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21 Ago 2005

Os Especuladores

Escrito por 

Poucos profissionais são tão detestados pelo senso comum como os especuladores. Normalmente, são os bodes expiatórios preferidos para os males que assolam a nação.

“In the business world, the rearview mirror is always clearer than the windshield.” (Warren Buffett)

Poucos profissionais são tão detestados pelo senso comum como os especuladores. Normalmente, são os bodes expiatórios preferidos para os males que assolam a nação. Se o câmbio oscila muito, ameaçando a inflação, deve ser culpa dos especuladores. Se a bolsa de valores cai, com certeza são os especuladores os culpados. Se o “risco país” sobe, dificultando o financiamento externo das empresas, só pode ser obra dos especuladores. Os juros altos provavelmente são reflexo da ganância dos especuladores. E assim, a visão leiga de que alguns poucos garotos de Wall Streetsão causa dos problemas econômicos ganha força, confortando os assustados e desviando o foco das raízes reais dos problemas, o que interessa a muitos.

Em primeiro lugar, o que é um especulador? O verbo especular vem do latim speculari, sendo o seu significado principal algo como “tentar enxergar o futuro com os dados presentes”. Qualquer um que tenta inferir algo com os dados atuais disponíveis, que tenta prever alguma coisa, está especulando. Um claro exemplo de especulação é o estoque de uma empresa. O estoque significa que a empresa não quis abaixar seus preços até o ponto de vender tudo, esperando que possa obter um preço melhor na frente. Está fazendo uma aposta incerta, usando os dados disponíveis hoje para uma aposta futura. Está especulando. O futuro é sempre incerto e arriscado. Qualquer empreendimento é uma grande especulação!

Mas claro que o alvo das críticas são os especuladores do mercado financeiro, os que apostam em moedas, juros e bolsa com foco de curto prazo, objetivando rápidos retornos. Será que estes também têm utilidade? Será que exercem alguma função boa para o país? A resposta é afirmativa, e pretendo explicar as razões.

Os especuladores do mercado financeiro servem para dar liquidez ao mercado. Essa costuma ser a principal função mencionada. Com a maciça presença de investidores de curto prazo, buscando qualquer distorção no mercado, tentando arbitrar toda possível ineficiência, os mercados ganham bastante volume. E como todos sabem, qualquer mercado ilíquido costuma ser menos eficiente, com um spread muito elevado entre a oferta e a demanda. Assim, qualquer um que deseja investir em uma determinada ação, comprar um título de renda fixa de uma empresa ou alocar parte da poupança em dólar, se favorece dessa maior liquidez, existente graças aos especuladores. Muitas empresas usam os mercados futuros e de derivativos para hedge, travando assim o preço futuro de seus produtos, normalmente commodities. Isso possibilita uma segurança muito maior quanto às receitas futuras, uma saudável previsibilidade, graças aos especuladores.

Mas creio que os especuladores exercem um papel ainda mais importante para o mundo. Na verdade, funcionam como termômetros para doenças econômicas, como sinalizadores de medidas erradas e perigosas. Não são a causa dos problemas econômicos, mas o reflexo. Claro que pelo efeito reflexivo dos mercados podemos ter uma profecia auto realizável, onde as próprias expectativas dos especuladores acabam causando o resultado esperado. Mas, normalmente, os especuladores serão apenas um importante mecanismo de alerta, de medição da temperatura dos mercados. Não adianta muito especular sobre a falência de uma empresa totalmente sólida, assim como não costuma dar bons frutos uma aposta negativa em um país com fundamentos excelentes em um bom momento. Os especuladores são gananciosos, e querem sempre ganhar, como qualquer indivíduo. Dar murro em ponta de faca, tentar apostar contra bons fundamentos, não costuma render bons frutos. Já quando os pilares econômicos são de areia...

Portanto, a presença de especuladores em ambiente extremamente competitivo acaba forçando um aprimoramento constante dos fundamentos, tanto das empresas como do governo. Uma empresa sabe que, caso não entregue os resultados prometidos, será castigada por especuladores. Sabe que se sua governança corporativa e transparência forem aquém do esperado, perderão espaço para as concorrentes. Da mesma maneira, um governo irresponsável, que gasta mais que arrecada, que não faz reformas decentes, será penalizado. Não se ganha dinheiro especulando na derrocada de um governo com sólidos fundamentos. E os especuladores adoram dinheiro!

Como fica claro, não há motivos para culpar os especuladores pelos problemas econômicos dos países emergentes. São os fundamentos desses países que precisam ser fortificados. Afinal, não é muito racional culpar um termômetro pela febre de um doente...

Última modificação em Domingo, 01 Setembro 2013 13:34
Rodrigo Constantino

Rodrigo Constantino é economista formado pela PUC-RJ, com MBA de Finanças pelo IBMEC. Trabalha desde 1997 no mercado financeiro, como analista de empresas e administrador de portfolio. É autor do livro "Prisioneiros da Liberdade", da editora Soler.

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