Dom05192019

Last updateDom, 01 Set 2013 9am

26 Jun 2005

Blizzard Filosófica

Escrito por 

Passada a onda de responsabilizar a natureza por nossas próprias mazelas, como tem sido uma constante desde dezembro de 2004 após a tragédia asiática, algumas considerações sobre o fato se fazem necessárias.


"the inhabitant of the breast, the man within, the great judge and arbiter of our conduct"

 

Adam Smith

 

Passada a onda de responsabilizar a natureza por nossas próprias mazelas, como tem sido uma constante desde dezembro de 2004 após a tragédia asiática, algumas considerações sobre o fato se fazem necessárias.[1]

Especialistas em tsunamis[2]de Honolulu no Havaí enviaram um alerta para 26 países na bacia do Índico, entre os quais Tailândia e Indonésia que foram alguns dos mais atingidos pela devastadora onda em dezembro do ano passado. Pouco poderia ser feito nesse caso, mas na Índia, por exemplo, a onda destruidora chegou três horas depois do tremor verificado em Sumatra, uma das mais de 13 mil ilhas do arquipélago indonésio. Mesmo que a população residente na costa indiana não pudesse ser totalmente salva, milhares de pessoas poderiam ter escapado da morte.

O que isto tem a ver com filosofia? Na verdade, o que se pretende aqui é mostrar como a cegueira ideológica pode afetar o intelecto a ponto de se procurar, em vão, justificar a incompetência e o descaso político com a vida.

Descaso no Índico

Gary Becker e Richard Posner, conhecidos por sua defesa do liberalismo econômico, puseram o dedo na ferida ao indicar a corrupção e, sobretudo, malversação dos recursos públicos como um dos obstáculos para um plano de evacuação ou reconstrução das sociedades atingidas pelo cataclismo.[3]Isto bastou para que um conhecido professor de filosofia da USP os acusasse de preconceito.[4]

Se falar mal de países com alto índice de corrupção é “preconceito”, me permitam aqui expressar o meu: esta mentalidade é bastante parecida com certas manifestações de autoridades brasileiras que diziam não haver no Brasil um “poder paralelo” do crime organizado e hoje nós vemos como “ele não existe”. Assim como o atual governo tenta acalmar a sociedade com relação ao MST, uma verdadeira organização criminosa que tortura e mata, a probabilidade de ser assassinado por esta quadrilha travestida de “movimento social legítimo” é bem maior do que morrer afogado por uma tsunami na Ásia. Claro que para certos professores de filosofia ou não, é muito mais cômodo procurar ‘inimigos externos’, ‘conspirações direitistas’, ‘o grande capital internacional-monopolista-imperialista’, ‘os sábios do Sião’ ou os ‘marcianos’ do que tentar enxergar em nossa própria estrutura social essencialmente corrupta e um estado inchado e inepto que emana dela como o germe que espalha nossa epidemia de irresponsabilidade.

A ocorrência de tsunamis em outras áreas do planeta não é tão comum como no “Anel de Fogo do Pacífico” que apresenta uma grande área de instabilidade sísmica, com cerca de uma tsunami por década. Mas, há uma grande distância entre a baixa freqüência do fenômeno e este nunca ocorrer. Justamente, por se tratar de um fenômeno natural[5]é de se surpreender que as autoridades locais nunca tenham se empenhado em estabelecer planos de emergência.

Apesar de mais raras, tsunamis no Índico já ocorreram como em Bangladesh em 1762 ou na Índia em 1945, o que por si só já seria suficiente para que esses países testassem algum plano de evacuação e recuperação das áreas afetadas. Se não é possível deter uma tsunami, pelo menos se pode estar preparada para ela. Esta não é, no entanto, a opinião de autoridades da Índia, Tailândia ou Malásia que consideram os maremotos uma particularidade do oceano Pacífico. E, por “raro” entendesse uma por século, o que em termos geológicos é um sopro na vida do planeta.

A natureza extrema e seus cataclismos fazem parte do planeta.Furacões, choques entre frentes de ar tropicais e polares, tempestades de neve e tornados, inundações, secas, terremotos, erupções vulcânicas são interrupções contumazes do que chamamos de “normalidade” tomando parte no chamado “ciclo natural”.

