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Luiz Leitão

Luiz Leitão

Luiz Leitão da Cunha é administrador e consultor de investimentos, sendo articulista e colunista internacional, especialmente para países lusófonos. É colaborador do Jornal de Brasília, Folha do Tocantisn, Jornal da Amazônia, Diário de Cuiabá, Publico (Portugal), entre outros.

Segunda, 04 Outubro 2010 14:38

Obrigado, Marina

O Brasil deve a Marina Silva a descida de Lula do pedestal da arrogância, das favas contadas, da ilusão da invencibilidade calcada numa disputa injusta com uma candidata fabricada ao longo de dois anos de desprezo presidencial pelas leis do País.

Quarta, 20 Maio 2009 21:00

República de Bananas

A opinião pública inglesa é implacável com desvios éticos, mesmo aqueles considerados “menores”, aceitáveis porque “todo mundo faz”, ou por não serem explicitamente proibidos, a não ser pelo bom senso.

Medido com a régua dos padrões éticos de razoável parcela dos congressistas brasileiros, o terremoto que sacudiu o Parlamento Britânico, cujo epicentro foi a orgia generalizada de gasto indevidos de dinheiro público patrocinada por substantiva parcela de seus membros, não seria motivo de tamanho alvoroço ao ponto de causar a queda de Michael Martin, presidente da Câmara dos Comuns – a ultima defenestração de um presidente da Câmara foi no longínquo ano de 1695.

A opinião pública inglesa é implacável com desvios éticos, mesmo aqueles considerados “menores”, aceitáveis porque “todo mundo faz”, ou por não serem explicitamente proibidos, a não ser pelo bom senso. Chocada, envergonhada do comportamento de seus representantes, a nação ouviu da ruborizada classe política pedidos de desculpas acompanhados da devolução dos recursos malbaratados, inclusive em anos passados.

David Cameron, líder da oposição, fez uma observação precisa: "Essa crise foi causada pelos políticos, por isso não acredito que os políticos possam resolvê-la sozinhos - o público tem de se envolver. Quero o envolvimento do maior número de pessoas possível, sejam partidários dos trabalhistas, dos liberais ou de nenhum deles."

Cameron quis dizer que os políticos não podem solucionar a crise sem ouvir os seus representados, sem encurtar a distância que os separa tanto da realidade quanto do eleitorado. Essa sábia a até banal alocução se encaixa perfeitamente à realidade do Parlamento brasileiro, e não deixa de ser uma lição, quiçá um alerta.

Se aqui no Brasil um episódio praticamente idêntico ao que colocou em polvorosa a Câmara dos Comuns na Grã Bretanha não causou a cassação de um mísero deputado do baixo clero sequer, que dirá a queda do homólogo de Michael Martin, o deputado Michel Temer (PMDB-SP) cuja responsabilidade pelos escândalos é ainda mais inegável depois de ele ter concedido uma exorbitante anistia ampla, geral e irrestrita aos autores de abusos passados, ele incluído.

Diante do que escreveu o colunista Simon Jenkins, do jornal inglês The Guardian “Este escândalo sem precedentes nas despesas dos parlamentares britânicos é digno de uma república das bananas”, nós, brasileiros, podemos vestir a carapuça, não só porque aqui os escândalos são recorrentes e acometem os Três Poderes, mas também por sabermos que eles se repetirão, pois o peso de nossa lixada opinião pública não é nem de longe comparável à dos britânicos.

Lá, os políticos sabem que dependem de uma imagem incólume para sobreviver; aqui, como cristalinamente demonstrado nas declarações, algumas desconexas, de deputados e senadores “ofendidos”, vítimas, segundo eles, não das próprias mazelas, mas das perfídias da imprensa, não há por que se preocupar com eventuais aranhões em suas imagens. Eles são tantos que um risco a mais ou a menos não será notado.

Sábado, 25 Abril 2009 21:00

Tráfego Aéreo Parlamentar

Alguém, lançando mão da maior boa vontade possível, acredita nessa história de que os deputados e os senadores voltam semanalmente aos seus Estados para manter contato com as “bases”?

