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22 Jul 2005

Dinheiro Compulsório

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O escambo ineficiente retorna, por culpa do Estado, como ocorreu na Rússia também. O problema é quando o governo proíbe, com seu monopólio da força, essa escolha individual, obrigando o povo a ficar com o "mico" na mão.

"O papel jamais deveria ser o dinheiro, mas apenas ser empregado como um símbolo representativo do valor existente nos metais ou produtos." (Ma Twan-lin, séc. XII)

 

Kublai Khan, neto do grande unificador do império mongol Genghis Khan, foi o primeiro imperador da dinastia Yuan. Marco Polo permaneceu a serviço do grande líder mongol por anos. Seus relatos, principalmente sobre a riqueza do Khan, são surpreendentes. Sempre que comerciaintes entravam em seus domínios com pérolas, pedras preciosas, ouro, prata ou qualquer coisa valiosa, eram todos "instados" a ceder todo o seu tesouro para o Grande Khan, em troca de papel-moeda. O poder de persuação do líder, para garantir a confiança em sua moeda, foi explicado pelo próprio Marco Polo, ao afirmar que "ninguém ousa recusá-lo sob pena de perder a vida". E assim, o Khan tinha realmente dominado a arte da alquimia, ao menos dentro dos seus domínios.

São infindáveis os exemplos de governantes que, com o poder de emissão monopolista de papel-moeda, inflaram as economias de forma totalmente irresponsável, gerando miséria para o povo. A riqueza é concreta, finita, medida pela produção de bens e serviços, ligada à satisfação material das pessoas. O papel-moeda é apenas um crédito sobre a riqueza, dependente da aceitação das pessoas, que por sua vez depende da sua credibilidde, quando não se trata de aceitação compulsória, imposta pela força estatal. Em um mundo idealizado por Hayek, com moedas privadas competindo, as de maior respaldo e solidez seriam as aceitas, e a competição forçaria a responsabilidade dos emissores. Um cheque de um banco, na verdade, não passa de uma moeda privada. Já quando o Estado se arroga o direito exclusivo de emissão de moeda, obrigando o povo a aceitá-la e não permitindo concorrentes, há um claro incentivo à irresponsabilidade em sua emissão, que por sua vez gera inflação. No Brasil, por exemplo, é proibido manter dólares nos bancos ou em casa. O governo não gosta de competição!

Com foco nos mandatos curtos, os governantes consideram simplesmente tentador demais inflar a economia. Existem basicamente três formas do Estado financiar seus gastos: impostos, dívida e emissão de papel-moeda. Como os impostos incidem diretamente no bolso dos "contribuintes", o risco de impopularidade é alto demais, e de fato, foram impostos abusivos que causaram inúmeras revoltas ao longo do tempo. Tomar financiamento significa consumir mais hoje às custas de gerações futuras, sem falar que pressiona a demanda por crédito, que para uma oferta limitada pela poupança privada, força o preço do crédito, os juros. Eles acabam muito altos sempre que o governo apresenta uma fome insaciável por recursos, como no caso brasileiro. E juros elevados acarretam recessão, sempre impopular. A outra alternativa é fazer girar a casa da moeda, colocando em circulação mais "dinheiro". Como a produção real não aumenta em termos proporcionais, essa maior oferta de papel-moeda acaba forçando uma desvalorização do seu valor real. Em outras palavras, será preciso mais moeda para comprar o mesmo bem, ou seja, teremos inflação. Como esse efeito vem ao longo do tempo e a ignorância do povo não permite a rápida noção do que está ocorrendo, esse sempre foi um mecanismo bastante utilizado por governantes, que depois culpavam a "ganância" dos empresários.

Se os indivíduos tivessem ao menos total liberdade de escolha quanto ao meio de transição e reserva de valor que pretendem adotar, tais medidas iriam gerar um desinteresse e perda de credibilidade total da moeda estatal. Esta acabaria completamente desvalorizada, sem valor algum, como na época da hiperinflação alemã, onde pessoas andavam com carrinhos cheios de papéis sem valor, e buscavam desesperadamente substituos até para meios de troca. O escambo ineficiente retorna, por culpa do Estado, como ocorreu na Rússia também. O problema é quando o governo proíbe, com seu monopólio da força, essa escolha individual, obrigando o povo a ficar com o "mico" na mão. O povo fica vetado de manter outras moedas ou mandar o dinheiro para outro país. Normalmente os governantes apelam para essa medida, sempre que suas atitudes irresponsáveis fazem apodrecer o dinheiro do povo. E isso não é exclusividade de governantes do mundo subdesenvolvido!

Em 1933, durante a Grande Depressão, o governo americano proibiu todo cidadão ou empresa de manter em sua posse ouro monetário. Os governos estrangeiros ainda podiam converter livremente seus dólares em ouro novamente, mas até isso acabou em 1971, quando o presidente Nixon vetou essa brecha. O governo americano passava a adquirir o poder da alquimia, tal como o Grande Khan.

Como disse Peter Bernstein, "os metais contam com provisões mais limitadas do que as do papel, o que significa que os sistemas metálicos devem cumprir a função de evitar que o dinheiro perca valor". Sem a necessidade de uma contrapartida física de um metal raro como o ouro, e com a imposição por parte do governo da aceitação exclusiva de seu papel-moeda como dinheiro, o convite à irresponsabilidade é sedutor demais. Os poupadores, obrigados a aceitar como reserva de valor aquele pedaço de papel impresso pelo Estado, viram reféns dos governantes, que podem, ao bel prazer, ligar máquinas que cospem papel e empobrecem o povo.

Última modificação em Domingo, 01 Setembro 2013 13:42
Rodrigo Constantino

Rodrigo Constantino é economista formado pela PUC-RJ, com MBA de Finanças pelo IBMEC. Trabalha desde 1997 no mercado financeiro, como analista de empresas e administrador de portfolio. É autor do livro "Prisioneiros da Liberdade", da editora Soler.

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