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13 Ago 2005

A Mamona é Nossa, Cabra da Peste!

Escrito por 

A respeito do grande acontecimento, César Maia (PFL-RJ) fez o seguinte comentário: “Dizem que os elefantes, quando pressentem que vão morrer, voltam para a sua região natal”.

Só para voltar a ser a voz de ouro do agreste e provar que faz jus ao título de Ruy Barbosa de Garanhuns (PE) , Lulinha Paz e Amor voltou à sua habitual verborragia que espíritos maldosos consideram se tratar de mero caso de incontinência verbal. Mas estes não sabem apreciar a arte da oratória desse grande  líder dos países submergentes, perdão: emergentres.

O cenário dessa vez foi mesmo Garanhuns (PE), sua terra natal, onde foi recebido com um bando de pífios, quer dizer: uma banda de pífaros, foguetes e tudo o mais. Lembrou-me Paes de Andrade, atual embaixador em Portugal,  que foi Presidente do Brasil por um dia – presidente em exercício, entenda-se bem. Mas esta ressalva não o impediu de fazer uma apoteótica visita à Mombaça (CE) onde o prefeito decretou feriado municipal  e mandou as crianças das escolas públicas com bandeirinhas do Brasil, para ovacionar o ilustre filho da terra.

Em matéria de comemoração, a visita de Lulinha Paz e Amor a Garanhuns foi muito mais espetacular. A respeito do grande acontecimento, César Maia (PFL-RJ) fez o seguinte comentário: “Dizem que os elefantes, quando pressentem que vão morrer, voltam para a sua região natal”. Pode ser que o aludido proboscídeo esteja sentindo mesmo que está às portas da morte política, mas parece que a oposição está levando demasiadamente a sério aquela advertência do velho Gorba (para os íntimos, Mikhail Gorbachov,  o último Czar de Todas as Rússias): “Matar o elefante é fácil. Difícil é remover o cadáver”. Interpretando a mim mesmo: entenda-se: remover os 23.000 “soldados” encrostados pelo PT na administração pública, prontos para sabotar um governo não-petista.

Mas vamos deixar de lado os “entretanto” e ir diretamente aos “finalmente” – como recomendava Odorico Paraguaçú, insigne alcaide de Sucupira. Os grandes oradores da história assim o são em virtude de sua palavra viva e pulsante. O que seria de Cícero, se suas Catilinárias tivessem só ficado na fria bidimensionalidade do papel? O que seria de Demóstenes, se ele não tivesse se curado dos mesmos males que hoje abespinham o senador Suplicy (PT-SP): insuperável timidez e indesejável gagueira de fundo nervoso. E nem menciono aqui a lamentável pobreza de idéias, pois se trata de mazela endógena do PT (Perda Total, no jargão das seguradoras).

Não, não. Se Lulinha Paz e Amor não fosse dotado de admirável verve, seria totalmente descabida uma comparação com os grandes vultos da oratória, como Cícero e Demóstenes. Por isto mesmo, vamos entrar logo no ponto alto de sua peroração garanhuense. Inspirado num dos filósofos das chuteiras imortais - Mario Jorge Lobo Zagallo - a voz de ouro do agreste proferiu em tom indignado: vocês vão ter que me engolir. (levado novamente ao Planalto pelo desejo do povo).

Que a política seja a arte de engolir sapos, vá lá. Mas, engolir sapos barbudos, não desce redondo. É ruim, hein, ô mané?! “Vocês” quem? Ora, as de sempre: as “elites reacionárias” que já o condenaram sem provas.. De onde se infere que Lulinha Paz e Amor pensa que já está reeleito. E nisto pensa certo, pois nunca saiu do palanque para governar e é um candidato imbatível, a menos que o camarada Che Guevara ressuscite e lhe faça concorrência - desleal, por sinal, pois competir com o Che é briga de cachorro grande. O único que está à altura do grande mito marxista é El Zorro levado para a tela pelo latin lover Antonio Banderas.

O velho lobo até que tinha razão para dizer o que disse. Fortemente criticado pela mídia e pelo povo, riu por último, pois ganhou aquela Copa do Mundo. E não  pensem vocês que vou dizer que Lulinha Paz e Amor não teve lá suas razões...

Impossibilitado de governar sem as prestimosas colaborações de Zé Dirrrrceu, Dilúvio e o laranja carequinha – peças-chave na sua governança – o que lhe resta? Ora, seguir  a recomendação de Duda Mendonça: adotar o estilo Chávez y Chapolin: deitar falação para os assim chamados “movimentos sociais” e para os incontáveis grotões deste Brasil varonil de céu de anil. Chega de intermediários !!!  Agora é cara a cara com o povão numa democracia direta, malgrado uma meia dúzia de intelectuais das “elites” chamarem tal coisa de descarado populismo.