O total de mortes no dia 26 de dezembro de 2004 ultrapassou a marca dos 150.000, no mesmo ano o terremoto de Bam no Irã matou 46.000, mais 20.000 feridos e outros 60.000 que perderam suas casas. O terremoto de Gujarat na Índia em 2001 levou mais de 20.000 para o túmulo e causou danos a mais 167.000. Noutra ordem de fenômeno, o furacão Mitch em 1998 na América Central vitimou 10.000 pessoas. Dezenas de milhares de pessoas morreram e outras mais tiveram suas vidas drasticamente afetadas e, o que fica evidente, especialmente em países pobres.

Por quê? Parece uma pergunta fácil de responder...

Não estou dizendo que estas tragédias não ocorrem em países desenvolvidos. Estou dizendo que os mais afetados devido a falta de infra-estrutura e organização social são as sociedades menos desenvolvidas econômica e institucionalmente.

Vejamos:

Maiores sismos do século XX

 

 

 

Magnitude

Mortes

1960

Sul do Chile

9,5

5.700

1964

Sul do Alaska (EUA)

9,2

131

1985

Michoacán (México)

8,1

9.500

1923

Tóquio (Japão)

7,9

142.810

1906

São Francisco (EUA)

7,7

3.000

1976

Tangshan (China)

7,4

655.000

1989

Loma Prieta (EUA)

7,0

62

1995

Kobe (Japão)

6,9

5.200

1994

Northridge (EUA)

6,7

60

Fonte: National Geographic Society. Restless Earth: Disasters of Nature. Washington D.C., 1997.

 

Claro que o saldo de mortes no Alaska não serve como termo de comparação devido à baixa densidade demográfica local. Mas, os desastres no Japão são altamente elucidativos, ambos em localidades extremamente povoadas, no qual Kobe apresentou cerca de 27 vezes menos vítimas. Isto é fruto de desenvolvimento da engenharia para impacto e preparo através de estudos geofísicos. E, como sabemos, há uma brutal diferença de desenvolvimento social e institucional do Japão anterior e posterior a II Guerra Mundial.

Se tomarmos os próprios países ricos, dependendo das políticas adotadas também há significativas diferenças. 20.000 pessoas morreram na Europa em 2003 pela onda de calor, o que não levou a mesma taxa de óbitos em latitudes próximas do outro lado do Atlântico. O climatologista Patrick J. Michaels disse na Fox News (20/08/03) que as temperaturas médias de verão em Paris são similares à Detroit, Chicago ou Denver. Qual a diferença dos EUA para com a França, então? Por que estariam morrendo mais no velho continente, por um aumento de temperatura? Simples. No país europeu, o ar-condicionado tem se tornado cada vez mais raro.Mas, como se a França não é um país pobre? Pobre não é, talvez menos lúcido. Baseado na mitologia do aquecimento global como retratado pelas ONGs ambientalistas, a França, assim como o conjunto da União Européia, impôs taxas maiores de consumo energético para sua redução. Seus custos na “Gloriosa França” são 25% maiores que nos EUA. Como a renda também é menor neste país europeu, comparativamente aos EUA, o custo da eletricidade é muito alto. Bem, não se pode dizer que os ambientalistas não estejam atingindo seus objetivos: reduzem o consumo energético sim ao consumir vidas.

Diferentemente do clima que segue padrões mais difusos, a movimentação de placas tectônicas tem padrões bem reconhecidos mundialmente, sendo mais fácil de prever a probabilidade de sua ocorrência. Seja na ilha de Sumatra, na Índia, Sri Lanka ou Tailândia há vários indícios que apontam para um sismo de grande magnitude como o que ocorreu. O fato é que nem essas pesquisas apresentam um histórico coerente na região, nem planos de evacuação têm sido tentados.[6]

Imagine os ganhos desse estudo para a própria educação. Crianças são fascinadas por extremos naturais. É plenamente possível integrar aí estudos de física, química, biologia ou matemática. No entanto, a saída mais fácil é esperar pela ajuda posterior de organizações não governamentais via Banco Mundial.

