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15 Set 2005

Irresponsável Sensacionalismo Ambientalista da Carta Capital 3*

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A edição de 14 de setembro da Carta Capital não perdeu tempo em relacionar o furacão Katrina ao aquecimento global e a ‘deterioração do clima’. Procurando apoio para sua argumentação, a revista buscou um especialista da WWF. Sim, a mesma ong que até bem pouco tempo atrás afirmava que a Amazônia era o ‘pulmão do mundo’.

O Irresponsável Sensacionalismo Ambientalista da Carta Capital 3*

A edição de 14 de setembro da Carta Capital não perdeu tempo em relacionar o furacão Katrina ao aquecimento global e a ‘deterioração do clima’. Procurando apoio para sua argumentação, a revista buscou um especialista da WWF. Sim, a mesma ong que até bem pouco tempo atrás afirmava que a Amazônia era o ‘pulmão do mundo’. Esta ‘tese’ não foi, em realidade, uma tese, mas um erro de tradução jornalístico. O mesmo não se pode dizer da Carta, pois seus erros não são por mera desatenção.[1]

O segundo passo na receita alarmista da matéria é mostrar o mundo em crise como estando prestes a implodir, misturando diversos situações e problemas ambientais. Quanto a ondas de calor que têm fustigado a Europa, já o dissemos aqui...[2] Quando a onda de calor em 2003 levou a uma elevação da mortandade de idosos na França, no interior dos EUA com temperaturas similares, o mesmo não ocorreu por uma razão bastante simples: os americanos usam mais aparelhos de ar condicionados que os europeus. São mais ricos e menos açoitados pela influência estúpida de ‘ecologistas-melancia’ (verdes por fora, vermelhos por dentro).

Mas, na nota de rodapé da foto de uma plataforma petrolífera, a revista foi mais cuidadosa que outrora ao se meter em seara que não domina. Disse que o fenômeno climático pode ser conseqüência do chamado ‘efeito estufa’. Mesmo assim, ainda explicam mal sua hipótese ao afirmar que o ‘efeito estufa’ é o problema. Santa ignorância: o efeito estufa é natural! Cabe diferencia-lo de ‘aquecimento global’, coisa distinta, mas relacionada.

Conjecturas sem refutações

Já que a trupe de Mino Carta entende que citar cientistas lhes configura autoridade intelectual, me permitam aqui jogar seu joguinho.

Segundo Richard S. Lindzen, meteorologista do MIT, se a atmosfera fosse transparente à radiação infravermelha, ela produziria uma temperatura média na superfície de –18oC. Entretanto, como a atmosfera não é transparente ao infravermelho, a Terra deve se aquecer. A isto chamamos de efeito estufa. Graças, principalmente, às nuvens e o vapor d’água, este é o efeito estufa necessário à vida, tal como a conhecemos.

Como a atmosfera tem se tornado mais ‘opaca’ ao infravermelho, a temperatura tem aumentado proporcionalmente. Este é o chamado aumento do efeito estufa. Diferente pois, de simplesmente dizer ‘efeito estufa’.

Outro pesquisador de peso na área, Willie Soon de Harvard, compilou e analisou mais de de 200 relatórios sobre alterações climáticas produzidos nos últimos 10 anos. Além dos recentes relatórios, a equipe que dirige, formada por pesquisadores de Harvard e Delaware estudou documentos sobre assentamentos Vikings na Groenlândia de 986 d.C., variações em glaciares na Patagônia, registros isotrópicos de estalagmites da Caverna do Buda, na China etc. Segundo seus estudos, as últimas ondas de calor e frio podem corresponder a variações climáticas naturais e não a emissões de gases causadores do (suposto) aquecimento global. Segundo tais estudos, se obtém uma interessantíssima informação: o século XX não foi o mais quente do milênio.

É bom que se diga que esta afirmação contesta as conclusões do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) que afirma justamente o contrário, que o século XX foi o mais quente da história da Terra devido à atividade urbano-industrial. Aliás, como bem notou Lomborg em seu admirável O Ambientalista Cético, o IPCC sempre divulga apenas os piores cenários dentre todos que são analisados.