Na agradável ilha baiana de Comandatuba, em reunião do Oitavo Fórum Empresarial, o presidente da Câmara dos Deputados, Michel Temer (PMDB-SP), foi questionado pela indignada presidente de uma conhecida rede de magazines a respeito da forma inaceitável como se cuida do dinheiro público, em óbvia referência não apenas ao uso e abuso de passagens aéreas por parlamentares, parentes e adjacentes, mas a todo o recente desfile de desmandos perpetrados nas duas casas legislativas federais.

“Os ‘equívocos’ são 10, 12, 15 casos entre quase seiscentos parlamentares, não podem ser levados como regra”, respondeu ele. Modesto na adjetivação e avaliação da quantidade de “equivocados” que tropeçam nas regras do bom manejo de verbas e recursos públicos, Temer se esqueceu de informar ao distinto público que ele também beneficiara parentes e terceiros com a cota de bilhetes que lhe cabe.

E prosseguiu, assegurando que “estamos trabalhando, o crédito de passagens acabou de ser reduzido”. Modestamente, faltou acrescentar, e esclarecer que as regras de uso dos bilhetes aéreos foram, na verdade, flexibilizadas, estendido o seu uso a praticamente qualquer pessoa, à escolha do detentor da cota.

Eis o logro nesta história retorcida de sofismas e conceitos adequados sempre e somente à conveniência de suas excelências: a cota de passagens é “para” o parlamentar, e não “do” parlamentar.

Mas tem sido tida e havida até como uma espécie de poupança, como o saldo não utilizado da cota do senador Jefferson Peres, no valor de R$ 118.651,20, que o Senado pagou à sua viúva, por decisão do então presidente do Senado, Garibaldi Alves (PMDB-RN), da qual acabou se declarando arrependido, assumindo que cometera um erro. Pelo qual pagará, é claro, o sempre gentil contribuinte brasileiro.

Os congressistas federais dão expediente em Brasília, com moradia subsidiada pelos cofres públicos, mas, diferentemente dos demais mortais, funcionários de empresas privadas ou estatais, e dos militares, mantêm residência também em suas cidades de origem.

Segundo o site Contas Abertas, foram gastos R$ 84 milhões com os passeios aéreos de nossos deputados e senadores, só em 2008, dinheiro que daria para construir um bom hospital.

Quando um militar ou funcionário de empresa é transferido para outra cidade, muda-se junto toda a família. Nenhum militar servindo em outro município é agraciado com facilidades para visitas ao seu Estado de origem.

Alguém, lançando mão da maior boa vontade possível, acredita nessa história de que os deputados e os senadores voltam semanalmente aos seus Estados para manter contato com as “bases”?

Morassem com a família em Brasília, a cidade com melhor índice de qualidade de vida entre as capitais brasileiras, nossos parlamentares poderiam trabalhar, como o fazem seus eleitores e a maioria dos mortais, de segunda a sexta-feira, dispensando-se esse inútil e caríssimo tráfego aéreo parlamentar.

Sábado, 14 Março 2009 21:00

Involução Política

Já os Brasileiros há tempos sabem que em se tratando de política, as legislaturas tendem a se superar indefinidamente no que diz respeito aos padrões éticos e à maneira como os parlamentares a praticam no dia-a-dia.

O naturalista Charles Darwin jamais imaginaria que a evolução de uma espécie pudesse se dar de maneira invertida.

Já os Brasileiros há tempos sabem que em se tratando de política, as legislaturas tendem a se superar indefinidamente no que diz respeito aos padrões éticos e à maneira como os parlamentares a praticam no dia-a-dia.

Com isso haverão de concordar os senadores petistas Aloizio Mercadante (SP) e Ideli Salvatti (SC), a aguerrida defensora do governo na Câmara Alta, que foi preterida na escolha para ocupar a importante Comissão de Infraestrutura do Senado, abocanhada pelo experiente (segundo o colega de partido e ministro das relações Institucionais, José Múcio Monteiro, do PTB de Pernambuco) senador Fernando Collor de Melo (PTB-AL). Com efeito, nenhum outro político da Nova República jamais passou pela experiência de sofrer um processo de impeachment- e Lula, mais sortudo e politicamente muitíssimo mais hábil, escapou por pouco de igual destino.

Mas, os tempos são outros e, como disse o presidente da República, naquela referência ao terrorista Cesare Battisti "Isso foi há muito tempo, ele hoje é outra pessoa", o Collor de hoje não é mais aquele que cometeu a torpeza, na campanha eleitoral de 1989, de comprar o depoimento da ex-namorada de seu oponente, no qual ela afirmou que ele a teria pressionado para abortar a filha (que, afinal, viria a nascer), acabando com suas chances de chegar à presidência.

