupção é prática corrente desde tempos coloniais. Mas agora houve uma extrapolação da desfaçatez, da sordidez como método preponderante de fazer política, do cinismo que nega evidências criminosas com candura angelical, da mentira como arte magna de enganar eleitor bobo. Tudo isso praticado pelo partido e seu governo, que sempre se apregoaram éticos, compostos por imaculados dirigentes, portadores de mudanças moralizadoras na política.

Naturalmente o PT não contava com o fracasso de sua manobra para incriminar o candidato José Serra e, assim, alcançar a vitória para Mercadante. Bêbados de poder, certos da vitória do chefe, companheiros não temeram usar de seus costumeiros meios sujos para se apoderarem de São Paulo, a jóia da coroa. A reeleição da prefeita Marta Suplicy (ou Favre), dada como certa e perdida para Serra fora um duro golpe. Era preciso reconquistar o terreno precioso e, mais uma vez, o PT lançou mão de sua tradicional tática de enxovalhar a reputação alheia através de acusações falsas. Entretanto, como já disse e repito petistas são campeões em duas modalidades de tiro: tiro no pé e tiro pela culatra.

Da tramóia emergiu para o respeitável público os companheiros: Freud Godoy, assessor especial da Secretaria Particular de LILS, que há dezessete anos trabalha para o partido. Jorge Lorenzetti, analista de risco e mídia da campanha de reeleição de Luiz Inácio, seu churrasqueiro predileto. Gedimar Passos, ex-agente da PF, que atuava na área de inteligência da campanha de LILS. Valdebran Padilha, coordenador financeiro do PT em Cuiabá em 2004 – com essa dupla, que não é sertaneja foram encontrados num hotel de São Paulo R$ 1,410 milhão e US$ 139 mil. Não se sabe se a dinheirama para pagar Vedoin estava guardada nas cuecas dos petistas porque a Polícia Federal, sob as ordens do ministro da Justiça, não permitiu fotos –, Osvaldo Bargas, ex-chefe de gabinete do ministro do Trabalho. Expedito Veloso, ex-diretor de Gestão e Riscos do Banco do Brasil. Hamilton Lacerda, coordenador de campanha de Aloísio Mercadante – este, num ato falho, cobrou o conhecimento do conteúdo do tal dossiê, invencionice como o foi o dossiê Cayman, tentativa de incriminar o então presidente Fernando Henrique Cardoso – Ricardo Berzoine, presidente do PT, candidato a deputado federal, expulso da coordenação da campanha do chefe para não incriminá-lo.

Estes são os novos Delúbio, aparentemente sacrificados por conta de suas “travessuras” como diria Luiz Inácio. “Piadas de salão”, como falaria o ex-tesoureiro do PT. Certamente os “meninos levados da breca” continuarão por perto como tantos outros que foram chamados nos habituais jogos de cena do candidato e presidente, de traidores, mas que continuaram a servi-lo com a mais canina das devoções.

Mais esse escândalo às vésperas da eleição deveria abalar o prestígio de LILS. Por enquanto isso não aconteceu, pelo menos conforme pesquisas. E enquanto o PT já prepara o discurso de posse do segundo mandato, Luiz Inácio representa o papel de indignado e chama de abominável as tradicionais táticas de seu partido como se não as conhecesse de longa data, como se fosse possível distinguir entre ele e seus velhos companheiros, como se o governo e o PT não formassem um todo que se ramifica por órgãos oficiais devidamente partidarizados.

Não é possível saber o resultado que brotará das urnas em 1 de outubro. Informações e contra-informações povoam o cenário da campanha mais chocha de que se tem notícia. Mas um fato é notório: a audaciosa manobra do fictício dossiê demonstrou o quanto o PT e seu governo se sentem seguros. O candidato e presidente, assim como seus companheiros sabem que façam o que fizerem estarão a salvo. Para isso foi criado um sistema dentro do sistema através do loteamento do Estado. Espalhados em diversos escalões, colocados em postos-chave, petistas se dedicam em servir aos interesses do partido, o que significa preservar o chefe acima de tudo.