Por quê? Deixe-me adivinhar... Assim como notícia ruim vende mais, também consegue mais subsídio para pesquisa! E, se me permitem inferir, o ‘interesse ecológico’ de países e governos tradicionalmente corruptos têm no Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (M.D.L.), não passa de uma forma de subsidiar sua economia improdutiva ao vender créditos de carbono aos países desenvolvidos. Reciprocamente, deverão reverter o capital auferido para atividades ecológica e economicamente sustentáveis. Sei, sei em algum paraíso fiscal no Caribe é o que teremos...

Entre as contra-argumentações está a de que o IPCC tende a subestimar as variações de longo prazo, em décadas e séculos. Para afirmar isto, Soon utilizou indicadores proxy paleoclimático[3] de várias localidades. Através destes verificou uma “anomalia climática” chamada de Período Medieval Temperado (800 a 1300 d.C.), durante a qual a temperatura foi maior do que a do século XX.

E, mesmo após o aquecimento constatado durante a Idade Média, confirmou-se uma Pequena Idade do Gelo entre 1300 e 1900 d.C. O IPCC de 2001 não considerou a presença de ambos períodos em sua análise, se limitando às variações do século XX.

O Terceiro Relatório do IPC[4] sofreu pressões políticas de grupos ambientalistas aos quais muitos cientistas estão ligados, como os que se baseia a revista de Mino Carta. Mas, vozes discordantes em nome da Ciência como Soon, Lindzen e outros como Philip Stott  continuarão buscando maior solidez para concluir qualquer coisa sobre as variações climáticas globais. Quanto mais buscamos informações à respeito, mais se verifica que se trata de um campo sujeito à inúmeras controvérsias. O que não se pode admitir é que uma publicação ou revista eletrônica seja levada à sério se não contempla duas ou mais visões à respeito do mesmo assunto. Neste quesito, a Carta Capital não passa de um pasquim catastrofista que engana seus leitores. Não se cobra da revista qualquer ‘cientificidade’, mas ao menos integridade moral e coerência investigativa.

O finado e fantástico Sir Karl R. Popper estaria se revirando no túmulo se presenciasse tal ‘debate científico’ atual: o ‘jornalismo científico’ da Carta conjectura, sem nunca por à prova suas tresloucadas ilações.

Atmosfera intelectual opaca

De acordo com o atual consenso alarmista mundial, no próximo século, a temperatura média global aumentaria 1,3 graus. Inverno e verão seriam duas vezes mais quentes (!). Poderia, entretanto, haver um maior crescimento da biomassa, o qual não se sabe ao certo que conseqüências (inclusive, benéficas) traria.

O que mais impressiona nesta falta de equilíbrio e senso analítico é que gente como Mino Carta ou não percebe interesses óbvios de apologistas do caos como o ex-vice presidente Al Gore, autor de Earth in the Balance ou defende interesses análogos como o de uma maior intervenção estatal para dirimir efeitos negativos não comprovados do setor privado. Eu não posso crer que ele seja tão ingênuo...

Um mundo onde se parta do princípio da necessidade de intervenção na esfera produtiva à título de combater o aquecimento, beneficiaria estados e ideologias socialistas ou social-democratas bem ao gosto de Hillary Clinton. O socialismo travestido de movimento ambientalista encontrou nesta seara um amplo leque de opções que tem o alarmismo e a pseudo-ciência como esteios. MoveOn.org é um movimento que se enquadra perfeitamente nesta linha, que aproveitando-se da paranóia deflagrada pela película “O dia depois de amanhã” apóia o “Climate Stewardship Act” (S. 139 & H.R. 4067), uma política integrada para cortar as emissões de gases que “provocam o efeito estufa nos EUA”.

Se tal lei fosse aprovada, o custo de energia médio por residência nos EUA aumentaria USD 444,00 por ano até 2025, segundo a Energy Administration Information (EIA). Em termos reais, o PIB americano diminuiria mais de USD 500 bilhões. Isto é apenas o começo na terra da liberdade de um draconiano esquema socialista.

Mas, esta é a própria proposta de ‘capitalismo’ da Carta, subjacente em várias de suas matérias: tributar, regular e distribuir segundo ‘critérios racionais’. (Mesmo que tal ‘racionalidade’ não seja comprovada cientificamente...)

