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Carlos H. Studart

Carlos H. Studart

Jornalista, professor universitário e pesquisador em História Política Brasileira. Como jornalista, foi repórter, editor ou colunista de veículos como Jornal do Brasil, O Estado de S. Paulo, revista Veja, Folha de São Paulo, Imprensa e Manchete. Atualmente é colunista editor em Brasília da revista Isto É Dinheiro. Especializou-se como historiador em questões militares partidos revolucionários.

Sexta, 03 Março 2006 21:00

Guerrilheiros Contra os Gastos

Eles vasculham as contas do governo para apontar barbaridades que se fazem com dinheiro público.

Eles são poucos, trabalham como voluntários nas horas vagas, não têm escritório fixo, usam senhas emprestadas – mas fazem estrago na imagem do governo. É a turma do site Contas Abertas, cujo objetivo é vasculhar os gastos públicos no sistema de acompanhamento financeiro do Ministério do Planejamento, o Siafi. Foi essa turma que descobriu que o presidente Lula assumiu comprando um Omega australiano e toalhas de linho. Analisando os números do Siafi, descobriram que a primeira prestação do Aerolula representou 75% de todos os investimentos do País até então. Eles também mostraram que o programa Primeiro Emprego completara um ano com um único beneficiado. Uma das descobertar recentes foi de que o Palácio do Planalto estava usando cartões de crédito para sacar dinheiro. Dias atrás constataram que os gastos do INSS com auxílio doença em 2005 foram de R$ 13,5 bilhões, mais do que todos os investimentos públicos.

"É uma guerrilha permanente contra os gastos", diz o presidente da ONG, deputado Augusto Carvalho, do PPS. "Essa turma colou no Lula a imagem de que gasta muito com o supérfluo", avalia o deputado Eduardo Paes, do PSDB. O Siafi é um labirinto com 70 milhões de registros sobre todos os gastos da União desde 1987. Há cerca de 6 mil senhas de acesso, mas apenas dez "siafeiros" navegam bem pelas entranhas do sistema. Essa guerrilha começou no final do governo Fernando Collor, quando o deputado Augusto entregou sua senha no Siafi ao economista Gil Castelo Branco, para que vasculhasse irregularidades. "Desde então, já derrubamos mais de 30 autoridades", diz Gil. Nos governos FHC, eles descobriram que o presidente usava o Fundo Social de Emergência para comprar goiabada cascão e ovos de codorna. "Esse pessoal infernizou minha vida", diz FHC. O primeiro ano com Lula foi de trégua. Mas em 2004 Carvalho recrutou um pequeno grupo de jovens para auxiliar Gil. Desde então já provocaram 43 manchetes nos grandes jornais do País. Em dezembro, arrumaram patrocínio de R$ 8 mil mensais, fundaram a ONG Contas Abertas. Agora estão buscando convênios com entidades empresariais. Diz Carvalho: "Nosso papel é popularizar o acesso aos números".

 
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Segunda, 23 Janeiro 2006 21:00

O Cerco a Meirelles

Líderes do PT querem a cabeça do presidente do Banco Central. E Lula começa a ouvi-los.Com Leonardo Attuch

Eram 13h20 da terça-feira 3. Lula havia acabado de se reunir com vários assessores para discutir o plano de obras para 2006. Terminado o encontro, Lula puxou pelo braço o economista Guido Mantega, presidente do BNDES, e disse que queria ficar a sós com ele. Os dois se trancaram por uma hora no gabinete presidencial. “Já dá para acelerar a queda dos juros”, disse Mantega. O presidente do BNDES argumentou que é possível promover cortes de 1 ou 1,5 ponto a cada reunião do Comitê de Política Monetária. “E a inflação?”, retrucou Lula. “Está controlada”. Segundo Mantega, como o IGP-M do ano passado foi o menor da história, de só 1,21%, a perspectiva de inflação alta em 2006 é remota – tal índice reajusta as tarifas. Lula gostou do que ouviu e conversas assim têm sido freqüentes no Planalto. Não só com economistas, como Mantega, mas também com os novos generais que devem comandar a campanha de Lula à reeleição em 2006.

