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22 Jul 2005

Modernidade e Espetacularização

Escrito por 

Quando pensamos a atual conjuntura política, não temos como nos esquivar da grotesca imagem que nos vem a vista através das mídias que acabam transformando todos os crimes contra a sociedade.

Guy Debord em sua obra clássica, A SOCIEDADE DO ESPETÁCULO, nos aponta que na sociedade moderna o centro de sua vida social se localiza na espetacularização da vida em todas as suas dimensões. Diz-nos ele que: “Tudo que era diretamente vivido se esvai na fumaça da representação. [...] O espetáculo é ao mesmo tempo parte da sociedade, a própria sociedade e seu instrumento de unificação. Enquanto parte da sociedade, o espetáculo concentra todo o olhar e toda consciência. Por ser algo separado, ele é o foco do olhar iludido e da falsa consciência, a unificação que realiza não é outra coisa senão a linguagem oficial da separação generalizada [1]”.

Quando pensamos a atual conjuntura política, não temos como nos esquivar da grotesca imagem que nos vem a vista através das mídias que acabam transformando todos os crimes contra a sociedade, que são cometidos pelos representes desta, em um espetáculo de horror que acaba por entorpecer a mente, por fatigar a alma com imagens que mais chocam do que esclarecem por omitirem dados basilares sobre os jogos de interesses que estão a baila, visto que, o que mais interessa neste show da vida macunaímica é a impressão deixada e não o esclarecimento construído.

Um dos pontos que nos chamam a atenção no cenário político que é apresentado nas telas e nas laudas da imprensa brasileira é a forma como o escândalo do esquema armado pelo Partido palaciano e o modo como a oposição se posiciona diante do ocorrido. De uma hora para outra este acontecimento passa a ser o centro dos olhos da sociedade e, por este mesmo motivo, passa a ser o ponto nevrálgico da consciência que o corpo societal passa a ter de si, da falsa consciência que esta passa a ter de si através de uma imagem construída com fragmentos da realidade vivida.

O Brasil virou unicamente em CPI dos Correios e em mensalão. Tal fato não apenas acaba por tolher a percepção de outros problemas que estão assolando a terra brasilis, mas também quanto a compreensão da própria conjuntura política atual em que o referido fenômeno está inserido, por desdenhar outros acontecimentos que, em princípio, não estão relacionados diretamente com o escândalo dos correios e com a compra de deputados fisiológicos, mas que são imprescindíveis para se compreender as razões do partido palaciano e bem como a lógica de sua ação.

Querem um exemplo? Vejamos a postura dos movimentos sociais como o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra). Até a pouco, este mantinha uma postura de “afronta” ao governo petista, inclusive sob recomendação de Frei Betto, ex-assessor do Presidente Lula, que no último Fórum Mundial Social aconselhava os seus ouvintes, dizendo que se deveria: “ensinar os ‘movimentos sociais’ a fazerem nos próximos meses uma inteligente e bem calculada ‘pressão popular’ sobre o governo Lula, de maneira que este possa ir se deslizando à esquerda, alegando o clamor popular. Nesse sentido, o frade explicou que Lula ‘chegou ao governo, mas não ao poder’; que o presidente tem necessidade de ‘conquistar parcelas gradativas do poder, dentro da legalidade burguesa, como dizia Gramsci’; e que essa ‘conquista’ progressiva do poder real só será possível se os ‘movimentos sociais’ pressionarem o governo. ‘Governo, é que nem feijão: só funciona na panela de pressão’, afirmou o frade revolucionário[2]”.

Atualmente a postura que vem sendo tomada é bem outra, não é mesmo? Segundo declarações dadas pelos próprios líderes do referido movimento social é fundamental se dar apoio ao governo Lula. A encenação não mais é a do governo atucanado, mas sim, a do governo que está a sofrer uma conspiração da destra. Este é o novo script.

Neste ínterim é que caberia a pergunta: qual a relação que há entre o MST e o PT? A resposta é tão obvia que preferimos nos esquivar dela tamanho é o circo que está armado, mas, então levantemos outra, que julgamos ser mais importante: qual o projeto de poder que é partilhado por ambos? Que tipo de sociedade estes grupos desejam para a nação brasileira?

A reposta para esta pergunta também não é difícil. Pena que, na conjuntura atual, ela seja politicamente incorreta de ser proclamada publicamente. Todavia, urge que nós, enquanto cidadãos nos dediquemos a abolir com o Estado espetáculo com suas macaqueações politiqueiras. Entretanto, não devemos nos esquecer jamais que para abolir com o Estado espetáculo é fundamental que se desmistifique ele, é fundamental que se acabe com sua aura de prestígio que, para nós, cidadãos, se faz deveras perigosa, como nos lembra Roger-Gérard Schawartzenberg [3].

Tal atitude por mais que seja fundamental, é-nos, enquanto filhos da modernidade em um misto com a cultura patrimonialista secular destas terras, uma tarefa ingrata, pois, como fora apontado linhas atrás, o espetáculo não se faz simplesmente em nossa sociedade como um adereço, como um adorno em nossas vidas. Ele é, alias, mais que uma parte integrante de nosso ser social. Ele é o centro de nossa vida em sociedade.

Por isso enfatizamos que essa luta contra o Estado espetacular que macaqueia encenações para assim acobertar as crocodilagens de nossos distintos representantes, não é um luta contra estes biltres que nos vilipendiam, digo, governam, mas antes de tudo, contra essa nossa pulsão que nos leva a crer que seja verdadeira e sincera toda imagem, toda palavra, enfeitada com purpurina e paetês populistas ditos em nome do tal do “povo”.

 
Notas:

[1] DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Projeto periferia. Disponível na internet: .

[2]Destaque internacional. 5 o. Fórum Social Mundial: uma radiografia - Parte I. Informes de Conjuntura - Ano VII - Nos. 161-162 - Buenos Aires / Madri - Fevereiro, 2005 - Responsável: Javier González. Tradução: Graça Salgueiro. Mídia Sem Máscara, 23 de fevereiro de 2005. Disponível na Internet:

[3]SCHAWARTZENBERG, Roger-Gérard. O Estado Espatáculo – ensaio sobre e contra o star system em política. Tradução de Heloysa de Lima Dantas. São Paulo: Circulo do Livro, 1977. (p. 339)
Última modificação em Domingo, 01 Setembro 2013 13:42
Dartagnan Zanela

Professor e ensaísta. Autor dos livros Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos – ensaios sociológicos.

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