A mágoa de Lula, no entanto, haverá de se ter dissolvido na sua ânsia por cada vez mais apoio, como se o tanto que até aqui angariou à custa de toneladas de cargos públicos e favores políticos não lhe fosse suficiente. Mas, dada a qualidade desses apoios, talvez não seja mesmo.

O Senado, agora, com José Sarney na sua presidência, Renan Calheiros politicamente reabilitado, e Fernando Collor de Melo na presidência da Comissão de Infraestrutura, tornou-se insuperável. Evoluiu sob o ponto de vista darwiniano da adaptação – no caso, aos costumes-, e vale lembrar ninguém se amoldou melhor ao mercantilismo na política do que Luiz Inácio da Silva.

E na selva do Congresso Nacional, onde as figuras mais frondosas são as melhor versadas na arte de aplicar rasteiras aos adversários, Mercadante e Ideli acabaram provando o próprio veneno.

Desapontados, mas não indignados o bastante para reclamar em voz alta do lavar de mãos presidencial, os petistas a cada dia conhecem melhor o ex-metalúrgico que sempre carregou e ampliou o prestígio do partido, do qual soube dissociar sua figura sempre que escândalos bateram à porta da agremiação.

Hoje em dia, Lula raramente pronuncia o nome do Partido dos Trabalhadores. Ele se tornou uma griffe política, adepto somente de si mesmo.

Dizer isto pode soar a heresia, mas lá vai: Com 84%, por enquanto, de popularidade, Luiz Inácio da Silva é um solitário autorreferido, como todos os que buscam, sempre em vão, a aprovação geral a qualquer custo.

Sábado, 07 Fevereiro 2009 21:00

Tragédias Triviais

Quando eclodiu a recente guerra entre o Hamas e Israel, na Faixa de Gaza, as atenções se dividiam entre a transição de governo nos Estados Unidos e a crise econômica mundial.

Quando eclodiu a recente guerra entre o Hamas e Israel, na Faixa de Gaza, as atenções se dividiam entre a transição de governo nos Estados Unidos e a crise econômica mundial.

Por algum tempo, essas questões foram abafadas pelas atrocidades do conflito, que acabou com mais de mil vidas. Mas não pelas tragédias silenciosas que ocupam, quando muito, pequenas notas de canto de página nos jornais.

É claro que, de certo ponto de vista, não faz muito sentido comparar os saldos de mortos de guerras ou de catástrofes naturais.

É difícil pôr em palavras esta impressão: mil mortos ou dez mil são igualmente tragédias; como falar em quantidade de dor ou de sofrimento? Ou na forma como as pessoas morrem? Não no tocante à crueldade, à duração da agonia, mas ao motivo em si.

Todos os dias, só na África, morrem de malária duas mil crianças; uma doença perfeitamente tratável e possível de se evitar. São 730 mil por ano, mas o número não causa aflição nem atrai a atenção mundial. No entanto, se um avião com 200 pessoas cai, a tragédia é anunciada com todo o alarde durante um bom tempo.

Então, nos acostumamos às tragédias. Se o conflito em Gaza se estendesse por vários anos, como a guerra no Iraque ou no Afeganistão, deixaria de ser manchete, e tanto faria se fossem duas mil, ou cem mil, as vítimas fatais. Afinal, existe algo mais trivial do que a explosão de carros-bomba no Iraque, no Paquistão ou no Afeganistão?

Bem, na verdade há, sim, aquelas duas mil crianças que morrem diariamente de malária e tantas outras que perecem pela mais banal das doenças: a fome. Segundo o último relatório da ONU, são cerca de 5,2 milhões de crianças que morrem de desnutrição e causas correlatas anualmente. Como se vê, a quantidade de vítimas de tragédias é relativa; pequena ou grande, só emociona se for novidade.

Até o presidente Lula, que não falava em outra coisa durante o seu primeiro mandato, esqueceu o assunto. A ONU anunciou que a quantidade de vítimas da fome no mundo chegou a estimados 963 milhões atualmente; um bilhão, em números redondos.

Como a crise financeira causou a redução da ajuda internacional, pode-se esperar o aumento deste número, que deveria se reduzir à metade até 2015.