“O presidente sabe que para se reeleger terá que gerar crescimento forte”, disse à DINHEIRO Tarso Genro, que irá coordenar a candidatura petista. “Os juros vão cair mais rápido por uma razão simples: Lula quer ganhar”, avalia Valter Pomar, da Executiva Nacional do PT. “A idéia não é mudar as pessoas, a menos que seja necessário”, diz ele. O principal alvo é Henrique Meirelles, presidente do Banco Central. Isso porque o ministro Antônio Palocci é disciplinado e fará o que o presidente decidir. Meirelles, porém, é menos flexível. Por isso, o nome de Mantega já começou a circular como alternativa para o BC. “Ele nunca esteve tão bem”, diz uma autoridade palaciana. A seu lado, estão a ministra Dilma Rousseff e toda nova direção do PT. Eles argumentam que se o governo não der uma guinada à esquerda, Lula não terá discurso de campanha. Também sugerem a Lula que entregue a cabeça de alguém para sinalizar à militância que o governo mudou.

Palocci, por outro lado, está prometendo a Lula crescimento de 5% este ano – e toda verba para obras que os ministérios conseguirem gastar, até o limite de 4,25% do PIB. Lula ainda demonstra dúvidas para qual lado pender e há um complicador. No fim do ano passado, Lula chamou Meirelles para uma reunião e lhe pediu que não se filiasse a nenhum partido. Meirelles, que cogitava lançar-se ao governo de Goiás, acatou. “Substituí-lo seria uma traição”, diz um amigo do presidente do BC. Até abril, Lula terá de definir se será ou não candidato. “Nós fomos claros e dissemos que ele só mobilizará as bases se mudar a economia”, diz Raul Pont, secretário-geral do PT. No fim da semana passada, Meirelles embarcou para a a Suíça, para um encontro de presidentes de bancos centrais. Mantega saiu de férias e foi para Comandatuba, na Bahia. Dentro de alguns dias, ficará claro o caminho escolhido por Lula.
Quinta, 27 Outubro 2005 21:00

O Duelo das Pistolas

Por que o governo brasileiro está trocando as armas Taurus pelas austríacas GlockO caso já está sendo chamado pelas raras autoridades de Brasília de "o duelo das pistolas". Envolve a Taurus, indústria brasileira que conquistou um terço do mercado de armas leves dos Estados Unidos, e a Glock, da Áustria, fábrica de pistolas que mais cresce no mundo graças a uma agressiva política de merchandising.

Lançada em 1982, a Glock logo se tornou um ícone de poder entre terroristas e bandidos - mas também a arma predileta dos policiais que os combatem. Isso porque é fabricada em polímero, um plástico especial que, rege o mito, permitiria atravessar o raio X dos aeroportos e o detector de metais dos bancos. Na ficção, o agente James Bond deve empunhar uma Glock em seu próximo filme. O austríaco Arnold Schwarzenegger, no clímax de Fim dos Dias, declama: "Só confio em Deus e na minha Glock". Tommy Lee Jones, em O Fugitivo, vai mais longe no duelo pelo mercado e obriga seu parceiro a jogar uma Taurus no lixo. É o que decidiu fazer o Gabinete de Segurança Institucional do Palácio do Planalto, o GSI, comandando pelo general Armando Félix. Os agentes de segurança do presidente Lula começaram a trocar a Taurus nacional, modelo 92, pela Glock austríaca, modelo 19. O primeiro carregamento, com 88 pistolas, já chegou. Mais 80 armas devem chegar nos próximos dias, para delírio dos agentes secretos. O próximo lance do duelo envolve cifrões.

Neste momento, a Glock tenta obter autorização do Exército para fabricar pistolas no Brasil. A Taurus, por sua vez, prepara-se para abandonar de vez o País e instalar toda sua linha de produção na filial de Miami, nos Estados Unidos.

O plano da Glock é usar o Brasil como base de produção e exportação para América Latina, África e parte da Ásia, especialmente a China. Isso porque a legislação da União Européia, da qual a Áustria faz parte, não permite vender armamentos para países em conflito. Esses mercados seriam deixados para a futura filial brasileira. Além disso, há o mercado interno, onde a Glock pode vender para as Forças Armadas (250 mil homens), polícias militares nos Estados (900 mil homens) e para os guardas de segurança privados (mais de 1 milhão, e crescendo).