Corrupção econômica e mental

Bem, vamos ao ponto que gostaria de comentar: o professor de filosofia da USP, Renato Janine Ribeiro em matéria ao jornal Valor Econômico de 21 de janeiro passado acusou os críticos do envio de dinheiro para os países atingidos de preconceito. Seu argumento é que países tipicamente corruptos como a Indonésia, não tinham soberania total, uma vez que suas ditaduras eram apoiadas pelos EUA nos jogos de poder da Guerra Fria.

Não obstante, documento publicado pela Transparência Internacional em 2002 revela a freqüência com que são pagas propinas nos paises da Ásia Meridional para se ter acesso a simples serviços públicos. Isto ocorre com mais da metade dos usuários de hospitais públicos em Bangladesh, assim como 92% dos paquistaneses entrevistados tiveram que paga-las para ter direito ao “ensino público”. Trata-se de uma região onde 45% de uma população de 1,4 bilhão vivem na pobreza. Pobreza cujos parcos recursos são extorquidos justamente pelos funcionários públicos. Não se trata de crimes de “colarinho branco”, entendo estes como funcionários mais graduados, mas de servidores do baixo e médio escalão.

Estranho também que, para o filósofo da USP não haja nenhuma, mas nenhuma mesmo, consideração aos portugueses chegados no século XVI ou aos holandeses que permaneceram no arquipélago por 350 anos, transformando uma parte das ilhas em base de exportação de produtos primários. Nem mesmo se fala da influência japonesa durante a II Guerra Mundial que levou a seu nacionalismo. E, como sabemos, o “nacionalismo” – me refiro ao tipo “estatizante” -, normalmente, vem associado a uma boa dose de despotismo e, portanto, corrupção. Também seria demais esperar que a tentativa de golpe comunista em 1965 fosse lembrada. Nos anos 70, as relações com o Ocidente são fortalecidas sim, mas também os laços comerciais com a China. Fatos como estes mostram que, se procurarmos detidamente por “influências externas” para justificar qualquer corrupção, elas teriam várias origens. Haveria vários fatores indutores externos da corrupção se fossemos seguir a lógica de Renato Janine. Mas, por que ele considera apenas uma? E, arbitrariamente, a ligação com os EUA? Qual critério para elege-la como superior em má influência? O PIB do país envolvido diplomaticamente com a Indonésia seria uma prova por si só? Por que não considerar também os US$ 53 bilhões de ajuda externa do FMI ao país por ocasião da crise econômica asiática em 1997 como outra “fonte de corrupção”? Mas, como são as economias atingidas pela tsunami?

Uma maneira eficaz de analisar isto, que vai além do IDH adotado pela ONU que só vê conseqüências sem analisar causas, é pelo ILE – Índice de Liberdade Econômica – do Heritage Foundation. As notas variam de 1 a 5, sendo o primeiro uma economia aberta, e o segundo fechada. A, por exemplo, Indonésia fica com 3,54; a Malásia com 2,96; Tailândia com 2,98; Sri Lanka com 3,08; Índia com 3,53.

Outro indicador interessante para cruzarmos com os dados anteriores é o Índice de Percepção de Corrupção (CPI) avaliado pela Transparência Internacional. Segundo dados de 2004, os países atingidos pela tsunami atingem os seguintes scores: Malásia em 39a posição; Tailândia em 64a; Sri Lanka em 67a; Índia em 90a; Indonésia em 133a.[7]

Como se percebe, há uma nítida correlação entre economia fechada e corrupção. Mas, será que o filósofo da USP, de posse desses dados ainda sustentaria que a corrupção foi mero fomento americano? Isto permanecerá uma incógnita. Mas, digamos que concordamos com sua “lógica”. Se assim for então, a Indonésia só se tornou corrupta devido à influência do Pentágono. Seria mais viável crer que, justamente, pela corrupção que é tão endógena quanto a convergência entre placas tectônicas naquela região, é que um governo se submete aos desígnios dos planos e estratagemas de outro.