Segundo a ONU, bastariam US$ 30 bilhões por ano para dobrar a produção de alimentos e eliminar a fome. Pouco, comparados aos gastos em armamentos, aos subsídios a agricultores dos países ricos, ao custo das guerras, ou aos trilhões sugados por bancos e indústrias no olho do furacão da crise econômica.

Poderíamos, talvez até impunemente, jogar toda a culpa nos governos, mas se nada muda é, principalmente, porque não protestamos com veemência suficiente. É isso que faz com que tragédias pareçam relativas – como a do aquecimento global, ao qual nos acostumamos e agora é tida como irreversível-, com que deem vez à seguinte e assim por diante.

Até que uma delas nos toque, ou a um parente, a um amigo.

Domingo, 25 Janeiro 2009 21:00

Generosidade à Brasileira

Lula, como de costume, simplificou a questão à sua insuperável maneira: “O Brasil é generoso e Battisti foi sentenciado por crime antigo”.

As pessoas estão indignadas com a atitude do ministro da Justiça Tarso Genro conceder asilo político ao terrorista italiano Cesare Battisti – na prática, a absolvição de um homicida condenado à prisão perpétua por quatro covardes assassinatos, que já cumprira pena por roubo em, 1974.

Fernando Gabeira, em entrevista ao repórter Carlos Marchi, do Estadão, em 30 de dezembro de 2007, condenou o sequestro ao embaixador americano Charles Elbrick, do qual participou quando integrava a luta armada: “Hoje eu considero o sequestro uma forma de luta abominável, um desrespeito à lei e aos direitos humanos da pessoa sequestrada, da sua família, seus amigos. Hoje eu vejo o seqüestro com os olhos da Ingrid Bettancourt. Eu participei de um seqüestro na década dos 60 e hoje integrao um comitê que tenta libertar Ingrid. Eu concluí que não há situação política que justifique um sequestro. A explicação política do sequestro é que os fins justificam os meios. Essa justificativa é a mesma que conduziu os partidos de esquerda a seus erros mais profundos”.

No entanto, nem todos os ex-insurgentes brasileiros daquela época evoluíram na mesma medida, o que em boa parte explica o comportamento revanchista dos que não conseguem dar aqueles acontecimentos por encerrados. Talvez seja o caso do ministro da Justiça, cuja decisão monocrática, autoritária, foi avalizada pelo presidente da República. Ou, quem sabe, a decisão tenha sido fruto de cálculo político do ministro, que deverá se candidatar ao governo do Rio Grande do Sul. Quanto mais polêmicas criar, mais visibilidade terá.

Lula, como de costume, simplificou a questão à sua insuperável maneira: “O Brasil é generoso e Battisti foi sentenciado por crime antigo”. "Quem o acusou nem existe mais para ser comprovada a veracidade do fato. Passado tanto tempo, ele já é outra pessoa, é um escritor”. Um primor de reducionismo da parte do presidente, que teria dito a interlocutores que “não sabia nada sobre o ex-integrante do grupo Proletários Armados pelo Comunismo (PAC) até dezembro”.

A facilidade com que Lula e alguns de seus ministros torcem a verdade em favor de suas conveniências não assombra mais ninguém nesse País onde o patrimônio de felonias de políticos e outras figuras é exposto sem a menor cerimônia e pudor, dada a naturalidade e frequência com que são praticadas.

Toda a barbárie praticada por ambos os lados na luta armada no Brasil é deplorável e injustificável. Nem na guerra, que é a continuação da política por outros meios, se admite o assassinato de inocentes. A Itália ao tempo de Battisti não estava em guerra e era, como hoje, uma democracia.

A base destas regras é um sentimento que os psicopatas não têm: empatia, um termo às vezes mal empregado, confundido com simpatia. Significa se colocar no lugar do outro. Simples assim. 

Domingo, 14 Dezembro 2008 21:00

Maranhão, Construindo Dignidade

Como fazer obras e prover serviços é apenas cumprir com as obrigações, a propaganda de governo fora das hipóteses acima deveria ser proibida.

O governo do Estado do Maranhão, administrado por Jackson Lago (PDT-MA), cujo mandato está sob risco de cassação, fez publicar, até agora, três anúncios coloridos de meia página no jornal O Estado de São Paulo, um veículo publicitário caro, que circula majoritariamente no sudeste do Brasil, 94% na capital e interior e apenas 6% nas demais regiões do País.

