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Maria Lúcia V. Barbosa

Maria Lúcia V. Barbosa

Graduada em Sociologia e Política e Administração Pública pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e especialista em Ciência Política pela UnB. É professora da Universidade Estadual de Londrina/PR. Articulista de vários jornais e sites brasileiros. É membro da Academia de Ciências, Artes e Letras de Londrina e premiada na área acadêmica com trabalhos como "Breve Ensaio sobre o Poder" e "A Favor de Nicolau Maquiavel Florentino".
E-mail: mlucia@sercomtel.com.br

Sábado, 10 Março 2007 21:00

O Insuportável Brilho dos Estados Unidos

É brilho demais a ofuscar de modo insuportável os latino-americanos que, no fundo, sonham ser os Estados Unidos e não conseguem.

A vinda do presidente Bush ao Brasil, que muitos dizem com razão ser tardia para barrar a influência exercida por Hugo Chávez, suscita algumas reflexões sobre o agudo sentimento antiamericano existente na América Latina que, se sempre existiu, agora está exacerbado. O que motiva isso?

Por volta de 1700, as colônias que compunham os impérios espanhol e português pareciam sinalizar para um futuro rico e pleno de êxito se comparadas com as da América do Norte. Entretanto, fatores culturais ligados ao tipo de colonização e gerados ao longo do processo histórico conferiram destinos diferentes às Américas do Norte e do Sul.

Os Estados Unidos, de país agrícola produtor de matérias-primas trocadas por produtos industrializados, se converteram em potência industrial e na nação mais poderosa do mundo. Ao poderio industrial, financeiro e bélico os norte-americanos adicionaram o primado científico e, a partir de 1923, começaram a conquistar prêmios Nobel de medicina, de física, de química. Os norte-americanos foram os primeiros a fazer a bomba atômica, o reator nuclear, a mandar o homem à lua. Práticos, objetivos, criativos, determinados, eles construíram uma novus ordo seculorum” a partir do espírito liberal que privilegia a democracia e o respeito às leis.

Em sua obra, “A Democracia na América” (1835-1840), observou Aléxis de Tocqueville sobre os Estados Unidos: “Os homens ali se mostram mais iguais pela riqueza e pela inteligência ou, por outras palavras, mais igualmente fortes do que em qualquer outro país do mundo e do que em qualquer outro século relembrado pela história”.

É brilho demais a ofuscar de modo insuportável os latino-americanos que, no fundo, sonham ser os Estados Unidos e não conseguem.

Não precisaríamos ter tido uma história de fracassos, mas a questão foi que tivemos uma “embriogenia defeituosa” e tanto nas colônias espanholas quanto na brasileira surgiram “sociedades invertebradas” sem, como diria Ortega y Gasset, “a potência verdadeiramente substancial que impulsiona e nutre um processo nacional: um projeto sugestivo de vida em comum”. Não tivemos a “comunidade de propósitos” das colônias inglesas, aquele elo que faz com que grupos integrantes “convivam não por estar juntos, mas sim por fazer algo juntos”.

O que prevaleceu na América Latina foram as sociedades desiguais, o isolamento entre as camadas sociais, a falta de “minorias seletas” que comandassem o processo emancipatório, a inexistência do espírito associativo substituído pela vivência no pequeno mundo familiar ou clânico, os governos perdulários, os caudilhos incompetentes. A soma de tais fatores gerou o atraso econômico e, sobretudo, a mentalidade do atraso.

No nosso subdesenvolvimento político e econômico, onde a corrupção é endêmica, padecemos como se vivêssemos exilados em terra própria. Sentimentos contraditórios de altivez e inferioridade nos acometem e na ânsia de nos libertarmos da síndrome do fracasso, cujas raízes se prendem ao passado, preferimos descarregar nossa frustração em possíveis culpados, aqueles que seriam responsáveis pelos problemas que nós próprios criamos. Culpamos de Colombo a Bush por nossas fraquezas e mazelas. Só nos esquecemos de perguntar o que fizemos a nós mesmos.

Jean-François Revel, na introdução à obra de Carlos Rangel, “Do Bom Selvagem ao Bom Revolucionário”, afirma que “a história da América Latina prolonga a contradição que lhe deu origem. Oscila entre as falsas revoluções e as ditaduras anárquicas, a corrupção e a miséria, a ineficácia e o nacionalismo exacerbado”. Conclui dizendo que “o êxito insolente dos Estados Unidos” tornou-se um fator adicional de amargura para nós.

Para nos contrapormos aos nossos males devemos nos tornar socialistas. Seríamos revolucionários de esquerda. Mas como disse Roberto Campos, “como pessoa física, somos comunistas, como pessoa jurídica, somos capitalistas”. Não suportamos o liberalismo que nunca tivemos. Não importa se o socialismo em toda parte em que foi implantado acabou com a liberdade, anulou o indivíduo, subjugou através do Estado tirânico. Se antigamente se gritava fora ianque, hoje é a mesma coisa. Ficamos paralisados no tempo como aquelas músicas mexicanas tipo “Cucurucucu Paloooooomaaaaaaaaaaaaa”. Somos incapazes de “virar o disco”.

Na visita de Bush vejo manifestações de nossas garbosas esquerdas agitando bandeiras vermelhas pelo Brasil afora. Não aparecem passeatas ou manifestações contra a corrupção, a violência, os impostos escorchantes, a má qualidade da saúde e da educação, o pífio crescimento econômico.

A realidade, porém, é que não podemos viver sem capitalismo e até a China restituiu ao povo a propriedade privada. Nós, filhos dependentes do pai-Estado, estamos felizes transferindo nosso capital para os políticos profissionais ou para países amigos como, por exemplo, a Bolívia. Yes, nós amamos Chávez e odiamos Bush.

Quarta, 07 Março 2007 21:00

Totalitarismo Tupiniquim

Neste segundo mandato o Congresso sucumbiu de vez. Uns poucos parlamentares de brio não conseguem fazer frente à ofensiva do Executivo desmesuradamente fortalecido.

A ideologia que respaldou o totalitarismo nazista ou nacional-socialismo floresceu nas condições político-econômicas da Alemanha, na década de 20.

Na revolução de 1918, o Partido Social-Democrata foi o grande responsável pela implantação da República na Alemanha e seus primeiros governos representaram um compromisso com partidos de centro, pois havia se afastado das idéias marxistas de ruptura com o sistema político existente, passando a defender ações reformistas de cunho social.

Na crise de 1929 foi a vez do Partido Nazista ter notável crescimento. Além de enorme penetração popular foi encarado pela classe alta como representante de seus interesses econômicos. Aos poucos todos os partidos foram se submetendo à liderança de Hitler.