Renato Janine quer que acreditemos que uma civilização de 2.500 anos age prontamente sob a hegemonia de um país à milhares de quilômetros de distância. Teria brotado a corrupção, como que por encanto, a partir do momento que as exportações indonésias começaram a afluir oceano adentro.

Figurativamente, este tipo de “raciocínio” é tão peculiar quanto um cão correndo atrás do próprio rabo. É como se buscássemos atacar outro ser, enquanto que “ele” faz parte de nós mesmos...

Como diz a sabedoria popular “quando um não quer, dois não fazem”, exceto em se tratar de um caso de estupro, completamos. Mas, para esta metáfora corresponder à realidade teria que haver uma verdadeira violação territorial, isto é, uma invasão ou anexação, o que não foi o caso EUA-Indonésia. Ou o filósofo ignora por completo as aulas de lógica ministradas em sua faculdade ou o ditador Suharto foi abduzido por algum O.V.N.I. cooptado pela NASA e sofrido com uma lavagem cerebral.

Com rara humildade para nossos departamentos de filosofia, eu sugeriria outra questão: o que regimes democráticos e economias liberais têm a ensinar sobre o desastre?

Liberalismo e assistência social

Questões como esta já foram postas por Adam Smith em 1759. Contrariamente ao que muitos poderiam supor, o economista não endossava o “individualismo econômico” neste caso específico.A idéia de assistência, especialmente em situações calamitosas como a da Ásia, era endossada pelo economista. Não se trata de contradição no pensamento liberal. A ação individual para Adam Smith é decorrente da consciência moral individual, do indivíduo como seu próprio maior juiz. Este era seu maior pressuposto. Esta virtude é, normalmente, tomada em função do interesse pessoal, mas também era aplicada à benevolência e justiça. Para o pai da economia clássica, a virtude cívica era um dos fundamentos necessários ao desenvolvimento econômico, social e político.

Não se pode fazer uma análise da eficácia das sociedades atingidas pela tsunami sem levar em consideração outro tipo de capital: o moral. São os “hábitos, tradições, usos, costumes, atitudes e ações, fruto da herança acumulada durante gerações na sociedade ocidental”, como bem diz Ubiratan Jorge Iorio que formaram a base de nossa civilização. Sem o próprio envolvimento das comunidades atingidas no sentido de tentar se preparar para incidentes naturais ou não, qualquer plano de assistência, mesmo com apoio externo, não tem muitas chances de ser bem sucedido, exceto se tiver foco em apenas objetivos limitados e de curto prazo.[8]

Outro ponto importante, é que a solidariedade às vítimas de uma tragédia não conflita com o liberalismo econômico desde que, é claro, não seja uma “solidariedade compulsória”, ou seja, algo que o Estado defina como e quando (no caso, quanto também) deve se manifestar.

Para oportunistas e cegos terceiro-mundistas, o plano de assistência às vítimas se resume a uma questão financeira, não tardou para que acusassem os EUA de estar contribuindo aquém do que poderia fazer. Embora, a imediata contribuição governamental por parte deste país, tenha perdido somente para a do Japão, espera-se quase duplicar a quantia. Ainda se destinou mais a instituições filantrópicas e apoio logístico e de infra-estrutura. Estes foram até agora, a maior ajuda externa: 12.600 assistentes, 21 barcos, 14 aviões e mais de 90 helicópteros. Isto, sem contar as doações privadas que, junto com a Alemanha, foram as maiores. Já, países que clamam tanto pelo “social” e que tem simbólicos militantes anti-globalização como a França contribuíram bem menos.

O foco agora tem sido apenas quanto dinheiro é necessário para a reconstrução desses países. Como era de se esperar, o oportunismo toma a popa deste movimento. E ações internacionais que poderiam induzir a uma maior autonomia das nações para administrar seus problemas são colocadas de escanteio. Me refiro, especificamente, ao ajuste fiscal cortando, literalmente, gastos administrativos com pessoal e aposentadorias especiais para maior investimento no básico, a educação. Bem como extirpar o nacionalismo do tipo xenófobo e estatizante para incorporar mais investimentos (multinacionais ou não) a sua base produtiva. É interessante notarmos o que ocorreu nesse sentido, nos últimos 40 anos. Países como Coréia do Sul, Cingapura, Taiwan e o território de Hong Kong saltaram um abismo que para a maioria dos latino-americanos, dotados de mais recursos físicos, ainda parece intransponível.

