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15 Jun 2005

Os 170 Milhões de Neruda

Escrito por 

O Brasil possui 170 milhões de Nerudas porque, assim como o triste poeta, o brasileiro não é capaz de reconhecer o erro de suas ideologias e a loucura de suas pretensões.

"O Brasil não é uma pátria, não é uma nação, não é um povo, mas uma paisagem".

Nelson Rodrigues

Quando afirmo categoricamente que o Brasil atualmente é habitado por 170 milhões de Nerudas, não me refiro em absoluto a alguma possível relação entre a suposta genialidade daquele poeta de versos simples e intelectualidade sartreana, bem a la mode des années 60 e o jeitinho brasileiro que carrega nas costas a esperança amarga de ser o país do futuro que jamais chega.

Infelizmente, refiro-me à outra face da moeda, a face do homem que, como poucos neste último século, cantou a paz (Paz para los crepúsculos que vienen, / paz para el puente, paz para el vino, paz para las letras que me buscan y que en mi sangre suben enredando el viejo canto con tierra y amores) e o amor (Te amo y no te amo como si tuviera / en mis manos las llaves de la dicha / y un incierto destino desdichado. Mi amor tiene dos vidas para amarte. Por eso te amo cuando no te amo y por eso te amo cuando te amo.) para depois vergonhosamente defender o mais horrível e sangrento regime político de toda a História da humanidade.

Nelson Rodrigues já havia nos alertado da tristeza de ser um Neruda. Como poderia um homem de tão rara poesia possuir tão mesquinho caráter? Em O Globo de 13 de Setembro de 68, o Anjo Maldito expressou toda sua indignação ante a frieza do poeta chileno, que quando perguntado sobre sua opinião relativa à brutal invasão da Tchecoslováquia pelo Império do Mal, ele apenas respondeu: "Eu estou dos dois lados, com a Rússia e com a Tchecoslováquia". Nelson Rodrigues bem resumiu a lógica doentia daquele poeta: "está com o crime e com a vítima, com a vítima do estupro e com o autor do estupro".

Veio-me à mente a idéia de que o Brasil comporta 170 milhões de Nerudas porque os brasileiros também, ao consolarem a vítima do estupro, sempre buscam entender as razões do estuprador, o que sempre o absolve a posteriori.

Digo isso após presenciar não a nova onda de escândalos do desgoverno petista que se revelou ao público mas sim, o esforço brutal e sobre-humano que a imprensa, a intelligentzia e até os 'partidos de oposição' vêm fazendo para tentar salvaguardar o mito do patrimônio ético das esquerdas.

Ora, quando não se está intoxicado pelos cacoetes mentais comuns à maioria dos brasileiros é muito simples perceber a trama. Primeiro surgem os gritos de mea culpa, ou o suposto choro do Sr. Luís Inácio; depois se isola o foco de atenção em um ou dois bodes expiatórios - cuja punição será uma temporária e reversível execração pública - e, por fim, reafirma-se a honra, a dignidade e o valor das intenções dos bons corações esquerdistas em detrimento da lógica podridão resultante de suas imperceptíveis falhas morais. Logo, os pobres diabos brasileiros, cães pavlovianos por excelência, estarão exaltando o caráter e a dignidade do presidente petista e dos valores da esquerda e de como ele foi vítima da sujeira - porca miséria! - da direita nacional, que lentamente vem retomando o poder.

O que mais explicaria o esforço da imprensa e da oposição para que não sejam feitas comparações entre o Sr. Luís Inácio e o ex-presidente Fernando Collor de Mello? Em um ponto eu sou forçado a concordar: a tal comparação é, de fato, injusta. Senão vejamos:

O Sr. Luís Inácio é um analfabeto funcional incapaz de entender os próprios discursos que profere; Collor, pelo menos, era um canalha letrado;

O Sr. Luís Inácio não fez nada para melhorar a economia brasileira, colhendo apenas os pífios frutos deixados por governos passados; Collor, apesar de todos os desastres, iniciou a abertura econômica do país - mal e parcamente - mas alguém tinha que dar o primeiro passo;