Segundo a tabela do jornal, a veiculação de meia página no primeiro caderno, em dias de semana, custa R$ 137.498. Supondo-se que os anúncios tenham sido publicados somente neste jornal e apenas três vezes, o inútil gasto terá sido de quase 412 mil reais. O exemplo acabado de mau uso de recursos públicos.

Na peça, sob o estranho título “Maranhão construindo dignidade” o executivo maranhense divulga suas realizações, obras, serviços sociais, enfim, nada mais do que a sua obrigação. Ainda que esse tipo de propaganda fosse admissível, não interessa ao leitor do sudeste; deveria ser dirigida somente aos beneficiários das obras e serviços, os maranhenses.

Nem a mais fértil imaginação haverá de encontrar uma razão plausível para tal desperdício de dinheiro público, especialmente em um Estado tão carente de recursos. A única finalidade admissível para a veiculação de anúncios governamentais em outros Estados é a de promoção do turismo.

Em quantos outros veículos inadequados esse anúncio terá sido veiculado? A publicidade paga de governos, com exceção de campanhas de utilidade pública ou para a promoção do turismo, é totalmente despropositada e dispensável, porque obras públicas não precisam ser alardeadas. A população, auferindo os benefícios de ações e empreendimentos corretos, saberá avaliar o que foi feito de bom.

Como fazer obras e prover serviços é apenas cumprir com as obrigações, a propaganda de governo fora das hipóteses acima deveria ser proibida, tapando-se, assim, mais um dos inumeráveis ralos por onde escoa, inutilmente, considerável parcela dos sempre escassos recursos públicos.

Terça, 18 Novembro 2008 21:00

Teimosia (in)Conveniente

Quando se manifesta de maneira inconveniente a fim de perpetuar conveniências, o presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP), escancara a sua falta de estatura para ocupar tal cargo.

Quando se manifesta de maneira inconveniente a fim de perpetuar conveniências, o presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP), escancara a sua falta de estatura para ocupar tal cargo.

Criticado – e não advertido, como poderia ter sido – pelo presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Carlos Ayres Britto, pela demora (leia-se resistência) em cumprir a decisão daquela Corte de declarar a perda do mandato do deputado Walter Britto (PRB-PB), Chinaglia retrucou da forma mais pueril possível, dizendo que poderia mostrar casos de lentidão no julgamento de processos no Tribunal.

Não obstante a má-criação do presidente da Câmara, a quem não cai bem esse tipo de comportamento, o Judiciário é lento porque sobrecarregado, enquanto o Congresso ajusta o compasso conforme o interesse. Além do mais, vai sem dizer, decisão judicial não se discute, cumpre-se ou dela se recorre quando possível.

Mas a ordem judicial é velha de oito de setembro, logo, razão assiste ao ministro do TSE, e não ao arrogante presidente da Câmara, que, como Britto, não preside o Poder Legislativo, mas apenas a Câmara dos Deputados.


"Quero dizer ao ministro Ayres Britto que sua excelência não preside um Poder, sua excelência preside o Tribunal Superior Eleitoral. Aqui, presidimos um Poder. Se eu quiser cobrar publicamente do ministro Ayres Britto processos em que sua excelência ficou determinado tempo sem deliberar, posso fazê-lo publicamente também", afirmou, no plenário. "Quero pedir à sua excelência que se contenha, não me faça cobrança pública, porque senão serei obrigado a mudar de atitude e fazer cobrança pública de sua excelência especificamente." "Então, estou dando um recado claro: vamos manter a relação entre os Poderes e com quem tem o poder de representar cada um deles”.

Não poderia ter sido mais descortês, nem mais impreciso...

O TSE não está interferindo no Legislativo, como tenta inutilmente insinuar Chinaglia. O Tribunal apenas faz com que as leis, muitas delas tantas vezes esquecidas por aqueles que as fazem, sejam cumpridas.

Demonstrações de “força” deste tipo têm efeito contrário, ou, no mínimo, colateral porque fortes são os que jogam conforme as regras estabelecidas, sem subterfúgios.

