Qui12122019

Last updateDom, 01 Set 2013 9am

Maria Lúcia V. Barbosa

Maria Lúcia V. Barbosa

Graduada em Sociologia e Política e Administração Pública pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e especialista em Ciência Política pela UnB. É professora da Universidade Estadual de Londrina/PR. Articulista de vários jornais e sites brasileiros. É membro da Academia de Ciências, Artes e Letras de Londrina e premiada na área acadêmica com trabalhos como "Breve Ensaio sobre o Poder" e "A Favor de Nicolau Maquiavel Florentino".
E-mail: mlucia@sercomtel.com.br

Terça, 01 Maio 2007 21:00

"O Brasil Não Tem Povo"

A péssima escolha de nossos representantes pode ainda refletir uma profunda identificação popular com seus eleitos no que eles têm de pior, o que indicaria que não temos povo, mas plebe.

Em 1881, em sua obra, L’esclavage au Brésil, Louis Couty afirmou:

O Brasil não tem povo”, pois, “em nenhuma parte se acharão massas de eleitores sabendo pensar e votar, capazes de impor ao governo uma direção definida”.

Cento e vinte e seis anos se passaram desde que Couty apontou o triste fato: “O Brasil não tem povo”. Mas, será que já tem, apesar das mudanças ocorridas?

Como é impossível analisar num pequeno artigo mais de um século de história, tomo como marco importante o processo de industrialização, iniciado nos governos de Getúlio Vargas e JK, que desembocou no atual perfil do Brasil urbano e em parte modernizado. Persistem, é verdade, os contrastes sociais. Predominam na pirâmide social os mais pobres. Mas, bem diferente do século em que Couty nos visitou agora temos classes médias e uma elite econômica. Mesmo assim, perdura nosso subdesenvolvimento político que, associado ao vácuo de valores que hoje se observa, leva a indagar se Couty continua ou não tendo razão. Afinal, são eleitos e reeleitos notórios bandidos, trambiqueiros, mentirosos, tanto para o Poder Legislativo quanto para o Executivo e, em muitos casos, não se distingue entre desembargadores, juízes, advogados, políticos, bicheiros e qualquer tipo de marginal. Isto pode significar que são poucos os eleitores que sabem pensar e votar, sendo ao mesmo tempo incapazes de impor ao governo uma direção definida.

A péssima escolha de nossos representantes pode ainda refletir uma profunda identificação popular com seus eleitos no que eles têm de pior, o que indicaria que não temos povo, mas plebe. Ao mesmo tempo, há muita ignorância relativa aos candidatos no que concerne às suas trajetórias políticas, demonstração de que conhecimento e informação não são coisas idênticas, pois não faltam, ainda que filtradas, informações sobre o festival de falcatruas prodigalizado por quem deveria dar o bom exemplo.

Paradoxalmente isso acontece apesar da profusão de ONGs, centrais sindicais, associações de artistas e de intelectuais, dos chamados movimentos sociais, enfim, de tantas entidades que vão das associações de moradores à OAB, à ABI, à UNE, à CNBB e muitas outras, agora denominadas de redes sociais que alguns imaginam ser fontes de conscientização, civismo e solidariedade.

Portanto, as redes sociais que sempre existiram, mas que com a complexidade urbana aliada à velocidade dos meios de transporte e comunicação (Internet e telefonia celular entre as mais recentes e notáveis revoluções da comunicação) se multiplicaram, não produzem necessariamente o cidadão cônscio, o indivíduo capaz de otimizar seu livre arbítrio, o ator que interfere em seu tempo. Novas “comunidades” nem sempre são atestados de “novo cidadão” solidário.

Na diversidade do mundo atual onde os grupos “primários” como a família são trocados por grupos “secundários”, estes podem também abrigar redes, por exemplo, de criminosos, de terroristas, de narcotraficantes que possuem um tipo de solidariedade, de aprendizado e de projetos comuns, mas que estão bem longe do homem naturalmente bom de Rousseau ou do revolucionário “para si” de Karl Marx, que o conteúdo do termo rede social quer ressuscitar.

Conferir à humanidade de hoje virtudes excelsas que ela jamais possuiu, é tão falso quanto o dilema indivíduo x sociedade, pois o que existe é uma interação entre o ser humano e seu ambiente sócio-cultural.

Finalmente, se mudanças sempre estão ocorrendo, pois a vida é dinâmica, por trás das transformações materiais, valorativas e comportamentais certas essências humanas nunca mudam e a humanidade como um todo permanece ignorante, crédula e facilmente manipulável.

No nosso caso, apesar das redes sociais prevalece o “mesmismo” de que falou Roberto Campos e uma acachapante e piorada passividade que tudo aceita como natural e politicamente correto. E continuamos, como, aliás, acontece com todos os povos, tangidos por poderes mais altos e ocultos em bastidores inacessíveis ao vulgo.

Concluindo, apesar das redes sociais o homem continua, como disse Henry Louis Mencken, “o caipira par excellence, um ingênuo incomparável, o bobo da corte cósmica. Ele é crônica e inevitavelmente tapeado, não apenas pelos outros animais e pelas artimanhas da natureza, mas também (e mais particularmente) por si mesmo – por seu incomparável talento para pesquisar e adotar o que é falso, e por negar ou desmentir o que é verdadeiro”. No nosso caso, isso muito se acentua e de certo modo explica, entre outras causas históricas e culturais aqui não abordadas, porque o Brasil não tem povo.

Sexta, 20 Abril 2007 21:00

Tempo de Decadência

Portanto, o século XX, malgrado os sistemas totalitários, comunismo e nazismo, que infelicitaram aqueles que os experimentaram, trouxe em seu bojo grande progresso, sendo que o mundo de modo geral se tornou mais democrático e próspero.

Em termos históricos mais recentes, podemos dizer que o século XIX foi o do pensamento. Nada, é claro, que se compare à Grécia Antiga ou ao Renascimento, mas é inegável que na centúria dos mil e oitocentos surgiram pensadores magistrais nas várias áreas do conhecimento. Floresceram também grandes escritores e pintores e, inclusive a moda revelava requintes em bordados, brocados, rendas, luvas, plumas, chapéus.

O século XX foi o da matéria. Continuou a produção intelectual de excelência, mas em menor quantidade. E o Brasil, como não podia deixar de ser, copiou ou adaptou fatos externos. Naturalmente, de acordo com nosso peculiar contexto que refletia a evolução histórica do país.

