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21 Ago 2005

No Piloto Automático

Escrito por 

A questão que se impõe é se o eventual novo comandante da economia irá ou não desligar o botão do piloto automático.

Nada como o brandir das algemas para fazer falar quem antes relutava, fazendo a crise bater no nome que todos temiam: Antônio Palocci Filho, ministro da Fazenda, o queridinho dos mercados. Haja o que houver, Lula já disse que ele não sairá do governo, e isso só vem dar razão ao dito pelo honrado Hélio Bicudo, o advogado que milita no PT desde a sua fundação. Disse o grande jurista que Lula da Silva é mestre em esconder a sujeira debaixo do tapete; disse-o com convicção, com todos os efes e erres.

Todos  com medo da queda de Palocci, fiz uma avaliação errada de que talvez pior que o crise chegar em Lula seria ela atingir o ministro da Fazenda, mas uma análise mais detida dos fatos revela que não é bem assim: a economia pode, sim, andar sem Palocci porque ele nada mais fez do que seguir uma receita que deu certo, uma herança deixada por seus antecessores.

Vejamos  o passado  deste homem de fala mansa, que afastou os temores dos que receavam uma guinada radical nos rumos da condução da economia,  mero condutor de um trem que já estava nos trilhos.

Palocci foi, por duas vezes, prefeito de  Ribeirão Preto (SP), com 543 mil habitantes. No primeiro mandato, em 93/96, ele assumiu um governo sem dívidas, que deixou com um rombo de R$20 milhões.

Elegeu-se deputado federal em 98 e largou o mandato pela metade para, novamente, eleger-se prefeito. Nesta segunda administração, que também largou pela metade para ser ministro da fazenda de Lula , Palocci alargou significativamente o tamanho do buraco que havia deixado nas contas do município, legando um déficit superior a R$120 milhões.

Não era, pois, nenhum grande administrador, mas na condição de ministro bastava seguir ordens, ou uma receita que encontrou pronta. Assim como não foi um bom prefeito, não se pode dizer que é um homem de palavra, pois quando se candidatou pela segunda vez à prefeitura de Ribeirão Preto,  registrou uma declaração em cartório garantindo que não deixaria o cargo de prefeito por nada deste mundo.

Mas como Brasília é um mundo à parte, por muitos chamada de “Ilha da Fantasia”, Palocci quebrou sua promessa e foi ser ministro de Lula, pois a glória, ainda que transitória, valia mais que a sua palavra escrita, que a sua assinatura.

A economia agüentará sem ele? E por que não? Ninguém é insubstituível, e seguir receitas não é lá nenhuma ciência oculta. Dependerá de quem vier a ocupar o seu lugar, se a lama da crise chegar aos pés do presidente e do vice – algo possível, se verdadeiras as declarações de Rogério Buratti,  ex-secretário de Palocci, de que a campanha de Luiz Inácio recebeu dinheiro de empresários de jogos.

Se Lula cair, o quadro, que já é complicado e gravíssimo, com todas as evidências que ninguém desejava ver vindo à tona, e ele, sintomaticamente colocando-se na defensiva, escondendo-se atrás das massas, posando de vítima e dizendo que “querem acabar com o meu governo”; ora se comparando a Getúlio Vargas, ora a Juscelino, tornar-se-á pior, acompanhado daquele ingrediente que mais assusta os mercados: a incerteza.

Teríamos, com o impedimento de Lula, a assunção ao poder do presidente da Câmara, Severino Cavalcanti (PP-PE), que, convenhamos, por pior que seja, não conseguiria superar Lula no quesito incompetência. Mas Severino, segundo a Constituição, só ficaria um mês no poder:

Art. 81. Vagando os cargos de Presidente e Vice-Presidente da República, far-se-á eleição 90 dias depois de aberta a última vaga.

§ 1º - Ocorrendo a vacância nos últimos dois anos do período presidencial, a eleição para ambos os cargos será feita 30 dias depois da última vaga, pelo Congresso Nacional, na forma da lei.

Eis o perigo: por um mês teríamos eventualmente um novo ministro e depois um conturbado período de expectativa a respeito de quem iria conduzir a nação, e conseqüentemente, a economia. Quanto tempo levaria a preparação destas novas eleições?

Se Palocci, que como se vê não é nenhum gênio da Economia – antes muito pelo contrário – conseguiu conduzir a economia até aqui porque ela estava no piloto automático, é de crer que qualquer outro daria conta da missão, a menos que recebesse orientação contrária.

Então, o problema não é exatamente saber quem substituiria Palocci. A questão que se impõe é se o eventual novo comandante da economia irá ou não desligar o botão do piloto automático.

Última modificação em Domingo, 01 Setembro 2013 13:34
Luiz Leitão

Luiz Leitão da Cunha é administrador e consultor de investimentos, sendo articulista e colunista internacional, especialmente para países lusófonos. É colaborador do Jornal de Brasília, Folha do Tocantisn, Jornal da Amazônia, Diário de Cuiabá, Publico (Portugal), entre outros.

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