Em 1933, o Partido Nazista chegou ao poder e se transformou em partido único com a eliminação paulatina, através de leis, dos outros partidos. Ao mesmo tempo, militantes mais à esquerda foram afastados ou mortos. Enquanto isso, Hitler ia se impondo de maneira incontestável, seduzindo a nação pela força de seu carisma aliado à intensa propaganda produzida pelos meios de comunicação de massas e dominando através de eficiente aparelho repressivo. Ele já não era mais o primeiro-ministro, mas o ditador que, em empolgantes discursos acentuava a esperança e prometia ao povo alemão um futuro brilhante numa linguagem que podia ser compreendida até pelas pessoas mais simples.

Possíveis insatisfações e ódios eram canalizados para os judeus, o que desviava a atenção de problemas concretos. Desse modo o Holocausto foi aceito como natural, como purificação da raça superior ariana, com a vantagem de que a eliminação dos judeus abria espaços para a classe média alemã nas atividades do comércio e da indústria.

Muito útil também a utilização de símbolos e conceitos marxistas, devidamente adaptados à ideologia nazista. Assim, o proletariado tornou-se proletariado racial e a luta de classes deslocou-se para a guerra proletária contra os Estados capitalistas. Não se falava mais na utopia da sociedade sem classes, mas numa futura comunidade do povo alemão que dominaria o mundo. Todas essas idéias permeavam a totalidade da vida dos alemães e norteavam seu comportamento.

Aos poucos o Estado totalitário foi substituindo o “Estado burguês”. O processo incluiu certas providências como a extinção do Poder Legislativo através do cerceamento de suas prerrogativas. No Poder Judiciário julgava-se de acordo não com a lei, mas com a vontade de Hitler. Conseqüentemente se deu o desmesurado fortalecimento do Executivo que assumiu o poder de legislar através do ditador e dos seus auxiliares diretos. Simultaneamente foi implementado o controle completo da burocracia estatal ou aparelhamento do Estado.

Claro que isso não se repetirá jamais de forma idêntica. Foi tudo levado a cabo em certas circunstâncias de um dado país, numa determinada época e sob o influxo de uma sui-generi personalidade carismática. Mas as sementes que floresceram no nacional-socialismo não seriam passíveis de novas floradas trágicas com outros nomes, em outras épocas, em outras sociedades? Será que o nacional-socialismo (nazismo) morreu ou está de volta na América Latina através de uma versão adaptada, adulterada, inferiorizada, longe anos-luz da envergadura carismática e maligna de um Hitler, mas igualmente nociva?

No Brasil o PSDB se rotula de social-democráta e, enquanto FHC governou aproximando-se dos partidos do centro o PT se fortaleceu, obteve penetração popular e chegou à presidência da República. Note-se que o PT sempre se apresentou como partido superior, o único ético, e seus membros até hoje parecem se sentir acima dos mortais e das leis, e fadados a conduzir o povo para um nebuloso "outro mundo possível".

No poder, finalmente, depois de quatro campanhas presidenciais, Luiz Inácio utilizou fartíssima propaganda respaldada pelos meios de comunicação de massas. Sua linguagem atinge o homem comum e as metáforas futebolísticas não são mera coincidência. Ele contempla tanto os pobres com as bolsa esmola quanto os ricos com lucros fabulosos. Promete ao povo um futuro brilhante, um espetáculo do crescimento. Já os ódios e ressentimentos são canalizados para os norte-americanos. Eles são culpados pelos nossos erros, mazelas, fracassos. No primeiro mandato, Luiz Inácio, através de seu auxiliar direto, José Dirceu, dominou o Congresso e o STF que passaram a fazer sua vontade, pelo menos através da conveniência e da obediência de muitos de seus membros. Quanto a burocracia estatal foi aparelhada.

Neste segundo mandato o Congresso sucumbiu de vez. Uns poucos parlamentares de brio não conseguem fazer frente à ofensiva do Executivo desmesuradamente fortalecido. Foi dito que o presidente da República se reunirá uma vez por semana com os presidentes da Câmara e do Senado, certamente para passar suas ordens. Se já não se podia falar em partidos políticos, esses amontoados de ambições que mais se parecem com clubes de interesses, agora se pode dizer que tais agremiações esvanesceram. Não existem oposições. As instituições navegam nas águas do poder que emana da corte centrada no Palácio do Planalto. Especula-se despudoradamente sobre um terceiro mandato para Luiz Inácio e a mudança do sistema presidencialista para o parlamentarista poderia servir a esse propósito, se não se usar a democracia de massas dos plebiscitos manipulados. Enquanto isso, sob as bençãos dos Poderes constituídos e demais instituições, o MST e a CUT se unem em selvagem violência no meio rural, não apresentada pelos meios de comunicação. A violência urbana é defendida nas hierarquias governamentais mais altas. Todo poder aos bandidos, parecem dizer as autoridades. Onde será que elas querem chegar? Promete-se mais crescimento econômico e o IBGE muda a metodologia de aferição de dados para que possamos ser bem mais do que o Haiti.

É claro que a figura de Hugo Chávez com seus ímpetos expansionistas, se presta muito mais à lembrança de um Hitler tupiniquim. Mas no Brasil não estamos muito longe de certas essências do poder que, em alguns aspectos, relembram pelo menos certos traços de uma das mais abonináveis formas de domínio que já existiu: o totalitarismo nazista. Devidamente afrouxado e ao nosso estilo dúbio, é claro, mas totalitarismo.

Sexta, 02 Março 2007 21:00

O Brasil Submerso

Entretanto, existe um Brasil submerso onde a insatisfação ou mesmo a repulsa ao atual estado de coisas é latente, difusa, mas real.

Passado o carnaval volta com força o futebol. Noticiários televisivos são excessivamente nutridos com amenidades, sinal de aquiescência com poderes mais altos o que não deixa de ser um tipo de censura. Além do grande assunto do momento referente ao que acontece na casa dos brothers do BBB7, matérias relativas ao Pan e ao Papa entretêm os telespectadores. O PAC entra como elemento de propaganda governamental e não desperta grande interesse, mas apenas reedita a vaga noção de que, sobretudo a classe média, com sempre pagará o pacto.