Até aproximadamente a primeira metade do século passado, a educação brasileira, com forte influência de religiosos católicos, apresentava boa qualidade. E tanto nas famílias quanto nas escolas, crianças e jovens aprendiam valores que os norteariam pela vida afora. Falar a verdade, ser honesto, cultivar o amor à pátria eram noções que se assimilava através da disciplina, da convivência com os colegas, do respeito para com os professores. A bandeira nacional era hasteada no pátio do colégio, todos os hinos pátrios decorados com gosto e alegria, havia orgulho em desfilar nas comemorações das datas cívicas.

Não faltará quem diga que naquele tempo havia repressão exagerada dos costumes, falsidade, hipocrisia. Entretanto, não se pode negar que as relações eram mais estáveis, que o romantismo enfeitava a vida com nuances de emoção e beleza e que havia mais respeito e compostura entre as pessoas.

Seria essa uma visão elitista? De forma alguma, pois mesmo os humildes se revestiam de dignidade e o tratamento entre classes era cordial, sobretudo nos lares onde os empregados pareciam membros da família. Até os políticos, que sempre fizeram de seu mister mercancia de grosso trato, tinham certo comedimento e não abusavam dos crimes hoje tidos como naturais pela sociedade. Os valores da época inibiam aqueles que necessitavam de votos e a liturgia do cargo era praticada com a devida elegância. Seria inadmissível a alguns anos atrás, que um presidente da República fizesse diante do mandatário de outro país comentários chulos com referência, por exemplo, ao Ponto G, ou que usasse continuamente conversa de botequim ao discursar.

Tudo é processo e o fenômeno da urbanização trouxe, no nosso caso a partir da década de quarenta, a diversificação dos comportamentos, o aumento de grupos sociais, a diminuição da força monopolista da Igreja católica. Houve também o avanço dos meios de transporte e comunicação, o que uniu imensas distâncias e rompeu isolamentos. A mulher se tornou mais livre, passou a estudar, saiu de casa para trabalhar e assumiu, inclusive, profissões antes reservadas aos homens. Progressos sem conta na medicina, na ciência, na tecnologia aconteceram em escala mundial e alcançaram o Brasil. Melhorou o nível de vida mesmo das populações mais pobres e a massa teve acesso a bens de consumo antes restritos às classes altas.

Portanto, o século XX, malgrado os sistemas totalitários, comunismo e nazismo, que infelicitaram aqueles que os experimentaram, trouxe em seu bojo grande progresso, sendo que o mundo de modo geral se tornou mais democrático e próspero.

Entretanto, como tudo que deriva do ser humano contém o bem e o mal, nenhuma civilização que chegou ao apogeu nele se manteve. A decadência sempre foi inevitável devida à ganância, ao uso indevido do progresso, ao abuso da liberdade convertida em liberalidade. E, assim, se repetiram ao longo do tempo ciclos de evolução e involução.

Agora, em meio ao progresso, se atravessa uma época de decadência moral. No Brasil acentua-se o individualismo. Perdeu-se o sentido de pátria, com exceção do ufanismo ridículo relativo ao futebol. Valores antes existentes estão em extinção e anti-heróis são exaltados. Os piores exemplos vêm das autoridades constituídas e as instituições se desagregam. A vida se torna cada vez mais frágil diante da violência e da acentuação da impunidade, enquanto a morte se banaliza. Acabou a liturgia do cargo e impera a vulgaridade. A pressa torna as relações superficiais e insatisfatórias. A TV tomou o lugar da família e da escola, dita comportamentos e estimula anti-valores. A educação atingiu o nível mais baixo e professores apanham de alunos. A mentira e a corrupção dos governantes, largamente praticadas, são aceitas com naturalidade pela sociedade e alguns indivíduos dizem: “se eu estivesse lá faria a mesma coisa. É o que se pode chamar de exaltação ao cinismo.

Mas como tudo está em perpétuo devir, no bojo das transformações outro ciclo está em andamento. No nosso caso, quem sabe que ao cabo de muitas gerações alguma coisa muda. Lembremos, então, do que disse Euclides da Cunha: “estamos fadados à civilização, ou progredimos ou desaparecemos”.

Segunda, 02 Abril 2007 21:00

Avacalhar Para Dominar

Quebrados o comando, a hierarquia, a disciplina, o que terá sobrado do Exército Brasileiro? A sensação é de que também essa instituição foi completamente desmoralizada e venceu a estratégia do PT: avacalhar para dominar.

Certos conceitos devem ser revistos, pois não se adaptam mais aos fatos hodiernos. Por exemplo, a guerra era feita corpo a corpo desde as lutas tribais, passando pela Antigüidade, alcançando a Idade Média e chegando ao início da época moderna, sendo que o conflito costumava a se dar em campos de batalha. Agora a guerra é normalmente levada a cabo em meio às populações civis. Da catapulta chegou-se ao manejo de botões que acionam bombas capazes de devastar grandes áreas e matar numerosas pessoas. E o que dizer dos armamentos atômicos, suficientes para conduzir o mundo ao Armagedon? Devem, pois, ser buscados novos conceitos de guerra e de geopolítica. De todo modo, nenhum exército, desde tempos imemoriais, pode sobreviver sem disciplina e hierarquia, sendo que na hierarquia está implícito o comando e na disciplina a obediência.

Outro aspecto é o que se refere aos paradoxos da democracia. Recorde-se que esse sistema de governo implica na ascensão ao poder através da via eleitoral, porém, por uma dessas perversões tão comuns às invenções humanas, vemos que a própria democracia permite, sem que seja dado um só tiro, que governos autoritários se instalem no poder através do voto popular. Uma vez lá, governam de forma ditatorial simulando agir democraticamente. As armas desses governantes não são canhões nem metralhadoras, mas o populismo, a propaganda, a desmoralização das instituições e dos partidos políticos, a compra fácil de tudo e de todos, o que quer dizer, das consciências. Portanto, as ditaduras modernas se tornam mais persuasivas porque funcionam como simulacros canhestros da democracia.

Na América Latina, de histórico autoritário, vicejam falsas democracias. O desusado modelo cubano de revolução castrista foi substituído pelo esdrúxulo socialismo do século 21 do venezuelano Hugo Chávez. Depois de tentar chegar ao poder através de golpes de Estado, o coronel pára-quedista se elegeu investindo no paternalismo para os pobres, na ambição dos políticos, na ganância de parte da elite econômica. Ele degradou o Legislativo e fez uma Constituição à sua imagem e semelhança. Dominou o Judiciário e fabricou sua própria justiça. Logrou colocar o Exército à sua disposição. Censurou os meios de comunicação e inventou sua mídia particular. Chávez fez seguidores, especialmente na Bolívia e no Peru. Está armado até os dentes e dispõe de grupos paramilitares na América Latina, como as Farc colombianas e o MST brasileiro. Provavelmente quer governar enquanto viver como um Fidel Castro montado no petróleo. Encantado com tal exemplo, o presidente Luiz Inácio disse que “Chávez esbanja democracia”.