O ministro Carlos Ayres Britto, adepto de comportamentos mais sóbrios, disse, com generosidade, que leu e releu as reportagens e não viu nada que possa ser classificado como desrespeitoso, e sai do episódio engrandecido. E Chinaglia, com aquela extemporânea rebeldia adolescente, menor do que entrou.

Segunda, 13 Outubro 2008 21:00

O Brasil na Crise Econômica

Se as exportações para os EUA, Europa e Japão caírem, o Brasil estará em situação menos confortável para enfrentar a crise.

Comentando as gigantescas perdas no mercado de câmbio sofridas pela Sadia (da família de seu ex-ministro Luiz Fernando Furlan) e Aracruz Celulose, grandes exportadoras, o presidente Lula se equivocou ao dizer que elas especularam contra o real. Na verdade, as duas empresas – e talvez outras mais – apostaram na queda do dólar, e não da moeda brasileira. Venderam dólar futuro acreditando na sua baixa, e se deram mal.

Lula tem alguma razão, porém, quando diz que as perdas devem ser creditadas à especulação, e não à crise financeira mundial. Houve imprudência na tentativa de ganhar algo a mais nas operações – normais – de “hedge”, ou proteção contra flutuações cambiais, embora tenha sido a crise, sim, o fator que fez a moeda americana valorizar-se.

A aventura finaceira da Sadia e da Aracruz, que lhes causou prejuízos de RS 760 milhões e R$ 1,95 bilhão respectivamente, no entanto, diz respeito somente a seus acionistas.

Mais que imprecar contra aventureiros do mercado, que, aliás, entraram nesta fria porque acreditaram na força do real – e do País -, cabe ao governo manter a independência de fato do Banco Central e recomendar a seu ministro da Fazenda, Guido Mantega, uma proverbial frugalidade em declarações acerca da economia.

A crise será de longa duração e não foi causada exlusivamente por bancos de investimento americanos. Na Inglaterra e Espanha, por exemplo, o mercado imobiliário apresentava sinais de saturação há quase um ano. Jornais ingleses informaram que bancos recomendavam aos postulantes a linhas de crédito hipotecárias que informassem, nas propostas, renda maior do que realmente auferiam.

A União Européia estuda, com grandes divergências, a adoção de um pacote de 300 bilhões de euros para salvar instituições em dificuldades. Terá de jogar dinheiro no mercado em meio à inflação crescente. No Japão, a situação não é de causar inveja. O Estado da Califórnia, por conta da escassez de crédito na praça, pediu ao Tesouro um aporte de US$ 7 bilhões, para o pagamento de despesas ordinárias. Por aí se vê o tamanho da encrenca.

O governo age corretamente ao prover linhas de crédito para empresas brasileiras, mas convém pensar na contenção de gastos públicos, mais difícil agora, com aumentos de salário escalonados para o funcionalismo público acima da inflação, que surpreenderam até membros do governo, os quais consideraram-nos exagerados. Afinal, o próprio Ministério do Planejamento propusera uma lei, em 2007, para limitar o aumento dos gastos de pessoal a 1,5% ao ano acima da inflação.

A projeção de gastos com pessoal nos próximos três anos é de 23,1% acima da inflação estimada, embora o limite proposto fosse de 4,6%. O entanto, se a arrecadação de impostos parar de crescer ou cair, será difícil fazer face a estas despesas já contratadas sem sacrificar a prestação dos serviços públicos, o que equivaleria a transferir aos mais necessitados o ônus da crise mundial.

Vale lembrar que há sessenta anos o Brasil exportava 2% do total mundial; hoje, com todo o esforço feito até aqui, exporta pouco mais de 1,1%.

Se as exportações para os EUA, Europa e Japão caírem, o Brasil estará em situação menos confortável para enfrentar a crise.

Embora se possa afirmar que a situação do País situação por ora é tranqüila, o atual estado de serenidade seria muito mais duradouro se houvéssemos feito as reformas tributária e política. Algo que um governante com a estrondosa popularidade de Lula não poderia ter deixado escapar.

Terça, 23 Setembro 2008 21:00

O Sub-Prime do Petróleo

Pouco se tem dito a respeito da extração de petróleo das areias betuminosas do Canadá, talvez a prática extrativa mais agressiva ao meio ambiente dentre as inúmeras que maltratam nosso planeta.

Pouco se tem dito a respeito da extração de petróleo das areias betuminosas do Canadá, talvez a prática extrativa mais agressiva ao meio ambiente dentre as inúmeras que maltratam nosso planeta.