"Está tudo pronto, podemos iniciar o processo de produção em setembro", anuncia Luís Antônio Horta, diretor-geral da Glock Americas, instalada no Uruguai, e presidente da Glock do Brasil. Ele aguarda apenas uma autorização do Exército. O projeto é ambicioso. Já foram investidos US$ 2 milhões. Isso dá para importar as partes da matriz e montar as pistolas num galpão nas imediações de Campinas. Seriam fabricadas 10 mil pistolas no primeiro ano, oferecidas a preço médio de US$ 600 cada. Só a América Latina compra mais de 25 mil Glock por ano. Num período de sete anos, diz Horta, a produção de 250 mil pistolas com índice de nacionalização de 95% deve movimentar US$ 350 milhões. "A indústria no Brasil será mais moderna do que a da matriz na Áustria", promete Horta.

Ao saber dos planos austríacos, o presidente da Taurus, Carlos Murgel, ficou desconcertado. Ele foi procurado recentemente pelo dono de uma grande indústria bélica nacional. O industrial queria cooptá-lo para entrar no lobby contra a campanha de desarmamento do governo. Murgel era um poço de mágoas. Reclamou da decisão da segurança de Lula de trocar Taurus por Glock. "É o que faltava para nos destruirem em casa", disse. Murgel lembrou que mais de 90% dos negócios da Taurus estão nos Estados Unidos - a empresa vendeu mais de 100 mil armas por lá em 2004 e 7 mil no Brasil por causa da campanha do desarmamento. Revelou, por fim, que decidira fechar a fábrica no País e se mudar de vez para Miami. O colega empresário tentou convence-lo resistir. "Quero mais é que o Brasil se dane", teria dito um exaltado Murgel. "Acabou!". Procurado por DINHEIRO, Murgel avisou que não vai se pronunciar. "Nunca pensei que a Glock fosse tão respeitada pelos concorrentes", ironiza Horta, que é brasileiro. "Esperávamos competir pelo mercado, jamais imaginei que a Taurus fosse fugir antes do duelo começar". Uma autoridade militar diz que o duelo não está resolvido. Ainda são fortes as pressões da indústria bélica nacional para que o Exército vete a entrada dos austríacos.
Sábado, 09 Abril 2005 21:00

João de Deus

O pontífice foi o líder mais fotografado do século. mesmo alquebrado pela série de doenças que o acometeu, não perdeu a aura do “papa pop”.

Sábado, 21 Agosto 2004 21:00

Custo da Presidência

O gasto do gabinete de Lula subiu 150% desde a posse. Motivo: excesso de assessores e de burocracia

Terça, 29 Junho 2004 21:00

Onde Viegas Errou

Como o ministro da Defesa tentou influir na disputa bilionária da FAB e perdeu o apoio dos militares.


Primeiro ele foi afastado do processo de licitação para a compra de 12 caças para a Força Aérea. O presidente Lula já informou a interlocutores que só volta a debater o assunto quando tiver um novo ministro da Defesa. Ele também foi tirado da gestão de R$ 163 milhões para compra de equipamentos para o Sivam. O tema será resolvido diretamente com o Comando da Aeronáutica. São tão fortes os sinais de que o diplomata José Viegas está sendo ejetado do Ministério da Defesa, que ele enviou um emissário de confiança para pedir uma nota de desagravo aos três comandantes militares. O da Aeronáutica, brigadeiro Luiz Carlos Bueno, desconversou. Na Marinha, o almirante Roberto Carvalho, respondeu: “Não é o momento oportuno”. O comandante do Exército, general Francisco Roberto de Albuquerque, convocou uma reunião do alto comando para discutir a atuação de Viegas à frente das tropas. Em determinado momento, de acordo com um general presente à reunião, Albuquerque desabafou: “Esse sujeito não tem mais condições de ser nosso ministro”.

Preocupado com a rebelião em curso, dias atrás o presidente Lula chamou os três comandantes para jantar no Palácio da Alvorada. Viegas não foi convidado. Lula tentou contemporizar. “Esqueçam ele; quando precisarem, falem direto comigo”, disse o presidente.

