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18 Jul 2005

Três Erros

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E o que deveria ser surpreendentemente ruim à sociedade, trazendo a nós brasileiros um sentimento de inconformismo, nos é repassado candidamente pela imprensa como se nada de errado ou negativo houvesse.

Rotineiramente os brasileiros são assaltados intelectualmente com acontecimentos simplesmente inacreditáveis. E o que deveria ser surpreendentemente ruim à sociedade, trazendo a nós brasileiros um sentimento de inconformismo, nos é repassado candidamente pela imprensa como se nada de errado ou negativo houvesse.

Eis os três erros que são de causar fortes suspiros de apreensão.

O primeiro erro. No último dia 08 de Julho, o narcotraficante Fernandinho Beira-Mar teve suspensa a sua manutenção na penitenciária de segurança máxima de Presidente Bernardes, que funciona através do Regime Disciplinar Diferenciado. O RDD, instituído pela Resolução SAP/SP-26, de 04/05/2001, destina-se aos presos de notória alta periculosidade, tendo por finalidade diminuir o cometimento de faltas disciplinares nas Unidades Prisionais, readaptando presos indisciplinados, sejam eles condenados ou provisórios.

No entanto, o dispositivo legal que cria o RDD estipula que nenhum preso poderá permanecer por mais de 360 dias neste sistema especial. Por que não?

Nos reportando ao caso em tela, teria o traficante Beira-Mar, nesse último ano em que permanceu sob as rédeas do RDD, assim como a Fênix ressurge das próprias cinzas, ressurgido como um ser humano minimamente civilizado? E o curioso é que faz um ano que não temos notícias de chacinas comandadas por Beira-Mar dentro dos presídios, tal como aquela cometida no presídio de Bangu, quando após queimar vivo um inimigo de cadeia, apareceu nas telas de televisão gordo, sem camisa e sorridente, sendo transferido pela outra unidade. Há um ano que os presídios do Brasil não se inquietam com a presença de Beira-Mar. Há um ano que na verdade não se escuta o seu nome nas televisões nem se lê seu nome nos jornais. Afinal o mesmo está preso. E preso de verdade.

O RDD é inconstitucional como afirmam alguns “puristas”? Então, para o bem da sociedade e apenas das pessoas de bem, que se atualize a Carta Magna em atendimento aos reclames da própria sociedade por verdadeira segurança. E que os Andinhos e Beira-Mares da vida fiquem, de fato, isolados do convívio humano. Recuperação? Do Beira-Mar e indivíduos de sua espécie tanto quanto eu acredito em Papai Noel.

O segundo erro. Voltamos a falar no estatuto do desarmamento, mas sem grandes e profundas reflexões. A insistência na vida do referido diploma legal e o referendo de Outubro próximo sobre o comércio legal de armas foi confrontado esta semana pelo Primeiro Comando da Capital, o PCC. A polícia da capital paulista prendeu Roberto Ramos, vulgarmente conhecido como Beto-Bomba, que era da quadrilha do seqüestrador e assassino Wanderson Nilton de Paulo Lima, o Andinho. Com a prisão do Beto-Bomba, a polícia localizou no bairro do Itaim Paulista um plano para resgatar o comparsa Andinho da prisão de Presidente Bernardes. Nenhuma novidade não fosse o meio a ser empregado: um míssil.

Poderia derrubar a muralha do presídio. Estava completo para ser lançado. Tinha base de lançamento e bússola. Eles só não haviam utilizado ainda porque não tinham quem operasse o equipamento, de alta complexidade. O sujeito preso disse que estava aguardando instruções de dentro da cadeia sobre quem iria operar o míssil”, disse Aldo Galiano Júnior, delegado da 2a. Seccional da Capital.

Assim, ao mesmo tempo em que a parcela honesta da população entrega seus velhos revólveres, garruchas e espingardas de caçar passarinho, os verdadeiros criminosos estão se valendo de artefato genuinamente militar para perpetrar suas ações. Conforme a própria ONG Viva Rio anuncia, a maioria do armamento entregue pela população se constitui em revólveres e pistolas. E para incrementar o que já seria patético, o governo federal retribui a gentileza do povo honesto com o pagamento de até R$300 por armamento. E quantas reclamações são feitas justamente pela falto do referido pagamento? E a PF vive de dar explicações, e o ministério da Justiça idem e o dinheiro nada.

Agora, o toque de classe dessa campanha foi a transformação das armas, após seu derretimento, em brinquedos de um parque. Pura propaganda gramsciana. Pobres crianças que, inocentemente brincam sob os olhares dos falcões do poder tupiniquim.

O desarmamento visa diminuir a violência entre as pessoas de bem, como brigas de trânsito e brigas domésticas? Bastaria um judiciário célere e eficiente para punir exemplarmente as pessoas que se valessem de armas para “tirar” suas diferenças no cotidiano e não precisaríamos desta ridícula campanha. Aliás, se o judiciário nacional fosse célere e eficiente, realmente eficiente, muitos dos nossos problemas não existiriam. Inclusive cuecas dolarizadas.

O terceiro erro. Esta semana o governo federal aprovou o projeto de lei que torna obrigatório o ensino, na rede pública e particular, da língua espanhola. Como isso é possível em um país que possui um dos mais altos índices de analfabetismo??? Essa decisão é ridícula. Sou professor universitário e sinto, materialmente falando, as enormes, abissais e quase instransponíveis dificuldades do estudante universitário em escrever o português. Como exigir de um corpo discente despreparado em sua própria língua-mãe que aprenda outro idioma?

O presidente da Comissão de Educação do Congresso, Carlos Abicalil, afirmou nesta segunda-feira (30/08) ao El País: "A língua espanhola é de máxima importância para o Brasil, e o ensino obrigatório da mesma fortalecerá, além das questões econômicas, as relações culturais do Brasil com todos os países próximos, já que somos o único país da América que fala português". O Sr. Abicalil é do PT, é claro.

O estudante brasileiro precisa, e rápido, aprender português. Ler Drummond, Casemiro, Ruy, Mário de Andrade, Bandeira, Machado, entre outros mestres da literatura brasileira. Estudar ortografia e gramática. Acessar aos estudos pessoais de caligrafia.

Aumenta-se a grade curricular do estudantes sem a preocupação com a qualidade. Isso sem falar, é claro, nos gastos decorrentes. Afinal as escolas terão que contratar professores especializados, o que para o Estado é gasto público (gasto, sim e não investimento) e aumento de mensalidades na rede privada, afinal mais professor, mais salário, logo mais pagamento.

Enfim, vamos caminhando a largos passos para o fundo do poço. E tem gente que ainda acha que tudo isso é ilusão.

Última modificação em Domingo, 01 Setembro 2013 13:43
Alexandre Seixas

O Prof. Alexandre M. Seixas é formado em Direito pela PUC de Campinas, tendo realizado o curso de Aperfeiçoamento em Ciências Sociais, e Mestrado em Ciência Política na Unicamp. Realizou ainda os cursos de inglês, na Surrey Heath Adult Education Center, em Camberley, Inglaterra. É professor universitário com vinculação em Teoria Geral do Estado e Ciência Política.

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