Analisando em conjunto estas duas regiões do globo (Leste Asiático e América Latina) se vê que o estágio inicial de desenvolvimento não diz muito se as ações definitivas, como a importação tecnológica e aplicação das pesquisas não forem tomadas. Neste ponto é que um “nacionalismo positivo e integrador” se faz necessário, ao criar um caldo de cultura através do processo educacional que elimine os particularismos etno-tribais.[9]

Provisionar água, comida e cuidados médicos, apesar do enorme esforço para uma área tão grande, não poderia ser mais complicado se levarmos em consideração que se trata de países onde as clivagens étnicas e religiosas são enormes e mesmo após o tsunami, a luta pelo poder entre elas continua. Ao contrário do que poderia se supor, o cataclisma natural não criou uma sinergia entre as facções políticas, mas acirrou a luta pelo espólio.

E creio que se não fossem os crescentes laços econômicos entre o Ocidente e a Ásia através da bacia do Pacífico, a ajuda não seria tão imediata. Claro que não estou dizendo que se deve, exclusivamente, a isto, mas uma boa dose de interesse próprio (e mútuo) contribuiu para a ajuda internacional. A verdadeira parceria tem o comércio externo como esteio.

E, o que se pode esperar para o futuro? A resposta comportamental das populações da Ásia meridional será a que sempre houve: proliferar através da procriação com uma das taxas de crescimento vegetativo mais altas do globo. E, continuarão, construindo suas habitações junto às áreas de risco.

As opções entre construir nas mesmas áreas de risco e concentrar atividades vulneráveis aí também ou sua regulação e exclusão em áreas de desastres potenciais, terá a primeira como vencedora. A própria população considera, tacitamente, o risco como parte integrante de suas ações.

Muitos entendem que pouco poderia ser feito, mas não é bem assim. Como disse Gary Becker, “uma combinação de educação para os residentes das áreas costeiras aos sinais de surgimento de uma tsunami (tremores e repentina recessão do oceano), estabelecendo um sistema de aviso envolvendo programas de rádio emergenciais, avisos telefônicos e sirenes provavelmente diminuiria o saldo de mortes no desastre. A questão que se põe agora é: realocar a população nas áreas atingidas teria o custo suplantado pelo benefício?”

Por que, no entanto, não há antecipação de uma tsunami na escala que ocorreu? Esta é para Posner, a questão chave. Ela é uma conseqüência comum de maremotos. Há várias razões subjacentes:

- Primeiro, as tsunamis ocorrem uma vez por século em média. Também tem sido mais difícil sua ocorrência na primeira década de cada século. Os políticos costumam trabalhar com perspectiva de curto e médio prazos, que correspondem a suas carreiras, enquanto que estamos falando de fenômenos de longuíssimo prazo.

- Segundo, para estender uma ação de precauções efetivas se requer ação governamental e o fato de que o governo é um sistema centralizado de controle torna difícil aos representantes uma resposta abrangente aos possíveis riscos e seus custos. Fica mais fácil tributar nas contas de alguma divindade... Dentre todas as matérias que o governo tem que atender, as menos prováveis ficam em segundo plano sendo, freqüentemente, ignoradas.

- Terceiro, os riscos se dissipam em escalas regionais ou globais, enquanto que nos países pobres a maior parte dos recursos é alocada nas áreas mais ricas.

- Quarto e fundamental – exceto, talvez para a filosofia uspiana...-, tais países são freqüentemente pobres devido a um governo fraco, ineficiente e corrupto.

- Quinto, as pessoas têm dificuldade na tomada de decisões em cima de probabilidades. No presente momento histórico, as medidas adotadas com freqüência para reduzir os efeitos de desastres similares no Pacífico têm poucas chances de serem adotadas no Índico.

