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15 Jun 2005

Carta Aos Militantes do PT

Escrito por 

Esta carta é endereçada a todos os militantes do PT que possuem uma consiciência moral.

Esta carta é endereçada a todos os militantes do PT que possuem uma consiciência moral. É minha oferta sincera e desinteressada de apoio àqueles que acreditam em ideais nobres, e que em algum momento das suas vidas, concluíram que o PT representava o melhor caminho para alcançá-los. E é também minha explicação sobre porque acredito que esses idealistas e sonhadores, que desejam um mundo melhor e estão dispostos a lutar por ele, não devem conspurcar suas vidas, suas idéias e seus princípios defendendo o Partido dos Trabalhadores. A todos os militantes do PT que conseguirem identificar-se com o que aqui escrevo, dedico minha sincera simpatia e digo: estamos do mesmo lado. É chegada a hora de derrubar os muros mentais que mantém tanta gente boa aprisionada nos calabouços da ideologia.

Meu amigo militante do PT,

Eu sei que os eventos dos últimos meses foram, e continuam sendo, muito difíceis de compreender e aceitar. De repente, não mais do que de repente, o partido que você sempre apoiou e defendeu, em que você sempre acreditou, mostrou uma face que você jamais imaginava que ele tivesse. Você viu seus líderes, pessoas em quem você confiou e acreditou, envolvidas em falcatruas e imoralidades que representam tudo que você sempre detestou e condenou na política tradicional. Pior, você testemunhou esses mesmos líderes acabarem paulatinamente com a democracia interna do PT da qual você tanto se orgulhava, transformando-a em uma casca vazia e contruindo uma oligarquia autoritária e avessa ao debate aberto. E agora você se vê em dúvida sobre o que fazer: seguir a linha oficial do partido e tentar defender, justificar ou explicar o que não tem defesa, justificativa ou explicação; ou seguir o caminho de alguns ilustres membros e romper com o partido.

Que fazer?

Em primeiro lugar, meu amigo, é necessário reconhecer o fato fundamental que todos esses episódios revelaram. É duro, mas a verdade é uma só: você foi enganado.

Desde a sua fundação, o PT foi gradualmente tomado por uma claque de militantes da pior espécie. Ao mesmo tempo que o PT ganhava espaço e corpo, influenciando e apoiando diversos movimentos sociais e galgalndo os degraus do poder político, esse grupo paulatinamente infliltrou-se no comando do partido, moldando-o e manipulando-o de acordo com seus interesses. E é na ascensão dessa claque, desse grupelho autoritário e anti-democrático, que está a raiz dos problemas e conflitos que o PT vive hoje.

Essa claque era formada pelos remanescentes de tudo que existiu de mais execrável na nossa Esquerda. Formados nos porões da Guerra Fria e da luta armada contra o regime militar, e no jogo de cartas marcadas dos sindicatos peleguistas dos anos 70 e 80, esses militantes nunca tiveram nenhum compromisso com a democracia, com a liberdade ou com a justiça. Influenciados por uma colcha de retalhos de pensamentos autoritários – stalinismo-leninismo, fascismo, maoismo, e castrismo – esses militantes sempre tiveram como objetivo chegar ao poder a qualquer custo. Para eles, coisas como princípios, ética ou verdade são sacrificáveis em nome da chegada ao poder. E para isso eles hábilmente usaram de todo o arsenal maquiavélico existente de propaganda, dissimulação, retórica e conspiração para primeiro tomar conta do PT, e depois, do país. Apoiados por uma massa de intelectuais – muitos bem-intencionados, outros conscientes do que se tentava fazer e cúmplices do estelionato politíco em curso – esses militantes construíram todo um edifício ideológico baseado na pregação do ódio, do conflito, da verdade única e do terrorismo, travestidos de luta pela justiça social e pela democracia. Eles fizeram de tudo para que você passasse a enxergar a realidade apenas em preto e branco, em absolutos de bem e mal, satanizando e ridicularizado toda e qualquer idéia que divergisse o mínimo do caminho que eles queriam que o PT seguisse. Nesse processo, eles tentaram impedir que você tivesse contato com idéias diferentes, tentando doutrinar você para ignorar, achincalhar ou satanizar qualquer coisa que contrariasse o discurso que eles pregavam. Pois para eles, cada militante que recusa-se a ouvir os outros e desqualifica os argumentos opostos como “alienação”, “discurso da direita” ou “mau-caratismo” vale mais do que cem que se pergutem, mesmo que ocasionalmente, se o caminho seguido é o correto. Durante anos, eles tentaram fazer com que você parasse de pensar de forma crítica.

Mas isso não foi o pior que essa claque fez. Eles abusaram da sua boa vontade e do seu idealismo, meu amigo. Eles viram a sua indignação com as injustiças do mundo, o seu desejo de lutar para construir um país melhor, a sua repulsa pelo jogo velho de cartas marcadas da política viciada. Mas ao invés de tentar ajudar você a encontrar um caminho para canalizar toda essa energia transformadora de forma positiva, meu amigo, eles tentaram manipular você de acordo com os seus interesses. Eles venderam a você uma utopia, um sonho de socialismo que diziam democrático mas que, observado de forma mais cuidadosa, não tinha nada de social nem tampouco democrático. E tentaram converter o amor ao próximo que você carrega no peito em ódio àqueles que representavam obstáculos aos planos deles de chegar ao poder. Eles tentaram corromper o que você têm de bom e transformá-lo no seu oposto. E tal como a proverbial maçã podre no cesto de frutas boas, essa claque gradualmente envenenou e corrompeu tudo que o PT pode ter um dia significado.