No Brasil o PT, partido que durante muitos anos se dizia revolucionário e de esquerda, na quarta eleição alcançou o poder máximo da República através de seu eterno candidato, Luiz Inácio, sem dar um só tiro. E ainda bisou. Luiz Inácio e seu governo compraram grande parte dos congressistas e agora quase completaram o serviço, achincalhando desse modo um dos pilares da democracia. Dominaram o Judiciário através de sua instância mais alta, o STF. Vêm usando e abusando da propaganda e das paternais esmolas oficiais para os mais pobres. Aos ricos deram mais lucros. A nascente TV estatal dirigida pelo ex-guerrilheiro e agora ministro, Franklin Martins, objetiva o amordaçamento e a submissão da mídia, projeto já tentado e fracassado. Quanto as FFAA, o recente motim dos sargentos controladores de vôo mostrou que também estão cooptadas. O sinal mais claro apareceu quando o Comandante da FAB, Juniti Saito, não pediu demissão ao ser humilhado pelo comandante-em-chefe Lula, quando este mandou suspender a ordem de prisão de 18 insurgentes. Note-se que a negociação com os sargentos controladores foi feita pelo ex-sindicalista e atual ministro do Planejamento, Paulo Bernardo. A FAB abaixou a cabeça e não reclamou.

Quebrados o comando, a hierarquia, a disciplina, o que terá sobrado do Exército Brasileiro? A sensação é de que também essa instituição foi completamente desmoralizada e venceu a estratégia do PT: avacalhar para dominar. O senhor Luiz Inácio pode ficar lá o tempo que quiser. Nada nem ninguém vão impedi-lo. Sua incompetência será sempre louvada. Sua negligência aplaudida. E mesmo que morram mais pessoas em acidentes aéreos ou de infarto nos aeroportos, passageiros em trânsito agredirão as companhias aéreas, porão a culpa dos atrasos dos vôos no cachorro que passeia na pista, mas poucos compreenderão que a responsabilidade última pelas tragédias e transtornos relativos ao espaço aéreo é do presidente da República. E pouquíssimos cobrarão dele essa responsabilidade. Com já disse alguém: “esse país não é sério”.

Sábado, 17 Março 2007 21:00

Collor e o Mito de Fênix

De todo modo, na tarde de 15 de março, quando todos seu algozes reconheceram que foram excessivos em seus julgamentos, Collor pareceu personificar o mito de Fênix ao renascer das cinzas. O PT que se cuide ou volte a abatê-lo em pleno vôo.

Dizem que somos um povo desmemoriado. Pode ser. De minha parte, para que o esquecimento não me faça injusta ou tola, escrevo, porque “a palavra voa, mas a escrita permanece”. E vendo e ouvindo na tarde de 15 de março, o ex-presidente e atual senador Fernando Collor de Mello a discursar em plenário, voltei atrás algumas páginas da história que tive o cuidado de registrar em um dos meus livros, já esgotado: “América Latina – em busca do Paraíso Perdido” (São Paulo, Editora Saraiva, 1995). Creio que vale a pena tentar sintetizar nesse pequeno artigo o que no livro foi bem mais aprofundado.

Em 1989 assistia-se ao final do governo Sarney, onde, conforme expressão do sociólogo Hélio Jaguaribe, era evidente a “canibalização do Estado brasileiro”. Essa situação vinha à tona através da imprensa, que, destacando as performances dos poderes Executivo e Legislativo, colaborava para a formação de uma opinião pública capaz de vincular à classe política, de modo geral, antivalores como desonestidade, irresponsabilidade, corrupção, parasitismo e incompetência. E foi nesse quadro, depois de quase trinta anos sem eleições diretas para presidente, que se processou a campanha para a escolha do mais alto mandatário da Nação.

Entre os excessivos candidatos – excesso permitido por uma legislação pródiga em liberalidades para a formação de partidos – estavam Fernando Collor de Mello, do Partido da Reconstrução Nacional (PRN) e Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT).

Collor obteve mais votos no primeiro turno. No segundo turno, em dia 17 de dezembro, Lula beijou a cédula na hora de votar, fez declarações de vitória e partiu num helicóptero para longe do nervosismo das apurações. Nas ruas, seus eleitores e adeptos festejaram prematuramente, sacudindo as bandeiras vermelhas e emitindo o grito de guerra: “Lulalá”.

Em breve, porém, se faria o luto petista. Collor obteve 35.089.998 votos (42,75%) e Lula , 31.076.364 (37,86). A vitória ficou com o “caçador de marajás”, aquele que prometera derrubar a inflação com um só tiro. O moço das Alagoas havia encarnado o sonho e a esperança, e a sorte estava lançada na democracia de massas em que se convertera o país.

Ao tomar posse Collor encontrou pela frente um pesadelo chamado Brasil. A inflação, herdada do catastrófico governo Sarney atingira uma taxa anual de 12.874%, com previsões de ascender para 56.000% ao ano. A desmoralizante dívida externa era de US$ 27 bilhões. O serviço público ineficiente deveria consumir entre 60% a 80% da receita disponível. A educação precária apontava para trinta milhões de analfabetos e de cada duas crianças que entravam na escola, uma era reprovada no primeiro ano. A saúde mostrava um Brasil doente, pois de cada mil crianças que nasciam, sessenta e cinco morriam antes de completar um ano de vida. O déficit habitacional já atingia dez milhões de moradias.

Para enfrentar problemas dessa magnitude Collor tomou medidas impopulares. Com isso bateu de frente com a CUT que passou a organizar seguidas greves. Chamou a elite de empresários de arcaica e angariou sua animosidade. Não fez conchavos no Congresso nem comprou seus membros. Enfrentou inúmeros escândalos que atingiram o Executivo e o Legislativo.

O presidente, então, renovou seu ministério, que poderia ter sido o melhor havido no país. Anunciou novas medidas econômicas, precursoras do Plano Real, mas um fato aleatório o fez sucumbir antes de tentar mudar o rumo de sua gestão: a entrevista à Veja, dada por seu irmão Pedro, em maio de 1992. Pedro acusou Paulo César Cavalcanti Farias – tesoureiro da campanha presidencial de Collor – de exercer atividades ilícitas no governo.

