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18 Jul 2005

O Presidente é Culpado

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Ainda que generosamente se diga que o presidente LILS não sabia dos mensalões e de outras falcatruas, o que não convence nem a uma criança de dois anos, ele é culpado pelas escolhas das pessoas erradas e na falta de observação de seus desempenhos.

Rapidamente as denúncias feitas pelo deputado Roberto Jefferson vão se confirmando através de provas documentais, fatos interligados, aparecimento de transações e empréstimos duvidosos, evidências de ligações espúrias entre as esferas pública e privada. Estão expostas as vísceras da corrupção nacional, velha conhecida nossa que agora assume proporções nunca vislumbradas. Espantam em tal mixórdia o grau de impunidade, as facilidades e privilégios dos donos do poder e dos seus parentes e amigos, as grossas maracutaias dos proprietários de imensas fortunas ilícitas. E enquanto se avoluma a avalanche de denúncias e provas que recaem sobre o governo do PT, chama atenção o cinismo com que se escamoteia a corrupção deslavada, o tráfico de influências, a conivência comprometedora mesmo diante de evidências cada vez maiores de culpabilidade dos envolvidos.

Não só Marcos Valério, mas membros da alta cúpula do Partido dos Trabalhadores, burocratas, ex-ministros, ministros e o próprio presidente da República vêm dando um mega show de mentiras e de falso moralismo. E no caso do presidente Luiz Inácio, é de se perguntar se é possível ser ele tão inocente, tão alheio, tão irresponsável diante do que ocorre entre seus companheiros mais chegados de governo e de partido.

O presidente vem sendo preservado de forma excessiva, cuidadosa e artificial pelas elites e até pelas oposições. É dito que sem ele não existiria governabilidade, que as instituições perigariam, que a economia se desorganizaria. No impeachment do presidente Collor não houve tais desvelos, possivelmente porque o ex-presidente, ao contrário do atual, contrariou interesses econômicos e não possuía base de apoio no Congresso. O “mensalão” é uma instituição moderna.

Para resguardar a imagem do presidente Luiz Inácio, “um homem sem pecado”, desencadeia-se um processo cuidadosamente planejado. Estrondosas operações policiais são realizadas e, numa delas, são presos os donos da Daslu, a maior loja de luxo da América Latina que tem entre suas clientes mais famosas a prefeita de São Paulo, Marta Favre. Como o templo de consumo paulistano fica próximo a uma favela, a TV mostra favelados radiantes, a dizer que agora prendem também os ricos. Tudo por obra e graça do generoso e justo pai Lula. É a luta de classes.

Posteriormente soltam Eliane Tranchesi, mas seu irmão permanece preso graças à firmeza do presidente e seu implacável combate à sonegação e à corrupção. Porém, o assessor petista conhecido como homem da cueca, é solto sem pagar fiança e sem explicar o misterioso dinheiro que carregava. Quanto aos membros do alto escalão do governo, suspeitos de sonegação fiscal e evasão de divisas, permanecem devidamente blindados.

Para demonstrar que o presidente Luiz Inácio continua intocado pelos escândalos do seu governo e dos seus correligionários, surge uma providencial pesquisa encomendada pela CNT e feita pela Sensus. Nela aparecem dados curiosos, pois se engrossou o número de pessoas que acham que a corrupção cresceu no governo Lula (de 31% para 40%), por outro lado o prestígio do presidente aumentou para quase 60%, e se a eleição fosse hoje ele ganharia no primeiro turno. Não apareceu no levantamento uma conclusão final no sentido de esclarecer se povo brasileiro é abobalhado ou se adora corrupção. Em todo caso, por coincidência, o presidente da CNT é Clésio Andrade, do PL, vice-governador de Minas Gerais e ex-sócio de Marcos Valério em duas empresas fantasmas. Tudo em casa.

Para glorificar ainda mais o presidente, nada melhor do que uma viagem a Paris. Comemorações, festejos, aplausos. C’est la vie en rose que o ex-operário adora. Na Cidade-luz, onde Chirac tenta melhorar sua popularidade em queda, o ministro Gilberto Gil pede palmas para Lula, porque ele merece. Triunfo completo. Glamour total. Depois disso, Sua Excelência deve estar pensando que foi o PT que se encarregou da Queda da Bastilha, e Duda Mendonça vai confirmar a proeza pela Rede Globo.

Contudo, o presidente é culpado, porque: fez do governo e do Estado uma sociedade de amigos, do poder um cenário de privilégios; escolheu mal seus excessivos ministros; não administra, apenas viaja, festeja e se dedica à sua campanha de reeleição desde de que assumiu; vulgariza o cargo com seus improvisos e gracejos. Enfim, se no passado ele criou fama como líder sindical, agora atingiu seu nível de incompetência.

Ainda que generosamente se diga que o presidente LILS não sabia dos mensalões e de outras falcatruas, o que não convence nem a uma criança de dois anos, ele é culpado pelas escolhas das pessoas erradas e na falta de observação de seus desempenhos. Na linguagem forense: culpa in eligendo e culpa in vigilando. Não há escapatória. Em todo caso, não creio que o presidente seja um idiota.

Última modificação em Domingo, 01 Setembro 2013 13:43
Maria Lúcia V. Barbosa

Graduada em Sociologia e Política e Administração Pública pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e especialista em Ciência Política pela UnB. É professora da Universidade Estadual de Londrina/PR. Articulista de vários jornais e sites brasileiros. É membro da Academia de Ciências, Artes e Letras de Londrina e premiada na área acadêmica com trabalhos como "Breve Ensaio sobre o Poder" e "A Favor de Nicolau Maquiavel Florentino".
E-mail: mlucia@sercomtel.com.br

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