Neste ponto convido você, meu amigo militante, a parar para refletir um pouco. É possível que você tenha testemunhado em outros momentos coisas que fizeram com que você pensasse, mesmo que por um segundo sequer, se não havia algo de errado com o caminho que o PT estava seguindo. Talvez você tenha testemunhado a forma como a direção do partido lidou com alguma disputa interna e ficou desconfortável com os métodos e com a decisão. Talvez você tenha visto outros militantes tratando um opositor do PT de uma forma que perturbou você pela agressividade ou baixeza. Talvez você tenha visto ações praticamente criminosas de movimentos que se dizem sociais, ostensivamente apoiados pelo partido, e sentiu-se sujo com aquilo. Mas talvez tenha calado, racionalizando que no caminho para um mundo melhor, ocasionalmente erros e tropeços acontecem. Afinal, somos todos humanos, e todo mundo erra, não?

Talvez você não tenha nunca testemunhado nada do que comentei, nem nada parecido. Mas se você viu algo desse tipo, pense a respeito. Será que o episódio, ou episódios, que fizeram mal a você, não fazem mais sentido dentro do contexto da luta dessa claque que indiquei anteriormente para chegar ao poder? Será que agora as peças do quebra-cabeças não começam a se encaixar?

O pior, meu amigo, é que o pior ainda está por vir. Muito mais sujeira vai aparecer daqui até as eleições de 2006. Essa claque que comanda o partido não desistiu, nem vai desistir, do poder pelo poder; para eles, o poder é um fim em si mesmo, não um meio para as transformações sociais e econômicas que o Brasil precisa. E eles tentarão manipular você, com tentaram no passado, para que você seja um mero soldado no exército de militantes que eles precisam para continuar no poder. Eles não se importam com os ideais que você carrega na cabeça ou os sentimentos de solidariedade e decência que você carrega no peito; eles querem você apenas como um robô, carregando uma bandeira e gritando palavras de ordem sem pensar no porquê de tudo isso. Eles querem que você faça por eles o trabalho sujo e os defenda contra a sociedade indignada com o que eles fizeram.

Por isso, meu amigo militante, faço um apelo a você. Apelo à sua consciência, ao seu idealismo, ao seu desejo de construir um mundo melhor. Meu apelo é simples: não faça o jogo deles. Não venda seus ideais por um partido e por uma claque que não se importam com eles. Não sacrifique seus sonhos para proteger um projeto que não é de um novo país, mas meramente um projeto de poder de um grupelho autoritário. Não jogue fora seus princípios defendendo um governo que nada tem em comum com os seus ideais. Não suje as suas mãos defendendo líderes que não são nada além de mitos construídos com propaganda, demagogia e carisma. Você e os seus ideias são maiores do que esse governo, do que o PT e do que qualquer líder. Não se apequene.

O PT em que você acreditou, meu amigo, morreu, consumido por dentro por um câncer de corrupção travestido de ideologia. Se é que um dia existiu realmente. Se você não acredita em mim, ou acha que escrevo isso apenas porque sou “de direita”, reflita um pouco. Veja quantos nomes importantes da esquerda dizem exatamente a mesma coisa que eu. Reflita se o caminho que o partido está seguindo realmente pode nos levar para mais perto do que você considera um mundo melhor. Se você têm os ideiais e sonhos que acredito que tem, acho que a resposta é não.

Você não precisa concordar comigo para entender minha mensagem. Não quero que você vá para a “direita”, para a “esquerda”, ou que traia as suas crenças. Muito pelo contrário: o que eu desejo é alertar você para não sacrificar suas crenças em nome de um partido que não as representa. Procure seu próprio caminho, e afaste-se desse ninho de corrupção moral e ideológica que é o PT hoje. Se possível, persuada os seus amigos a fazer o mesmo. Não seja um mero soldado de uma ideologia que, na verdade, não é a sua.

Se você quer um mundo melhor, lute por ele. Siga os seus princípios e o seu coração. E para isso, meu amigo, você precisa deixar a ilusão despedaçada do PT para trás. Quebre os muros mentais que o aprisionam e siga o que você realmente acredita. Não faça de você mesmo menos do que você pode ser.

Última modificação em Segunda, 09 Setembro 2013 20:06
Luiz Antonio Moraes Simi

Bacharel em Administração pela Universidade de São Paulo, tem sua experiência profissional concentrada nas áreas de finanças e controladoria. Atualmente reside em Munique, onde trabalha com projetos para a área de exportação de uma grande companhia alemã. Um seguidor do liberalismo clássico e da Escola Austríaca de Economia, acredita em livre mercado, liberdade individual, pluralismo político e direitos individuais inalienáveis. É colunista dos sites Capitólio.org e Liberdade Econômica, e mantém um blog, "Livre Pensamento", dedicado à discussão da doutrina liberal.

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