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09 Jun 2005

Uma Crise Emblemática

Escrito por 

Os mesmos “Josés” e “Aloízios” que bradavam e rugiam pela moralidade na máquina administrativa, agora assumem uma postura cínica, ridícula e podre. Usam das mesmas iniciativas de seus antigos alvos para buscar justificar o injustificável.

Se existe um consenso no Brasil, este diz respeito a endêmica corrupção na máquina administrativa, no poder público em geral. Há alguns anos, e em particular desde a chamada redemocratização do país a partir de 1985, que casos de corrupção são apontados pela mídia e, por vezes, investigados com seriedade e os corruptos alijados da vida em sociedade.

Os sucessivos governos, desde José Sarney, têm enfrentado denúncias e mais denúncias de atos de improbidade administrativa em diversos setores do poder. E por ser o capitão da administração pública, os casos envolvendo o poder executivo pátrio, em particular o federal, ganham uma repercussão consideravelmente maior que as eventuais ocorrências criminosas nos poderes legislativo e judiciário.

Neste quadro denunciatório, importante por sinal, pois ao menos viabiliza aos órgãos competentes (polícia, congresso nacional e judiciário), a eventual busca por depuração nos quadros administrativos, um personagem ganhou inquestionável destaque: o Partido dos Trabalhadores e sua claque. Para tanto, o PT se notabilizou, avocando pra si, a condição de porto-seguro da ética e da moralidade política do país. Tal autochamamento era explicável por conta das sucessivas derrotas petistas em pleitos eleitorais que condenavam o partido dos trabalhadores a se contentar em “apenas” legislar. Daí a idéia de ser o PT um partido político essencialmente legislativo e, por conseqüência, sem capacidade e preparo para as funções do executivo.

Inserido na realidade legislativa, o PT assumiu o papel de grande lançador de pedras sobre os mais variados governos que tomaram lugar no Palácio do Planalto. Denúncias contra personagens da política nacional ou instituições eram disparadas a todo instante. Clamavam sempre por justiça, por ações policiais e CPIs. Ao menor trilar de possível irregularidade praticada pelo ou com a omissão do governo de plantão, esperneavam freneticamente diante das câmeras e microfones. Quando não isso, apresentavam “evidências” de irregularidades eventualmente praticadas com ou sem a conivência do Palácio do Planalto.

E a falta de experiência administrativa foi um fenômeno altamente positivo para o PT. Sem as responsabilidades inerentes ao poder executivo, praticamente não teve essa agremiação política nenhuma denúncia de improbidade administrativa contra si. Até a eleição de Luis Inácio, o que ocorria contra o PT eram pipocadas a algumas de suas administrações estaduais ou municipais, ou seja, nada de grande repercussão na mídia nacional. Logo, e por conseqüência da falta de compromisso com os princípios fundamentais da administração pública, como nos mostra o artigo 37 da Lei Maior, o PT teve a possibilidade, e bem se aproveitou desse fato, para criar na mente e nos pobres corações de parcela significativa do povo brasileiro a imagem de virgindade político-administrativa.

Assim, o PT foi ganhando espaço político no cenário nacional pela notoriedade de ser (ou ao menos parecer ser), o paradigma da moralidade. Neste sentido, inúmeras foram as ocasiões, pré-eleição de Luis Inácio ao posto de líder máximo do país, em que tive a oportunidade de ouvir de pessoas dos mais variados níveis sociais, culturais e políticos que apenas o PT teria condições morais de agir contra a corrupção. A imagem estava criada. A eleição seria questão de tempo.

No entanto, após assumir a presidência da República o partido dos trabalhadores vem se comportando em contradição com seus vinte anos de “rígida defesa” da ética na política. Assim, de relance: o caso Waldomiro; os rebeldes do PT (Heloísa Helena, Babá, etc.); Máfia do Sangue; as irregularidades no Bolsa-Família; o caso IRB, o caso Correios. E agora o mensalão, suborno supostamente pago pelo tesoureiro do PT, o sr. Delúbio Soares, à parlamentares da base governista para votar em consonância com o Planalto.

São alguns exemplos é fato. Mas são exemplos que, enquanto oposição, ou seja, como partido legislativo, levariam o PT à pesada artilharia, a vociferação por investigação sob a bandeira da moralidade e da ética.

