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14 Mai 2004

Não Foi Uma Boa Idéia

Escrito por 

Principalmente os correspondentes estrangeiros vão de agora em diante se lembrar das palavras do ministro Gushiken: é preciso sempre dar boas notícias.

Escrever sobre a celeuma gerada a partir do artigo em que o correspondente do jornal The New York Time no Brasil, Larry Hohter, referiu-se ao consumo excessivo de bebidas alcoólicas pelo presidente Luiz Inácio, é correr o risco de me tornar repetitiva. Todos já disseram que foi um erro o presidente cancelar o visto do jornalista, o que na prática equivale a sua expulsão; que o texto não trazia tema relevante a ponto de provocar tal reação; que a atitude faz lembrar a de um ditador; que tal coisa equivale à censura e se choca contra a liberdade de imprensa. Tudo isso e muito mais já preencheu as páginas dos jornais e não pretendo me estender sobre o que povoou, inclusive, periódicos estrangeiros.

Daqui a pouco tudo acabará em pizza, apesar do presidente ter dito que não volta atrás. O Superior Tribunal de Justiça já concedeu habeas-corpus a Rohter, e o ministro Francisco Peçanha Martins concedeu salvo-conduto ao correspondente até ser julgado o mérito do pedido do habeas-corpus. Senadores da base aliada foram em caravana cívica encarecer ao aparentemente irredutível presidente da República que reveja sua atitude, e essas e outras mais saídas honrosas aplainarão o caminho para o magnânimo gesto de perdão do mandatário supremo. Sim, em breve o caso será esquecido como tudo de negativo que acontece atualmente no País. Alguém se lembra de Waldomiro Diniz? Só vale agenda positiva.

Mas me parece mais interessante nessa barafunda, que primeiro provocou patriotadas e depois perplexidade e indignação, tentar compreender as reais causas da má idéia do presidente Luiz Inácio para conhecer melhor o partido que governa o Brasil e, quem sabe, entender mais sobre nós mesmos.
Recordemos, então, que o PT nunca primou por vocação democrática e, portanto, o presidente apenas refletiu o comportamento partidário a que está acostumado. É sabido que quem não reza pela cartilha da direção petista, nunca se dá bem. Que o digam Luiza Erundina, Victor Buáis, Luiz Eduardo Cheida, Paulo Tarso, Eloísa Helena, os ultra-radicais Luciana Genro, Babá, recentemente o defensor do salário mínimo de cem dólares, senador Paulo Paim e qualquer contestador das diretrizes do partido. No Rio Grande do Sul, o então governador Olívio Dutra não foi nada ameno com jornalistas que o criticaram.

Acrescente-se que o PT, implacável enquanto oposição é ao mesmo tempo hipersensível a mais leve crítica, reagindo a qualquer contestação de maneira estridente. E para enquadrar “hereges”, inclusive os que não pertencem às suas aguerridas hostes, o partido sempre usou e abusou de algumas táticas tais como: desclassificação do insolente em aspectos profissionais e morais, transformando-o em incompetente, corrupto ou louco; ameaça de processo ou processo no caso do impenitente não se retratar. Lembremos ainda, que enquanto oposição o PT era um partido por excelência acusatório e cultuador de CPIs. Um traço inquisitorial e stalinista sempre acompanhou essa agremiação partidária e, portanto, o comportamento do presidente não deveria surpreender.

Acrescente-se que o presidente Luiz Inácio está sofrendo da síndrome do poder. Afinal, imerso no culto de sua personalidade que a propaganda lhe proporciona, rodeado constantemente por palacianos que o incensam, ele acaba acreditando que está tudo bem no País, que encarna a luz do mundo, que se configura como o paladino dos pobres e oprimidos contra o Grande Satã Branco e até que o Programa Fome Zero deu certo aqui e a nível planetário. Assim, embebido em tanto poder, o presidente Luiz Inácio pensa que é tão fácil processar o jornalista do New York Time, quanto, por exemplo, o ministro José Dirceu processar a Folha de S. Paulo.

E tem ainda a questão do antiamericanismo. Se fosse pelo menos um jornalista francês, espanhol, português, turco, enfim, de qualquer outra nacionalidade, tudo bem. A reação poderia ser igual a que o governo teve, por exemplo, com Diogo Mainardi ou Cláudio Humberto. Mas tratava-se de um ianque estigmatizado pelo pecado mortal de uma matéria sobre o nebuloso caso Celso Daniel. Então, baseado nesse sentimento tão latino e brasileiro que nos faz odiar americanos como alemães odiaram judeus ou franceses odiaram argelinos, o presidente apostou que sua medida contra o jornalista teria tanto sucesso quanto a operação “Dedos Sujos”, apresentada como revanche e na qual turistas americanos foram obrigados a deixar suas impressões digitais para exultantes policiais federais e glória da Nação. 
Mas desta vez não foi uma boa idéia. Se num primeiro momento internamente funcionou, num segundo foi desastrosa. De qualquer forma, está oficialmente instituída a censura no Brasil. Principalmente os correspondentes estrangeiros vão de agora em diante se lembrar das palavras do ministro Gushiken: é preciso sempre dar boas notícias. “Tristes trópicos!”.

Última modificação em Quarta, 30 Outubro 2013 20:29
Maria Lúcia V. Barbosa

Graduada em Sociologia e Política e Administração Pública pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e especialista em Ciência Política pela UnB. É professora da Universidade Estadual de Londrina/PR. Articulista de vários jornais e sites brasileiros. É membro da Academia de Ciências, Artes e Letras de Londrina e premiada na área acadêmica com trabalhos como "Breve Ensaio sobre o Poder" e "A Favor de Nicolau Maquiavel Florentino".
E-mail: mlucia@sercomtel.com.br

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