Quando se imagina que os custos estimados do Protocolo de Kyoto, caso fosse cumprido, poderiam alcançar até USD 1,5 trilhão e que é possível que o incremento de carbono na atmosfera seja natural, parece irracional não investir mais em obras de contenção contra enchentes, muito mais baratas (cerca de USD 1 bilhão ao ano)[5] Se temos um objetivo a alcançar, como evitar grandes tragédias e perdas de investimentos e capital alocado, seria sensato procurar a melhor alternativa, sem alarmismo. Não é o que propõe, no entanto, definitivamente, o irresponsável (pseudo)jornalismo da Carta Capital.

Com tal confusão nos argumentos, a verdadeira opacidade não é a da atmosfera e seus gases, mas a mente dos editores da Carta Capital.

Inversão de causa e efeito

E a matéria segue atirando para todos os lados. Tal ‘achismo’ pretende tornar mais fácil e conveniente acusar a atual tendência na alta petrolífera pela tentativa de ‘golpe de estado’ na Venezuela do que a intencional proposta de redução da oferta de óleo por Hugo Chávez. Esta sim, a verdadeira razão estrutural da alta, plagiada dos árabes em 1973. Se as forças chavistas renderam a oposição, então o que se seguiu no preço do petróleo se deve a Chávez e não a nenhum golpe, mesmo por que este não se consumou. Não é maluco imaginar que a ‘tentativa de golpe em Caracas’, frustrada segundo a própria revista seja mais significativa para a alta do barril do que a permanência do inconstitucional governo de Chávez?

Observem o gráfico utilizado na matéria da Carta:

sensacionalismo.jpg

A Guerra Irã-Iraque (1980-88) associada a “progressiva desarticulação da Opep” foi, na verdade, conseqüência da Revolução Islâmica do aiatolá Khomeini na tentativa de exporta-la para os países vizinhos. Ao contrário do que se alardeia, o ‘financiamento’ do principal opositor do Irã, o Iraque e o regime Baath de Saddam Hussein não foi feito, exclusivamente, pelos EUA, nem foram estes os maiores agenciadores de recursos. Tratou-se de uma operação que envolveu recursos de países como França, Alemanha, Itália, Reino Unido, URSS, Arábia Saudita, Japão, e até mesmo o Brasil. Mas, os imbecis antiamericanos acreditam ser obra de única e exclusiva autoria do Tio Sam. Se a operação foi moral ou imoral, justa ou injusta não nos cabe dizer neste ensaio, mas a operação em si, suas causas, desenvolvimento e conseqüências chamamos de ‘geopolítica’. E nunca foi exclusividade dos EUA no século passado, como podem crer os neófitos.

Todo déspota, seja Khomeini, Saddam ou Chávez sentados sobre um mar de petróleo só tem uma estratégia político-econômica: aumentar o preço do barril. Este é o saldo imediato de suas revoluções, meio para atingir um fim que se torna também um dos fins em si mesmo. Quando Khomeini assumiu em 1979, seu primeiro ato de política externa foi fechar o Estreito de Ormuz e, obviamente, o preço do barril subiu para mais de USD 70,00.

Quem desativou as minas submarinas fazendo o preço cair para toleráveis USD 34,00? Sim, eles mesmo, os ‘malditos’ (e invejados) yankees.

Insinuar, portanto, que foi devido a guerra posterior que o preço do barril se manteve alto é  uma mentira. Se manteve alto sim devido a influência de Khomeini.

E é mais fácil para a Carta admitir que o barril tenha ultrapassado aos USD 70,00 devido ao furacão que devido a sistemática contenção de produção por Hugo Chávez. Culpar um fenômeno natural não surtiria o efeito desejado, então tem que se responsabilizar alguém pela mudança climática. Mino Carta poderia então sugere que a responsabilidade é de George W. Bush por não assinar o Protocolo de Kyoto.

Outra contradição não percebida pelo jornalista da Carta é, como já foi inúmeras vezes dito por eles, a guerra de Bush ao Iraque era pelo petróleo, então como o preço do barril subiu imediatamente? A não ser que Mino Carta acredite que o Tio Sam invada um país com o objetivo explícito de pagar mais caro pela matéria-prima, o que é no mínimo, absurdo. Das duas, uma: ou o petróleo aumentou devido a guerra, o que é factível e, isto significa que o interesse americano no Iraque não era pelo petróleo barato (uma vez que ficou caro) ou o petróleo aumentou de preço somente por fatores externos ao conflito no Iraque contradizendo as intenções de Bush e, sendo assim a causa recai sobre a Opep e Chávez.

