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14 Jul 2005

O Semideus Se Ajoelha

Escrito por 

Longa será a agonia de Dirceu, a de cada dia, quem sabe tão grande quanto a de Prometeu. Poucas figuras desempenharam tão solerte papel na República.

O  ex-ministro-chefe da Casa Civil do governo Lula, deputado federal José Dirceu de Oliveira e Silva, foi pedir ao relator da finalmente instalada CPI dos Bingos, aquela cuja instalação o Congresso devia à sociedade  há coisa de ano e meio, que o poupasse de ser chamado a depor, alegando que "não gostaria" de estar entre os alvos das apurações, porque seu nome foi citado uma única vez - e precisaria mais?- como parte do esquema, na CPI da assembléia do Rio de Janeiro. O encontro foi patrocinado pelo solícito senador Ney Suassuna (PMDB-PB), em seu gabinete, quiçá território neutro. Infrutífero resultou, todavia, já que o nobre relator anunciou o, digamos, óbvio, “que em nenhuma hipótese se fundamenta a idéia de que alguém possa distorcer os resultados de uma CPI “ Doravante, quem sabe, a conferir...

Triste ironia para quem detinha tanto poder, um semideus praticamente ajoelhar-se aos pés do relator, um simples colega deputado, mas Dirceu, expulso do monte Olimpo por um Jefferson momentânea – mas não fugazmente – travestido do poder de um Zeus, haverá de se acostumar com o fato de que é agora um cidadão comum. Não tão comum quanto aqueles contra quem não pesam acusações, certamente. Sic transit gloria est...

Longa será a agonia de Dirceu, a de cada dia, quem sabe tão grande quanto a de Prometeu. Poucas figuras desempenharam tão solerte papel na República.

E por falar em agonia, surge agora o caso Firjan, a Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro. O ex-tesoureiro Delúbio Soares é acusado do envolvimento num suposto caso de propina, venda de proteção do INSS, coisa de máfia mesmo, a proteção significando a não fiscalização de empresas em troca de um troco.

Mais uma vez, denúncia proveniente de escuta, grampo da Polícia Federal, pródiga no uso deste instrumento de, digamos, investigação. Fato é que oficialmente, foi gravada uma conversa entre uma auditora fiscal, quando ela comentava sobre a caixinha da Firjan, cuja arrecadação seria de incumbência do insigne Delúbio, com a anuência de Dirceu.

Não obstante a notável operosidade da Polícia Federal, foi a instituição policial acusada por um procurador da República de segurar o CD com o conteúdo da aludida escuta telefônica por nada menos que oito meses. Foi necessária a intervenção de um juiz federal da  terceira vara criminal, que chegou a ameaçar intimar a PF por obstrução da Justiça.

A coisa é enrolada, pois a servidora esteve presa por acusação de fraudar o INSS – Instituto Nacional de Seguridade Social.  Ela diz que após suas acusações, o ex-ministro da Previdência, Amir Lando, teria dito que nada poderia fazer a respeito da caixinha, porque era prática que já vinha desde o governo de Fernando Henrique e seria mantido pelo de Lula. Digamos assim que teria justificado como “prática corriqueira” aquela ação.

Estranha reação, a do ex-ministro, ex-guerrilheiro para alguns, já que nada está provado contra si até agora, e como até o presidente Lula sabe e tem dito à imprensa, ninguém é culpado até prova em contrário, onde cabe acrescentar o dito popular : Quem não deve, não teme.

Ora, José Dirceu é homem de inaudita coragem , pegou em armas, foi revolucionário, enfrentou a dita “dura”, fez plástica, fugiu pelo Chile de Pinochet, suprema ironia para quem combatia a ditadura, e bandeou-se para Cuba em troca da vida do embaixador americano Charles Elbrick, seqüestrado em 1969 por seus então asseclas, voltou pelo Rio Grande do Sul e viveu escondido, casado com nome falso, até a anistia. Viveu mais aventuras que qualquer um de nós, não há de ser uma mísera Comissão Parlamentar de Inquérito que irá assustá-lo.

Última modificação em Domingo, 01 Setembro 2013 13:43
Luiz Leitão

Luiz Leitão da Cunha é administrador e consultor de investimentos, sendo articulista e colunista internacional, especialmente para países lusófonos. É colaborador do Jornal de Brasília, Folha do Tocantisn, Jornal da Amazônia, Diário de Cuiabá, Publico (Portugal), entre outros.

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