Isso interessava a muitos políticos e Luiz Inácio, que desde a derrota tinha acessos de revanchismo, levantou a idéia do impeachment. O julgamento pelo Congresso pela primeira vez foi rápido. Multidões tomadas por delírio cívico e lideradas pelas forças contrárias ao presidente foram às ruas gritar “fora Collor”. Mesmo com a renúncia deste o julgamento prosseguiu no Senado, e o senador Pedro Simon gritou para seus pares: vamos adiante, senão, o que vão pensar de nós”.

Mais tarde o STF inocentou Collor, o que não impediu que ele ficasse fora da vida política como cassado. Muito tempo se passou e hoje a complacência popular com a corrupção, com os mega escândalos políticos, com a incompetência do governo e suas mentiras e falcatruas é total.

De todo modo, na tarde de 15 de março, quando todos seu algozes reconheceram que foram excessivos em seus julgamentos, Collor pareceu personificar o mito de Fênix ao renascer das cinzas. O PT que se cuide ou volte a abatê-lo em pleno vôo.

Sábado, 10 Março 2007 21:00

O Insuportável Brilho dos Estados Unidos

É brilho demais a ofuscar de modo insuportável os latino-americanos que, no fundo, sonham ser os Estados Unidos e não conseguem.

A vinda do presidente Bush ao Brasil, que muitos dizem com razão ser tardia para barrar a influência exercida por Hugo Chávez, suscita algumas reflexões sobre o agudo sentimento antiamericano existente na América Latina que, se sempre existiu, agora está exacerbado. O que motiva isso?

Por volta de 1700, as colônias que compunham os impérios espanhol e português pareciam sinalizar para um futuro rico e pleno de êxito se comparadas com as da América do Norte. Entretanto, fatores culturais ligados ao tipo de colonização e gerados ao longo do processo histórico conferiram destinos diferentes às Américas do Norte e do Sul.

Os Estados Unidos, de país agrícola produtor de matérias-primas trocadas por produtos industrializados, se converteram em potência industrial e na nação mais poderosa do mundo. Ao poderio industrial, financeiro e bélico os norte-americanos adicionaram o primado científico e, a partir de 1923, começaram a conquistar prêmios Nobel de medicina, de física, de química. Os norte-americanos foram os primeiros a fazer a bomba atômica, o reator nuclear, a mandar o homem à lua. Práticos, objetivos, criativos, determinados, eles construíram uma novus ordo seculorum” a partir do espírito liberal que privilegia a democracia e o respeito às leis.

Em sua obra, “A Democracia na América” (1835-1840), observou Aléxis de Tocqueville sobre os Estados Unidos: “Os homens ali se mostram mais iguais pela riqueza e pela inteligência ou, por outras palavras, mais igualmente fortes do que em qualquer outro país do mundo e do que em qualquer outro século relembrado pela história”.

É brilho demais a ofuscar de modo insuportável os latino-americanos que, no fundo, sonham ser os Estados Unidos e não conseguem.

Não precisaríamos ter tido uma história de fracassos, mas a questão foi que tivemos uma “embriogenia defeituosa” e tanto nas colônias espanholas quanto na brasileira surgiram “sociedades invertebradas” sem, como diria Ortega y Gasset, “a potência verdadeiramente substancial que impulsiona e nutre um processo nacional: um projeto sugestivo de vida em comum”. Não tivemos a “comunidade de propósitos” das colônias inglesas, aquele elo que faz com que grupos integrantes “convivam não por estar juntos, mas sim por fazer algo juntos”.

O que prevaleceu na América Latina foram as sociedades desiguais, o isolamento entre as camadas sociais, a falta de “minorias seletas” que comandassem o processo emancipatório, a inexistência do espírito associativo substituído pela vivência no pequeno mundo familiar ou clânico, os governos perdulários, os caudilhos incompetentes. A soma de tais fatores gerou o atraso econômico e, sobretudo, a mentalidade do atraso.

No nosso subdesenvolvimento político e econômico, onde a corrupção é endêmica, padecemos como se vivêssemos exilados em terra própria. Sentimentos contraditórios de altivez e inferioridade nos acometem e na ânsia de nos libertarmos da síndrome do fracasso, cujas raízes se prendem ao passado, preferimos descarregar nossa frustração em possíveis culpados, aqueles que seriam responsáveis pelos problemas que nós próprios criamos. Culpamos de Colombo a Bush por nossas fraquezas e mazelas. Só nos esquecemos de perguntar o que fizemos a nós mesmos.

Jean-François Revel, na introdução à obra de Carlos Rangel, “Do Bom Selvagem ao Bom Revolucionário”, afirma que “a história da América Latina prolonga a contradição que lhe deu origem. Oscila entre as falsas revoluções e as ditaduras anárquicas, a corrupção e a miséria, a ineficácia e o nacionalismo exacerbado”. Conclui dizendo que “o êxito insolente dos Estados Unidos” tornou-se um fator adicional de amargura para nós.

Para nos contrapormos aos nossos males devemos nos tornar socialistas. Seríamos revolucionários de esquerda. Mas como disse Roberto Campos, “como pessoa física, somos comunistas, como pessoa jurídica, somos capitalistas”. Não suportamos o liberalismo que nunca tivemos. Não importa se o socialismo em toda parte em que foi implantado acabou com a liberdade, anulou o indivíduo, subjugou através do Estado tirânico. Se antigamente se gritava fora ianque, hoje é a mesma coisa. Ficamos paralisados no tempo como aquelas músicas mexicanas tipo “Cucurucucu Paloooooomaaaaaaaaaaaaa”. Somos incapazes de “virar o disco”.

Na visita de Bush vejo manifestações de nossas garbosas esquerdas agitando bandeiras vermelhas pelo Brasil afora. Não aparecem passeatas ou manifestações contra a corrupção, a violência, os impostos escorchantes, a má qualidade da saúde e da educação, o pífio crescimento econômico.

A realidade, porém, é que não podemos viver sem capitalismo e até a China restituiu ao povo a propriedade privada. Nós, filhos dependentes do pai-Estado, estamos felizes transferindo nosso capital para os políticos profissionais ou para países amigos como, por exemplo, a Bolívia. Yes, nós amamos Chávez e odiamos Bush.

Quarta, 07 Março 2007 21:00

Totalitarismo Tupiniquim

Neste segundo mandato o Congresso sucumbiu de vez. Uns poucos parlamentares de brio não conseguem fazer frente à ofensiva do Executivo desmesuradamente fortalecido.

A ideologia que respaldou o totalitarismo nazista ou nacional-socialismo floresceu nas condições político-econômicas da Alemanha, na década de 20.

Na revolução de 1918, o Partido Social-Democrata foi o grande responsável pela implantação da República na Alemanha e seus primeiros governos representaram um compromisso com partidos de centro, pois havia se afastado das idéias marxistas de ruptura com o sistema político existente, passando a defender ações reformistas de cunho social.