Num segundo mandato essa rede de proteção deverá ser mais fortalecida. Os Poderes constituídos e várias instituições serão mais corrompidos. A propaganda obscurecerá com mais êxito o fracasso da economia. Força e poder crescerão no abominável governo do PT que prosseguirá sem freios ou entraves.

Diante de tudo isso que se recorde a frase de Carlos Vereza sobre os brasileiros: “ao votarem pela segunda vez no maior farsante de toda a história política brasileira, passarão da condição de eleitores à de cúmplices, conscientes da lamentável desagregação ética e moral que assola o país”.

Sábado, 16 Setembro 2006 21:00

A Culpa é do Sistema

Passando os olhos sobre papéis, emitindo surradas respostas, fazendo o costumeiro auto-elogio de seu mandato, Luiz Inácio descartou qualquer responsabilidade na corrupção que infesta seu governo, pois, segundo afirmou, “a culpa é do sistema”.

Ao assistir a entrevista dada pelo presidente Luiz Inácio ao jornal da Band, dia 14 deste, fiquei impressionada com sua capacidade de responder não respondendo. Sem dúvida, paira sobre o presidente da República o treinamento dado por Duda Mendonça e suas esquivas, embora nada convincentes, devem ter tido o poder de engabelar a maioria que o assistiu.

Passando os olhos sobre papéis, emitindo surradas respostas, fazendo o costumeiro auto-elogio de seu mandato, Luiz Inácio descartou qualquer responsabilidade na corrupção que infesta seu governo, pois, segundo afirmou, “a culpa é do sistema”.

Além do mais, o poderoso José Dirceu, que foi tocado do cargo de “gerentão” ou “chefe da quadrilha” por Roberto Jefferson, teria sido pelo presidente exonerado num evidente combate a corrupção da parte deste e de sua implacável intenção de punir culpados.

Também a queda do ministro da Fazenda, Antonio Palocci, LILS atribuiu ao seu sentido ético. Entretanto, como se sabe, a permanência de Palocci no cargo, que já vinha se mostrando inviável por conta de numerosos escândalos, se tornou insustentável quando da quebra do sigilo bancário do caseiro Francenildo. Palocci não gostou quando o rapaz afirmou que ele freqüentava a casa onde havia farta diversão prodigalizada por uma “empresária do sexo” e negociatas bastante lucrativas, ingredientes que alegravam a vida dos integrantes da chamada República de Ribeirão. Dessas coisas, porém, Luiz Inácio nunca soube.

Ministros vampiros, ministros sanguessugas, ministros que enriqueceram rapidamente à sombra dos muros da corte, irmão lobista, filho privilegiado por milhões da Telemar, nada disso tem a ver com o presidente. Tudo é culpa do sistema. E se algumas pessoas do PT erraram, entre as quais, os inseparáveis companheiros de sua Excelência como o ex-presidente da sigla José Genoino, o ex-tesoureiro Delúbio Soares e o ex-secretario Silvinho Land Rover, naturalmente, a culpa é do sistema. Eles, coitados, são criaturas angelicais, apesar de traidores do chefe.

Também o fracasso de programas governamentais foi edulcorado e transformado em êxito nas palavras do candidato e presidente, atestado inequívoco de quanto Duda Mendonça, marqueteiro real e homem das rinhas de galo e dos paraísos fiscais, continua influente na moldagem da imagem e da retórica do seu mais importante discípulo político e obra-prima de simulação. Desse modo, se algo não atingiu resultado mais extraordinário, já se sabe, a culpa é do sistema.

Conclusão: são todos inocentes. Pelo menos os companheiros e, sobretudo, seu chefe supremo. Por isso mesmo merecem continuar no comando do País. Note-se que Genoino, o tomador de empréstimos ilícitos intermediados por Marcus Valério, e cujo irmão deputado foi envolvido no escândalo dos dólares na cueca, freqüenta o Palácio do Planalto para visitar o companheiro Lula e, quem sabe, vai ser eleito deputado federal, assim como Palocci.

