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22 Mai 2004

O Grande Torneiro

Escrito por 

Não se pode ainda prever se esta revoada cívico-econômica resultará numa “grande viagem de pequenos negócios”, como as anteriores.

Novamente o presidente Luiz Inácio viaja e desta vez para a longínqua China. O fato é cercado de grande estardalhaço na mídia, de intensa propaganda. “Vai lá, Lula, e ajuda o Brasil”, cunhou o marqueteiro para atingir a emoção do eleitorado.
Sua excelência levará consigo trezentos e sessenta e cinco empresários, oito ministros, seis governadores, um senador e nove deputados e seguirá como o Grande Torneiro, o governante brasileiro de esquerda capaz de encontrar em Pequim com a rapidez com quê se realiza os milagres, o impulso necessário para a melhoria da difícil situação brasileira.

Não se pode ainda prever se esta revoada cívico-econômica resultará numa “grande viagem de pequenos negócios”, como as anteriores. Contudo, como a China no ano passado foi o terceiro mais importante importador de produtos brasileiros (US$ 4,53 bilhões) depois dos Estados Unidos (US$ 16,69 bilhões) e da Argentina (US$ 4,56 bilhões), espera-se que a grandiosa visita resulte a longo ou médio prazo em algum benefício para o Brasil.
De todo modo, seria mais econômico para nós, que sustentamos através do pagamento de pesados impostos essas custosas viagens, que fossem à Pequim custeando do próprio bolso apenas empresários, e algum dos ministros. Talvez, nem mesmo a presença do ministro Furlan fosse necessária uma vez que, segundo a imprensa, ele já esteve dez vezes na China.

Considere-se ainda, que seria mais prudente não ficar alardeando o “espetáculo do crescimento” a partir do hipotético êxito comercial chinês, para novamente não inflacionar as expectativas populares que têm resultado em frustração diante do descumprimento das promessas do presidente. Quanto ao entusiasmo que cerca a estimulante viagem, que certamente terá embutida sua dose de lazer e turismo devia ser mais comedido. Afinal, não apenas o Brasil, mas fornecedores de todo o mundo disputam o mercado chinês, sendo que o sonhado acordo entre Mercosul e China esbarra na preferência do governo deste país em negociar um acordo de livre comércio com os países da Associação das Nações do Sudeste da Ásia (Asean).

Existem ainda certos detalhes que redundam em aspectos negativos para o Brasil, como o lembrado pelo embaixador chinês no Brasil, Jian Yuande, com relação ao recente embarque, para a China, de grãos de soja brasileira misturados com sementes tratadas com fungicida, o que denota desleixo comercial incompatível com o objetivo de concorrer com vendedores de todo o planeta. Naturalmente a cúpula petista que ora governa o Brasil não está interessada apenas em comercio, mas politicamente conta com o governo chinês para conseguir o tão almejado assento na ONU, onde poderá fazer coro com os antiamericanistas e anti-semitas presentes naquele organismo internacional. E há também o desejo de aproximar o Partido dos Trabalhadores do Partido Comunista Chinês. Com isso tentar-se-ia a improvável utopia de implantar no Brasil o modelo chinês que em matéria de política é comunista e na esfera econômica, capitalista.
Por isso existe cautela com relação ao melindroso tema dos direitos humanos na China. Se em Cuba o presidente Luiz Inácio se absteve de tocar no assunto, agora foi ele foi incluído como um tópico na declaração conjunta que os governos brasileiro e chinês farão. Na verdade a questão dos direitos humanos faz parte da agenda do Brasil com a China desde o governo anterior, não sendo uma novidade, porém, concretamente, naquele próspero país continuam a existir sérias violações de tais direitos.
Conforme a Anistia Internacional: “Dezenas de milhares de pessoas continuam a ser detidas ou encarceradas por exercer pacificamente seu direito à liberdade de expressão, de associação ou de crença”.

A entidade Repórteres sem Fronteiras apontou que “a pena de morte, a reeducação forçada, a tortura, o uso político da psiquiatria, a repressão a minorias éticas e religiosas e o controle sobre a Internet” ainda são graves problemas na China.  E Sara Davis, da Human Rights Watch afirmou que: “Há muitos abusos impostos aos trabalhadores. A razão mais comum de protestos de trabalhadores é a falta de pagamento. Ademais, eles não podem organizar sindicatos para defender seus direitos, e, em muitos casos, as pessoas trabalham em condições extremamente perigosas”. (Folha de S.Paulo, 21/05/04).

Esperemos, pois, que nosso “grande salto para frente”, não seja exatamente como o do Grande Timoneiro, Mao Tsé Tung. O que interessa é aprender com os chineses, competência na economia de mercado, onde ideologia não tem nada a ver com dólares. O governo brasileiro devia assimilar essa lição no caso da Alca.

Última modificação em Quarta, 30 Outubro 2013 20:29
Maria Lúcia V. Barbosa

Graduada em Sociologia e Política e Administração Pública pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e especialista em Ciência Política pela UnB. É professora da Universidade Estadual de Londrina/PR. Articulista de vários jornais e sites brasileiros. É membro da Academia de Ciências, Artes e Letras de Londrina e premiada na área acadêmica com trabalhos como "Breve Ensaio sobre o Poder" e "A Favor de Nicolau Maquiavel Florentino".
E-mail: mlucia@sercomtel.com.br

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