Ou Mino Carta admite que a guerra não foi pelo petróleo por que este se tornou mais caro ou admite que o(s) responsável(is) pela alta do petróleo correspondem a outros governos que não o de George W. Bush. Mas, pelo visto, a Carta é incapaz de concluir isto ou aquilo por pura deficiência de lógica em seu raciocínio e seu jornalismo tendencioso.

A Carta justifica que devido a alta petrolífera:

“Na França, esperava-se ver o crescimento econômico acelerar de 0,3% no primeiro trimestre para 0,5% no segundo, mas na realidade freou para 0,1%, dificultando a implantação das reformas trabalhistas liberais desejadas pelo atual governo. Por outro lado, na Alemanha isso tende a manter alto o desemprego e provavelmente favorecer a eleição de um governo conservador.”

França e Alemanha são economias engessadas devido, justamente, à legislação trabalhista que têm, assim como os programas assistencialistas que desmotivam trabalhadores a procurar emprego se desvencilhando de seus seguros. Seus governos relutam de modo anacrônico e insistentemente rejeitam, empurrando com a barriga a necessidade de cortes profundos no funcionalismo público. Isto, associado ao incremento relativo de seus idosos cria e piora uma situação que tende a insustentabilidade. Países como a Finlândia já renderam-se à necessidade de reformas ao adotarem os 75 anos como idade mínima para aposentadoria. Logo, logo chegará a vez das locomotivas da União Européia.

Antonio Luiz Monteiro Coelho da Costa, autor da matéria, parte da equivocada premissa que não é o liberalismo econômico e a eficiência administrativa do setor público que levantam a economia. Para ele, as reformas viriam depois... Ué?! Se houvesse crescimento, para que reformar? Se não houve, daí a necessidade de reforma. O que não se pode afirmar é que, como induz a Carta, devido a alta do barril do petróleo, as reformas trabalhistas liberais estancaram. Simplesmente, não faz sentido. Aí já não é o efeito no lugar da causa, mas que uma coisa não tem a ver com a outra...

Sem lugar para os fatos

Mas, por esta aqui eu não esperava mesmo:

“Restam poucas reservas importantes a explorar fora da Opep e talvez nenhuma a descobrir. Há pouquíssima capacidade ociosa em todo o mundo (...)”

Só para citar algumas reservas que me recordo de momento: Ártico, Alasca (não explorado devido ao lobby ambientalista)[6], Mar Cáspio (2a mundial após o Golfo Pérsico), a vasta Sibéria, vários países africanos como Gabão, Nigéria etc. com grande capacidade ociosa (ao contrário do que apregoa a Carta) etc.

A Carta nunca explorou devidamente as tensões no Cáucaso relacionadas à disputa pelo óleo como na Chechênia, por exemplo. Também nunca imaginou que há uma disputa entre EUA e Rússia pelo óleo negro do Cáspio, no qual uma batalha foi vencida pelo primeiro por intermédio Turquia/Azerbaidjão. Estes últimos têm relações próximas, (o povo azeri é turco e não árabe) e favoreceram a construção de um oleoduto via planalto da Anatólia até o Mediterrâneo, furando assim o bloqueio e monopólio russo no transporte Mar Cáspio-Negro.

Nada disto importa para a Carta...

Tem mais:
”Mas, assim como as catástrofes naturais e os intermitentes conflitos étnicos na Nigéria esses eventos ajudaram a antecipar um processo inevitável.”

Ora, uma guerra civil de dez anos na Nigéria teve a participação da Elf francesa que insuflou a etnia Ibo na região de Biafra (que detém as reservas petrolíferas) a se separarem do restante do país. O prêmio seria o privilégio/monopólio da extração, mas ao que a British Petroleum não deixou por menos ao divulgar entre os Haussas muçulmanos do norte que ficariam sem emprego. Dito e feito, a extração continua com a empresa britânica.

Aliás, a Elf é a mesma empresa que explorava o petróleo iraquiano e, provavelmente, o desviava ilegalmente via Jordânia para o Mediterrâneo. A Jordânia, aliada americana ‘no papel’ cobrava uma cota de ‘apenas’ 50% do óleo transportado, furando o bloqueio de Clinton.