O PT já discute a absolvição de José Dirceu, essa vítima do sistema juntamente com seu homem de confiança, Waldomiro Diniz. João Paulo Cunha, Luizinho, enfim, todos os mensaleiros inocentados por seus pares no Congresso seguem em frente sem medo da felicidade e prevê-se que o PT manterá grande bancada no Congresso. Imagina-se o quanto os companheiros da base mensalista devem estar felizes aguardando futuros mensalões.

Por outro lado, LILS influencia com seu magnetismo a sociedade brasileira que parece disposta a reconduzi-lo ao cargo para que tenha nova chance de, quem sabe, cumprir o que prometeu e não fez em quatro anos, claro, por culpa do sistema. Também não custa perdoar e reeleger todos que cometeram pecadilhos inofensivos como fraude em licitação, corrupção, formação de quadrilha, evasão de divisas.

Que importância tem se continuamos na rabeira do crescimento mundial, o que inclui o latino americano; se as taxas de juros seguem elevadas; se a carga tributária saltou para 37% do PIB; se a corrupção se alastra livremente, se o desemprego aumenta; se já existem sinais preocupantes na economia como a queda do agronegócio e da produção industrial; se Evo Morales se apropria do que é nosso com apoio do governo brasileiro frouxo e ideológico. Isso faz parte do sistema.

Pensando bem, diante desse sistema que anestesia a conduta ética do povo e do governo, que torna a imoralidade aceita como coisa natural, que mantém a ignorância de uns, o cinismo de outros, a alienação de muitos, não sei se dá mais vergonha do que nojo, ou mais nojo que vergonha da Terra de Macunaíma em que o Brasil vai se transformando, onde heróis sem caráter são exaltados, eleitos e reeleitos.

Sábado, 26 Agosto 2006 21:00

Está Faltando Ziriguidum

Dizem que lhe falta ziriguidum. Ora, o povo quer apenas ziriguidum e futebol. No mais, como justificou o ator e petista Paulo Betti: “não se faz política sem sujar as mãos”. E olha que de mãos sujas esse governo do PT entende.

Muitas pessoas têm comentado que não encontram eleitores de Luiz Inácio, em que pese todas as pesquisas apontarem o candidato e presidente como imbatível já no primeiro turno. Familiares, amigos, vizinhos, conhecidos, desconhecidos, gente humilde, gente endinheirada, ninguém assume o voto no petista. Até seus ex-adeptos se dizem decepcionados. O que transparece são queixas, indignação, temor de um segundo mandato. Entretanto, a cada pesquisa LILS sobe e já apresenta seu plano de governo para 2022, com reiteradas promessa que não cumpriu no atual mandato. Uma delas, o crescimento de 6% do PIB que aconteceria naquela longínqua data.

Se as pesquisas traduzem a realidade, o que muita gente duvida, isso se deve a alguns fatores já exaustivamente apresentados e repetidos, mas que valem à pena ser recordados:

Primeiro, não existe oposição ao PT. Segundo, há quase quatro anos o presidente usa e abusa dos meios de comunicação, notadamente, da TV. Terceiro, a partir do início deste ano o candidato e presidente esbanjou “bondades”. Quarto, Luiz Inácio foi superprotegido por todos os partidos.

Na verdade, pouquíssimos parlamentares do PSDB e do PFL se destacaram nas CPIs como verdadeiros oposicionistas. Entre eles, o senador Álvaro Dias, o deputado Gustavo Fruet e alguns outros parlamentares capazes de demonstrar coragem e ostentar brio e equilíbrio diante da difícil tarefa de enfrentar a tropa de choque do PT no Congresso. Os petistas de tudo fizeram para evitar as CPIs e, depois, quando as Comissões foram instaladas, abateram-se, inclusive, sobre as testemunhas. Eles utilizaram suas habituais táticas, capitaneados pela estridente senadora Ideli Salvati: gritar, desclassificar, afrontar, constranger, distorcer, intimidar.

