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22 Jul 2005

Inocência no Planalto

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A dúvida que assola as mentes e os corações de milhões de brasileiros é saber se o presidente da República sabia que o seu partido pagava propina para parlamentares da base aliada.

É possível que a grande discussão em torno das denúncias de mensalão, que arrebentam com a imagem de virgindade ética do PT, diga respeito se o presidente Luis Inácio tinha ou não conhecimento da referida pratica delituosa. A dúvida que assola as mentes e os corações de milhões de brasileiros é saber se o presidente da República sabia que o seu partido pagava propina para parlamentares da base aliada para votar a favor do Palácio do Planalto. Neste sentido, vê-se de maneira clara e cristalina, nas sucessivas manifestações dos eventuais envolvidos neste esquema podre e repugnante de corrupção, a intransigente defesa do presidente do Brasil, no sentido de que o Sr. Luis Inácio não tinha conhecimento.

Desta maneira, o quadro atual do país, na seara política federal, é: uma crise sem precedentes na história do Brasil, desencadeada por suposto suborno praticado pelo PT e, neste cenário, o Presidente da República, figura-chave e símbolo maior do Partidos dos Trabalhadores, nada sabe.

Difícil de acreditar.

E esta dificuldade se inicia nas afirmações da própria fonte da crise atual: o deputado Roberto Jefferson. Este parlamentar carioca, que até a presente data (22/07/2005), teve suas denúncias confirmadas pela CPI dos Correios, afirma que informou o Sr. Luis Inácio do pagamento de propina a base aliada do PT, pelo seu partido e que o petista-mor mandou “meter o pé no breque”. E um dos três avisos foi em Janeiro de 2005!

A dificuldade em crer no desconhecimento do presidente Luis Inácio sobre o mensalão aumenta, na afirmação da senadora Heloísa Helena, durante depoimento do Sr. Silvio Pereira, ex-tesoureiro do PT, perante a CPI dos Correios em 19 de Julho de 2005. Afirmou a ex-petista (a quem admito profundo respeito pela coerência política, afastando-me, porém, ideologicamente), que em um partido de esquerda, somente gozando da mais profunda confiança da direção partidária, e em particular do líder maior desta entidade política, é possível assumir um cargo exponencial, como o exercido pelo Sr. Silvio.

Assim, fica claro que o Sr. Silvio Pereira, sobre quem recaem pesadas denúncias de efetiva participação no mensalão, ocupava um cargo importantíssimo dentro do Partido dos Trabalhadores, pois gozava da confiança do Sr. Luis Inácio. Logo, justo se acreditar que os atos institucionais do Sr. Silvio fossem, no exercício da função de secretário-geral do PT, ainda que não pormenorizados, do conhecimento do presidente da República. Isso é óbvio!

Aliás, as declarações do presidente Luis Inácio diretas de solo francês, em uma entrevista pífia e que ofendeu a imprensa nacional e, principalmente, o povo brasileiro, o inseriram no processo de corrupção. Se dúvida havia, o próprio mandatário supremo da nação brasileiro tratou de dirimir tais dúvidas ao afirmar: “O que o PT fez do ponto de vista eleitoral é o que é feito no Brasil sistematicamente”. O que é feito sistematicamente no Brasil? Caixa-dois? Empréstimos com empresários que ofertam como garantia contratos com o governo federal? Suposta distribuição de dinheiro à base aliada no Congresso Nacional? É isso?

Quem fez essa afirmação foi o Sr. Luis Inácio, presidente da República Federativa do Brasil. Então ele sabia sim, dos supostos atos de corrupção perpetrados por seu partido, na figura de José Genoíno, supostamente conhecedor do mensalão, e com aval do Palácio do Planalto, em particular dos eventuais envolvimentos de José Dirceu e Luis Gushiken.

Neste cenário de pouca confiança nos petistas, soam ridículas as declarações do Sr. Delúbio Soares, ex-tesoureiro do PT, de que foi o único responsável pela criação do caixa-dois do PT. Inclusive, essa foi a linha de defesa do próprio Delúbio perante a CPI dos Correios, em 20 de Julho de 2005: assumiu completa responsabilidade pelos empréstimos contraídos pelo PT e que deram origem ao caixa-dois do partido. Esse posicionamento seria até louvável, sob o prisma da ética, se não fossem dois aspectos: 1. Os valores envolvidos são da ordem de 30 milhões de reais; 2. Os saques na conta do publicitário Marcos Valério foram em datas próximas (senão coincidentes), a importantes votações no Congresso.

Aqui duas considerações. Será possível que 30 milhões de reais entrassem nas contas do PT e somente o Sr. Delúbio soubesse? Há dois ou três dias, o novo tesoureiro do PT, o Sr. José Pimentel, declarou-se surpreso com a dívida oficial do partido, avaliada em 39 milhões. Ou seja: qual a razão para 39 milhões reais fazer diferença nos cálculos do partido e ser do conhecimento de todos naquela agremiação política e créditos de 30 milhões de reais ser do conhecimento apenas do ex-tesoureiro Delúbio. E por acreditar que tenho um mínimo de bom senso, pergunto sobre a gigantesca e grotesca proximidade de datas de saques e votações? E saques, conforme anunciado fartamente pela imprensa, de valores que vão de R$100 mil a R$6 milhões!

De fato, fica difícil acreditar que o Sr. Luis Inácio de nada soubesse. E aqui cabe, como uma luva de seda, as declarações do senador Arthur Virgílio – PSDB/MA: “(...) ade ser conivente com a corrupção ou a ser um completo idiota por não estar vendo tudo o que se passa à sua frente. Estou dizendo aqui que, na melhor das hipóteses, senhor Lula, o senhor é um idiota; na pior, o senhor é um corrupto (...)”.

Desta forma é extremamente dificultoso acreditar na falta de conhecimento do presidente da República relativamente ao mensalão. Particularmente, acredito que o presidente da República sabia do mensalão. E agora?

Última modificação em Domingo, 01 Setembro 2013 13:41
Alexandre Seixas

O Prof. Alexandre M. Seixas é formado em Direito pela PUC de Campinas, tendo realizado o curso de Aperfeiçoamento em Ciências Sociais, e Mestrado em Ciência Política na Unicamp. Realizou ainda os cursos de inglês, na Surrey Heath Adult Education Center, em Camberley, Inglaterra. É professor universitário com vinculação em Teoria Geral do Estado e Ciência Política.

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