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02 Set 2005

Porque Utopias Não Me Atraem

Escrito por 

A cada experiência, nosso entendimento de como a sociedade funciona aumenta um pouco, nos capacitando para realizar outras mudanças com maior chance de sucesso.

No mercado de ideologias um dos produtos que mais vende desde o século XVIII é a utopia. Ela vem em diversas formas, sabores, e embalagens: pode ser liberal, anarco-capitalista, marxista, neo-marxista, fascista, nazista, sionista, anarquista de esquerda, cristã-socialista (!), tecnológica, ou alguma outra variedade; pode ser “alcançável” por meio de revoluções, processos profundos de “conscientização” coletiva, reprodução seletiva para garantir “pureza racial”, guerras de “libertação”, ou uma combinação destes e outros métodos. E claro, como são utopias, todas garantem uma vida livre dos dissabores de hoje, cheia de alegria, fraternidade, solidariedade e liberdade para todos, mas somente quando forem alcançadas.

Utopias não me atraem de modo algum. Eu as considero uma das invenções mais desafortunadas e destrutivas que a razão humana já produziu. Se existe algo que as utopias provocam em mim, é asco.

Explico. Utopias são, por definição, inalcançáveis. Mesmo aqueles que as seguem sabem disso. Para pessoas normais, perseguir um objetivo que por definição é inalcançável é simplesmente estúpido: significa desperdiçar recursos e esforços em busca de um resultado que já sabemos de antemão ser impossível de obter, por mais desejável que esse resultado possa parecer. Além disso, mesmo que um objetivo idealizado seja de alguma forma alcançável, é sempre possível que as consequências de atingí-lo sejam negativas, talvez tão negativas que efetivamente anulem o eventual benefício que se queria obter em primeiro lugar. Mas para aqueles que perseguem uma utopia, parece óbvio que atingí-la seria a coisa mais fantástica que poderia acontecer com a Humanidade; e mesmo que acreditem racionalmente que sua utopia de estimação é inalcançável, eles tentam pautar suas ações com a pergunta: “este curso de ação ajudará a trazer a minha utopia mais perto da sua concretização?” Se sim, então vale a pena fazer; caso contrário, não.

Uma Ilustração: A Fábula das Árvores de Ouro

Uma pequena fábula ajuda a ilustrar o problema da perseguição das utopias e suas consequências: digamos que eu considere fantástico que ouro brote em árvores. Por mais que eu tente, provavelmente não vou conseguir criar em laboratório uma que o faça; pior ainda, jamais conseguirei substituir todas as árvores do mundo por outras que produzam ouro. Mas digamos que que eu consiga, por um passe de mágica, fazer todas as árvores do mundo darem frutos dourados? O resultado seria que o ouro, agora absurdamente abundante, não vale absolutamente nada. E agora que todas as árvores dão ouro, não existem mais árvores frutíferas, e a fome dizima uma parcela imensa da população; afinal, não se pode comer ouro. Os eventuais benefícios que eu acreditava que as árvores auríferas trariam para o mundo simplesmente não se materializaram, porque na minha busca por esse objetivo utópico, ignorei ou não fui capaz de antever todas as consequências das minhas ações e os danos que causei ao longo do caminho. Pior, quando finalmente alcancei meu objetivo, percebi que ele na verdade não era o que eu queria.

A fábula acima ajuda também a realçar uma das características mais importantes de uma utopia: ela representa uma mudança radical, dramática, fundamental do mundo. A utopia é completamente diferente do mundo em que vivemos, as mudanças que ela propõe são profundas, alterando inteiramente a forma como a sociedade funciona e como as pessoas se relacionam. Mas ainda mais marcante, o que todas as utopias têm em comum é a uniformidade. Todas propõe um mundo uniforme, harmonioso, essencialmente unificado, em lugar da realidade caótica, conflituosa, segmentada e absurdamente variada do mundo real. Todas as utopias representam, se observadas atentamente, o fim da individualidade. Não é que algumas árvores darão frutos de ouro; todas precisam fazê-lo.

 

Os Perigos das Utopias

As utopias apelam aos nossos sentimentos mais nobres: quem não quer acabar de uma vez por todas com as guerras, a fome, a miséria, a desesperança, o abandono, a violência? Mas também embotam a razão e o julgamento moral. Não apenas perdemos a visão da realidade como ela é (que, em contraste com a utopia em que se acredita, será sempre cruenta, brutal demais), como perdemos também nosso norte moral. Como alcançar a utopia (ou mesmo chegar mais perto dela) representa um benefício para toda a espécie humana (ou assim pensam os que a perseguem), qualquer ação, por mais desprezível e amoral que seja, pode ser justificada com a busca desse paraíso vindouro. Se matar, roubar, torturar, estuprar ou mentir fizer com que o mundo rasteje um milímetro sequer na direção da utopia (na opinião do utópico, claro), então todos esses crimes estão justificados e perdoados porque são necessários para o advento do “outro mundo possível”. A crença em utopias tende a levar ao radicalismo, à vontade de derrubar “o sistema” pela força se necessário, ou sua subversão pelo caminho da política. Os 150 milhões de mortos do comunismo no século XX atestam que a busca da utopia pode ser brutal e genocida.