Neste momento Lula tenta encontrar uma saída honrosa para José Viegas. Pode enviá-lo em breve para a embaixada em Roma ou para a missão da Organização Mundial do Comércio em Genebra. “Ele tem que ir para um posto importante para não cair na carreira”, disse Lula a um interlocutor. “Não posso desprestigiá-lo”. Outra idéia é mantê-lo no cargo, sem poderes, até a reforma ministerial planejada para depois das eleições de outubro. O fato é que José Viegas ainda está ministro de direito, mas já não é de fato o ministro da Defesa. Cometeu uma série de erros nos últimos meses que minaram sua liderança junto à tropa. Um deles foi fazer uma reforma de R$ 400 mil numa casa oficial na Península dos Ministros, tomada do chefe do Estado Maior da Aeronáutica. Mas sua cabeça foi posta na guilhotina por outro motivo. Viegas trombou com o círculo íntimo do poder na condução do projeto FX, a licitação internacional para a compra dos caças da FAB. A primeira encomenda, de 12 supersônicos, vai custar US$ 700 milhões. Com os armamentos, a compra chega a US$ 1,2 bilhão. Depois virão mais 12 caças – e seus armamentos.

No total serão gastos US$ 2,3 bilhões, ou mais de R$ 7 bilhões. Ex-embaixador em Moscou, Viegas vinha defendendo a compra do avião russo Sukhoi 35, em detrimento da Embraer, que propõe montar no Brasil o francês Mirage 2000. Em meados de março, Viegas começou a pressionar o presidente a fechar com os russos. As pressões aumentaram em abril para que Lula convocasse logo o Conselho de Defesa Nacional, instância que oficialmente decidirá a licitação. Um pouco antes de viajar para a China, em meados de maio, Lula afastou Viegas do processo. “O presidente ficou furioso com a forma com que ele forçou a barra”, relata um dos membros do Conselho.

Lula entregou a condução do projeto FX para os ministros Antônio Palocci, da Fazenda, e Luiz Gushiken, da Comunicação de Governo e Gestão Estratégica. Ambos estariam defendendo a vitória da Embraer. José Dirceu, da Casa Civil, já teve voz ativa no assunto. Dias atrás foi procurado pelo representante de uma das indústrias concorrentes. “Desse assunto, tô fora”, disse. Dois outros ministros também têm vozes ativas no processo. Um é o chanceler Celso Amorim – suas intervenções no Planalto indicam que ele pende para a Embraer. O outro é Luiz Fernando Furlan, do Desenvolvimento. Ele está com os russos por conta do pacote comercial tentador embutido na oferta do Sukhoi, o chamado off-set. Os russos comprariam do Brasil US$ 3 bilhões em produtos agrícolas, especialmente carne e frango. Também acenaram com um acordo para a transferência de tecnologia espacial, que seria utilizada na Base de Alcântara.

Foi nesse ponto que Viegas começou a se enforcar. Ele foi duas vezes a Moscou acertar detalhes da oferta espacial. O problema é que já havia um acordo similar em andamento com a Ucrânia, principal rival dos russos no lançamento de foguetes. De volta ao Brasil, Viegas começou a pressionar o ministro da Ciência e Tecnologia, Eduardo Campos, a não assinar com os ucranianos. “Não posso, isso está resolvido desde o governo Fernando Henrique”, respondeu Campos. Em paralelo, Viegas perdeu a ascendência sobre os militares. Romperam em fins de abril, num episódio sobre aumento salarial. Quando Guido Mantega anunciou que daria aumento aos funcionários públicos, Viegas disse que não havia nada previsto à tropa. Isso porque, segundo ele, os três comandantes não teriam lhe comunicado nada sobre as necessidades das legiões. Os três ficaram furiosos. Desde então os três só se comunicam com o ministro por escrito. Nos dias subseqüentes Lula embarcou para a China. Pediu para fazer uma escala técnica na Ucrânia e acertou detalhes do acordo espacial que Viegas queria fazer com os russos. Na volta começou a debater, de seu próprio jeito, para onde – e quando – vai despachar José Viegas.

CAÇAS SUPERSÔNICOS
José Viegas trabalhou para que os caças russos da Sukhoi levassem a melhor na bilionária licitação da FAB e entrou em atrito com setores do Planalto.

SEM LICITAÇÃO
R$ 1,9 milhão foi quanto o ministro pagou para contratar, sem licitação, a consultoria do amigo Antônio Bogato, da FGV. O trabalho consistia numa reengenharia das Forças Armadas.

DAMA DE COMPANHIA
A esposa Érika sentia-se só em Brasília. Viegas designou a assessora Íris Lima para lhe fazer companhia, com aumento de R$ 3,8 mil.

QUEBRA DE HIERARQUIA
30% era o aumento desejado pelos militares. José Viegas não encaminhou o pedido ao Planalto e perdeu a confiança do comando do Exército, da Marinha e da Aeronáutica.

 

Publicado originalmente no site Parlata

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