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14 Mai 2004

A Granja Brasil

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Admirável como alguns autores conseguem retratar com tamanha fidelidade a espécie humana. Apesar de publicado em 1945, a obra de Orwell está atualíssima e parece se referir à nossa “Granja Brasil”.

Inconformado com o que considerava uma inaceitável exploração, o porco “Major” consegue reunir todos os animais da “Granja do Solar”, cujo proprietário era o “Sr Jones”, para propor que eles se organizassem e unidos pusessem fim ao que ele identificava como uma era de submissão e escravidão.
Major fez ver a seus “companheiros” animais que a razão de ser de todos os seus males, seus infortúnios, suas vicissitudes, centrava-se na circunstância de serem “explorados” pelo “bicho Homem”.
Segundo o discurso de Major, o homem era a única criatura a consumir sem produzir. Não dava leite, não punha ovos, não era forte o suficiente para puxar o arado e, apesar disso tudo, era o senhor de todos eles, animais.
Major propõe, então, aos seus “companheiros”, uma revolução. Seria uma revolução libertadora, que lhes traria o poder de serem os donos de tudo o que produzissem.
A vaca poderia dar todo o seu leite aos seus bezerrinhos. Todos os ovos das galinhas poderiam se transformar em belos pintinhos. Nenhum deles mais seria cruelmente abatido, tão logo se mostrasse pronto para o consumo humano.
Seria o fim da exploração, a libertação, o paraíso.
Quem rejeitaria a embarcar nesse sonho?

Assim, GEORGE ORWELL cria o cenário do seu famoso “Animal farm” (A revolução dos bichos, em português).
Não gostaria de tirar o prazer de futuros leitores dessa fantástica sátira, mas lhes adianto que Orwell nos conta que, nem mesmo a morte de Major, em razão de sua idade avançada, impediu a realização da revolução.
Os porcos “Napoleão” e “Bola de Neve” passaram a ser os novos líderes.
Expulsos os humanos proprietários da Granja do Solar, depois de determinado período de caos anárquico, a necessidade de ver reorganizada a vida dos seus novos e “livres” proprietários levou cavalos, gansos, galinhas, pombos, cachorros e gatos, burros e ovelhas à contingência de aceitarem, que os porcos, dentre todos os melhor informados, assumissem a responsabilidade de redefinirem funções, direitos e deveres para todos, na, agora, Granja dos Bichos, como passou a ser chamada.
Tinham a lhes balizar o futuro sete mandamentos, que, registrados na parede do fundo do celeiro, estavam a lhes lembrar, permanentemente, os princípios que os haviam unido.
George Orwell prossegue sua estória nos contando que, passada a euforia inicial decorrente da experiência nova de pretensa liberdade, todos se deram conta que haviam trocado de donos e que, agora, passavam a ser dominados pelos “porcos”, Napoleão à testa.
A frustração, a decepção substituiu a “esperança”, a alegria.
Interessante. O discurso dos líderes mudara e a sensação de todos era de que estavam sendo enganados.
Constatando essas mudanças de rumo, Bola de Neve inicia processo de questionamento à “falta de fidelidade” aos princípios originais do movimento e finda por ser expulso da Granja, sob a justificativa de que ele era subversivo, agente inimigo, responsável por tentativa de solapar a união conquistada a tão duras penas.
Mesmo os mandamentos pareciam se ajustar às novas realidades.
Aonde pensavam ter lido, por exemplo, no passado, “nenhum animal beberá álcool”, se davam conta, agora, após terem visto seus líderes alcoolizados, de que lá passara a estar escrito que “nenhum animal beberá álcool, em excesso”.
Aonde pensavam ter estado registrado que “nenhum animal matará outro animal”, após assistirem a punição de um deles com a morte, se dão conta de que, no celeiro, agora se lia que “nenhum animal matará outro animal, sem motivo”.
É com a mais indescritível estupefação que assistem seus novos líderes reatarem laços de amizade com os humanos, seus antigos inimigos e, ao correrem para o celeiro, em busca de compreensão do que parecia aberrante, ao invés do que pensavam ter certeza de lá ter estado escrito, “quatro pernas bom, duas pernas ruim”, encontram “quatro pernas bom, duas pernas melhor”.
George Orwell conclui seu conto nos dizendo que, em dia de grande orgia na sede da fazenda, quando homens e porcos se confraternizavam, alguns bichos que se acercaram das janelas, embasbacados, tentando compreender o que ocorria, constataram a transformação.
Textualmente, o último período do livro é: “As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez: mas já se tornara impossível distinguir quem era homem, quem era porco”.

Admirável como alguns autores conseguem retratar com tamanha fidelidade a espécie humana.
Apesar de publicado em 1945, a obra de Orwell está atualíssima e parece se referir à nossa “Granja Brasil”.
Não gostaria de pensar que insulto a inteligência do dileto amigo, que me honra com a leitura deste texto, traçando paralelos e atualizando circunstâncias, tão óbvias elas são.
Não há como deixar de identificar, no entanto, os seres humanos da estória com, por exemplo, o FMI; “Bola de Neve” com políticos expulsos do PT; as mudanças nos mandamentos com chocantes guinadas retóricas que não se constrangem em nos atribuir a pecha de idiotas e amorfos.
Não há como deixar de nos ver a todos, brasileiros, perplexos, diante das janelas do Palácio do Planalto, tentando identificar quem é José Sarney, José Dirceu, Paulo Maluf, José Genoíno, Antonio Carlos Magalhães, Leonel Brizola, Luís Inácio, tão parecidos todos se apresentam.

Última modificação em Quarta, 30 Outubro 2013 20:30
Mario de Oliveira Seixas

Mario de Oliveira Seixas é General-de-Brigada, na reserva do Exército brasileiro. Realizou todos os cursos militares, nos níveis de graduação, mestrado e doutorado, assim como o Curso de Política, Estratégia e Alta Administração do Exército, o de mais elevado nível da carreira. É engenheiro de telecomunicações formado pelo Instituto Militar de Engenharia. No exterior, cursou o British Army Staff College (curso de Comando e Estado-Maior do Exército Britânico) e a Defence School of Language (curso da língua inglesa). Na PUC-Rio, especializou-se em Educação à Distância. Na FAAP, em São Paulo, realizou o Curso de MBA em Excelência Gerencial, com Ênfase na Gestão Pública. De 2005 à 2009 foi o Secretário Municipal de Cooperação nos Assuntos de Segurança Pública da Cidade de Campinas - SP. De 2009 a 2018 foi Superintendente Geral da entidade Movimento Vida Melhor - MVM, em Campinas - SP, cujo propósito é retirar das ruas da cidade adolescentes em risco social.

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