O governo do PT teve um grande êxito: a compra da base aliada acabou por desmoralizar o Congresso como um todo, e esse pilar da democracia emergiu como uma aberração imoral. Vieram à tona falcatruas e negociatas feitas por homens e mulheres que foram eleitos para fiscalizar o Executivo e fazer as leis. Condenados no Conselho de Ética, os mensaleiros, com exceção de três, foram perdoados no plenário e saudados com grandes palmas. Um espetáculo nauseante, onde trapaceiros vencem. Alguns espertos renunciaram para não perder os preciosos mandatos, trampolins para as maracutaias de toda espécie. Ao final, salvaram-se praticamente todos. Eles voltarão, quem sabe, junto com os sanguessugas, perdoados pela sociedade e ungidos pelo grande companheiro presidente. Não é difícil que um João Paulo, um Luizinho e outros amigos de Marcos Valério consigam novo mandato.

A mixórdia de imoralidades, porém, proveio do Executivo. Afluiu com o caso Waldomiro Diniz, homem forte de José Dirceu, por sua vez homem forte do presidente da República. Como ficou por isso mesmo, a quadrilha (termo usado pelo procurador-geral da República) foi adiante. Nem os dólares na cueca, nem os pedidos de justiça feitos pelos irmãos de Celso Daniel, abalaram a República dos companheiros. Impunes, Delúbios e Silvinhos, Genoinos e Paloccis, continuam ser medo de serem felizes.

Enquanto isso, incólume, o presidente Luiz Inácio pairou sobre seu partido e seu governo como se não tivesse nada a ver com eles. Nem os crimes de seus auxiliares mais íntimos abalaram sua reputação. Bastou alegar que nada sabia, nada via e, por um decreto invisível, foi instaurado no país o cinismo institucionalizado, a mentira como norma, o desregramento como regra.

Sua Excelência contou especialmente com o apoio do PSDB e do PFL, que lhe foram de uma dedicação extrema. Enquanto isso, José Dirceu punha a culpa nas elites (leia-se, PSDB e PFL), e tratava de expulsar de suas hostes os companheiros mais ensandecidos pela fúria sagrada da causa.

A queda do agronegócio, o aumento da inadimplência, o declínio da produtividade industrial, os pesados impostos (sendo que a arrecadação bateu novo recorde), a corrupção estarrecedora, nada é capaz de abalar o prestígio de Sua Excelência, conforme as pesquisas. E Geraldo Alckmin, que poderia enfrentá-lo, está sendo cristianizado pelo PSDB, não conta com apoio efetivo do PFL, foi enjeitado pela cúpula tucana e está pessimamente assessorado. Educado, inteligente, técnico, falando bem, expressando-se com objetividade, mostrando experiência política e administrativa através de sua carreira, o ex-governador de São Paulo parece bom demais para o Brasil. Dizem que lhe falta ziriguidum. Ora, o povo quer apenas ziriguidum e futebol. No mais, como justificou o ator e petista Paulo Betti: “não se faz política sem sujar as mãos”. E olha que de mãos sujas esse governo do PT entende.

Quinta, 17 Agosto 2006 21:00

Estado Larápio

A sensação é a de que banditismo foi institucionalizado alcançando os Poderes constituídos em suas instâncias mais altas.

Será inútil dizer que sempre houve corrupção. Será cínico declarar que se sempre foi assim todos devem continuar a ter caixa dois, roubar, delinqüir, corromper, aumentar riquezas através da corrupção como se isso fosse a coisa mais natural do mundo. Ocorre, que neste governo do partido que havia prometido durante anos que viria para mudar, chegamos ao auge do amoralismo. A sensação é a de que banditismo foi institucionalizado alcançando os Poderes constituídos em suas instâncias mais altas.

Em recente entrevista à TV Globo, o presidente da República, num daqueles atos falhos que traem o subconsciente afirmou: “em meu governo combati a ética”. De fato Sua Excelência pode se gabar, começando com o indefectível “nunca em nenhum governo”, e acrescentar: roubou-se tanto, mentiu-se tanto, enganou-se tanto.

