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10 Ago 2005

Repensando o Aprender e o Ensinar

Escrito por 

Se tivéssemos que resumir o que é a sociedade moderna em uma única palavra, esta seria o vocábulo superficialidade.

Se tivéssemos que resumir o que é a sociedade moderna em uma única palavra, esta seria o vocábulo superficialidade. Não afirmamos isso por um sentimento de maldade gratuito, pelo contrário. Manifestamos este ponto de vista devido a nossa sincera preocupação com os descaminhos que estamos ainda a trilhar neste começo do terceiro milênio. E, para não cairmos em abstracionismo, procuremos focar o nosso olhar unicamente no fenômeno da institucionalização da educação, fenômeno este, característico da modernidade.

Toda forma de aprendizado tem apenas validade para nós quando esta é ministrada por uma instituição que seja habilitada para tal e que emita a necessária documentação que lhe aufira algum título que o diferencie dos demais mortais, pelo menos formalmente.

Alias, vivemos hoje uma grande euforia em torno desta panacéia em que se transmutou o ensino institucionalizado e, em contra-partida, esquecemos de observar com atenção o fato de que a maioria das coisas, inclusive as mais importantes, nós aprendemos sem a necessidade de uma instituição de ensino e, muitas das vezes, apesar da existência ou não de um professor, não é mesmo?

Lembremos de nossos dias enquanto discentes. Lembremos das lições ministras pelos nossos ex-mestres e veremos que, muito do que aprendemos nestes idos não foi devido muitas vezes ao generoso esforço deles, mas, devido a uma pré-disposição de nossa parte para aprender o que estava sendo apresentado para nós.

Lembramos neste ínterim que, não estamos aqui a fim de desmerecer o trabalho desenvolvidos pelos inúmeros professores que fazem parte da rede pública e particular de ensino, visto que, faço parte deste quadro e, ao contrário de muitos formadores de opinião, não vejo o professorado como sendo os responsáveis pela baixa qualidade do ensino em nosso país, como também não aponto diretamente para as largas costas das Autoridades Governamentais e muito menos para a exclusividade de uma suposta culpa exclusiva de nossos alunos, não mesmo. Digo isso, pois, ao nosso ver, a questão é de uma problemática muitíssima mais ampla e por isso mesmo é inerente a sociedade moderna e a forma como ela se constitui.

O ponto nevrálgico ao qual chamamos a atenção é a forma excessiva com que os atos mais espontâneos manifestados pelo ser humano acabam sendo cerceados por uma exigência formal, como é o caso da educação e, mais especificamente, da aprendizagem, onde passa apenas ser reconhecido como conhecimento adquirido com validade aquele que é obtido através de uma instituição de ensino e que, deste modo, tenha um pedaço de papel para comprovar que o indivíduo tenha passado por ela, mas essa papelada necessariamente não significa que tais saberes tenham sido aprendidos junto a ela, a dita Instituição de ensino e mesmo que tenha sido aprendido algo, não é mesmo? Então por que nós, enquanto sociedade, continuamos a dar credibilidade a este tipo de legitimação dos saberes?

As palavras que aqui escrevo são justamente para chamar a atenção ao fato de que, a forma burocratizada que as nossas instituições de ensino se encontram organizadas hoje está fazendo delas mais objetos de negação do objetivo a que se propõem edificar do que entidades que confirmem essas metas. Não por incompetência congênita da parte do corpo docente, mas sim pela própria forma como se estrutura as relações de ensino/aprendizagem.

O amigo pode estar a se perguntar quanto ao que estamos a nos referir e com razão. Por isso colocamo-nos a explicar o nosso dito: imaginem vocês com suas pessoas amadas a se enamorarem calorosamente. Bom, não é mesmo? Agora imaginem que vocês estão a fazer isso em uma fila do INSS com pessoas que estão furiosas por estarem a horas aguardando para serem atendidas. Pode-se até trocar algumas carícias, mas apenas de uma maneira muito superficial visto o contexto apresentado.

O mesmo afirmamos com relação à forma como se apresenta o contexto escolar: artificial, anti-natural e, deste modo, pouco didático. Há tantas formalidades toscas a serem cumpridas no âmago do espaço escolar que acabamos muitas das vezes esquecendo ou mesmo confundindo o objetivo primo daquela instituição que seria facilitar o aprender. E, deste modo, o saber, acaba sendo o último a ser lembrado e o primeiro a levar pau.

Sobre este ponto, Ivan Illich, em sua obra clássica (e desdenhada pela comunidade acadêmica) Sociedade sem Escolas, nos chama a atenção para o fato de que: “Todos nós aprendemos o como viver sem o auxílio da escola. Aprendemos a falar, pensar, amar, sentir, brincar, praguejar, fazer política e trabalhar sem a interferência de professor algum. [...] Os órfãos, os excepcionais e os filhos de professores escolares adquirem a maioria de seus conhecimentos fora do processo ‘educacional’ planejado por eles. [...] ...as crianças aprendem a maior parte do que os professores pretendem ensinar-lhes dos seus grupos de amigos, das histórias em quadrinhos , de observações fortuitas e, sobretudo, da mera participação no ritual escolar”. (ILLICH1973; p. 63)

Você ao ler estas considerações não consegue visualizar a sua experiência educacional que vivenciou em uma instituição de ensino e as experiências educacionais que viveram fora dela? Por isso acreditamos ser urgente que nós, enquanto sociedade, nos coloquemos a refletir sobre o real papel das escolas e sua real relação com a aprendizagem para que, realmente, a educação tenham algum sentido que valha a pena ser apreendido e vivido.

Última modificação em Domingo, 01 Setembro 2013 13:37
Dartagnan Zanela

Professor e ensaísta. Autor dos livros Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos – ensaios sociológicos.

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