Não se trata de estigmatizar a Ásia Meridional como incompetente. Há quem acuse os EUA do mesmo defeito em outros setores. Um paralelo pode ser traçado entre as nações asiáticas e sua preocupação com a realidade sísmica com o que a pesquisa com a probabilidade de impacto de meteoros na Terra pelos EUA. Do orçamento anual da NASA (US$ 10 bilhões), US$ 4 milhões por ano são gastos com o mapeamento de rotas perigosas de asteróides. Há quem ache que, pela gravidade do problema, esta cifra também é pequena.

Voltando para o espaço terrestre, o que se pode fazer?

Tomando as rédeas

Críticos da ação internacional têm clamado apenas por mais e mais recursos. Mas, estes críticos têm noção de como se faz? Ou acham que se trata apenas de fazer um depósito numa conta corrente no exterior para publicar o feito? Se as medidas corretas não são tomadas, este pode ser mais um plano fracassado do tipo que a ONU é tão experiente. Como jogar alimentos de pára-quedas para que lideranças guerrilheiras barganhem os donativos com os flagelados. É mais do que dinheiro, isto envolve diagnóstico, plano e ação coordenados:

- Fase 1. Durante os minutos e horas que passam após a onda destruidora, a ajuda se concentra na ação mútua e aleatória de salvamento. Um barco que pode ser utilizado. Recolher pessoas empoleiradas em galhos de árvores, um telhado que sobrou etc. Vasculhar corpos na lama também se torna uma das atividades corriqueiras, providenciando cuidados médicos básicos e apoio emocional.

- Fase 2. Em seguida, o que pode variar de horas a dias, vêm a atenção com necessidades básicas como tratar feridos, fornecer alimento, água e algum saneamento básico para os casos prioritários.

- Fase 3. Em terceiro, o que leva de dias a semanas, tratar dos corpos, o que implica em reconhecer as particularidades ritualísticas de cada culto. Se pode ou não haver cremação etc. Identificação das vítimas, redução de danos em residências instáveis e infra-estrutura.

- Fase 4. Por fim, a maratona que levará de semanas a anos, ou seja, a própria reconstrução. A economia, suas comunidades e instituições como escolas, serviços públicos têm que ser reerguidos. As conseqüências emocionais do trauma mostram que não apenas a reconstrução física é necessária.

Uma das formas mais efetivas de tentar reconstruir a sociedade é criar um Sistema de Manejo de Incidentes que inclua uma organização temporária com capacidade de financiamento, planejamento, operação e logística. Isto abarca:

1. comando operacional (delegando atividades).

2. grupo de planejamento (desenvolvendo planos para o próximo “ciclo operacional” de horas, dias ou semanas).

3. rupo logístico (organizando o movimento de pessoas e material em áreas de ação).

4. grupo de financiamento (captando apoiadores e trabalhadores voluntários e empregados).

5. grupo de comunicação pública (mantendo os constituintes bem informados dos passos das operações).

Muito disto pode ser aprendido com as agências federais americanas, como por exemplo, os planos de combate à incêndios da Agência Florestal dos EUA.[10]

Evidentemente que o ocorrido no sul da Ásia apresenta complicadores, como a quantidade de países afetados e a distância entre as localidades. Ou as múltiplas e confusas jurisdições que envolvem a área do cataclisma. Imagine o que priorizar, as áreas com acidentes mais drásticos ou as melhor servidas de infra-estrutura rodoviária, se não se tratarem das mesmas? Por vezes, a decisão envolve critérios técnicos e aí, o filantropo que quer ajudar passa ao papel de “insensível” ou, na melhor das hipóteses, de “incompetente”.

Um outro fator complicador que não é raro nesta parte do mundo é sua instabilidade política. Neste tipo de ocorrência, normalmente as pessoas aceitam a liderança de quem se apresenta melhor preparado tecnicamente, indistintamente de sua filiação política, raça ou credo. Mas, neste caso, os povos atingidos não raro, têm suas expectativas operando em outras bases. Várias áreas afetadas pertencem a diferentes grupos em conflito que devem ser consultados em suas prioridades. Ter que atender a um grupo dominante, embora menos atingido ou um cacique local antes daqueles mais atingidos pode parecer uma injustiça, mas se torna, muitas vezes, recomendável se não se pretende piorar as coisas.