O impressionante desses quase quatro anos de nossa história é que a corrupção abrigada no próprio Estado nunca foi tão deslavada. Sem o mínimo pudor a roubalheira é escancarada nos Três Poderes, mina instituições antes consideradas impolutas, coopta entidades que não só se calam como participam do desregramento generalizado.

Não há mais uma clara distinção entre bandidos e autoridades e isso foi esfregado na cara dos deputados que argüiam o mega facínora Marcola. Ele debochou de mensaleiros e sanguessugas com o escárnio de chefão poderoso que instituiu um Estado dentro do Estado frouxo, corrupto, incompetente, quando não conivente com os companheiros do crime que agora apelam para jargões de esquerda para justificar seus atos. Afinal, nessas plagas latino-americanas quem é de esquerda é do bem. Isto foi inculcado durante anos nas mentes dos estudantes universitários, nos meios eclesiásticos, artísticos, intelectuais, entre profissionais liberais. Assim, se o PCC é de esquerda, logo é do bem.

Entretanto, depois de fazer curvar a mais poderosa rede de televisão do país que exibiu um vídeo com indivíduos encapuzados se queixando das prisões, exigência para que o jornalista da Globo seqüestrado fosse solto, não é de se duvidar que em breve o PCC consiga nosso Aldo Moro, seqüestrado em 1978 pelas Brigadas Vermelhas e executado quando o governo italiano se recusou a soltar brigadistas.

Em Terra de Macunaíma, porém, o provável é que evolua a obediência aos bandidos da parte das autoridades. Num cenário possível presídios de segurança máxima serão abolidos. Uma lei, quem sabe, decretará o fim dos crimes hediondos. Conceder-se-á hábeas corpus aos criminosos de alta periculosidade. A eles, e apenas a eles serão oferecidos direitos humanos, pois, coitados, são pessoas sofridas. E se o governo de Luiz Inácio se recusou a declarar as Farc como terroristas, conforme pedido do presidente colombiano, por que nosso PCC seria considerado como tal? Enfim, se confirmará em grande estilo que no Brasil o crime compensa.

De outro lado continuarão a dançar a dança da impunidade mensaleiros, sanguessugas, larápios de recursos públicos, golpistas escolados nas manhas do suborno, especialistas na arte de fraudar licitações, malandros adestrados em superfaturamento, sonegadores e formadores de quadrilhas, corruptos e corruptores a dobrar fortunas resguardadas em paraísos fiscais. Reeleitos muitos deles continuarão na doce vida que o poder concede a quem o alcança e nele se mantém. Leis e impostos apenas para eleitores, muitos dos quais dizem nas pesquisas: “eu faria a mesma coisa se chegasse lá”.

Diante desse estado de deterioração moral a que se chegou vale perguntar: que povo é esse que aceita docilmente sustentar com pesados impostos os luxos da corte? Que encara como natural a corrupção das mais altas autoridades? Que é presa fácil da propaganda enganosa?

Entendemos tudo sobre futebol. Temos na ponta da língua as escalações de todas as Copas do Mundo. Sabemos de cor e salteado os gols que nelas foram feitos pelo Brasil. Mas não nos lembramos em qual vereador ou deputado votamos. Elegemos qualquer candidato que sabe contar piadas. Achamos chatos os candidatos sérios, inteligentes preparados, experientes, dignos porque estes não têm a nossa cara. O reino Brasil apodreceu e nem nos damos conta ou isso não nos importa. Afinal, como diz o presidente da República, todo mundo tem caixa dois e se todo mundo tem podemos ter também, Depois é só dizer: não sei, não vi, não estou nem aí.

Quando o mau exemplo vem de cima, quando não há mais Poderes, instituições e entidades de classe com os quais se contar instala-se a anomia, intensifica-se o individualismo, aumenta a impunidade e com ela a violência. Contente o povo samba e canta: “me engana que eu gosto”.

Cada vez mais me convenço de que Nelson Rodrigues tinha razão quando afirmou: “subdesenvolvimento não se improvisa, é obra de séculos”.

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