Qui12122019

Last updateDom, 01 Set 2013 9am

31 Ago 2005

O Traidor, o Traído e a Traição

Escrito por 

Eu, por exemplo, que cada vez que os membros do PT falavam em ética na política, metia logo a mão no bolso para ver se minha carteira ainda estava lá, nunca acreditei nesse bando de apedeutas e deletérios.

Mais uma vez a palavra venceu o medo. Discursando para uma grande platéia embevecida, Lulinha Paz e Amor fez mais uma demonstração de sua excepcional verve, justificando, assim, o merecido epíteto de “o Cícero de Garanhuns”. Desta vez o ponto alto de sua peroração foi uma declaração tão surpreendente quanto contundente: “fui traído”.

Se alguém disser: “Eu comi”, a pergunta que vem de imediato à mente é: “o que?” ou “quem?” Supondo, é claro, que se trate de um canibal tupinambá e o comido, um membro de outra tribo ou um homem branco vestido de preto. A menos que seja explicitado o complemento verbal, o único efeito produzido em um ser minimamente pensante é o do suspense digno de Hitchcock, dando margem a especulações mil. No caso de “Fui traído”, ficou faltando dizer: (1) “por quem?” e (2) “de que modo? - como observou penetrantemente o ex-professor de sociologia da USP e atual palestrante motivacional, Fernando Henrique Cardoso.

Mesmo que não tenha senso dramático, todo gramático sabe muito bem que quem foi traído o foi por alguém ou alguns deste ou daquele modo. Mas se o proferidor da sentença se silencia a respeito dessas coisas, deixa para seus receptores - no caso, a platéia local e os que leram seu discurso no jornal - a tarefa de fazer hipóteses sobre “quem” e “de que modo”.

Tenho motivos para crer que não foi o caso do desabafo de um desditado atraiçoado por  uma execrável pérfida, pois não está em jogo a traição sexual. E  dona Marisa Letícia - embora tenha um marido que se disse traído, não tem absolutamente nada a ver com a traição. Descartada a hipótese de traição sexual, pergunto a mim mesmo: Que tipo de traição está em jogo? Será que é  do mesmo tipo da de Fidel Castro, quando aquele político brasileiro de  esquerda, por ele denominado El ratón,  fugiu com o dinheiro doado pelo mandão de Cuba para a guerrilha do Araguaia?

Parece que é traição política, mas bastante diferente da que fora vítima El Coma Andante naqueles tempos em que ele era El Comandante e  sua barba ainda era negra como a asa da graúna ou como os cabelos de Iracema, a virgem dos lábios de mel. Considerando-se isento de qualquer culpa no cartório e não enfiando a carapuça da sedição,  Zé Dirceu entrou de sola: “Quero que  ele diga o nome do traidor!” Queria  mesmo? Ainda quer? Ou se trata de uma indagação puramente retórica, ou seja: pergunta que se faz a alguém, mas só quando se tem certeza de que a mesma não será respondida?!

Muitos membros à esquerda desse partido de esquerda que é o  PT (Perda Total, no jargão das companhias de seguros) foram levados a pensar que Lulinha Paz e Amor fora traído pelo assim chamado “domínio majoritário”(em russo diz-se: bolchevik) de seu partido. Mas o Larry Rohter não teve nenhuma dúvida quanto à traição. Assim como o laranja do PT é o carequinha, a traidora foi a branquinha. A mesma que traiu o  renunciante  presidente Jânio Quadros. Mas Lulla não renuncia nem que o Saci faça um gol de letra.

Porém, para muita gente, o traído mesmo foi o povo brasileiro que depositou toda sua esperança em Lula lá e no PT “nu Puder”. Bem feito! Quem mandou confiar num “sapo barbudo” e no “partido da boquinha”?! (A  primeira expressão entre aspas é da autoria de O Pangaré dos Pampas e a segunda de seu pupilo fluminense Anthony Matheus, primeiro os teus).

Eu, por exemplo, que cada vez que os membros do PT falavam em ética na política, metia logo a mão no bolso para ver se minha carteira ainda estava lá, nunca acreditei nesse bando de apedeutas e deletérios. Além disso, sou vacinado contra o mito marxista do operário puro e honesto só por ser membro da classe proletária. Ao contrário, sempre tive muito medo de um torneiro mecânico “nu Puder”, pois, como reza o sábio provérbio: Quem nunca comeu melado quando come se lambuza. Fiquemos, pois, com os que já comeram bastante e, por isto mesmo, atacarão o pote com moderação,  como o finado PC Farias, por exemplo.