Na crise de 1929 foi a vez do Partido Nazista ter notável crescimento. Além de enorme penetração popular foi encarado pela classe alta como representante de seus interesses econômicos. Aos poucos todos os partidos foram se submetendo à liderança de Hitler.

Em 1933, o Partido Nazista chegou ao poder e se transformou em partido único com a eliminação paulatina, através de leis, dos outros partidos. Ao mesmo tempo, militantes mais à esquerda foram afastados ou mortos. Enquanto isso, Hitler ia se impondo de maneira incontestável, seduzindo a nação pela força de seu carisma aliado à intensa propaganda produzida pelos meios de comunicação de massas e dominando através de eficiente aparelho repressivo. Ele já não era mais o primeiro-ministro, mas o ditador que, em empolgantes discursos acentuava a esperança e prometia ao povo alemão um futuro brilhante numa linguagem que podia ser compreendida até pelas pessoas mais simples.

Possíveis insatisfações e ódios eram canalizados para os judeus, o que desviava a atenção de problemas concretos. Desse modo o Holocausto foi aceito como natural, como purificação da raça superior ariana, com a vantagem de que a eliminação dos judeus abria espaços para a classe média alemã nas atividades do comércio e da indústria.

Muito útil também a utilização de símbolos e conceitos marxistas, devidamente adaptados à ideologia nazista. Assim, o proletariado tornou-se proletariado racial e a luta de classes deslocou-se para a guerra proletária contra os Estados capitalistas. Não se falava mais na utopia da sociedade sem classes, mas numa futura comunidade do povo alemão que dominaria o mundo. Todas essas idéias permeavam a totalidade da vida dos alemães e norteavam seu comportamento.

Aos poucos o Estado totalitário foi substituindo o “Estado burguês”. O processo incluiu certas providências como a extinção do Poder Legislativo através do cerceamento de suas prerrogativas. No Poder Judiciário julgava-se de acordo não com a lei, mas com a vontade de Hitler. Conseqüentemente se deu o desmesurado fortalecimento do Executivo que assumiu o poder de legislar através do ditador e dos seus auxiliares diretos. Simultaneamente foi implementado o controle completo da burocracia estatal ou aparelhamento do Estado.

Claro que isso não se repetirá jamais de forma idêntica. Foi tudo levado a cabo em certas circunstâncias de um dado país, numa determinada época e sob o influxo de uma sui-generi personalidade carismática. Mas as sementes que floresceram no nacional-socialismo não seriam passíveis de novas floradas trágicas com outros nomes, em outras épocas, em outras sociedades? Será que o nacional-socialismo (nazismo) morreu ou está de volta na América Latina através de uma versão adaptada, adulterada, inferiorizada, longe anos-luz da envergadura carismática e maligna de um Hitler, mas igualmente nociva?

No Brasil o PSDB se rotula de social-democráta e, enquanto FHC governou aproximando-se dos partidos do centro o PT se fortaleceu, obteve penetração popular e chegou à presidência da República. Note-se que o PT sempre se apresentou como partido superior, o único ético, e seus membros até hoje parecem se sentir acima dos mortais e das leis, e fadados a conduzir o povo para um nebuloso "outro mundo possível".

No poder, finalmente, depois de quatro campanhas presidenciais, Luiz Inácio utilizou fartíssima propaganda respaldada pelos meios de comunicação de massas. Sua linguagem atinge o homem comum e as metáforas futebolísticas não são mera coincidência. Ele contempla tanto os pobres com as bolsa esmola quanto os ricos com lucros fabulosos. Promete ao povo um futuro brilhante, um espetáculo do crescimento. Já os ódios e ressentimentos são canalizados para os norte-americanos. Eles são culpados pelos nossos erros, mazelas, fracassos. No primeiro mandato, Luiz Inácio, através de seu auxiliar direto, José Dirceu, dominou o Congresso e o STF que passaram a fazer sua vontade, pelo menos através da conveniência e da obediência de muitos de seus membros. Quanto a burocracia estatal foi aparelhada.

Neste segundo mandato o Congresso sucumbiu de vez. Uns poucos parlamentares de brio não conseguem fazer frente à ofensiva do Executivo desmesuradamente fortalecido. Foi dito que o presidente da República se reunirá uma vez por semana com os presidentes da Câmara e do Senado, certamente para passar suas ordens. Se já não se podia falar em partidos políticos, esses amontoados de ambições que mais se parecem com clubes de interesses, agora se pode dizer que tais agremiações esvanesceram. Não existem oposições. As instituições navegam nas águas do poder que emana da corte centrada no Palácio do Planalto. Especula-se despudoradamente sobre um terceiro mandato para Luiz Inácio e a mudança do sistema presidencialista para o parlamentarista poderia servir a esse propósito, se não se usar a democracia de massas dos plebiscitos manipulados. Enquanto isso, sob as bençãos dos Poderes constituídos e demais instituições, o MST e a CUT se unem em selvagem violência no meio rural, não apresentada pelos meios de comunicação. A violência urbana é defendida nas hierarquias governamentais mais altas. Todo poder aos bandidos, parecem dizer as autoridades. Onde será que elas querem chegar? Promete-se mais crescimento econômico e o IBGE muda a metodologia de aferição de dados para que possamos ser bem mais do que o Haiti.

É claro que a figura de Hugo Chávez com seus ímpetos expansionistas, se presta muito mais à lembrança de um Hitler tupiniquim. Mas no Brasil não estamos muito longe de certas essências do poder que, em alguns aspectos, relembram pelo menos certos traços de uma das mais abonináveis formas de domínio que já existiu: o totalitarismo nazista. Devidamente afrouxado e ao nosso estilo dúbio, é claro, mas totalitarismo.

Sexta, 02 Março 2007 21:00

O Brasil Submerso

Entretanto, existe um Brasil submerso onde a insatisfação ou mesmo a repulsa ao atual estado de coisas é latente, difusa, mas real.

Passado o carnaval volta com força o futebol. Noticiários televisivos são excessivamente nutridos com amenidades, sinal de aquiescência com poderes mais altos o que não deixa de ser um tipo de censura. Além do grande assunto do momento referente ao que acontece na casa dos brothers do BBB7, matérias relativas ao Pan e ao Papa entretêm os telespectadores. O PAC entra como elemento de propaganda governamental e não desperta grande interesse, mas apenas reedita a vaga noção de que, sobretudo a classe média, com sempre pagará o pacto.