Ainda no departamento da política volta a novela da escolha dos ministros do segundo mandato, o que pode levar alguém a perguntar: “ Para que serve o ministério da Pesca?”. Ou duvidar: “se a maioria dos numerosos ministros nada fez em quatro anos, por que faria agora? Como me disse um amigo: “a maioria dos ministros que passaram ou estão nesse governo, com certeza não teriam tão alto cargo em nenhum outro governo”. Portanto, o troca-troca nos ministérios, o prazer do presidente em prolongar a aflição e aumentar a ganância de seus aliados, os engalfinhamentos dos clubes de interesses que se denominam de partidos políticos, passam ao largo da atenção e do entendimento coletivo. Os bastidores da política são inacessíveis ao vulgo.

No mais, na superfície do Brasil tudo parece calmo, tudo está bem a se crer em notícias de TV. A volta das férias restabelece a mesmice da rotina, impõe o cotidiano. Sem medo de ser feliz o homem comum está pronto para responder aos questionários das pesquisas de opinião e aprovar de modo eloqüente o presidente da República e seu governo. E assim, aos poucos, a classe dirigente vai aplainando o terreno para a democracia de massas, tão cara a Hugo Chávez, na qual não faltam plebiscitos ou consultas manipuladas através das quais o povo pode opinar sobre tudo apesar de não saber do que se trata. Ardorosos como sempre, petistas já falam em plebiscito para pedir o terceiro mandado de Luiz Inácio. Mais bolsas família para os pobres, mais lucros para os ricos e tudo se resolve. A classe média já é por natureza domesticada.

Além disso, desde o ano passado paira no ar a idéia de uma Constituinte, ventilada pelo próprio presidente da República. Copia-se desse modo a estratégia de Hugo Chávez que está inspirando seus seguidores Evo Morales e Rafael Correa. Por que no Brasil seria diferente, já que aqui também é nítida a ascendência de Chávez? E uma Constituinte pode operar milagres como um terceiro mandato para o presidente ou mesmo um reforço de seus poderes à feição do que ocorre em outros países latino-americanos.

Chegamos a um ponto em que tudo é permitido ao governo que aí está, pois foi fortalecido pela reeleição. Além do mais, não temos oposição partidária. As instituições, sem exceções, estão enfraquecidas, desmoralizadas, submissas aos ditames do Executivo. O mesmo se pode dizer das entidades de classe. E quantas vezes não vimos julgamentos políticos nas mais altas instâncias do Poder Judiciário, onde a lei deveria ser aplicada e não a vontade do presidente da República?

Simultaneamente a tudo isso, crescem grupos que passam a deter o monopólio da violência, atributo do Estado, decretando assim sua falência. Quem ainda acredita que o MST é um movimento social pacífico em busca da reforma agrária? E quem duvida que facções criminosas, especialmente no Rio de Janeiro, criaram um Estado dentro do Estado, com mais força e organização que esse?

Diante da situação de anomia que vai se adensando sob a complacência ou mesmo o estímulo governamental, impressiona a ausência de reação popular. Inconformados com desmandos de seus governos existem na Venezuela, na Bolívia, enfim, em todos os países da América Latina, opositores que, no caso de Cuba, são heróicos. Aqui a pasmaceira se confunde com a ignorância de uns e a esperteza de outros. Caras-pintadas são coisas do passado. Movimentos cívicos inexistem. E na hora do voto consagra-se mensaleiros, sanguessugas e outros tipos de larápios.

Entretanto, existe um Brasil submerso onde a insatisfação ou mesmo a repulsa ao atual estado de coisas é latente, difusa, mas real. A questão é que os habitantes do Brasil submerso se encontram pulverizados, individualizados, isolados uns dos outros. Não conseguem se conectar em um movimento coerente, organizado, disciplinado, pois não existem partidos políticos que canalizem os protestos, nem instituições que dêem cobertura legal à indignação e, sobretudo, não temos lideranças que aglutinem as aspirações.

Neste cenário, onde avança o autoritarismo camuflado de democracia, a maioria nada percebe, com nada se importa. Mas se os ventos ditatoriais da obsoleta esquerda latino-americana, que sopram sobre o Brasil, se transformarem em tornados, não será mais possível conter o desastre.

Domingo, 18 Fevereiro 2007 21:00

Acorda, Brasil!

Acorda Brasil. Acorda brasileiro. Você pode ser o próximo, pois não só no Rio, mas em toda parte o governo fracassou miseravelmente em promover a segurança.

Os sintomas vêm de longe. Foram se avolumando sem que providências efetivas e enérgicas fossem tomadas pelas autoridades competentes (incompetentes?), às quais cabe oferecer segurança aos cidadãos, pois esse é o primeiro dever do Estado como ensinou Thomas Hobbes.

Se a violência hoje se espalha por todo país, especialmente no Rio de Janeiro, a complacência para com bicheiros e traficantes em troca de votos transformou aquele Estado num estado de selvageria ou de natureza. Vale a lei do cão. Domina a barbárie que fez respingar o sangue de João Hélio no rosto de todos os brasileiros. Todavia, este é mais um crime na seqüência de crimes hediondos a ser esquecido, pois vem aí o carnaval.

Alegria, alegria, minha gente, abram alas para o banditismo. Não existe pecado do lado de baixo do Equador. Aqui somos todos democraticamente iguais na esbórnia e na malandragem. Vamos aplaudir a comissão de frente composta pelos corruptos por nós eleitos. Vamos sambar a valer ao som das balas perdidas. No destaque dos casos alegóricos virão os monstros que arrastam crianças pelas ruas até a morte. Olha o bloco dos assassinos impiedosos para os quais não basta roubar, tem que matar. Que belas fantasias enfeitam os estupradores. Na outra ala misturam adereços os degoladores, os traficantes, os golpistas. Que espetáculo maravilhoso esse do país do samba. Como somos importantes. O mundo pára e vê o Brasil nessa explosão de alegria.

Lei? Para que lei? Em uma de suas campanhas para presidente em que amargou derrota, Luiz Inácio declarou que não dava a mínima para a lei, que o importante era a justiça. O que será que ele entende por justiça quando se declara contra a redução da maioridade penal, alegando que essa medida não deve ser discutida em meio à comoção causada pelo bárbaro assassinato do menino João Hélio? Fazendo coro com o presidente, como era de se esperar, plácida e fria, a ministra e presidente do Supremo Tribunal Federal, Ellen Gracie, também se apóia na questão emocional para rejeitar a passagem da responsabilidade criminal para dezesseis anos. Eles são autoridades guardadas, protegidas e nenhum de seus netos corre o risco de ser trucidado. Eles podem ser calmos e racionais.

