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13 Jul 2005

Urge Enquadrar o Poder

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Nunca é demais repetir: a corrupção que está sendo denunciada é sistêmica...

Começa a se mostrar significativa a contribuição que o PT de Dirceu, Delúbio e cia deram ao histórico de descalabros éticos que tem marcado o exercício do poder na Terra Brasilis. Ultrapassou todas as medidas o projeto de corromper o poder (legislativo) com a finalidade de exercer o poder (executivo) com cada vez menos restrições. Isso é mais que um sintoma do desmoronamento moral da política praticada no Brasil. É evidência de que os partidos ideologicamente gelatinosos estavam sendo engolfados por um projeto que misturava fisiologismo com stalinismo. Eis o contributo brasileiro às práticas comunistas retardatárias.

Que filosofias político-econômicas representam o PL, o PP e o PTB? A podridão das práticas começa com a degenerescência do pensamento. Enquanto PT se aferra a uma visão de mundo dogmática que não reconhece a superioridade da sociedade livre e da economia de mercado, os outros partidos têm perdido a oportunidade de se destacar pelo combate claro e inequívoco à principal praga nacional: o estatismo e sua corruptela patrimonialista. É no vácuo de autênticos projetos políticos e na ausência de valores morais que entra em cena o mensalão. O PT começou a esbulhar a ética já quando mostrou que governaria de costas para os pontos centrais do programa que defendera ao longo de sua existência.

Há razões fundadas para o pessimismo em virtude de nenhum dos partidos constituídos propor medidas objetivas de efetivo combate à corrupção. Dado o horror que as idéias liberais despertam no Brasil, só dois ou três gatos pingados, duramente patrulhados, propõem a diminuição do tamanho do Estado como forma eficaz de reduzir a extensão e a profundidade da corrupção.

O blábláblá de que as sujidades institucionais vêm hoje mais à tona que antes finge não perceber que a corrupção atualmente denunciada é uma malha cheia de tramas invisíveis. E - detalhe fundamental - não é individual ou grupal como as de antanho. É assustadoramente sistêmica. Não é capitaneada por um patético grupo “PC Farias e seus laranjas”. Há vários homens da mala e seus tentáculos se espalham por várias áreas. O grande desafio é enfrentar essa hidra sem lançar as instituições no descrédito, sem mergulhar o País numa crise que cause desordem social e desorganização da economia.

No Brasil quase tudo é ideologia e emoção. Já imaginaram se o governo fosse o do José Serra ou do César Maia? As ruas já teriam sido tomadas por violentas manifestações da UNE, da UBES, da CUT, do MST clamando por impeachment e pela restauração da moral pública. A indignação é seletiva porque não há uma preocupação sincera com a ética - tudo é movido à ideologia. Se a corrupção atingiu níveis alarmantes é porque faltas graves da esquerda são perdoadas, têm justificação, enquanto as da direita são atribuídas à perversidade intratável da classe dominante. Até a caracterização do bolo fecal varia conforme a ideologia de quem o produz.

A história do século XX mostrou que os que se acham capazes de purificar a humanidade de seus pecados se absolvem previamente das maldades que cometem. O ser humano que racionaliza as barbaridades que comete é o pior e o mais perigoso dos homens. Stalin matava os opositores, antes aliados, alegando ser isso necessário para a construção do Novo Homem. Há forma pior de banditismo que aquele que justifica atrocidades invocando uma causa nobre? Há forma mais deletéria de corrupção que a do crápula poderoso que “racionaliza” o que faz, que justifica para si mesmo o que faz, invocando imperativos ideológicos e nobres desígnios?

A busca de melhores índices éticos não se resolve dando poder a pretensos salvadores da pátria e sim com a sociedade exigindo que o exercício do poder seja frugal e limitado. De que forma? Por meio de uma administração enxuta, tão enxuta que não ofereça os milhares de cargos de livre nomeação que foram, neste governo, dados de mão beijada a militantes. Governos que não suprem serviços de qualidade nas áreas da saúde, educação e segurança ou são ineptos ou são corruptos. E merecem o duro julgamento do eleitorado.

As vísceras do poder nunca estiveram tão expostas ao olhar indignado dos contribuintes. Nada de essencial mudará se não se redefinir o exercício do poder no Brasil com a introdução de um autêntico federalismo e um radical enxugamento do Estado. Só assim deixará de ser inevitável o fato de que em nossa história sempre que um grupo chega ao poder se transmuta numa malta rapinadora que se locupleta apertando as tetas do Estado com os mais variados truques de drenagem de recursos públicos. Não dá mais para fazer marketing com os dramas nacionais; debalde clamar, como por tanto tempo fez o PT, por ética na política quando o Poder, tal qual está hoje estruturado no Brasil, é um grande convite à roubalheira miúda e graúda, setorial e sistêmica, individual e grupal. Nunca é demais repetir: a corrupção que está sendo denunciada é sistêmica...

Última modificação em Segunda, 02 Setembro 2013 09:25
Alberto Oliva

Filósofo, escritor e professor da UFRJ. Mestre em Comunicação e Doutor em Filosofia pela UFRJ. Professor-palestrante da EGN (Escola de Guerra Naval) e da ECEME (Escola de Comando e Estado-maior). Pesquisador 1-A do CNPq. É articulista do Jornal de Tarde desde 1993. Possui sigficativas publicações como "Liberdade e Conhecimento", "Ciência e Sociedade. Do Consenso à Revolução", "A Solidão da Cidadania", "Entre o Dogmatismo Arrogante e o Desespero Cético" e "Ciência e Ideologia".

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