Ainda no departamento da política volta a novela da escolha dos ministros do segundo mandato, o que pode levar alguém a perguntar: “ Para que serve o ministério da Pesca?”. Ou duvidar: “se a maioria dos numerosos ministros nada fez em quatro anos, por que faria agora? Como me disse um amigo: “a maioria dos ministros que passaram ou estão nesse governo, com certeza não teriam tão alto cargo em nenhum outro governo”. Portanto, o troca-troca nos ministérios, o prazer do presidente em prolongar a aflição e aumentar a ganância de seus aliados, os engalfinhamentos dos clubes de interesses que se denominam de partidos políticos, passam ao largo da atenção e do entendimento coletivo. Os bastidores da política são inacessíveis ao vulgo.

No mais, na superfície do Brasil tudo parece calmo, tudo está bem a se crer em notícias de TV. A volta das férias restabelece a mesmice da rotina, impõe o cotidiano. Sem medo de ser feliz o homem comum está pronto para responder aos questionários das pesquisas de opinião e aprovar de modo eloqüente o presidente da República e seu governo. E assim, aos poucos, a classe dirigente vai aplainando o terreno para a democracia de massas, tão cara a Hugo Chávez, na qual não faltam plebiscitos ou consultas manipuladas através das quais o povo pode opinar sobre tudo apesar de não saber do que se trata. Ardorosos como sempre, petistas já falam em plebiscito para pedir o terceiro mandado de Luiz Inácio. Mais bolsas família para os pobres, mais lucros para os ricos e tudo se resolve. A classe média já é por natureza domesticada.

Além disso, desde o ano passado paira no ar a idéia de uma Constituinte, ventilada pelo próprio presidente da República. Copia-se desse modo a estratégia de Hugo Chávez que está inspirando seus seguidores Evo Morales e Rafael Correa. Por que no Brasil seria diferente, já que aqui também é nítida a ascendência de Chávez? E uma Constituinte pode operar milagres como um terceiro mandato para o presidente ou mesmo um reforço de seus poderes à feição do que ocorre em outros países latino-americanos.

Chegamos a um ponto em que tudo é permitido ao governo que aí está, pois foi fortalecido pela reeleição. Além do mais, não temos oposição partidária. As instituições, sem exceções, estão enfraquecidas, desmoralizadas, submissas aos ditames do Executivo. O mesmo se pode dizer das entidades de classe. E quantas vezes não vimos julgamentos políticos nas mais altas instâncias do Poder Judiciário, onde a lei deveria ser aplicada e não a vontade do presidente da República?

Simultaneamente a tudo isso, crescem grupos que passam a deter o monopólio da violência, atributo do Estado, decretando assim sua falência. Quem ainda acredita que o MST é um movimento social pacífico em busca da reforma agrária? E quem duvida que facções criminosas, especialmente no Rio de Janeiro, criaram um Estado dentro do Estado, com mais força e organização que esse?

Diante da situação de anomia que vai se adensando sob a complacência ou mesmo o estímulo governamental, impressiona a ausência de reação popular. Inconformados com desmandos de seus governos existem na Venezuela, na Bolívia, enfim, em todos os países da América Latina, opositores que, no caso de Cuba, são heróicos. Aqui a pasmaceira se confunde com a ignorância de uns e a esperteza de outros. Caras-pintadas são coisas do passado. Movimentos cívicos inexistem. E na hora do voto consagra-se mensaleiros, sanguessugas e outros tipos de larápios.

Entretanto, existe um Brasil submerso onde a insatisfação ou mesmo a repulsa ao atual estado de coisas é latente, difusa, mas real. A questão é que os habitantes do Brasil submerso se encontram pulverizados, individualizados, isolados uns dos outros. Não conseguem se conectar em um movimento coerente, organizado, disciplinado, pois não existem partidos políticos que canalizem os protestos, nem instituições que dêem cobertura legal à indignação e, sobretudo, não temos lideranças que aglutinem as aspirações.

Neste cenário, onde avança o autoritarismo camuflado de democracia, a maioria nada percebe, com nada se importa. Mas se os ventos ditatoriais da obsoleta esquerda latino-americana, que sopram sobre o Brasil, se transformarem em tornados, não será mais possível conter o desastre.

Domingo, 18 Fevereiro 2007 21:00

Acorda, Brasil!

Acorda Brasil. Acorda brasileiro. Você pode ser o próximo, pois não só no Rio, mas em toda parte o governo fracassou miseravelmente em promover a segurança.

Os sintomas vêm de longe. Foram se avolumando sem que providências efetivas e enérgicas fossem tomadas pelas autoridades competentes (incompetentes?), às quais cabe oferecer segurança aos cidadãos, pois esse é o primeiro dever do Estado como ensinou Thomas Hobbes.

Se a violência hoje se espalha por todo país, especialmente no Rio de Janeiro, a complacência para com bicheiros e traficantes em troca de votos transformou aquele Estado num estado de selvageria ou de natureza. Vale a lei do cão. Domina a barbárie que fez respingar o sangue de João Hélio no rosto de todos os brasileiros. Todavia, este é mais um crime na seqüência de crimes hediondos a ser esquecido, pois vem aí o carnaval.

Alegria, alegria, minha gente, abram alas para o banditismo. Não existe pecado do lado de baixo do Equador. Aqui somos todos democraticamente iguais na esbórnia e na malandragem. Vamos aplaudir a comissão de frente composta pelos corruptos por nós eleitos. Vamos sambar a valer ao som das balas perdidas. No destaque dos casos alegóricos virão os monstros que arrastam crianças pelas ruas até a morte. Olha o bloco dos assassinos impiedosos para os quais não basta roubar, tem que matar. Que belas fantasias enfeitam os estupradores. Na outra ala misturam adereços os degoladores, os traficantes, os golpistas. Que espetáculo maravilhoso esse do país do samba. Como somos importantes. O mundo pára e vê o Brasil nessa explosão de alegria.

Lei? Para que lei? Em uma de suas campanhas para presidente em que amargou derrota, Luiz Inácio declarou que não dava a mínima para a lei, que o importante era a justiça. O que será que ele entende por justiça quando se declara contra a redução da maioridade penal, alegando que essa medida não deve ser discutida em meio à comoção causada pelo bárbaro assassinato do menino João Hélio? Fazendo coro com o presidente, como era de se esperar, plácida e fria, a ministra e presidente do Supremo Tribunal Federal, Ellen Gracie, também se apóia na questão emocional para rejeitar a passagem da responsabilidade criminal para dezesseis anos. Eles são autoridades guardadas, protegidas e nenhum de seus netos corre o risco de ser trucidado. Eles podem ser calmos e racionais.