De todo modo, o martírio do menino de seis anos fez fervilhar discussões. Ergue-se o PT a favor dos bandidões menores de dezoito anos que podem votar e matar. Pontificam juristas e rábulas, e um doutor chegou a dizer que não adiantam prisões. Pois, então, que se solte todos os facínoras da República da impunidade. Um bando a mais, outro a menos, não fará a diferença, pois as legiões malditas já estão no comando dos morros, das ruas, das esquinas, espreitando para atacar sem distinção de cor, idade ou sexo. É a democracia do crime.

Aumenta a criminalidade sob o olhar amoroso das autoridades. Elas estão muito ocupadas. Nas sedes dos Poderes máximos correm soltas as propinas, os cambalachos, os arranjos, os jeitinhos, as negociatas. Brasília é Sodoma e Gomorra sem nenhum justo. E vem aí, com força total, para alegria dos mensaleiros, José Dirceu. Palocci já está lá com João Paulo, Genoino, Mentor e tantos mais. Confraternizam com Collor, com companheiros sanguessugas e muitos outros. Bem que Waldomiro Diniz podia ter se candidatado. Seria um deputado campeão de votos. E o Delúbio dos recursos não contabilizados, por que não concorreu? E não sei onde anda Marcos Valério que não saiu para senador da República. Ganharia na certa. No Congresso estão todos ótimos e o Executivo tudo dominou. Até o senador Jefferson Perez capitulou em apenas uma visita ao Planalto. Imaginemos os outros.

Para que presídios de segurança máxima? Que se afrouxe mais o cumprimento das penas, demorem mais as sentenças, os julgamentos e os olhos se fechem ao descalabro, ao caos, à violência.

Acorda Brasil. Acorda brasileiro. Você pode ser o próximo, pois não só no Rio, mas em toda parte o governo fracassou miseravelmente em promover a segurança. Não adianta pedir paz. A paz se consegue com o cumprimento da lei, que é a única forma de se fazer justiça; com mais presídios e, dentro deles, disciplina, trabalho e instrução para os presidiários; com policiamento preventivo de policiais mais bem pagos, mais armados, mais treinado; com a redução da maioridade para dezesseis anos, com menos indultos. É para pedir essas coisas que se deve ir às ruas. Caso contrário, os monstros continuarão a matar impunemente. Acorda Brasil. Não basta eleger. É preciso cobrar do poder que nos controla. De outro modo seremos os eternos eleitores dos votos perdidos.

Segunda, 12 Fevereiro 2007 21:00

O Brasil Visto Pela TV

A Televisão é o altar diante do qual as massas se ajoelham em atitude de adoração aos ídolos populares, fabricados muitas vezes com a argila da mediocridade, pintados com as tintas da vulgaridade.

A Televisão é o altar diante do qual as massas se ajoelham em atitude de adoração aos ídolos populares, fabricados muitas vezes com a argila da mediocridade, pintados com as tintas da vulgaridade.

Jornais são relativamente pouco lidos desempenhando, portanto, função moderada na formação da opinião pública. Já a TV exerce influência vital na vida das pessoas. É informação rápida e volumosa que não solicita muito do raciocínio, entretenimento e prazer, companhia e consolo. Moda, linguajar, costumes, crenças, comportamentos, atitudes e valores são hoje menos transmitidos pelos meios de controle social como a família, a escola, a Igreja, e mais pelos canais de televisão com suas novelas, filmes, programas variados, entre os quais alguns de bom nível.

Na TV, contudo, não predomina o bom gosto ou a sofisticação. Mesmo porque, esse meio de comunicação de massas é produto e reflexo da sociedade e dos tempos em que se vive. Fantasiando a realidade a televisão reflete e devolve em forma de sonho a imagem recriada do que se passa entre os indivíduos. É como se fosse um gigantesco espelho mágico. Ao mesmo tempo, o espelho projeta o que as pessoas gostariam de ser e ter na vida real, e não podem.

A TV é por excelência o palanque eletrônico onde atores políticos desfilam com o intuito de alcançar e manter o poder. E aqui não se deve omitir que o rádio se presta igualmente às doutrinações políticas e religiosas, portanto, ao controle social, mas não com tanto impacto.

Quanto aos telejornais cito o poeta e ensaísta alemão, Hans Magnus Enzensberger: “A idéia de que a TV, um dia, poderia democratizar o conhecimento, foi apenas uma ilusão. O telejornal é o melhor exemplo dos seus limites de ação. Incoerentes, esses jornais televisivos não têm a menor intenção de informar, mas de vender qualquer coisa”.

De uns tempos para cá nossos telejornais estão vendendo boas notícias como se continuassem a obedecer às ordens do então ministro Luiz Gushiken. E não poderiam, é claro, faltar escândalos e tragédias. Desse modo, o acontecimento mais momentoso do início do ano foi a cratera que se abriu em São Paulo, originada das obras do metrô. Dia e noite os telejornais repetiram algo sobre o imenso buraco e não se sossegou enquanto não apareceram as vítimas. Mas, como tudo guarda intenções políticas, depois da eleição para presidente da Câmara dos deputados quando foi vitorioso o petista Arlindo Chinaglia, a cratera sumiu, pelo menos dos vídeos. E que, conforme a mídia, o governador de São Paulo, José Serra (PSDB) teria apoiado Chinaglia.

Nos telejornais podemos saber o que se passa no Iraque que está no ar vinte quatro horas. Muitas outras notícias internacionais, mas nada de especial sobre o grande companheiro Hugo Chávez, sua lei habilitante que lhe confere poderes ditatoriais, seu crescente armamentismo com intuitos atômicos, o desabastecimento de carne na Venezuela. Nenhuma palavra sobre os mineiros que marcharam com bananas de dinamite para protestar contra Evo Morales, outro companheiro querido. Silêncio sobre as intenções do recém-eleito presidente do Equador, Rafael Correa, que pretende expropriar investimentos estrangeiros, o que poderá prejudicar o Brasil naquele país a exemplo do que fez Evo Morales sem que aqui se levantasse uma única voz nacionalista.

No Brasil um cenário róseo é visto na TV. Bastante futebol (apesar da inesperada derrota para Portugal que passou batida). Intoxicação de PAN. Um tanto de PAC (a nova panacéia governamental). Daqui a pouco volta a novela da formação do ministério possibilitando ao presidente da República, que anda recolhido, mais exibições televisivas que no primeiro mandato tiveram a característica de overdose visual.