Noutro de seus eletrizantes e arrebatadores discursos,  pra Ruy Barbosa nenhum botar defeito, Lulinha Paz e Amor deitou falação na periferia de São Paulo (SP): “Saio daqui com a consciência tranqüila de que estamos cumprindo nosso dever. Eu sei da quantidade de leviandades, sei do jogo rasteiro que está sendo feito neste país, mas aprendi com uma analfabeta que morreu aos 64 anos. Não perca nunca a esperança, persevere sempre e ande de cabeça erguida porque sempre a verdade vencerá.” [Também penso assim, mas se estivesse na pele de Lula, estaria torcendo pela vitória da mentira , de virada,  no segundo tempo].

Diante de tanta veemência e contundência, a eufórica patuléia entoou em uníssono: “O Lula é meu amigo/ Mexeu com ele/ Mexeu comigo”. [Isto é que uma total identificação de um  orador e sua seleta platéia! Dois em um!]. E aí, embalado pela vibração da galera, o Cícero de Garanhuns se transcendeu:

“Não sei quantos brasileiros podem encostar a cabeça no travesseiro à noite e dormir o sono dos justos (obs. minha: os que moram na Av. Nossa Senhora de Copacabana nas imediações da Rua Santa Clara certamente não podem, pois lá a poluição sonora é infernal). Eu durmo o sono de um homem que sabe o que quer, que sabe o que este país precisa, que sabe o que o nosso país deseja”.

Apesar da alegação de saber tantas coisas, a não ser da existência do mensalão, pergunta-se: Quando é que Lula vai acordar do sono dos justos e cair na real?*

* notinha complementar: A filósofa Marilena Chauí (USP) - uma das principais apologistas do PT - rompeu um longo  período de silêncio autoimposto desde que o Inácio foi  para o Palácio e saiu em defesa do seu proletário de estimação: o puro e irreprochável camarada Lulla. Para ela, o grande erro do PT foi ter dado continuidade  à política econômica de Malan no governo de FHC.

Nisto, ela está longe de ser original, pois nada mais faz que engrossar o coro das esquerdas universitárias, para as quais a única coisa errada é justamente a única competente e sensata no governo do PT, a saber:  a política econômica do ex-trotskysta Malocci, “o homem que copiava”.  Lembro aos desmemoriados do meu querido Brasil que a ministra Zélia – aquela  que se  casou com o professor Raimundo da escolinha do mesmo nome - também fora adepta de Leon Trotsky e sua revolução permanente, mas que em ambos os casos isto não é um estigma:  apenas um pecado de juventude, do qual a alma pode se redimir ou não.

Última modificação em Domingo, 01 Setembro 2013 13:32
Mario Guerreiro

Mario Antonio de Lacerda Guerreiro nasceu no Rio de Janeiro em 1944. Doutorou-se em Filosofia pela UFRJ em 1983. É Professor Adjunto IV do Depto. de Filosofia da UFRJ. Ex-Pesquisador do CNPq. Ex-Membro do ILTC [Instituto de Lógica, Filosofia e Teoria da Ciência], da SBEC [Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos].Membro Fundador da Sociedade Brasileira de Análise Filosófica. Membro Fundador da Sociedade de Economia Personalista. Membro do Instituto Liberal do Rio de Janeiro e da Sociedade de Estudos Filosóficos e Interdisciplinares da Universidade. Autor de Problemas de Filosofia da Linguagem (EDUFF, Niterói, 1985); O Dizível e O Indizível (Papirus, Campinas, 1989); Ética Mínima Para Homens Práticos (Instituto Liberal, Rio de Janeiro, 1995). O Problema da Ficção na Filosofia Analítica (Editora UEL, Londrina, 1999). Ceticismo ou Senso Comum? (EDIPUCRS, Porto Alegre, 1999). Deus Existe? Uma Investigação Filosófica. (Editora UEL, Londrina, 2000). Liberdade ou Igualdade (Porto Alegre, EDIOUCRS, 2002).

Deixe um comentário

Informações marcadas com (*) são obrigatórias. Código HTML básico é permitido.

  • Copyright © 2007. www.rplib.com.br . Todos os direitos reservados.

    Republicação ou redistribuição do conteúdo do site RPLIB é permitido desde que citada a fonte. O site RPLIB não se responsabiliza por opiniões, informações, dados e conceitos emitidos em artigos e colunas assinados e nos textos em que é citada a fonte.