E o que se vê agora é uma postura cínica e absolutamente indecente de buscar abafar todas as denúncias que tem poder de, eventualmente, atingir a imagem do governo petista. Os mesmos “Josés” e “Aloízios” que bradavam e rugiam pela moralidade na máquina administrativa, agora assumem uma postura cínica, ridícula e podre. Usam das mesmas iniciativas de seus antigos alvos para buscar justificar o injustificável.

A que ponto desce a dignidade de um homem!

É patético assistir deputados, senadores e políticos petistas buscando encontrar explicações para as denúncias de eventuais ações de corrupção no governo Luis Inácio. Dizem que a CPI dos Correios não deve ser instaurada sob o pretexto de se criar um palanque eleitoral para a oposição com vistas à eleição de 2006. E daí? Se a CPI eventualmente se transformar em palanque político, mas crimes (e é o que importa) não forem constatados, ou ao menos a eventual culpabilidade do governo Luis Inácio nas atuais denúncias, quem ganha é a nação. E lançar sobre a Polícia Federal, como vem fazendo o PT, toda a responsabilidade em apurar as eventuais irregularidades em baila é excessivamente reducionista. Por mais respeito e confiança que se possa ofertar à polícia federal nas investigações sobre corrupção, o fato é que este aparelho policial encontra-se subordinado ao Planalto, através de disposição legal que subordina o Departamento da Polícia Federal ao Ministério da Justiça. Esse fato pode suscitar legítimas questões a respeito da necessária isenção da PF para investigar os próprios chefes.

O Congresso Nacional não. Sob a ótica de Montesquieu, o Congresso Nacional é um “poder independente” o suficiente para buscar uma investigação verdadeiramente autônoma. Agora, se há uma frenética preocupação do PT em barrar as investigações por parte do Parlamento brasileiro...

O Brasil vive uma crise política sem precedentes por estar no centro das denúncias o antigo “guardião” da moralidade política. As sucessivas denúncias de corrupção que se relatam no atual governo são muito pesadas e sujas. Nem o caso Waldomiro se aproxima em podridão das denúncias do sr. Roberto Jefferson sobre o mensalão. Se existem mentiras, que sejam investigadas. Se existem verdades, que os culpados sejam punidos. O que não é mais possível são denúncias e denúncias e nenhum eventual culpado preso. O que não é mais possível é que a corrupção no Brasil continue a consumir 20 bilhões de reais por ano. O que não é mais possível é assistir o PT continuar com a pose de moralista, afirmando que nada há de errado no Brasil, senão a intenção da oposição ao governo Luis Inácio em fazer carnaval e palanque eleitoral.

Que o cenário político-partidário nacional é de desprezível orgulho à nação brasileira, resta pouca dúvida. E essa afirmação, é claro, não busca justificar os erros dos demais partidos políticos, mas sim ressaltar a hipocrisia sob a qual o PT se fez. Em dois anos e meio de governança petista nenhuma apuração no Congresso Nacional foi instalada. Nenhuma. Em governos passados, e liderados pelo PT, CPIs foram criadas, políticos cassados, denúncias apuradas e até um presidente foi afastado do cargo. Assim é de se ressaltar o quanto o povo brasileiro foi enganado. Ressaltar o fenômeno sociológico de como uma mentira exaustivamente repetida pode se transformar em verdade.

Enfim, e contrariando as “orientações” da cartilha da Secretaria Especial de Direitos Humanos, encabeçada pelo sr. Nilmário Miranda, do “politicamente correto”, o PT e os demais partidos políticos são tudo farinha do mesmo saco. E se o saco é o mesmo, a diferença é que o PT é uma farinha de péssima qualidade, tendo crescido no cenário político assentado sobre uma mentira sem precedentes na história da república brasileira, se constituindo, enquanto governo, no governo que mais se envolveu em denúncias de corrupção.

Que Deus, e apenas Ele, tenha piedade dos petistas, porque eu não tenho. Tenho apenas repulsa.

Última modificação em Segunda, 09 Setembro 2013 20:07
Alexandre Seixas

O Prof. Alexandre M. Seixas é formado em Direito pela PUC de Campinas, tendo realizado o curso de Aperfeiçoamento em Ciências Sociais, e Mestrado em Ciência Política na Unicamp. Realizou ainda os cursos de inglês, na Surrey Heath Adult Education Center, em Camberley, Inglaterra. É professor universitário com vinculação em Teoria Geral do Estado e Ciência Política.

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