Na TV a indústria brasileira cresceu (na verdade diminuiu o ritmo). Muito estardalhaço sobre a violência urbana, com o cuidado de não respingar nas autoridades enquanto, independente daquela Guarda Nacional que até agora não mostrou a que veio, a ocorrência de um dos crimes mais bárbaros já ocorridos no Rio de Janeiro: numa cena de horror um menino de seis anos morre ao ser arrastado preso no carro, pelos bandidos que roubaram o veículo de sua mãe. Na TV o presidente Luiz Inácio dizendo que a Saúde no Brasil atingiu a perfeição, na realidade a tragédia da jovem de dezessete anos, que em trabalho de parto percorreu quatro hospitais sem conseguir atendimento vindo a falecer com seu bebê. Na TV a educação brasileira como a melhor do mundo, nos jornais a manchete: “educação piora em 10 anos”. Nos aeroportos caos e revolta sem que o governo tome a menor providência. Provavelmente o presidente Luiz Inácio não viu e não sabe o que está ocorrendo com os passageiros, a maioria, certamente, seus eleitores.

Mas enquanto o povo acreditar na TV está tudo bem. Especialmente para o governo petista. Que precioso instrumento de poder é a televisão. Luiz Inácio que o diga.

Quinta, 08 Fevereiro 2007 21:00

O Complexo de Barrabás

O Congresso, com as honrosas exceções que sempre existem, vai ficando cada vez mais parecido com um refúgio de larápios da coisa pública. Um circo em que desfilam personalidades folclóricas.

Que triste e deprimente espetáculo do crescimento da desfaçatez os brasileiros puderam assistir quando da eleição dos presidentes da Câmara e do Senado, no dia 1 de fevereiro. Marquemos essa data histórica. Nela, um festival de traições, nunca dantes havido nesse país, fez definitivamente do Congresso Nacional um balcão de negócios. E subjacente às negociatas houve a entrega do poder Legislativo ao partido dominante, o PT, significando a outorga de quase plenos poderes ao presidente da República.

Vai-se, assim, aperfeiçoando no Brasil os métodos do ditador Hugo Chávez, companheirão da Venezuela que aqui manda e desmanda com a certeza de ter apoio para isso.

Em vão os apelos de Gustavo Fruet por moralização e ética. Deve soar como palavrão aos ouvidos de mensaleiros e demais companheiros de falcatruas tais palavras, se bem que a maioria deles nem sequer conhece o significado destes vocábulos. Afinal, o que importa a moralização da Instituição que é um dos pilares da democracia, se o que interessa são cargos, sinecuras e a doce vida do poder doam a quem doer, custe o que custar. Nós elegemos deputados e senadores para que eles se locupletem. Fazemos retornar ao Congresso mensaleiros e outros tipos de pilantras. Depois batemos palmas para seus desmandos. Ou melhor, nem lembramos de quem elegemos.

O Congresso, com as honrosas exceções que sempre existem, vai ficando cada vez mais parecido com um refúgio de larápios da coisa pública. Um circo em que desfilam personalidades folclóricas. Um lugar de recreio onde pouco importa as funções constitucionais, entre as quais controlar o Poder Executivo.

O fato é que a humanidade sempre padeceu do complexo de Barrabás. E isto se acentua em determinadas épocas. Refiro-me simbolicamente a passagem bíblica, em que Pilatos, tendo apresentado ao povo Jesus e o homicida Barrabás, teve como resposta o clamor da multidão que, referindo-se a Jesus gritou instada pelos pontífices: “crucifica-o”. Aos cristãos e não-cristãos esse episódio deve servir como entendimento sobre nossa espécie, nossa selva humana tangida sempre pelos “pontífices” do poder que instigam as massas a votarem em Barrabás.

O PSDB e o PFL vêm padecendo da síndrome do assassino bíblico. Geraldo Alckmin foi traído por seu partido e pelo PFL. Agora, Gustavo Fruet. Não é possível ganhar quando a turba é instigada por certos “pontífices”. Sobretudo alguns muito poderosos, como Aécio Neves e José Serra. E na eleição para presidente da Câmara, o PSDB, em grande parte, apoiou o petista Arlindo Chinaglia. Melhor seria que esses tucanos se mudassem de mala e cuia para as hostes do PT. Seria mais honesto. Mas quem se importa com honestidade?

Na Câmara, seguiu-se o espetáculo deprimente com o partido dito Liberal apoiando o dito comunista Aldo Rebelo. No senado, José Agripino Maia (PFL) sofreu a derrota para o homem que serve fielmente o governo do PT, Renan Calheiros (PDQEL – Partido de Quem está Lá).

Como sempre disse e reafirmo, não existe oposição no Brasil. Nossas instituições estão fragilizadas e cooptadas pelo poder central. Nossa democracia definhou. É de se temer pela manutenção do Estado Democrático de Direito.

E enquanto aqui se gesta o ovo autoritário do PT, disfarçado de democracia como está em moda na América Latina, o superpoderoso Hugo Chávez vai conseguindo seu intento de governar totalitariamente e de estender seu poder sobre o continente. Na Bolívia, no Equador, na Nicarágua ele fez seus fiéis seguidores. Fará outros. E no Brasil também fez. Tudo indica que fazemos parte de um plano mais amplo da esquerda do século 21, que ostenta um capitalismo de mercado, mas mantém a linha “politicamente correta” do comunismo que, fracassado em todo mundo, teima em ressurgir por essas plagas sob a roupagem de falso progresso, mas com todo seu séqüito de horrores como a perda de das liberdades, o empobrecimento generalizado em nome da igualdade, o avanço da mentalidade do atraso que para nós, latino-americanos, vem sob o comando do caudilho venal, corrupto e incompetente.

O Brasil comunga com os ideais chavistas. Isto fica claro nas palavras do presidente da República que defende ardorosamente o ditador venezuelano, que se humilha diante dele e de Evo Morales, que tem por ditadores africanos admiração que apenas não se compara com a que nutre por Fidel Castro.

Incitado pelos “pontífices” o povo vota nos Barrabás da América Latina. Tristes trópicos esses. Mas pelo menos nos países vizinhos existem oposições. Aqui não. Com diria Boris Casoy, demitido da TV Record por dizer certas verdades: “tá tudo dominado”. Agora é aguardar pela canonização de José Dirceu e demais companheiros aloprados. Afinal, ao PT tudo é permitido. Os outros que se cuidem. Quem sabe vem aí uma Constituinte? É só o presidente pedir. O Congresso faz.

Quarta, 31 Janeiro 2007 21:00

Muito Barulho Para Nada

Seja lá como for, a enorme platéia do circo Brasil demonstra complacência infinita para com as bravatas e despautérios do ilustre mandatário.

