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16 Mai 2004

Da Sutil Arte de Transformar Traque em Explosão Nuclear.

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Mas, desta vez, Lula não reagiu impulsivamente: aceitou como desculpa algo que jamais, em tempo algum, poderia ser assim considerado.

Quando você começa a ficar em dúvida se determinada expressão ainda é usada ou não, pode estar certo de que você está ficando velho. E como muitos de meus possíveis leitores podem ser menores de 50 anos, vou logo esclarecendo as coisas para evitar qualquer incompreensão de caráter semântico. Nos tempos do meu querido avô, “traque” era o nome que se dava a duas coisas: (1) gases emitidos pelo ânus e (2) um tipo de fogos de São João que produzia pequenos estalos em série assemelhando-se a uma crise de flatulência. Só não me lembro se era inodoro ou se deixava mau cheiro no ar. Feito o devido esclarecimento, já posso falar tranqüilamente sobre a essência da referida arte.

Pessoas há que possuem a extraordinária capacidade de produzir tempestade em copo d’água, transformar pequena e inofensiva lagartixa em temível jacaré, matreiro gato do mato em onça feroz ou beija-flor em helicóptero, ou seja: superdimensionam as coisas ou levam demasiadamente a sério coisas que não deviam sequer ser levadas a sério. Tenho certeza de que você alguém assim...
Às vezes determinadas coisas que passariam despercebidas para a maioria das pessoas, ou seriam brevemente esquecidas pelas poucas que as perceberam, só são lembradas e aumentadas, porque alguém interferiu fazendo o referido superdimensionamento e fazendo com que aquilo, que pouca ou nenhuma repercussão teria, adquirisse portentosas conseqüências.

Dito isto, vamos diretamente à vaca fria. Por volta de 12 de maio de 2004 apareceu no New York Times uma reportagem sobre o Presidente Lula. O autor da mesma, correspondente do referido jornal no Brasil, dizia que o Supremo Mandatário da Nação era um alcoólatra e que isto já estava prejudicando a regência da orquestra, pois já havia sinais de que o descontrole do maestro já estava se refletindo na desafinação e descoordenação dos executantes. Diante disto, que devia ter feito o Presidente, supondo que contasse com aquilo que se costuma denominar “jogo de cintura” ou “habilidade política?” Bem, creio que poderia ter feito duas coisas mutuamente exclusivas: (1) Não dar a menor importância a tais declarações totalmente infundadas, pois elas seriam esquecidas em poucos dias ou então (2) mover uma ação contra o referido jornalista por difamação e/ou dano moral, remetendo ao mesmo o ônus da prova de que o Presidente é um pinguço (coisa difícil de ser provada até mesmo no caso do finado Jânio Quadros). A primeira decisão teria revelado argúcia política e a segunda teria de ser considerada uma medida aceitável do ponto de vista estritamente jurídico. Porém não deu uma nem outra, mas sim uma terceira. Feita uma reunião com o núcleo duro do Poder, o Presidente deu um soco na mesa e decidiu expulsar do país o referido jornalista como persona non grata. Alguns membros da reunião advertiram o Supremo Mandatário que tal medida era contrária à Constituição, pois o jornalista, embora americano fosse, era casado há vinte anos com uma brasileira e tinha filhos brasileiros com a mesma.

Informado do caráter ilegal de sua medida, o Presidente poderia ter revogado sua medida, mas deu outro soco na mesa e disse que não voltaria atrás. A notícia provocou de imediato uma indesejável repercussão na mídia nacional e internacional. Alguns consideraram a coisa um verdadeiro atentado à liberdade de expressão, outros foram mais longe e viram na decisão do Presidente uma clara demonstração de intolerância e truculência típicas de regimes ditatoriais. E não faltou nem mesmo quem comparasse Lula com o caudilho Hugo Chávez da Venezuela, que muitos venezuelanos chamam de perro de los infiernos. Resultado: por causa de uma reação passional de um Presidente a credibilidade do país no exterior despenca e o capital estrangeiro fica temeroso de entrar no Brasil.
Pode-se dizer que a inofensiva lagartixa foi transformada em temível jacaré ou que o matreiro gato do mato virou onça feroz ou ainda que um traque foi transformado em explosão nuclear.

Dia 15 de maio de 2004, o correspondente do New York Times envia uma carta para o Presidente dizendo que não tivera a menor intenção de ofendê-lo. Isto beira a comicidade.
Você diz que um indivíduo é um pinguço e que não se acha em condição de dirigir um país e em nenhum momento desdiz o que disse: apenas esclarece que não se tratava de uma ofensa. Ora bolas, que outro raio de coisa poderia ser, um elogio?! Não era de nenhum modo um pedido formal de desculpa, pois não havia nenhuma retratação no texto da carta.  E deu o caso como encerrado. Talvez, tenha pensado consigo mesmo: “Puxa! Que bom que ele resolveu mandar essa carta, pois seria bastante provável que ele ganhasse a ação quando do julgamento do mérito da mesma e eu teria ficado com cara de tacho”.

Última modificação em Quarta, 30 Outubro 2013 21:29
Mario Guerreiro

Mario Antonio de Lacerda Guerreiro nasceu no Rio de Janeiro em 1944. Doutorou-se em Filosofia pela UFRJ em 1983. É Professor Adjunto IV do Depto. de Filosofia da UFRJ. Ex-Pesquisador do CNPq. Ex-Membro do ILTC [Instituto de Lógica, Filosofia e Teoria da Ciência], da SBEC [Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos].Membro Fundador da Sociedade Brasileira de Análise Filosófica. Membro Fundador da Sociedade de Economia Personalista. Membro do Instituto Liberal do Rio de Janeiro e da Sociedade de Estudos Filosóficos e Interdisciplinares da Universidade. Autor de Problemas de Filosofia da Linguagem (EDUFF, Niterói, 1985); O Dizível e O Indizível (Papirus, Campinas, 1989); Ética Mínima Para Homens Práticos (Instituto Liberal, Rio de Janeiro, 1995). O Problema da Ficção na Filosofia Analítica (Editora UEL, Londrina, 1999). Ceticismo ou Senso Comum? (EDIPUCRS, Porto Alegre, 1999). Deus Existe? Uma Investigação Filosófica. (Editora UEL, Londrina, 2000). Liberdade ou Igualdade (Porto Alegre, EDIOUCRS, 2002).

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