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24 Jun 2005

O Amante do Poder Que Detesta Governar. Quem Será?

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Não há sociedade sem processo político. O que varia é a qualidade das instituições no interior das quais se faz política e a proficiência dos legisladores e administradores.

Não há sociedade sem processo político. O que varia é a qualidade das instituições no interior das quais se faz política e a proficiência dos legisladores e administradores. Na iniciativa privada, as atividades profissionais são avaliadas à luz de critérios de desempenho. Cobram-se resultados das diversas instâncias envolvidas na perseguição de determinadas metas. Na política, as piores idéias podem se tornar vitoriosas e as práticas mais perniciosas tachadas de progressistas. Hoje, um dos grandes desafios é reinventar o Governo de modo a obrigá-lo a ter eficiência gerencial e correção moral. Sofridas são as sociedades que carregam nas costas governos pesadíssimos que geram mais problemas - materiais e psicossociais - que os que tentam resolver. Se a primeira lição da economia é a da escassez - jamais algo existe em quantidade suficiente para satisfazer plenamente a todos aqueles que desejam tê-lo - a primeira lição da política é desconsiderar a primeira lição da economia. A sociedade que almeja conter o avanço da corrupção precisa criar mecanismos que impeçam o governo de gastar sem racionalidade e de impor uma carga tributária escravizadora. A bandalha com o dinheiro público começa quando a sociedade aceita pagar todas as contas que o governo lhe apresenta. Dar um cheque em branco aos governantes e esperar que dele façam bom uso é o mesmo que acreditar que unicórnios são animais domésticos. Na era do marketing, é cada vez mais difícil diminuir o fosso entre o princípio de realidade, ao qual está submetida a economia, e o princípio da fantasia promesseira manipulado pela retórica da esperança que, nos bastidores do poder, se transmuta em práticas mafiosas.

As sociedades fingem não se dar conta de que as ressacas cívicas são inevitáveis depois dos porres das utopias frustrantes. Da política depende o equacionamento de muitos dos mais desafiadores problemas que assolam as coletividades. O aflitivo é que as tomadas de decisão políticas, por não estarem submetidas aos requisitos básicos da eficiência, acabam atendendo apenas aos interesses dos indivíduos e grupos que participam do jogo do poder. A corrupção é apenas o estágio mais avançado, degenerado, da inépcia governamental. As sociedades instáveis tendem a exibir animosidade contra os políticos. Só que estes nada mais fazem que explorar as fraquezas mentais e as carências materiais dos eleitores. Causa espécie que num país em que a corrupção - miúda e graúda - está disseminada tenha se chegado a acreditar que um partido político podia se compor de vestais, de guardiões inabaláveis da ética.

Que sentido faz reclamar que os políticos costumam ser predadores do Erário, que só procuram tirar vantagem dos cargos que ocupam, quando se entrega o poder nas mãos de populistas e demagogos? Os eleitores não são responsáveis, como apregoa o senso comum, pelos indivíduos – fulano, beltrano ou sicrano - que escolhem para governá-los e sim pelos tipos de político – demagogo, populista, intervencionista etc. – que entronizam. As pessoas escolhem seus governantes sem consciência de que estão optando por modos de pensar e projetos de ação. Se, por exemplo, o eleitorado gosta de mimos e paparicos assistencialistas, e não se preocupa com a qualidade da governança, acaba dando o poder a tipos que só farão mal à sociedade. A tragédia na política não deriva de quem é individualmente escolhido, e sim do tipo de político preferido. Por que não vemos estadistas na América Latina? São barrados pelas forças do atraso ou não “fazem o tipo” dessas sociedades? Quando um povo escolhe um governante, escolhe um tipo de político. Pode optar, por exemplo, pelo tipo Hugo Chavez – o demolidor de instituições – ou pelo tipo Ricardo Lagos – um socialista institucionalista. Ou pode acreditar que um metalúrgico, que nada tinha antes administrado, faria a mágica de desentortar a sociedade no torno. Num país como o Brasil, os mais preparados não desejam se tornar políticos profissionais. Por isso o poder acaba ficando nas mãos de aventureiros e despreparados.

A sociedade não é responsável pelos indivíduos, pessoas físicas, que escolhe para governá-la. Erra ou acerta pelos tipos de político que coroa. Só nos enganam aqueles que nos fascinam. A sociedade não é a soma dos indivíduos que a compõem, e sim dos tipos que a caracterizam. Se os tipos nocivos ganham poder e destaque, é inevitável que um país regrida. Por que será que o Brasil está quase sempre nas mãos dos mesmos tipos políticos? E, como conseqüência, sempre às voltas com os mesmos problemas estruturais e morais. Por que os tipos que o têm controlado encontram tanta facilidade para chegar aos mais altos escalões? Muda a ideologia, muda o discurso, mas os tipos são praticamente os mesmos. Por que será que direita e esquerda se revezam no poder e os esqueletos do velho patrimonialismo, nas versões sugadoras e saqueadoras, sempre voltam a assombrar?

Última modificação em Segunda, 09 Setembro 2013 20:04
Alberto Oliva

Filósofo, escritor e professor da UFRJ. Mestre em Comunicação e Doutor em Filosofia pela UFRJ. Professor-palestrante da EGN (Escola de Guerra Naval) e da ECEME (Escola de Comando e Estado-maior). Pesquisador 1-A do CNPq. É articulista do Jornal de Tarde desde 1993. Possui sigficativas publicações como "Liberdade e Conhecimento", "Ciência e Sociedade. Do Consenso à Revolução", "A Solidão da Cidadania", "Entre o Dogmatismo Arrogante e o Desespero Cético" e "Ciência e Ideologia".

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