Não sei se o presidente Luiz Inácio acredita realmente no que diz em seus momentos de suprema empolgação consigo mesmo ou se apenas segue o treinamento de seus marqueteiros. O fato é que Sua Excelência alterna encenações onde se compara a Jesus Cristo, Tiradentes, Getúlio Vargas, JK e, às vezes, pretende ser maior que todos eles. Em certos momentos regride à Terra e apresenta ao respeitável público a tocante imagem do pobre operário, do retirante que continua imerso na mais desgrenhada miséria, e que chegou à presidência da República com a missão de salvar seus iguais. Os ricos que o digam.

Seja lá como for, a enorme platéia do circo Brasil demonstra complacência infinita para com as bravatas e despautérios do ilustre mandatário. E isso basta para que o PT, através de seu correligionário mais emblemático, se mantenha no poder. Até quando não se sabe.

Os escândalos de corrupção acontecidos no primeiro mandato, e que derrubaram os homens mais próximos e importantes do presidente; as “piadas de salão” de Delúbio Soares e demais companheiros; os aloprados, as promessas não cumpridas; os programas sociais fracassados; os impostos exorbitantes; o crescimento econômico pífio, nada vezes nada tolda a confiança no salvador da pátria, o qual foi reconduzido ao cargo com expressiva votação.

Embasbacada, a maior parte da população se identifica com aquele linguajar retumbante, com as metáforas futebolísticas, com as piadas e gracejos do senhor presidente. E o deslumbramento (talvez o mesmo que envolve os participantes do BBB) não pertence apenas aos mais pobres, mas a parcela significativa da classe média louca por quimeras esquerdistas, e aos ricos, felizes com os lucros auferidos através do capitalismo marxista do governo do PT.

Entretanto, se o presidente faz sucesso internamente, o mesmo não acontece no plano externo. Foi o que se viu 32ª Reunião de Cúpula do Mercosul, havida nos dias 18 e 19 deste, no Rio de Janeiro.

Na Reunião, Hugo Chávez, que com sua Lei Habilitante assumiu de vez a posição de ditador vitalício da Venezuela, mais uma vez foi a estrela do Encontro. Insultou como sempre os Estados Unidos, chamou a oposição venezuelana de lixo, discursou longamente apesar do presidente brasileiro ter pedido que todos falassem como ele, durante apenas treze minutos. Não contente, e do alto do seu nebuloso socialismo caudilhista do século 21, Chávez se arvorou em descontaminador da doença neoliberal no Mercosul, criticou o governo Brasil na pessoa de Marco Aurélio Garcia, debochou do companheiro Lula. Depois, se uniu ao seu seguidor boliviano, Evo Morales, para agredir o presidente colombiano, Álvaro Uribe. Evo Morales, na esteira do seu comandante da boina vermelha, também atacou o Brasil.

Naquela inútil Reunião nada foi resolvido. Por exemplo, não se discutiu a “guerra da celulose” entre Uruguai e Argentina ou a recente queixa da Argentina contra o Brasil na Organização Mundial de Comércio. Uruguai e Paraguai saíram insatisfeitos e o bate-boca foi geral. Muito barulho para nada.

Mas barulheira mesmo aconteceu por conta do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). O presidente havia afirmado que jamais seu governo faria um plano, mas está apresentando o Plano B com pompas e honras. Como Luiz Inácio passou quatro anos prometendo o “espetáculo do crescimento”, o que não aconteceu, é de se esperar que mais esse amontoado de intenções não passe de muito barulho para nada. No mais é torcer para que a economia não desande de vez sob a batuta da guerilheira Dilma e do revolucionário Mantega. É preciso lembrar, que o PAC está sendo criticado por governadores, empresários e centrais sindicais.

Depois das turbulências sul-americanas, Sua Excelência partiu em busca de outro mundo possível, não no Fórum Social, em Nairóbi, África, mas em Davos, Suíça. Foi vender o PAC aos detestáveis capitalistas, manipuladores do vil dinheiro, esse excremento do diabo. Todavia, como na Reunião do Mercosul, o presidente brasileiro não fez sucesso. Além disso, impressionou mal seus poucos ouvintes quando defendeu Hugo Chávez dizendo que este “foi eleito três vezes consecutivas de forma mais democrática possível”. Quanto a Evo Morales, Luiz Inácio repetiu que “o gás é dele, é a única riqueza dele, tem que nacionalizar”. Vem aumento do gás por aí.

Com outra mentalidade, o presidente do México, Felipe Calderón, disse ver na América Latina retrocesso na política com a volta de “ditaduras pessoais vitalícias”, e na economia com “expropriações e nacionalizações, que só empobrecem ainda mais os pobres”. Pelo menos ainda existem alguns líderes lúcidos nestes tristes trópicos. Coisa que anda a nos faltar. Aqui é muito barulho para nada.

Terça, 16 Janeiro 2007 21:00

Para Que Servem Homens-Carneiros

Afinal, para que escrever quando o eleitorado, em sua impressionante maioria, consagrou nas urnas a corrupção, a incompetência, a enganação, através da escolha de vários de seus representantes nos Poderes Executivo e Legislativo?

Fiz uma pausa nos artigos. Motivos particulares me levaram a deixar de lado esse meu “vício”, o de escrever. Porém, mais do que a sobrecarga de fatos do cotidiano fiquei desestimulada a dar continuidade ao difícil e árduo exercício de alinhar por escrito, idéias, opiniões e convicções. A sensação de inutilidade tomou conta de mim e me lembrei da letra de uma música: “inúteis, nós somos inúteis”.

Afinal, para que escrever quando o eleitorado, em sua impressionante maioria, consagrou nas urnas a corrupção, a incompetência, a enganação, através da escolha de vários de seus representantes nos Poderes Executivo e Legislativo? Seria o mesmo que enviar informações a um rebanho de homens-carneiros. Essas criaturas não raciocinam e muito menos lêem. Não dá para escrever aos carneiros, ainda que assumam a forma humana. Feliz em sua ignorância, no máximo o rebanho assiste ao Big Brother Brasil enquanto se identifica com os atores da encenação na sordidez das tramas, no mau-caratismo das ações, no exibicionismo que faz do sexo ato puramente animal.

Homens-carneiros reclamam, mas não agem. Ocasionalmente resmungam. Espertíssimos em certas atitudes, como passar os outros para trás, são facilmente enganados quando se trata do pai-Estado personificado em qualquer populista. É curioso, por exemplo, que nos aeroportos onde longas horas de espera ou vôos cancelados fazem de otários os usuários do transporte aéreo, desculpas esfarrapadas dadas por autoridades sejam aceitas com a naturalidade dos que gostam de se deixar enganar. A culpa é das companhias aéreas ou de algum ato imprevisível de São Pedro. O pai-Estado não erra nunca. Não existem controladores de vôos nem suas greves. Viva o governo. Nacionalize-se a pouca vergonha. Ela é nossa.