De todo modo, o martírio do menino de seis anos fez fervilhar discussões. Ergue-se o PT a favor dos bandidões menores de dezoito anos que podem votar e matar. Pontificam juristas e rábulas, e um doutor chegou a dizer que não adiantam prisões. Pois, então, que se solte todos os facínoras da República da impunidade. Um bando a mais, outro a menos, não fará a diferença, pois as legiões malditas já estão no comando dos morros, das ruas, das esquinas, espreitando para atacar sem distinção de cor, idade ou sexo. É a democracia do crime.

Aumenta a criminalidade sob o olhar amoroso das autoridades. Elas estão muito ocupadas. Nas sedes dos Poderes máximos correm soltas as propinas, os cambalachos, os arranjos, os jeitinhos, as negociatas. Brasília é Sodoma e Gomorra sem nenhum justo. E vem aí, com força total, para alegria dos mensaleiros, José Dirceu. Palocci já está lá com João Paulo, Genoino, Mentor e tantos mais. Confraternizam com Collor, com companheiros sanguessugas e muitos outros. Bem que Waldomiro Diniz podia ter se candidatado. Seria um deputado campeão de votos. E o Delúbio dos recursos não contabilizados, por que não concorreu? E não sei onde anda Marcos Valério que não saiu para senador da República. Ganharia na certa. No Congresso estão todos ótimos e o Executivo tudo dominou. Até o senador Jefferson Perez capitulou em apenas uma visita ao Planalto. Imaginemos os outros.

Para que presídios de segurança máxima? Que se afrouxe mais o cumprimento das penas, demorem mais as sentenças, os julgamentos e os olhos se fechem ao descalabro, ao caos, à violência.

Acorda Brasil. Acorda brasileiro. Você pode ser o próximo, pois não só no Rio, mas em toda parte o governo fracassou miseravelmente em promover a segurança. Não adianta pedir paz. A paz se consegue com o cumprimento da lei, que é a única forma de se fazer justiça; com mais presídios e, dentro deles, disciplina, trabalho e instrução para os presidiários; com policiamento preventivo de policiais mais bem pagos, mais armados, mais treinado; com a redução da maioridade para dezesseis anos, com menos indultos. É para pedir essas coisas que se deve ir às ruas. Caso contrário, os monstros continuarão a matar impunemente. Acorda Brasil. Não basta eleger. É preciso cobrar do poder que nos controla. De outro modo seremos os eternos eleitores dos votos perdidos.

Segunda, 12 Fevereiro 2007 21:00

O Brasil Visto Pela TV

A Televisão é o altar diante do qual as massas se ajoelham em atitude de adoração aos ídolos populares, fabricados muitas vezes com a argila da mediocridade, pintados com as tintas da vulgaridade.

A Televisão é o altar diante do qual as massas se ajoelham em atitude de adoração aos ídolos populares, fabricados muitas vezes com a argila da mediocridade, pintados com as tintas da vulgaridade.

Jornais são relativamente pouco lidos desempenhando, portanto, função moderada na formação da opinião pública. Já a TV exerce influência vital na vida das pessoas. É informação rápida e volumosa que não solicita muito do raciocínio, entretenimento e prazer, companhia e consolo. Moda, linguajar, costumes, crenças, comportamentos, atitudes e valores são hoje menos transmitidos pelos meios de controle social como a família, a escola, a Igreja, e mais pelos canais de televisão com suas novelas, filmes, programas variados, entre os quais alguns de bom nível.

Na TV, contudo, não predomina o bom gosto ou a sofisticação. Mesmo porque, esse meio de comunicação de massas é produto e reflexo da sociedade e dos tempos em que se vive. Fantasiando a realidade a televisão reflete e devolve em forma de sonho a imagem recriada do que se passa entre os indivíduos. É como se fosse um gigantesco espelho mágico. Ao mesmo tempo, o espelho projeta o que as pessoas gostariam de ser e ter na vida real, e não podem.

A TV é por excelência o palanque eletrônico onde atores políticos desfilam com o intuito de alcançar e manter o poder. E aqui não se deve omitir que o rádio se presta igualmente às doutrinações políticas e religiosas, portanto, ao controle social, mas não com tanto impacto.

Quanto aos telejornais cito o poeta e ensaísta alemão, Hans Magnus Enzensberger: “A idéia de que a TV, um dia, poderia democratizar o conhecimento, foi apenas uma ilusão. O telejornal é o melhor exemplo dos seus limites de ação. Incoerentes, esses jornais televisivos não têm a menor intenção de informar, mas de vender qualquer coisa”.

De uns tempos para cá nossos telejornais estão vendendo boas notícias como se continuassem a obedecer às ordens do então ministro Luiz Gushiken. E não poderiam, é claro, faltar escândalos e tragédias. Desse modo, o acontecimento mais momentoso do início do ano foi a cratera que se abriu em São Paulo, originada das obras do metrô. Dia e noite os telejornais repetiram algo sobre o imenso buraco e não se sossegou enquanto não apareceram as vítimas. Mas, como tudo guarda intenções políticas, depois da eleição para presidente da Câmara dos deputados quando foi vitorioso o petista Arlindo Chinaglia, a cratera sumiu, pelo menos dos vídeos. E que, conforme a mídia, o governador de São Paulo, José Serra (PSDB) teria apoiado Chinaglia.

Nos telejornais podemos saber o que se passa no Iraque que está no ar vinte quatro horas. Muitas outras notícias internacionais, mas nada de especial sobre o grande companheiro Hugo Chávez, sua lei habilitante que lhe confere poderes ditatoriais, seu crescente armamentismo com intuitos atômicos, o desabastecimento de carne na Venezuela. Nenhuma palavra sobre os mineiros que marcharam com bananas de dinamite para protestar contra Evo Morales, outro companheiro querido. Silêncio sobre as intenções do recém-eleito presidente do Equador, Rafael Correa, que pretende expropriar investimentos estrangeiros, o que poderá prejudicar o Brasil naquele país a exemplo do que fez Evo Morales sem que aqui se levantasse uma única voz nacionalista.

No Brasil um cenário róseo é visto na TV. Bastante futebol (apesar da inesperada derrota para Portugal que passou batida). Intoxicação de PAN. Um tanto de PAC (a nova panacéia governamental). Daqui a pouco volta a novela da formação do ministério possibilitando ao presidente da República, que anda recolhido, mais exibições televisivas que no primeiro mandato tiveram a característica de overdose visual.