Petróleo este, cuja maior reserva fora descoberta pela Petrobrás, mas que perdeu o contrato por que queria 20% do faturamento, como originalmente acordado. Mas, pode a Carta criticar a França da Elf Aquitaine? Não, só os EUA... Obsessão estúpida.

Neste vendaval de absurdos proferidos pela matéria da Carta ainda sobrou espaço para o endosso ideológico de uma política econômica intervencionista, bem ao gosto de um Orestes Quércia:

“É igualmente importante, apesar de não notado pela Economist (sic), que na China, na Índia e em outros países periféricos, inclusive Brasil e Argentina, os preços internos dos derivados estão regulamentados e não refletem a alta internacional. Não afetam seu crescimento e suas exportações – e, por serem esses países superavitários no comércio exterior e parcial ou totalmente auto-suficientes em petróleo, também não afetam drasticamente suas balanças comerciais.”

Doido, não?

  1. ‘Preços regulamentados’ na verdade é um eufemismo para controlados por interesses políticos, como foi o recente caso da Petrobrás para sustentar o governo Lula;
  2. Como não afetam nosso crescimento se o petróleo ainda pesa na nossa pauta de importações? O fato de termos superávits primários constantes se deve mais a uma contenção nas importações do que a um crescimento significativo. Haja vista que o Brasil é o país que tem menos crescido na América Latina, por exemplo.
  3. Se somos parcialmente auto-suficientes, como nossos preços internos aumentam, proporcionalmente, aos aumentos externos? Apesar da extinção do monopólio legal, ainda temos um monopólio de fato e, se a Petrobrás precisa exportar petróleo pesado e importar o leve para refino é por que não investiu o que devia em refinarias adequadas, assim como não investe o necessário nas reservas de gás da Bacia de Santos. Tudo isto baixaria seu lucro garantido devido à oferta de combustível mais barato. Esta é a ‘auto-suficiência’ nacional proposta pela Carta?
  4. Razões para a escassez de investimentos externos na área petrolífera não faltam. Assim como a Petrobras noticia que não mais fará investimentos na Bolívia devido à recém criada Lei dos Hidrocarbonetos que aumentou o imposto sobre a extração de gás natural de 18% para 50%, o estado brasileiro já o faz há muito. Basta verificar o peso dos tributos (em cascata) que nos chega na bomba da gasolina.
  5. O que a Economist ‘não notou’ é a capacidade de mentir do mainstream brasileiro.

Como é que é?

“(...) os preços não aumentam (...) no Brasil, desde 2004 (...)”

Bizarro, não? Chega a ser ridículo eu ter que chamar a atenção sobre isto, mas talvez ajude a redação da Carta:

A Petrobras anunciou hoje um reajuste de 10% na gasolina e de 12% no diesel nas refinarias a partir da 0h deste sábado. Os percentuais não incluem ICMS (Imposto de Circulação sobre Mercadorias e Serviços).
O vendaval de asneiras inspirado no Katrina continua, quando a Carta tenta mostrar o déficit comercial dos EUA como um problema. Como, se sua balança de pagamentos é extremamente positiva? O que importa é o capital final e não se os americanos gastam mais comprando produtos chineses entre outros. Há quem os financie tornando sua balança de pagamentos positiva e, nesse quadro, se amarra cada vez mais a economia chinesa e asiática em geral à americana.

É também patética a desatualização informacional dessa revista quando fala de alternativas energéticas e inovações tecnológicas. Foi só nos anos 80 que Detroit teve um atraso tecnológico em relação à indústria automobilística japonesa. Tal defasagem já foi superada[7] Inclusive, as empresas mais modernas já romperam com o que as emperrava: o sindicalismo de Detroit. Ao migrarem para o Sunbelt em estados como o Kentucky, empresas como a Ford e a General Motors provaram que sua crise era de natureza mais administrativa que tecnológica em si. Graças a diversidade legal que os EUA oferecem, quando um ou outro estado trava a produção, basta migrar o capital. No caso brasileiro, a ausência de um verdadeiro federalismo e autonomia (relativa) de nossos estados minimizam esta estratégia capitalista intranacional.

