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14 Ago 2005

Corrupção, Economia e Alquimia

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Nestes tempos em que predomina a razão cínica, os políticos petistas corruptos mentem desvairadamente e os honestos se tornam especialistas em sutilezas verbais veiculadas por meio de figuras de estilo como o bom e velho eufemismo.

Dia desses, o senador Cristovam Buarque foi entrevistado por Carlos Chagas no programa O Jogo do Poder no canal CNT. Conversa vai, conversa vem e Buarque não se conteve. Ao opinar sobre as dívidas interna e externa, o senador petista, hoje insatisfeito com os rumos morais de seu partido, preconizou uma saída heterodoxa, porém negociada. Em vez de propor os calotes selvagens que o PT de antanho sempre defendeu, Buarque discorreu sobre as vantagens de uma “solução negociada”. Em que consistiria? Consciente dos perigos representados pelo rastilho de uma eventual boataria dando conta de que o governo estaria cogitando renegociar suas dívidas, Buarque se saiu com a proposta de renegociação nos bastidores. Por entender que as dívidas são impagáveis, recomendou que sejam reescalonadas ou que tenham seus “perfis alterados”. Sem alvoroço, controlando as paixões e emoções dos privilegiados, tudo se resolveria com os credores renunciando a receber o que lhes é devido.

Nestes tempos em que predomina a razão cínica, os políticos petistas corruptos mentem desvairadamente e os honestos se tornam especialistas em sutilezas verbais veiculadas por meio de figuras de estilo como o bom e velho eufemismo. Alvitra o ilustre senador que os credores sejam instados a conversar para que, constrangidos por “bons argumentos”, se vejam forçados a ceder. Ficamos assim sabendo de uma grande novidade: o calote temperado com bons argumentos não tem efeitos danosos sobre a economia e nem abala a credibilidade do País. Deixar mais uma vez de honrar compromissos teria agora a atenuante de que houve uma “conversa franca” entre credores e devedores.

Não é de hoje que os que fazem sucesso no Brasil são os que muito ousam na retórica e pouco fundamentam o pensamento. Por isso desde o tempo do saudoso Stanislaw Ponte Preta o festival de besteiras nunca saiu de cartaz. De acordo com o alvitre de Buarque, o governo, para ter êxito, deve convocar os credores sem que o distinto público tome conhecimento disso. Do contrário, os mercados poderiam reagir mal à iniciativa. Na calada da noite, os negociadores representando o Governo tudo fariam para sensibilizar banqueiros, vampiros do banco de sangue do povo, de que a sociedade não agüenta pagar tanto de seu PIB para saldar compromissos financeiros com quem já nada em piscina de ouro. Caso a ênfase nas necessidades básicas dos humildes comovesse os financistas pançudos em pouco tempo se poderiam aumentar substantivamente os gastos públicos na área social. Esta seria a missão de um governo genuinamente popular que não deseja trair o compromisso tantas vezes assumido de investir em saúde, educação, infra-estrutura e otras cositas más. E, por fim, seria dito alto e som aos banqueiros - em reuniões secretas - que pagar dívida sem reclamar e sem reduzi-la é coisa de neoliberal insensível que acredita que mercados existem e estão sujeitos a determinadas forças que os estabilizam ou desestabilizam.

A proposta de promover negociações nos bastidores longe dos olhares curiosos da opinião pública é a negação do espírito democrático tão enfaticamente defendido por Buarque. Para evitar que as “negociações” chegassem ao conhecimento da imprensa, que o País corresse sérios riscos de sofrer ataques de vis especuladores, tudo seria acordado entre burocratas e banqueiros. Os credores, segundo essa estratégia digna de um grande enxadrista, seriam “convencidos” a aceitar uma solução pautada pelo bem comum: anular parte da dívida em nome da construção de um país melhor. Persuadidos pela razão e impelidos pela emoção aquiesceriam em dar essa grande contribuição em prol de um futuro melhor para a Nação.

O que espanta é que a proposição desse tipo de negociação, que retoricamente apregoa ser esse o “ajuste” que tirará o pescoço da sociedade do garrote vil das dívidas, parece desconhecer, o que é improvável, que a dívida interna é, no seu grosso, dinheiro que o governo toma emprestado dos pequenos e médios poupadores para poder se financiar. Renegociar a dívida equivale, no fundo, a passar a perna nos que têm feito investimentos com o objetivo, entre outros, de no futuro comprar um automóvel ou adquirir a casa própria. Eis, no fundo, o que representa a proposta de “negociar com os credores” na “calada da noite”: dar de novo um ypon à la Collor no poupador médio sob a alegação de estar atingindo apenas banqueiros locupletados.

Sarney, com a moratória soberana da dívida externa, e Collor, com o seqüestro de todos os ativos financeiros, colheram rotundos fracassos. Só que o malogro de ambos não foi suficiente para diminuir a ânsia caloteira que tão fundamente está aninhada na alma de nossa elite intelectual e política. O que há de distintivo no arrazoado de Buarque, em relação às teses históricas do velho PT, é a busca de uma solução negociada do tipo: se não abrirem mão de parte do que têm a receber vai ser pior para vocês; em algum momento nada vai ser pago. Para tornar mais efetiva a pressão sobre os credores, poderia inclusive o senador ter sugerido que fossem ameaçados com o “método Kirschner”: ou muito menos daqui a um certo tempo ou tudo para as calendas gregas.

É curioso que se Lula tivesse seguido conselhos desse tipo, dados pela fração honesta do PT composta por gente como o senador Buarque, já teria perdido o mandato. Em quase todos os lugares do mundo não há governo que resista quando a enxurrada de escândalos ocorre numa conjuntura em que a economia está desorganizada por calotes e populismo fiscal. Curioso deve ter sido o dilema de Lula: seguir os probos do partido e desestabilizar a economia ou perfilhar-se com os “pragmáticos” – Dirceu coordenando as contas do partido-governo e Palocci as do País – e correr o risco de ser tragado pelo duto da corrupção.

Última modificação em Domingo, 01 Setembro 2013 13:36
Alberto Oliva

Filósofo, escritor e professor da UFRJ. Mestre em Comunicação e Doutor em Filosofia pela UFRJ. Professor-palestrante da EGN (Escola de Guerra Naval) e da ECEME (Escola de Comando e Estado-maior). Pesquisador 1-A do CNPq. É articulista do Jornal de Tarde desde 1993. Possui sigficativas publicações como "Liberdade e Conhecimento", "Ciência e Sociedade. Do Consenso à Revolução", "A Solidão da Cidadania", "Entre o Dogmatismo Arrogante e o Desespero Cético" e "Ciência e Ideologia".

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