Não estamos falando somente dos 150.000 mortos e centenas de milhares de feridos, pois tal tipo de ação de apoio a reconstrução envolve muitos outros elementos. Enquanto que, a maior parte dos desastres costuma ser geograficamente concentrada, este tipo de tragédia tem seus efeitos descentralizados ao longo de milhares de localidades costeiras. Se a zona de impacto forma um anel incompleto, é razoável supor que a ajuda internacional comece num ponto e termine noutro. Mas, pode não ser assim, pois vários pontos tiveram alto impacto e iniciar por um país em detrimento de outro implica em privilegiar alguém, mesmo que não seja esta a intenção. Desta forma se angariaria mais problemas na decorrência da ajuda internacional.

Também não podem ser ignorados fatores físicos, como a variação topográfica dos terrenos leva a danos apenas costeiros por vezes, mas em alguns casos (em planícies que se alongam interior adentro) as ondas podem ter entrado quilômetros a partir da costa. Pequenas diferenças no nível do mar (regiões mais aquecidas têm nível do oceano mais baixo que outras devido a maior evaporação) implicam em impactos bastante diferenciados, com grande diferencial das inundações.

Assim como a natureza da distribuição demográfica é amplamente variada, às vezes se concentrando em áreas costeiras ou em elevações, a capacidade de ajuda às vítimas também varia enormemente de um lugar para outro. A Índia apresenta uma estrutura mais preparada para socorro enquanto que a ilha indonésia de Sumatra que, além de ser mais pobre teve grande parte de sua infra-estrutura atingida.

E, como se tudo isto não bastasse, as incertezas jurídicas com diferentes centros de comando (governos federais, governos locais, polícia, exército, EUA, agências humanitárias locais, grupos comunitários, ONGs, ONU etc.) formam uma ampla base para confusão, ressentimentos ou conflitos.

Este é um pequeno panorama das dificuldades e proposições de um plano de ajuda internacional para uma área de tamanha extensão. Podemos ter uma vaga noção das dificuldades e implicações de uma plano de ajuda internacional ou, simplesmente, crer que as nações atingidas não conseguem elaborar por si próprias sua reconstrução por que foram corrompidas por potências estrangeiras, como querem certos filósofos. Filósofos que não tiveram suas mentes lavadas por nenhuma onda gigantesca e avassaladora, mas que estão cegos por uma tempestade polar, cegos por uma blizzard filosófica.

 

 


 

[1]A pior matéria nesse sentido me pareceu a da revista Terra (março de 2005), cujo sugestivo título de capa foi “Natureza X Homem: uma guerra sem trégua”. À página 61, uma meteorologista, Caarem Studzinski é entrevistada e além de concluir “originalmente” o “aumento do número de fatalidades nas últimas décadas” tem ocorrido pela “questão do clima, alterado pela atividade humana” num acesso de “clarividência mitológica ambientalista”, ainda afirma que “essa tragédia asiática só teve destaque imediato na mídia porque havia suecos e outros europeus entre as vítimas” (p. 48). A meteorologista compara com o mesmo fenômeno que atingiu Papua Nova Guiné em 1998 dizendo que foi dado pouco destaque para este. Embora a tragédia do ano passado tenha vitimado cerca de cem vezes mais vidas, isto não é suficiente para a meteorologista. E, se o critério for repercussão na mídia, uma rápida pesquisa no buscador Google mostra, aproximadamente, 1.230.000 links sobre o incidente. Eu próprio fiquei sabendo do mesmo pela tv. O que queria a meteorologista? Informações por mala-direta? Sintomático também o mau-caráter da revista ao entrevistar uma meteorologista numa matéria cuja tônica é um fenômeno geofísico. Simples de entender, pois se entrevistasse um geofísico, o que este poderia acusar na atividade humana responsabilidade pelos sismos? Nada. Daí, não haveria como dramatizar mais o tema. Também perderia a “graça” e as vendas do periódico panfletário.