Ademais, Mino Carta e seus asseclas provaram que não conhecem nada de Globalização, pois a Mazda japonesa e a Kia coreana têm expressivas participações acionárias da Ford. Para Mino Carta, as empresas globais ainda devem ser entendidas segundo suas matrizes nacionais. É claro que este recorte analítico nacionalista bloqueia o intelecto criando um déficit cognitivo:

“[A] eficiência no uso de combustível estimulará a importação de veículos asiáticos e europeus, mais econômicos.”

Agora, leiamos algo da última Economist, que a Carta não notou:

BMW is to join DaimlerChrysler and General Motors in a project that develops new hybrid technologies for vehicles. Japanese carmakers, which lead the market for petrol-electric cars, have seen sales soar recently in America as consumers look for ways to reduce their fuel costs.

São empresas japonesas sim, mas também alemãs e americanas desenvolvendo modelos mais econômicos graças à demanda americana. É o mercado que manda. Nesta matéria, Mino Carta deve ter sido repetente na sua escola...

Réquiem para uma Carta Surreal

O que mais podemos dizer? Talvez, mais perigoso que o terrorismo ou o (suposto) aquecimento global, como os jornalistas da Carta nos chamam a atenção, seja a ilogicidade dos argumentos obscurecidos por uma ideologia estatista e terceiro-mundista, pretenciosamente preocupada com o meio ambiente. Que a Carta seja uma farsa nós já sabemos, o que eu não sabia é que sua argumentação ainda era capaz de decair mais ainda.

 


[1] No segundo parágrafo chama o furacão brasileiro, Catarina, de ‘primeiro furacão extratropical’, quando na realidade, desde que se começou a noticiar regularmente tais fatos, já é o segundo. O primeiro com grande repercussão na mídia nacional ocorreu em 2004. Mas, peculiaridades levaram a chama-lo somente de ‘ciclone’. Embora chamado agora, não oficialmente, de ‘furacão’, o fenômeno ocorrido este ano sobre o estado de Santa Catarina tem características similares ao ocorrido no ano passado. Possivelmente, tais fenômenos já ocorressem antes, mas a evolução do sensoriamento remoto sobre a Bacia do Atlântico Sul é recente, assim como a atuação do Inpe em parceria com a Nasa neste sentido[retorna]

[3]Análise de fósseis biológicos, taxas de acúmulo de gelo, sedimentos no leito marinho e anéis dos troncos das árvores, entre outros. [retorna]

[4]O quarto relatório está previsto para 2007. [retorna]

[6] O lobby ambientalista nos EUA é, seguramente, um dos mais perversos no mundo. O gás natural é um dos menos poluentes dos combustíveis fósseis e sua adoção em massa implicaria na redução dos poluentes atmosféricos. Mas, para isto, o país teria que quebrar a campanha maciça e desonesta que tal movimento ambientalista faz contra esta matriz energética: “desaloja animais e plantas”, “extremamente volátil”, “apresenta enorme risco” etc. Bem, vamos aos fatos: nos últimos 60 anos morreu apenas UMA pessoa em acidente envolvendo o gás natural nos EUA. O Japão é um grande usuário desta fonte e no terremoto de Kobe em 1995 que atingiu 6,8 na escala Richter (vai até 9,0) não teve NENHUM incidente relacionado. A tecnologia adotada hoje em dia minimiza bastante a possibilidade de risco envolvendo o gás. Os ambientalistas não têm demonstrado preocupação, no entanto, com os prejuízos causados pelas campanhas anti-nucleares ou anti-combustíveis fósseis, nem ao menos com os milhões que morrem desnecessariamente devido ao corte ou banimento de inseticidas. Neste rumo, logo ouviremos o mote ‘adote um mosquito’! Cf. Environmentalism's Dangerous Campaign for "Safety" [retorna]

[7] Conceitos administrativos e de engenharia de produção como Apenas À Tempo (AAT), mais conhecido como just in time e o Controle de Qualidade Total (CQT) inclusos no que se convencionou chamar de ‘toyotismo’ foram estudados e, simplesmente, adotados pelos americanos. Os EUA fizeram o que o Japão se notabilizou fazendo: copiaram e adaptaram. [retorna]

 


Última modificação em Domingo, 01 Setembro 2013 13:15
Anselmo Heidrich

Professor de Geografia no Ensino Médio e Pré-Vestibular em S. Paulo. Formado pela UFRGS em 1987.

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