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05 Jun 2005

A Verdadeira Face do Preconceito

Escrito por 

Como um caso isolado como o de Ronaldo, ou mesmo alguns outros análogos, pode prover sustentação lógica à ilação de que a “democracia racial” não passa de um “mito”?

Coitado do craque Ronaldo, o fenômeno. Numa entrevista cheia de cascas de banana, caiu na esparrela de se declarar branco. Não demorou e logo apareceram os intransigentes porta-vozes da futura Controladoria Racial para duramente julgá-lo. A interina de Miriam Leitão, seguindo o modelo de análise da titular, voou na jugular do ingênuo “Cascão, pentacampeão”. Foi desnecessariamente incisiva e manifestamente injusta com Ronaldo. Na coluna Panorama Econômico de O Globo criticou-o como se tivesse cometido um crime de traição à sua raça. Se num país como o Brasil, miscigenado até a alma, o que vale é a autodeclaração, que sentido faz criticar alguém, mesmo que preto retinto, por se enxergar como branco? Mesmo reconhecendo o direito de alguém se ver com a cor que lhe apraz, a colunista emite opinião descabida de que “a escolha de Ronaldo desmascara o mito da democracia racial brasileira”. Quanto malabarismo se faz como a palavra democracia. Não cabe, a rigor, sequer falar em “democracia racial”. ‘Democracia’ é um termo que se aplica a formas de governo e não aos modos com que as raças, se é que existem, interagem e se integram. O que está em questão é saber se as leis se aplicam igualmente a todos os membros de uma sociedade independentemente da cor da pele e do status de cada um. O sociologismo primário é tão forte no jornalismo brasileiro que a maioria não tem pejo em extrair conclusões, a partir de determinadas informações, totalmente destituídas de embasamento metodológico.

Como um caso isolado como o de Ronaldo, ou mesmo alguns outros análogos, pode prover sustentação lógica à ilação de que a “democracia racial” não passa de um “mito”? O fato de Pelé e inúmeros outros craques negros só terem desposado louras significa que têm preconceito, que não se identificam com a própria raça? Tal tipo de preferência é evidência suficiente para decretar que negro não gosta de negra? A pressa inferencial e o esquematismo ideológico impedem que se distinga o plano psicológico do social e estes do “racial”. Se Ronaldo prefere se ver como branco por que é isso sintoma de que acredita, como sustenta um antropólogo na Coluna, na superioridade branca? O sambista Nei Lopes também dá também seu palpite infeliz atribuindo ao dinheiro o embraquecimento do craque. A situação chegou a tal ponto que em nome do combate ao preconceito as pessoas exibem as formas mais escancaradas de difamação. Existe expressão maior de preconceito que uma opinião dessas? Acusar alguém de ser mercenário, de ter posto de lado matriz racial porque ficou rico, é mais que uma forma gritante e agressiva de preconceito. É atingir a honra de uma pessoa. Os que não enxergam isso é porque estão adotando o racismo às avessas. A verdade é que se pode, desde que a cor da pele não esteja envolvida, detratar à vontade. É provável que no futuro se venha a criar um Órgão de Repressão Racial que se arvore a impedir que o dinheiro tenha o poder de transformar alguém de pardo ou preto em branco. A autodeclaração não vale nada quando entra em choque com o que essas brigadas antipreconceito, preconceituosas até a medula, definem como o certo. O jornalista Ali Kamel escreveu brilhantes artigos sobre o tema do racismo em O Globo. Lamentavelmente, seus argumentos não têm sido levados em conta pela titular e pela interina da coluna Panorama Econômico.

Se as trupes antipreconceito quisessem primar pela coerência, rapidamente chegariam à conclusão de que todas as formas de xingamento, todas as avaliações negativas como as do tipo que foram feitas sobre o que disse Ronaldo, absolutamente todas, são preconceituosas. Assim sendo, tendo um cidadão o direito de se autodeclarar branco, preto ou pardo, que autoridade tem alguém - jornalista, cientista ou sambista - para ofendê-lo atribuindo sua escolha ao dinheiro? É muita cara-de-pau. Em nome do combate ao preconceito racial se acham colunistas no direito de veicular avaliações altamente ofensivas contra o craque Ronaldo. Espero que Ronaldo saia da defesa e, num contra-ataque fulminante, vença a cidadela do preconceito repelindo com firmeza as insinuações gratuitamente feitas contra ele por gente que se diz preocupada com a “democracia racial” mas que não respeita minimamente o direito de cada um ser o que quer. A cor é uma escolha e ninguém há de ser patrulhado por se declarar preto, branco, pardo, amarelo ou... A mente quando funciona tem todas as cores do arco-íris, quando estagna fica com a tonalidade plúmbea do preconceito...

Última modificação em Segunda, 09 Setembro 2013 20:07
Alberto Oliva

Filósofo, escritor e professor da UFRJ. Mestre em Comunicação e Doutor em Filosofia pela UFRJ. Professor-palestrante da EGN (Escola de Guerra Naval) e da ECEME (Escola de Comando e Estado-maior). Pesquisador 1-A do CNPq. É articulista do Jornal de Tarde desde 1993. Possui sigficativas publicações como "Liberdade e Conhecimento", "Ciência e Sociedade. Do Consenso à Revolução", "A Solidão da Cidadania", "Entre o Dogmatismo Arrogante e o Desespero Cético" e "Ciência e Ideologia".

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