[2]Muito se falou da altura da tsunami, mas uma informação adicional pode ser reveladora da real extensão do problema: a distância entre uma crista e outra de uma tsunami pode chegar a 800 km, com variações de 10 a 60 minutos. No oceano aberto, a velocidade da tsunami depende do nível batimétrico (profundidade oceânica): com 150 metros, ela pode chegar a 140 km/h, enquanto que com 4.600 metros, a velocidade atingida é de 780 km/h. In: VOSS, Gilbert L. Oceanography. New York: Western Publishing Co., 1972, pp. 64-65.

[3]Cyro F. Andrade. “A economia política do tsunami.” Valor Econômico – 14/01/2005.

[4]Renato Janine Ribeiro. “A economia política do preconceito.” Valor Econômico – 21/01/2005.

[5]Embora nosso presidente tenha sugerido que ele ocorra devido a interferência humana e ainda em discurso na cidade de Guarulhos, trocou a sísmica pela meteorologia: "Nós sofremos muito em 2003, vocês acompanharam o sofrimento, porque peguei uma casa depois de um vendaval, como aquele que deu na Ásia".

[6]À propósito, conferir “Andrew C. Revkin. “Ondas são previsíveis, afirma especialista.” New York Times.

[7]A Filândia figura na primeira posição como menos corrupta e os países empatados na última posição (145a) são Haiti e Bangladesh.

[8]Observem que os críticos do capitalismo e dos valores da civilização ocidental gostam de chamar atenção para as privatizações na esfera econômica como atentando contra o patrimônio público, o “espírito público”, a “coisa pública” etc. Mas, o que é público decorre, justamente, da base cultural de uma sociedade. Não é algo que esteja apenas, formalmente, assinalado em qualquer lei se não detiver correspondência por parte da sociedade. Na medida em que sociedades centralmente planejadas, em grau maior ou menor de autoritarismo (socialismo, social-democracia etc.) alienam a população de sua participação e organização ao impingir ordens e regulações a partir de um ente pretensamente superior, o estado. Aí sim é que temos a ausência de domínio sobre o que é público pelos cidadãos. Cidadania, portanto, é o oposto do que definem os socialistas, pois significa dominar o que é público e não se submeter a ele.

[9]A África Subsaariana, a região mais pobre do globo, freqüentemente é alvo de sugestões desenvolvimentistas pautadas na maior ingerência estatal. O principal condicionante de desenvolvimento que é a educação tem que chance real de se enraizar nesta parte do planeta? Como países com dezenas de idiomas e dialetos podem, para começo de conversa, elaborar um simples plano de alfabetização se não adotarem um idioma neutro entre os diversos grupos tribais e clãs? Por “idioma neutro”, a solução mais viável tem sido a adoção do idioma do antigo colonizador. E, para efetiva-lo com uma infra-estrutura que atenda a todos, só se torna possível com uma maior taxa de urbanização, isto é, quando a maioria dos africanos tiver abandonada sua lida rural e migrado para a cidade onde, bem ou mal, existem escolas. Se a África seguir, por oposto, os planos de ambientalistas que pretendem amalgama-los a um status “ambientalmente correto”, ligado a economia primitiva e o esterco, como principal fonte energética, o desenvolvimento não passará de uma quimera. Os africanos deveriam, como já sugeriu Edward H. Wolff, bradar “Greenpeace, go home!”

[10]Veja a proposta do presidente Bush para este caso específico em Bushfire.

Última modificação em Segunda, 09 Setembro 2013 20:04
Anselmo Heidrich

Professor de Geografia no Ensino Médio e Pré-Vestibular em S. Paulo. Formado pela UFRGS em 1987.

Deixe um comentário

Informações marcadas com (*) são obrigatórias. Código HTML básico é permitido.

  • Copyright © 2007. www.rplib.com.br . Todos os direitos reservados.

    Republicação ou redistribuição do conteúdo do site RPLIB é permitido desde que citada a fonte. O site RPLIB não se responsabiliza por opiniões, informações, dados e conceitos emitidos em artigos e colunas assinados e nos textos em que é citada a fonte.