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14 Mai 2004

Neoliberalismo: Objeções e Respostas (continuação)

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A história já mostrou sobejamente que o regime econômico baseado na iniciativa privada - isto que K. Marx deu o nome de "capitalismo" - é muito mais eficiente para promover o desenvolvimento econômico do que um regime baseado no controle estatal dos meios de produção.

Objeção 5:  Como defender um sistema como o capitalista, que só apresenta vantagens para os donos do capital e desvantagens para os trabalhadores explorados?
Resposta à Objeção 5: A história já mostrou sobejamente que o regime econômico baseado na iniciativa privada - isto que K. Marx deu o nome de "capitalismo" - é muito mais eficiente para promover o desenvolvimento econômico do que um regime baseado no controle estatal dos meios de produção. Um dos maiores enganos de Marx foi acreditar que a economia dirigida e planejada por burocratas estatais seria capaz de produzir uma prosperidade maior do que a economia nas mãos da iniciativa privada. Como mostrou Ludwig von Mises, no sistema da economia dirigida pelo Estado,  a ausência de um sistema de preços inviabilizava o cálculo econômico, de tal modo que era quase impossível a produção atender à demanda: produziam-se demais determinados bens e de menos outros. As condições dos trabalhadores,  ao longo da revolução industrial - a conjuntura socioeconômica vivida e analisada por Marx - era muito diferente das condições atuais. Quem poderá negar, com base em fatos históricos e econômicos, que um operário americano, alemão ou japonês possui hoje um padrão de vida muito superior ao de seus antepassados? Até mesmo operários de países em desenvolvimento, como é o caso do Brasil, estão hoje em muito melhores condições - o que não quer dizer que estejam como gostariam de estar em sua justa aspiração a uma melhoria de vida contínua e crescente.

Objeção 6:  O neoliberalismo defende o lucro sem limites e estimula um hedonismo sem peias, que se mostra no consumismo conspícuo, na exacerbação da violência e da permissividade tal como estas se mostram nos programas da televisão.
Resposta à Objeção 6: Tal objeção reúne objeções de diferentes naturezas. No que diz respeito ao lucro, ele deve ter limites quanto ao modo de produzi-lo, pois há leis coibindo a lucratividade desonesta (seja a do comerciante que desrespeita os direitos do consumidor, seja a de monopólios ou cartéis que exercem controle de preço ou  a do criminoso que enriquece à margem da legalidade). Mas como estabelecer um limite para o grau de lucratividade obtido pelo trabalho honesto? O caráter ilimitado de lucros crescentes é justamente o principal fator estimulador dos empreendimentos humanos. Além disso, o enriquecimento de um indivíduo ou de uma empresa contribui para o enriquecimento da sociedade em geral, pois quanto maior for ele, maior o montante de impostos que ele pagará; e quanto maior a arrecadação, mais capital disponível a ser aplicado em serviços prestados pelo Estado. Tanto no que diz respeito aos indivíduos como no que diz respeito às nações, o ideal seria um sadio equilíbrio de gastos e poupança, pois poupar inteligentemente é acumular capital com vistas a investimentos futuros.

Contudo, tanto indivíduos como países costumam gastar mais do que devem e poupar menos do que podem. Como cidadãos conscientes, devemos exigir que os governos não gastem mais do que arrecadam; mas como pessoas humanas respeitadoras das escolhas de nossos semelhantes, não podemos condenar eticamente aqueles que se entregam a um consumismo desvairado,  pois eles gastam um dinheiro que é seu, diferentemente dos governos que gastam um dinheiro que é de todos nós. Esbanjando preciosos recursos que não são seus, os governantes prejudicam todos os membros da sociedade; esbanjando recursos que são seus os consumistas não prejudicam ninguém. Ao contrário, concorrem para o aquecimento da atividade econômica e para a satisfação daqueles que vendem os mais variados bens e serviços, alguns  erroneamente considerados "supérfluos" (supérfluo mesmo é um serviço ou mercadoria que encalha, justamente por ninguém ou poucos quererem comprar).

Quanto à violência e à permissividade que aparecem constantemente na tela da televisão, basta dizer que elas desapareceriam completamente, caso os telespectadores não as apreciassem, pois, se o índice de audiência fosse demasiadamente baixo, ninguém desejaria patrociná-los. Ocorre que um avassalador número de telespectadores aprecia tais programas considerados de baixo nível intelectual e moral. Diante disto que fazer? Mudar de programas ou mudar de telespectadores? A televisão é um magnífico espelho da mentalidade de um povo e da opinião pública. E se o povo tem cara feia, será que adianta amaldiçoar ou quebrar o espelho que se limita a refleti-la? Parece mais sensato encomendar urgentemente uma cirurgia plástica, e tal cirurgia se chama educação - tanto no sentido intelectual como nas acepções estética e moral do termo.

Última modificação em Quarta, 30 Outubro 2013 21:30
Mario Guerreiro

Mario Antonio de Lacerda Guerreiro nasceu no Rio de Janeiro em 1944. Doutorou-se em Filosofia pela UFRJ em 1983. É Professor Adjunto IV do Depto. de Filosofia da UFRJ. Ex-Pesquisador do CNPq. Ex-Membro do ILTC [Instituto de Lógica, Filosofia e Teoria da Ciência], da SBEC [Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos].Membro Fundador da Sociedade Brasileira de Análise Filosófica. Membro Fundador da Sociedade de Economia Personalista. Membro do Instituto Liberal do Rio de Janeiro e da Sociedade de Estudos Filosóficos e Interdisciplinares da Universidade. Autor de Problemas de Filosofia da Linguagem (EDUFF, Niterói, 1985); O Dizível e O Indizível (Papirus, Campinas, 1989); Ética Mínima Para Homens Práticos (Instituto Liberal, Rio de Janeiro, 1995). O Problema da Ficção na Filosofia Analítica (Editora UEL, Londrina, 1999). Ceticismo ou Senso Comum? (EDIPUCRS, Porto Alegre, 1999). Deus Existe? Uma Investigação Filosófica. (Editora UEL, Londrina, 2000). Liberdade ou Igualdade (Porto Alegre, EDIOUCRS, 2002).

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