Além disso, utopias representam uma forma sutil, mas perigosa, de arrogância. Alguém perguntou ao resto da humanidade se ela deseja a utopia X, Y, ou Z? Quem de nós tem realmente a capacidade ou o poder de julgamento racional e moral para decidir que utopia é melhor para o mundo como um todo? Um caçador de utopia jamais se pergunta seriamente se o seu paraíso vindouro de estimação é realmente desejado por todos. Ele o quer, e isso basta. E essa arrogância desmensurada, claro, é vendida como humanismo...

 

Reforma Social Gradualista: a Única Solução Racional

Já fui acusado, ao criticar as utopias de todos os tipos, de ser um defensor do status quo. De ser um “conservador” (como se “conservador”, claro, fosse um palavrão). Seria eu alguém que quer o mundo como ele é, sem mundanças, porque não aceito utopias como guias?

Obviamente não. Mas para alguém que recusa utopias, o caminho para mudar a sociedade é outro: mais penoso e lento, menos heróico, e por isso mesmo, mais frustrante para aqueles que acham que “vontade política” é o suficiente para modificar a realidade profundamente.

Para mim, é muito claro que temos que começar afirmando o óbvio: não dispomos hoje de conhecimento suficiente sobre o funcionamento da sociedade para modificá-la de forma radical. A sociedade moderna é complexa, formada por inúmeras instituições que cresceram de forma expontânea, independente, e que relacionam-se umas com as outras de formas que não foram planejadas ou mapeadas por ninguém. A sociedade que temos hoje (com o que funciona bem e o que não funciona) é resultado da construção gradual de estruturas sociais, feita ao longo de inúmeras gerações e por uma quantidade incalculável de pessoas, cada uma contribuindo sua sabedoria, interesses e (porque não?) sonhos ao processo. Qualquer tentativa de mudar tudo ao mesmo tempo, de jogar fora tudo que temos e tentar reconstruir a sociedade do zero, está fadada ao fracasso porque não somos capazes de antever as todas as consequências dessas mudanças. Não sabemos se a substituição das instituições que hoje existem por outras que nunca foram testadas (ou que foram testadas inseridas na estrutura das instituições que existem hoje) resultará em uma sociedade melhor do que a que temos hoje. Não existe base racional alguma para acreditar que mudar a sociedade que existe hoje de forma radical levará necessariamente a uma realidade melhor; ela pode igualmente resultar em uma sociedade ainda pior do que a que temos hoje. E claro, é de uma arrogância extrema imaginar que meia dúzia de iluminados são capazes de construir uma sociedade incrivelmente melhor do que a produzida por gerações e gerações. Equivale a dizer que somos tão melhores do que aqueles que vieram antes de nós que podemos jogar fora tudo que eles construíram e recomeçar do zero. Aceitar isso significa dizer que tudo pelo qual as gerações passadas viveram e sofreram foi em vão: o mundo poderia ter começado ontem e não faria diferença. Belo humanismo.

Acredito que o único caminho legítimo de mudança social é a reforma institucional gradual, embasada em um plano racional. Como diz o filósofo, todas as tentativas de produzir o paraíso na Terra apenas nos levaram ao inferno; assim, mudanças sociais e institucionais devem ter como objetivo nunca produzir um bem, mas apenas corrigir um mal. Aquilo que funciona bem não deve ser modificado sem uma razão  extremamente convincente (já diz a sabedoria popular que não se deve mexer em time que está ganhando...). Mudamos uma instituição, observamos os resultados, corrigimos as falhas, anotamos os novos resultados, efetuamos novas alterações, e assim por diante. A cada experiência, nosso entendimento de como a sociedade funciona aumenta um pouco, nos capacitando para realizar outras mudanças com maior chance de sucesso. Apenas com essas mudanças graduais, racionais, podemos aprender com nossos erros e paulatinamente construir uma sociedade melhor.

Isso significa que sim, acredito que podemos planejar, ao menos parcialmente, que tipo de sociedade teremos no futuro. Podemos modificar as instituições que temos, buscando torná-las melhores, mais eficientes, mais flexíveis. E podemos, se necessário, jogar fora o que não funciona. Mas não podemos ignorar que a civilização é construída em degraus; não existe elevador para o próximo andar. Pregar que devemos jogar fora tudo o que herdamos porque “não serve” é apenas um misto de arrogância, prepotência, covardia moral e pobreza intelectual, coberto com um verniz de falso humanismo.

Claro, a minha solução não é do agrado dos que acreditam em utopias. É lenta demais, gradual demais, conservadora demais, humilde demais. Pior, ela pode ser acusada de insensível: afinal, com tantas mazelas no mundo, querer ir devagar pode parecer conivência com elas.

Talvez. Mas tenho certeza que, se pudessem opinar, boa parte dos 150 milhões de mortos do comunismo, ou dos 40 milhões de mortos do nazi-fascismo, ou dos milhões de vítimas de todas as outras utopias por aí, concordariam com a sabedoria de ir devagar e fugir da idéia de que, em nome do paraíso vindouro, tudo é justificável...

Última modificação em Domingo, 01 Setembro 2013 13:32
Luiz Antonio Moraes Simi

Bacharel em Administração pela Universidade de São Paulo, tem sua experiência profissional concentrada nas áreas de finanças e controladoria. Atualmente reside em Munique, onde trabalha com projetos para a área de exportação de uma grande companhia alemã. Um seguidor do liberalismo clássico e da Escola Austríaca de Economia, acredita em livre mercado, liberdade individual, pluralismo político e direitos individuais inalienáveis. É colunista dos sites Capitólio.org e Liberdade Econômica, e mantém um blog, "Livre Pensamento", dedicado à discussão da doutrina liberal.

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