As reservas petrolíferas de Alberta, no Canadá, são seis vezes maiores que as da Arábia Saudita, mas a sua prospecção e o processo de retirada do óleo impregnado em areia são caros, demandam enormes quantidades de água e gás natural. Nada disso, no entanto, impede a atividade frenética que se desenvolve incessantemente, até sob o rigoroso inverno da região (as temperaturas chegam a -40º C), cujos índios usavam o óleo para impermeabilizar suas embarcações.

O custo de extração do hidrocarboneto ali é estimado em cerca de US$ 27 por barril, e só a Shell, pretende processar 500 mil barris diários, de um total de 1.200, incessantemente, por até 50 anos. Ainda que a tecnologia atual só permita à industria retirar dez por cento do petróleo das areias de Atabasca, a região produz atualmente mais que o Kuwait. O trabalho, extremamente árduo e sujo, é feito por hordas de imigrantes de várias partes do mundo.

Os moradores da cidade de Fort Mac Murray já pagam o preço da maldição do petróleo, com altos índices de alcoolismo, prostituição, depressão, tráfico de drogas e ouros males. A chuva ácida resultante das atividades vai destruindo a vegetação e incontáveis árvores. Grandes lagos artificiais com água altamente envenenada por hidrocarbonetos carcinogênicos e metais pesados completam o cenário pré-apocalíptico.

Não obstante o perigo ambiental esta modalidade de exploração de petróleo esconde também um nada desprezível risco econômico. É o que revela reportagem de 17 de setembro do jornal inglês The Guardian.Segundo o diário, a indústria petrolífera pode estar à beira de uma crise equivalente à das hipotecas, o chamado sub-prime, que assola os Estados Unidos e já contamina as economias européia e japonesa.

As empresas Shell e British Petroleum (BP) foram alertadas por investidores que seu envolvimento em processos de produção de hidrocarbonetos como o que desenvolvem no Canadá pode desencadear uma crise tão grave quanto a do mercado imobiliário americano.

A reportagem se baseia em um relatório de autoria do Fórum de Investimentos Sociais do Reino Unido em co-autoria com o Greenpeace, intitulado “BP e Shell, crescentes riscos financeiros dos investimentos em areias betuminosas”.

À medida que muitas empresas estrangeiras são expulsas da Venezuela e da Rússia, aumenta o olho grande sobre as reservas canadenses, inclusive sob o argumento de o país ser politicamente estável, próximo dos EUA e confiável.

A crise bancária demonstrou a facilidade que os operadores do mercado financeiro têm de cometer erros de avaliação dos riscos que costumam rondar a economia mundial. A Shell e a BP são duas das empresas mais bem conceituadas no mercado acionário. A Shell, no entanto, tem trinta por cento de suas reservas petrolíferas em areias betuminosas, o que representa um risco nada desprezível quando os custos desta modalidade de extração crescem e os preços do petróleo caem abaixo de noventa dólares – um alerta para o Brasil, que comemora efusiva e exageradamente as descobertas do pré-sal.

Estima-se que as areias canadenses contenham 180 bilhões de barris de óleo, e os ambientalistas alertam para o fato de a conversão de betume em óleo cru sintético contribuir entre três e cinco vezes mais para o efeito estufa do que as formas tradicionais de prospecção de petróleo. Para se ter uma idéia, o processo de conversão de um barril de areia betuminosa em petróleo sintético para uso em refinarias comuns consome 14 m³ de gás natural e grandes quantidades de água.

A Shell e outras empresas do ramo alegam poder reduzir substancialmente as emissões de carbono resultantes da atividade através de técnicas de seqüestro de carbono – uma tecnologia muito cara.

A Rede para a Conservação da Natureza (WWF) observa que estas formas de prospecção de hidrocarbonetos poderão levar o mundo a um processo irreversível de mudanças climáticas.

Se a economia mundial recuperar-se rapidamente da crise atual a demanda crescente por energia redundará na continuidade e ampliação de novas e perigosas formas de obtenção de hidrocarbonetos, presentes em grande quantidade também sob o leito submarino do Ártico.

Mas este velho mundo sempre colocou os interesses político-econômicos à frente de muitas questões cruciais para a humanidade, e não há sinais de mudanças no horizonte.

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