E tudo indica que, de agora em diante, a tônica será esta: muita emoção e muita comoção. O povão precisa ficar sabendo que Lulinha Paz e Amor teve uma infância pobre, mas honesta. Quando vendia mariola na rodoviária de Santo André nunca enganou velhinhos no troco, pois desde a mais tenra infância sua vida pautou-se pela ética.  Não seria depois de velho no ofício da política que iria jogar a moral para o alto e cair na gandaia de Madame Jane, conhecida empresária do gozo libidinoso dos políticos em Brasília  cujos honorários, ao que tudo indica, têm sido pagos com dinheiro público. Está certo. Se são homens públicos afogando o ganso com mulheres públicas, não causa espécie que o dinheiro seja da mesma natureza. E a grande imoralidade está em pagar por seu prazer com o dinheiro do povo, que nunca é convidado a dar umas bimbadinhas.

No discurso do dia seguinte, desta vez no Piauí as variações foram muito criativas (Miles Davies  e Chet Baker, que se cuidem!), mas sempre voltando sobre a tônica. Tomado de profunda emoção, Lulinha Paz e Amor chegou mesmo a se comparar com Getúlio Vargas. Não por não suportar a crise e estar pensando em meter uma  bala no peito em 24 de agosto, mas sim por defender os legítimos interesses nacionais criando a Petrobras. Mas como este admirável monopólio estatal já tinha sido criado, restava-lhe criar outro: a Mamonobras, para fabricar biodiesel de mamonas. E eu que pensava que mamona só servia para fazer óleo de rícino e brincadeira de guerra com minha patotinha de infância.

Recorrendo à comparação com “o  pai dos pobres”,  Lulinha Paz e Amor alegou estar sendo vítima de uma injustiça, o que pressupõe ao bom entendedor que ele se considera inocente. Michael Jackson também,  e a prova disto é que foi absolvido por um júri popular. Ora, Luiz Inácio nem precisa ser levado a um julgamento, pois 54% da opinião pública acreditam em duendes, no chupa-cabras e até no bom velhinho e sua charrete puxada por 7 renas. Por sinal, são os mesmos 54% que não só o consideram inocente como também acham que seu governo está bom demais. Tão bom, mas tão bom que, se melhorar, estraga. Mas convém apreciá-lo em suas próprias palavras....

“Estamos aqui hoje começando o embrião que, em 1954,  Getúlio Vargas começou quando teve a coragem, contra os interesses da elite política brasileira, de dizer ao Brasil que a gente ia fazer a Petrobras [obs. minha: Ah! Se arrependimento matasse...] e a gente ia produzir o nosso próprio petróleo [obs. minha: “nosso”? Não sabia que Luiz Inácio é um dos marajás da  Petros...]. Naquele tempo ele foi achincalhado, a imprensa da época não se cansou de fazer  editoriais contra a decisão de fazer a Petrobras” [obs. minha: ao que consta, Eugênio Gudin, Roberto Campos, Meira Penna e meia dúzia de gatos pingados foram contra e receberam os infamantes qualificativos de “entreguistas” e “lacaios do imperialismo americano”, e isto só porque, contra tudo e todos, alertaram a nação para os graves problemas socioeconômicos gerados por monopólios estatais]. Mas a festa continua....

“Escolhemos a mamona porque, se a gente não escolhesse a mamona, a gente ia ver o biodiesel sendo produzido da soja. Se fosse produzido da soja, ia beneficiar mais uma vez a região Sul, Sudeste e Centro-Oeste, e o Nordeste ia ficar abandonado. A mamona é como povo nordestino. Agüenta sol, agüenta calor, agüenta terra ruim e não morre nunca”.

Parece que não é só a mamona que não morre nunca: o obscurantismo, a safadeza, o  cinismo,  a sem-vergonhice, a burrice etc. no Brasil também são imortais, mesmo que não tenham entrado para a Academia Brasileira de Letras. E além disso, um bom baiano - como nordestino que é - poderia ter protestado: “Mamona?! Se vai usar óleo vegetal,  por que não o dendê, meu rei?”

Última modificação em Domingo, 01 Setembro 2013 13:37
Mario Guerreiro

Mario Antonio de Lacerda Guerreiro nasceu no Rio de Janeiro em 1944. Doutorou-se em Filosofia pela UFRJ em 1983. É Professor Adjunto IV do Depto. de Filosofia da UFRJ. Ex-Pesquisador do CNPq. Ex-Membro do ILTC [Instituto de Lógica, Filosofia e Teoria da Ciência], da SBEC [Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos].Membro Fundador da Sociedade Brasileira de Análise Filosófica. Membro Fundador da Sociedade de Economia Personalista. Membro do Instituto Liberal do Rio de Janeiro e da Sociedade de Estudos Filosóficos e Interdisciplinares da Universidade. Autor de Problemas de Filosofia da Linguagem (EDUFF, Niterói, 1985); O Dizível e O Indizível (Papirus, Campinas, 1989); Ética Mínima Para Homens Práticos (Instituto Liberal, Rio de Janeiro, 1995). O Problema da Ficção na Filosofia Analítica (Editora UEL, Londrina, 1999). Ceticismo ou Senso Comum? (EDIPUCRS, Porto Alegre, 1999). Deus Existe? Uma Investigação Filosófica. (Editora UEL, Londrina, 2000). Liberdade ou Igualdade (Porto Alegre, EDIOUCRS, 2002).

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