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07 Set 2005

O Sonho Acabou

Escrito por 

Quanto a mim, entendo que se o PT, ex-partido da ética, acoberta os seus como vem fazendo, é problema da sigla que se desmancha no ar.

Recentemente, o deputado federal Fernando Gabeira interpelou o presidente da Câmara, Severino Cavalcanti, dizendo-lhe: “Vossa Excelência é um desastre para o Brasil”. Severino advogava penas brandas em vez de cassações para deputados da turma do mensalão e Gabeira, com razão, ficou irritado. Ao mesmo tempo, o deputado do PV fez sucesso com sua performance e abriu caminho para as chamadas oposições pedirem a cabeça de Severino, suspeito de receber propinas do concessionário do principal restaurante da Câmara, o Fiorella. Severinom é claro, nega a acusação, como negam José Dirceu, João Paulo, Delúbio, Genoíno, Professor Luizinho, José Janene, José Mentor e tantos outros inocentes como recém-nascidos. Até o homem dos dólares na cueca nega qualquer culpa.

Não há dúvida de que Severino está longe da figura ideal de parlamentar. Ele é apenas um típico deputado brasileiro, destes que o povo elege muitas vezes e que em nada difere de grande parte de seus pares no tocante a falta de visão de bem comum e no olho gordo sobre interesses particulares. Como a maioria no Congresso, Severino é também despreparado, inclusive, no sentido de não ter obtido as luzes da educação formal. Ou seja, ele não é diferente do presidente da República, eleito por quase 53 milhões de brasileiros que apostaram no charme da ignorância.

Mas o fato é que Gabeira conseguiu unir os partidos chamados de oposição, ou seja, PSDB, PFL, PPS e PV, além da ala esquerda do PT, no sentido de pressionar Severino para que se afaste do cargo. Argumenta-se que ele não está à altura do mesmo. Se o deputado não se afastar, vão entrar com uma representação no Conselho de Ética para que perca o mandato, o que inviabiliza sua continuidade na presidência da Câmara.

Se houvesse justiça no País e Severino Cavalcanti fosse considerado culpado através da comprovação da denuncia sofrida, sem dúvida deveria ser punido, mas, como não funcionamos assim, o que será que existe por trás da pressa das oposições em derrubar o colega?

Lembremos primeiramente de que Severino é fruto da incompetência do PT, que se dividiu entre dois candidatos quando disputou o cargo, tendo enfiado um deles goela a baixo do próprio partido. Aproveitando-se da burrice petista as oposições, especialmente o PSDB e o PFL, elegeram Severino que agora querem defenestrar.

Pois bem, alguns analistas dizem que as oposições querem reforçar seu poder ao trocar Severino por algum deputado de suas hostes, que seja mais capacitado para o cargo. Essa análise faz sentido e tal atitude das oposições poderia também traduzir a tentativa de melhorar a imagem dos congressistas perante a opinião pública. Ao mesmo tempo, a tática serve para desviar o foco das atenções de outros escândalos mais escabrosos que pairam sobre o presidente da República, além de aliviar a situação dos mensalistas da corrupção que sonham com o esquecimento de suas falcatruas para se livrarem da perda do mandato.

Portanto, qualquer coisa que desvie a atenção das pizzas das CPIs (é quase ridículo apresentar apenas de 18 deputados para serem cassados) é bem vinda, do Katrina nos Estados Unidos saudado por nossos nacionalistas de esquerda e direita  que se tornam irmãos gêmeos no tocante ao antiamericanismo, ao resultado do jogo Brasil e Chile.

Está bem claro que não só o capital financeiro deseja preservar o presidente Luiz Inácio, o ministro da Fazenda, Antonio Palloci e o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles. A idéia, originada no PSDB, é a de deixar Luiz Inácio enfraquecido para depois ganhar a eleição presidencial.  Entretanto, pela lógica, se Severino não pode ser presidente da Câmara, Luiz Inácio não pode continuar como presidente da República e Palocci e Meirelles deveriam se retirar de seus cargos até que as acusações que pesam sobre eles fossem investigadas. Contudo, deputados e senadores se negam a pedir o impeachment de Luiz Inácio o que significa, que a rigor, não existem oposições e, em não havendo, prevalece a regra que todos devem se locupletar.

Ao final de sua entrevista à Folha de S. Paulo Gabeira profetizou: “O PSDB e a esquerda sobrevivente do PT podem se associar no futuro. A partir dessa associação, podem reconhecer que há um processo de modernização, embora lento”, no PFL”.

Gabeira, por motivos particulares, termina a reportagem à Folha de S. Paulo, dizendo: “Não haverá mais sonho”. Quanto a mim, entendo que se o PT, ex-partido da ética, acoberta os seus como vem fazendo, é problema da sigla que se desmancha no ar. Mas o acobertamento da corrupção deslavada e jamais havida em tais proporções, que infesta o Executivo entrosado ao Legislativo, sinaliza que o sonho de um país melhor e mais digno acabou. No mais, tem muito jogo de futebol pela frente e disso Luiz Inácio entende, como entende o ditado, “o que não mata engorda”.

Última modificação em Domingo, 01 Setembro 2013 13:30
Maria Lúcia V. Barbosa

Graduada em Sociologia e Política e Administração Pública pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e especialista em Ciência Política pela UnB. É professora da Universidade Estadual de Londrina/PR. Articulista de vários jornais e sites brasileiros. É membro da Academia de Ciências, Artes e Letras de Londrina e premiada na área acadêmica com trabalhos como "Breve Ensaio sobre o Poder" e "A Favor de Nicolau Maquiavel Florentino".
E-mail: mlucia@sercomtel.com.br

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