O Sr. Luís Inácio e todo o seu partido está formalmente envolvido com narcotraficantes, ditadores, guerrilheiros, seqüestradores, terroristas, e outros canalhas afins; Collor não estava;

O Sr. Luís Inácio não possui nenhuma oposição no Congresso e só não consegue governar o país porque sua incompetência só é comparável à sua soberba; Collor enfrentou oposição de vários espectros políticos e, apesar das más línguas, sua soberba não pode ser comparada a do atual presidente;

O sr. Luís Inácio possui toda a imprensa brasileira como fiéis cães vira-lata ao seu lado; Collor foi sempre um alvo fácil da imprensa petista.

Aliás, já que mencionei o nome do ex-presidente, talvez seja importante falar um pouco aqui sobre o Movimento Cara Pintada. Aqueles jovens armados com a razão da idade e com os chavões do momento cuidadosamente incutidos em suas mentes, pintaram a cara como palhaços e saíram às ruas para protestar contra algo que eles não entendiam. Bem, essa geração, da qual fiz parte apenas acidentalmente - já que me orgulho de nunca ter pintado minha cara por nada nessa vida - é a geração que garantiu a vitória petista nas últimas eleições, é a geração que hoje, já adulta, assiste impassível aos novos escândalos do governo sem nada fazer a respeito, sem levantar a voz, sem nem ao menos maldizer a vida em uma mesa de bar qualquer, afinal de contas, a esperança venceu o medo, não foi mesmo?

Isso serve para esclarecer alguns pontos fundamentais sobre essa geração perdida:

Eles não se caracterizaram como uma manifestação espontânea - aliás, desde a década de sessenta que a idéia de movimentos de rua espontâneos perdeu-se no tempo e no espaço;

Não se constituiu em uma demonstração de amadurecimento político;

Não foi um processo de inserção dos jovens brasileiros num debate político maduro e democrático - desafio alguém aqui a mostrar um debate político maduro e democrático onde a maioria seja constituída por adolescentes imberbes; e

Não foi, de jeito nenhum, um reflexo de uma possível transformação cultural tupiniquim voltada para supostos valores éticos e morais - senão outra coisa, essa geração de pintados serviu para enterrar os últimos resquícios de escrúpulos que ainda podia-se enxergar na nação brasileira.

Collor foi derrubado pelas mesmas razões que levarão o Sr. Luís Inácio a se manter no poder: pela manipulação cínica da consciência humana, pelo lento processo de engenharia social por qual passou a nação brasileira nos últimos quarenta anos e por nossa vocação natural para a pobreza que, ao contrário do que dizem por aí, começa na política.

O Brasil, portanto, possui 170 milhões de Nerudas porque, assim como o triste poeta, o brasileiro não é capaz de reconhecer o erro de suas ideologias e a loucura de suas pretensões; o brasileiro tornou-se incapaz de perceber o animal ridículo que se tornou, repetindo o mesmo erro histórico sempre com uma nova desculpa, sempre com uma esperança descabida de possuir algo especial que não os faça pagar o preço de seus erros.

Eu só fico a imaginar o que alguém como Nelson Rodrigues - aquela flor de obsessão - teria a dizer sobre todo esse lodo moral em que se tornou o Brasil.

Última modificação em Segunda, 09 Setembro 2013 20:05
João Costa

João Florêncio da Costa Júnior nasceu em Natal, Rio Grande do Norte, é Bacharel em Ciências Administrativas pela UFRN e Mestre (magna cum laude) em International Relations & Management pela UCK – Londres, com dissertação intitulada The Unintended Consequences of Good Will: Antonio Gramsci, Norberto Bobbio and political violence. É colunista e tradutor do jornal eletrônico Mídia Sem Máscara e colaborador do Jornal Ombro a Ombro. Atualmente vive em Londres, Reino Unido e dedica-se a estudos nas áreas de Filosofia Política, História e Teoria das Organizações.

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