No Congresso Nacional prossegue o espetáculo deprimente das adesões partidárias ao poder central, sem que o rebanho perceba ou se importe. Para culminar, a bancada do PSDB aderiu ao petista e candidato a presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia, o redentor dos “mensaleiros” e de seu chefe, autor da promessa de dobrar o salário dos companheiros deputados. Resta saber se o abjeto gesto de submissão ao Executivo poderá mudar com a saída de Gustavo Fruet, como terceira via (Fruet deveria ter sido o candidato a governador no Paraná, mas o PSDB mais uma vez perdeu a oportunidade de se impor como oposição real) ou se os tucanos vão abandoná-lo e traí-lo como fizeram com Geraldo Alckmin.

Sempre disse e repito que a única oposição, estridente e implacável, foi a do PT que agora, na situação faz o que bem entende sob aplausos gerais. Sem oposição para valer estamos diante do partido único, disfarçado de partido dominante. Algo tão ao gosto de Hugo Chávez e de seus seguidores do socialismo primata da América Latina. Um socialismo que condenará o continente á morte por asfixia de ignorância.

Neste cenário está em marcha o retrocesso do País com seu crescimento pífio, sua violência infame e impune, sua farsa democrática. E a predição de uma Constituinte por nosso mandatário supremo, lembra os passos do “hermano” golpista da Venezuela rumo ao poder totalitário.

O que falta para nos venezuelarmos? A Imposição completa da censura aos meios de comunicação. A punição mais rigorosa a quem se opuser ao desgoverno petista. E, porque não, um terceiro, quarto, quinto, sexto mandato para o senhor Luiz Inácio que, sempre em descanso, se não está de férias, viaja, se não viaja, descansa, sabendo que tudo ruma para seu contentamento.

O Brasil está parado, descansando nas praias. O governo está parado aguardando o desfecho das barganhas congressuais. Se os ministros nunca fizeram grande coisa, agora estão completamente parados. E na paradeira geral seguem ser medo de ser felizes os revolucionários de outrora que não precisaram dar um só tiro para chegar ao poder, os socialistas de fachada que vivem como capitalistas, os democratas de mentirinha que amam as ditaduras de esquerda, os trambiqueiros de todos os partidos que tramam suas vantagens enquanto riem secretamente de seus eleitores, os homens-carneiros. Estes têm uma única e grande utilidade: servem para elegê-los.

Por conta de tudo isso me pergunto: vale a pena escrever? Talvez, esse ato inútil sirva como gesto de solidariedade para com a minoria dos brasileiros que possuem brio e dignidade. Talvez, sirva apenas como desabafo. Em todo caso, se todos se calarem será pior.

Domingo, 26 Novembro 2006 21:00

A "Colizão" do Presidente Luis Inácio

Enquanto partidos discutem sobre seu lugar na corte, Luiz Inácio confessa que não sabe o que fazer para, segundo sua expressão, “destravar o Brasil”.

O presidente Luiz Inácio parece estar entusiasmadíssimo com sua “colizão”, algo nunca dantes feito no país com a envergadura que ele está conseguindo. O PMDB, partido mais importante em termos numéricos, apresentou-se em peso ao balcão de negócios do governo, se bem que a natureza cambiante da política de modo geral, e do PMDB em particular, não permite certezas ou inclui lealdades.

Outros partidos como o PSB, o PC do B, o PL, o PP, naturalmente o próprio PT e mais alguns também desejam participar da “colizão” como meio de alcançar cobiçados ministérios ou altos cargos. Estão todos sedentos de poder e o presidente, sem medo de se feliz, vai adiando a distribuição dos prêmios. Como animador de auditório ele diz: “quem quer ministérios?” Mas tarda a remeter o “aviãozinho”, enquanto mãos frenéticas se levantam na esperança de alcançar a desejada recompensa.

O termo coalizão tem vários significados. No sentido político, segundo o Dicionário Aurélio, quer dizer: “acordo entre partidos para um fim comum” (seria interessante saber qual o fim comum da imensa colcha de ganâncias que o presidente Luiz Inácio se propôs a costurar). Contudo, dada a afoiteza com que os partidos disputam regalias, o sentido econômico que o Aurélio dá ao vocábulo talvez sirva melhor para explicar o tipo de coalizão que está em curso: “consórcio, convênio, ajuste, aliança ou fusão de capitais, de caráter criminoso, para impedir ou dificultar a concorrência, visando o aumento de lucros arbitrários”.

Com a “concorrência”, ou seja, o PSDB e o PFL, Sua Excelência não tem com o que se preocupar. Estes partidos durante seu primeiro mandato foram os mais leais a ele, os que o defenderam do próprio PT autofágico, treinado para disseminar a discórdia, habituado a tática de dividir para governar. Qualquer problema é só Luiz Inácio chamar as “oposições responsáveis”, aquelas que não farão “oposição negativa”, as que estão propensas ao diálogo e elas o protegerão. Qualquer resistência de membro oposicionista basta chamá-lo para uma voltinha no Aerolula. De volta das alturas do poder ele cairá de joelhos, rendido diante da majestade que lhe segreda coisas que o comum dos ouvidos jamais perceberão.

O presidente reeleito sentou-se com Michel Temer (que foi oposição durante todo o primeiro mandato e até outro dia apoiava Geraldo Alckmin), com Orestes Quércia (que já foi denominado por Luiz Inácio de “ladrão de carrinho de pipoca”) e com outras lideranças do gigantesco PMDB que, diga-se em nome da justiça, nunca usou o subterfúgio da ética para esconder seus desígnios de poder pelo poder. Da reunião nasceu a “colizão” ou adesão e todos saíram do Palácio do Planalto com sorrisos de miss para figurar nas fotos.

Michel Temer, que comandou o espetáculo da coalizão, provavelmente no intuito de se manter na presidência do PMDB, poderá ser substituído pelo prestigiado ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Nelson Jobim, se este não ganhar um ministério. É que petistas costumam pagar com a destruição moral ou profissional a quem os ajuda. Recorde-se nesse sentido que o próprio presidente da República, o mais autêntico representante do PT, andou sacrificando até seus mais chegados companheiros para salvar seu precioso cargo. Se assim é com os amigos, o que poderá ele fazer com os que não são tão próximos?