Na TV a indústria brasileira cresceu (na verdade diminuiu o ritmo). Muito estardalhaço sobre a violência urbana, com o cuidado de não respingar nas autoridades enquanto, independente daquela Guarda Nacional que até agora não mostrou a que veio, a ocorrência de um dos crimes mais bárbaros já ocorridos no Rio de Janeiro: numa cena de horror um menino de seis anos morre ao ser arrastado preso no carro, pelos bandidos que roubaram o veículo de sua mãe. Na TV o presidente Luiz Inácio dizendo que a Saúde no Brasil atingiu a perfeição, na realidade a tragédia da jovem de dezessete anos, que em trabalho de parto percorreu quatro hospitais sem conseguir atendimento vindo a falecer com seu bebê. Na TV a educação brasileira como a melhor do mundo, nos jornais a manchete: “educação piora em 10 anos”. Nos aeroportos caos e revolta sem que o governo tome a menor providência. Provavelmente o presidente Luiz Inácio não viu e não sabe o que está ocorrendo com os passageiros, a maioria, certamente, seus eleitores.

Mas enquanto o povo acreditar na TV está tudo bem. Especialmente para o governo petista. Que precioso instrumento de poder é a televisão. Luiz Inácio que o diga.

Quinta, 08 Fevereiro 2007 21:00

O Complexo de Barrabás

O Congresso, com as honrosas exceções que sempre existem, vai ficando cada vez mais parecido com um refúgio de larápios da coisa pública. Um circo em que desfilam personalidades folclóricas.

Que triste e deprimente espetáculo do crescimento da desfaçatez os brasileiros puderam assistir quando da eleição dos presidentes da Câmara e do Senado, no dia 1 de fevereiro. Marquemos essa data histórica. Nela, um festival de traições, nunca dantes havido nesse país, fez definitivamente do Congresso Nacional um balcão de negócios. E subjacente às negociatas houve a entrega do poder Legislativo ao partido dominante, o PT, significando a outorga de quase plenos poderes ao presidente da República.

Vai-se, assim, aperfeiçoando no Brasil os métodos do ditador Hugo Chávez, companheirão da Venezuela que aqui manda e desmanda com a certeza de ter apoio para isso.

Em vão os apelos de Gustavo Fruet por moralização e ética. Deve soar como palavrão aos ouvidos de mensaleiros e demais companheiros de falcatruas tais palavras, se bem que a maioria deles nem sequer conhece o significado destes vocábulos. Afinal, o que importa a moralização da Instituição que é um dos pilares da democracia, se o que interessa são cargos, sinecuras e a doce vida do poder doam a quem doer, custe o que custar. Nós elegemos deputados e senadores para que eles se locupletem. Fazemos retornar ao Congresso mensaleiros e outros tipos de pilantras. Depois batemos palmas para seus desmandos. Ou melhor, nem lembramos de quem elegemos.

O Congresso, com as honrosas exceções que sempre existem, vai ficando cada vez mais parecido com um refúgio de larápios da coisa pública. Um circo em que desfilam personalidades folclóricas. Um lugar de recreio onde pouco importa as funções constitucionais, entre as quais controlar o Poder Executivo.

O fato é que a humanidade sempre padeceu do complexo de Barrabás. E isto se acentua em determinadas épocas. Refiro-me simbolicamente a passagem bíblica, em que Pilatos, tendo apresentado ao povo Jesus e o homicida Barrabás, teve como resposta o clamor da multidão que, referindo-se a Jesus gritou instada pelos pontífices: “crucifica-o”. Aos cristãos e não-cristãos esse episódio deve servir como entendimento sobre nossa espécie, nossa selva humana tangida sempre pelos “pontífices” do poder que instigam as massas a votarem em Barrabás.

O PSDB e o PFL vêm padecendo da síndrome do assassino bíblico. Geraldo Alckmin foi traído por seu partido e pelo PFL. Agora, Gustavo Fruet. Não é possível ganhar quando a turba é instigada por certos “pontífices”. Sobretudo alguns muito poderosos, como Aécio Neves e José Serra. E na eleição para presidente da Câmara, o PSDB, em grande parte, apoiou o petista Arlindo Chinaglia. Melhor seria que esses tucanos se mudassem de mala e cuia para as hostes do PT. Seria mais honesto. Mas quem se importa com honestidade?

Na Câmara, seguiu-se o espetáculo deprimente com o partido dito Liberal apoiando o dito comunista Aldo Rebelo. No senado, José Agripino Maia (PFL) sofreu a derrota para o homem que serve fielmente o governo do PT, Renan Calheiros (PDQEL – Partido de Quem está Lá).

Como sempre disse e reafirmo, não existe oposição no Brasil. Nossas instituições estão fragilizadas e cooptadas pelo poder central. Nossa democracia definhou. É de se temer pela manutenção do Estado Democrático de Direito.

E enquanto aqui se gesta o ovo autoritário do PT, disfarçado de democracia como está em moda na América Latina, o superpoderoso Hugo Chávez vai conseguindo seu intento de governar totalitariamente e de estender seu poder sobre o continente. Na Bolívia, no Equador, na Nicarágua ele fez seus fiéis seguidores. Fará outros. E no Brasil também fez. Tudo indica que fazemos parte de um plano mais amplo da esquerda do século 21, que ostenta um capitalismo de mercado, mas mantém a linha “politicamente correta” do comunismo que, fracassado em todo mundo, teima em ressurgir por essas plagas sob a roupagem de falso progresso, mas com todo seu séqüito de horrores como a perda de das liberdades, o empobrecimento generalizado em nome da igualdade, o avanço da mentalidade do atraso que para nós, latino-americanos, vem sob o comando do caudilho venal, corrupto e incompetente.

O Brasil comunga com os ideais chavistas. Isto fica claro nas palavras do presidente da República que defende ardorosamente o ditador venezuelano, que se humilha diante dele e de Evo Morales, que tem por ditadores africanos admiração que apenas não se compara com a que nutre por Fidel Castro.

Incitado pelos “pontífices” o povo vota nos Barrabás da América Latina. Tristes trópicos esses. Mas pelo menos nos países vizinhos existem oposições. Aqui não. Com diria Boris Casoy, demitido da TV Record por dizer certas verdades: “tá tudo dominado”. Agora é aguardar pela canonização de José Dirceu e demais companheiros aloprados. Afinal, ao PT tudo é permitido. Os outros que se cuidem. Quem sabe vem aí uma Constituinte? É só o presidente pedir. O Congresso faz.

  • Copyright © 2007. www.rplib.com.br . Todos os direitos reservados.

    Republicação ou redistribuição do conteúdo do site RPLIB é permitido desde que citada a fonte. O site RPLIB não se responsabiliza por opiniões, informações, dados e conceitos emitidos em artigos e colunas assinados e nos textos em que é citada a fonte.