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11 Set 2005

Uma Chance Para Ética

Escrito por 

Se desejamos ser respeitados como povo, precisamos de um magistrado na cadeira de Presidente da Câmara dos Deputados. Precisamos de probidade. Precisamos de vergonha na cara.

Em Brasília tudo indica que não há saída para Severino Cavalcanti. Sua situação se deteriora em uma velocidade surpreendente, e enquanto fazia sua talvez última viagem como Presidente da Câmara, ou até mesmo como Deputado Federal, seus pares já articulavam em torno de um nome para sucedê-lo na direção da Casa. Entretanto, a ascensão e queda do homem de João Alfredo devem ser analisadas com muito cuidado, sob pena de inclusive macular o possível processo de escolha do provável próximo terceiro homem da linha sucessória.

Muitos creditam a eleição de Severino Cavalcanti simplesmente a uma manobra da oposição.  Uma análise equivocada e simplista. Esta teve um peso significativo, sem dúvida, entretanto outros fatores foram demasiadamente mais importantes. Severino ascendeu como uma opção de nome para derrotar o Partido dos Trabalhadores e, por extensão, o Palácio do Planalto, somente após a maior trapalhada política da administração Lula até aquele momento. Enquanto a bancada do partido governista havia decidido pelo nome do deputado Virgílio Guimarães, a mão de ferro da Casa Civil, por intermédio do chamado “Campo Majoritário” petista, impôs o nome do deputado Greenhalgh, figura pouco popular nos corredores do Parlamento, como candidato. Neste momento a bancada rachou, Virgílio lançou sua candidatura avulsa, e a bancada governista rumou fragmentada para o segundo turno, onde Severino Cavalcanti arrebatou 300 votos. Uma derrota humilhante para o Planalto, expondo as vísceras de uma coordenação política desarticulada, apática, fraca e abatida.  Portanto, antes de a oposição derrotar o governo, este derrotou a si mesmo, rumando como uma nau descontrolada em direção a naufrágio.

Severino, já empossado no trono, eleito com apoio da oposição, aos poucos mudou de lado e foi cooptado pelo governo, mantendo inclusive cafés da manhã regulares com o Presidente Lula. Assim, procurou nomear parentes, diretores de estatais e ministros de Estado, algumas destas tarefas completadas com êxito. Colocou o Presidente da República acuado em várias ocasiões, entretanto, com o simples objetivo de obter benesses para si e seus próximos.  Evidenciou para o Brasil o retrato da pior forma de fazer política em nosso País, e mostrou também, às claras, para todos enxergarem, sem noção real de sua posição institucional, os bastidores das negociatas políticas regadas a dinheiro do povo. Ou seja, pelas mãos do homem de João Alfredo soubemos a triste maneira de como ainda se faz política na democracia brasileira. Infelizmente, nas entranhas do poder de Brasília, poucos são aqueles que não fazem política à moda Severina, este apenas escancarou os métodos.

Com a possível saída de Severino do cenário, o Palácio do Planalto e parlamentares petistas reivindicam para seu partido, o combalido PT, a Presidência da Câmara dos Deputados, visto que é o Presidente daquela Casa que pode autorizar abertura de processo de impeachment contra o Presidente da República. Com este cargo nas mãos do PT, seria possível blindar a figura de Lula.

Acredito que os brasileiros devem se perguntar neste momento com que estatura moral o Partido dos Trabalhadores busca o terceiro posto da linha sucessória. Como o partido que está envolvido no maior escândalo de desvio de dinheiro público da história do País, que possui filiado em suas hostes um Presidente da República que pode estar prestes a enfrentar um processo de impeachment em razão de deixar correr por suas barbas (e talvez suas mãos) uma rede de corrupção organizada, postula a Presidência da Câmara dos Deputados? Chega a ser cômico, se não fosse temerário. Lembremos que o último Presidente da Câmara indicado pelo PT, João Paulo Cunha, está prestes a enfrentar um processo de cassação de seu mandato por falta de decoro, pois se beneficiou dos reais advindos das contas de Marcos Valério, que com Delúbio Soares operava, na República Petista, repito, o maior esquema de desvio de dinheiro público da história do Brasil.

Se desejamos ser respeitados como povo, precisamos de um magistrado na cadeira de Presidente da Câmara dos Deputados. Precisamos de probidade. Precisamos de vergonha na cara. Chega de conchavos, maracutaias e acertos de corretor. O Brasil precisa de moralidade. Espero que o povo esteja atento, senhores deputados, pois tenho esperança que este faça o julgamento merecido nas urnas no ano que se avizinha. Ainda há uma chance de o Congresso Nacional se redimir e mostrar que está ao lado do povo. Existem parlamentares sérios fora do eixo oposição/situação, sem comprometimento com estruturas viciadas, que devolveriam pelo menos um pouco moralidade e dignidade ao País, e extensivamente, aos parlamentares. A nação espera o restabelecimento da ética. A oportunidade está nas mãos dos senhores parlamentares.

Última modificação em Domingo, 01 Setembro 2013 13:22
Márcio Coimbra

Márcio Chalegre Coimbra, é advogado, sócio da Governale - Políticas Públicas e Relações Institucionais (www.governale.com.br). Habilitado em Direito Mercantil pela Unisinos. Professor de Direito Constitucional e Internacional do UniCEUB – Centro Universitário de Brasília. PIL pela Harvard Law School. MBA em Direito Econômico pela Fundação Getúlio Vargas. Especialista em Direito Internacional pela UFRGS. Vice-Presidente do Conil-Conselho Nacional dos Institutos Liberais pelo Distrito Federal. Sócio do IEE - Instituto de Estudos Empresariais. É editor do site Parlata (www.parlata.com.br) articulista semanal do site www.diegocasagrande.com.br e www.direito.com.br. Tem artigos e entrevistas publicadas em diversos sites nacionais e estrangeiros (www.urgente24.tv e www.hacer.org) e jornais brasileiros como Jornal do Brasil, Gazeta Mercantil, Zero Hora, Jornal de Brasília, Correio Braziliense, O Estado do Maranhão, Diário Catarinense, Gazeta do Paraná, O Tempo (MG), Hoje em Dia, Jornal do Tocantins, Correio da Paraíba e A Gazeta do Acre. É autor do livro “A Recuperação da Empresa: Regimes Jurídicos brasileiro e norte-americano”, Ed. Síntese - IOB Thomson (www.sintese.com).

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