Temer também pouco poderá fazer em termos partidários, na medida em que a chamada Santíssima Trindade do PMDB, integrada por José Sarney, Renan Calheiros e Jader Barbalho, é que diz o que pode ou não podem fazer os peemedebistas.

Entretanto, apesar de tudo aparentar um cenário róseo de entregas e salamaleques, no fundo ressoa a voz do PT, o verdadeiro partido dirigente que se encaminha para ser partido dominante. Assim, advertiu o ministro das Relações Institucionais, Tarso Genro, “que só irão participar do governo de coalizão os partidos aliados que comprometerem ao menos 80% de seus votos no Congresso em favor do governo federal” (O Estado de S. Paulo, 23/11/06). Isto na prática significa a perda de autonomia do Legislativo que subserviente votará o que o Executivo mandar. Fica evidente o desequilíbrio dos Poderes e, com ele, o retrocesso democrático. Ao mesmo tempo, Sua Excelência pede aos governadores que só lhe façam oposição daqui a quatro anos.

Enquanto partidos discutem sobre seu lugar na corte, Luiz Inácio confessa que não sabe o que fazer para, segundo sua expressão, “destravar o Brasil”. Um atestado de que durante quatro anos ele não foi capaz de proporcionar o prometido espetáculo do crescimento nem o será agora. Mas como está reeleito fará o que bem entender. Se a situação piorar a “colizão” será responsabilizada. O presidente não erra, de nada sabe, nada vê e continuará a ser aplaudido por seus quase 60 milhões de eleitores.

Segunda, 20 Novembro 2006 21:00

Sob o Signo do Caos

Se o primeiro mandato do PT foi medíocre em crescimento, marcado por uma profusão de escândalos de corrupção, escudado em propaganda enganosa que deturpou dados e iludiu eleitores, o segundo já começa sob o signo do caos.

Se o primeiro mandato do PT foi medíocre em crescimento, marcado por uma profusão de escândalos de corrupção, escudado em propaganda enganosa que deturpou dados e iludiu eleitores, o segundo já começa sob o signo do caos.

A situação caótica é mostrada de forma mais evidente através do apagão aéreo. Esse transtorno que inferniza a vida de milhões de brasileiros que utilizam vôos domésticos e internacionais, teve origem na queda do Boeing da Gol, tragédia na qual 154 pessoas morreram.

Sobre o infausto acontecimento, até agora não esclarecido, a primeira versão ventilada pelo ministro da Defesa, Waldir Pires, era a de que a culpa do acidente pertencia aos pilotos norte-americanos do jato Legacy que bateu no Boeing.

Os pilotos continuam com seus passaportes presos e impossibilitados de saírem do Brasil, e esse tratamento dado a criminosos deve fazer os compatriotas nacionalistas se rejubilam. Eles acreditam piamente que os culpados foram aqueles americanos maus e terroristas, que por um ataque de ruindade resolveram aniquilar a vida de 154 brasileiros inocentes. Um julgamento que, na verdade, se repete em tudo de ruim que nos acontece, porque é sempre mais fácil atribuir culpas do que nos responsabilizarmos por nossos próprios erros e mazelas.

Acrescente-se o antiamericanismo que foi exacerbado no governo petista, fiel cultor de Fidel Castro e de seu herdeiro Hugo Chávez, e não fica difícil concluir que o julgamento antecipado do ministro da Defesa fez sucesso. Estimulados por tais coisas, os advogados das vítimas do Boeing já entraram com pedido de indenização nos Estados Unidos. Entretanto, o acidente ainda está longe de uma real elucidação, conforme aponta um relatório preliminar:

O Legacy falou uma vez com o controle de vôo em Brasília às 15h51 e, apesar de sua identificação ter sumido do radar às 16h02, só começou a ser contado por rádio pela torre às 16h26, quase meia hora antes do acidente. Não se sabe porque a torre demorou tanto para tentar contato. Das 28 tentativas, só uma teve sucesso parcial. O Legacy voava a 37 mil pés, altitude igual a do Boeing. Devia ter passado a 36 mil pés em Brasília e depois para 38 mil pés. O relatório não esclarece porque Brasília não avisou o controle em Manaus para que alertasse o Boeing” (Folha de S. Paulo, 17/11/06).

Mais estranhezas, contudo, permeiam o apagão aéreo indicando que o caos pode ser mais profundo. Vejamos resumidamente quais são elas:

1ª) O ministro da Defesa solapou a autoridade da Aeronáutica ao tratar com os operadores de vôo, a maioria militar, sem a presença do comandante da Aeronáutica e de oficiais.

2ª) O ministro pareceu querer sindicalizar a questão, sendo que as FFAA não podem ser sindicalizadas, pois isso desvirtuaria suas funções constitucionais.

3ª) O ministro da Defesa parece não querer entender que “operação-padrão” significa greve, ou seja, grave insubordinação relacionada á hierarquia militar. Imagine-se, só para ilustrar, que numa hipotética guerra o general desse a ordem para as tropas avançarem e os soldados dissessem: “não vamos, estamos em greve”.

4ª) As FFAA, cujas condições salariais e materiais são cada vez mais precárias, têm com o apagão aéreo sua ruptura acelerada e sua ideologização acentuada. Será fácil, daqui a pouco, os militares brasileiros baterem continência para Hugo Chávez na zona militarizada que este vai criar na América Latina com o apoio dos países amigos.

Enquanto isso o presidente reeleito se diverte com a angústia dos ministros que querem ficar e com a ambição dos que querem entrar. Não lhe importa se a demora de sua decisão possa ocasionar o caos administrativo num país que já não prima por competência em gestão pública. Tão pouco importa ao reeleito se o MST acelera com ímpeto as invasões de terras, contidas durante a campanha para preservá-lo. O caos no campo, com conseqüências nefastas para o agronegócio já abalado pela incompetência governamental, não conta. E num governo que se recusa a cortar gastos e, portanto, a crescer, restará ao país o caos, sobretudo, para a classe média já tão penalizada pelo desemprego e pelos altos impostos.

O governo Luiz Inácio em seu segundo mandato parece se esmerar em nivelar por baixo. Não existem oposições para conter essa tendência. Não temos partidos políticos na expressão correta do termo. Não possuímos instituições que funcionem como anteparo entre o povo e o arbítrio governamental. O último bastião de resistência, a imprensa, está correndo sério risco no tocante à liberdade de expressão. Quanto ao povo, mais de 58 milhões de eleitores recompensaram a mediocridade.

Mas nada acontece de forma aleatória. A quem interessa o caos? A resposta fica com os leitores desse breve texto, se puderem ou quiserem dá-la.

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