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12 Mai 2004

Eu ou O Outro?

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De acordo com J. Dewey, uma teoria ética do suposto “tipo altruísta” costuma eleger o benefício feito ao outro como a forma de conduta mais elevada.

De acordo com uma classificação bastante comum, as teorias éticas costumam ser divididas em altruístas e egoístas. Considera-se por exemplo que as teorias de T. Hobbes (1968) e de A. Rand (1984) são do tipo egoísta, ao passo que as de A. Smith (1958) e I. Kant (1952) são do tipo altruísta. Mas, antes de decidir se essa classificação tem alguma razão de ser, é oportuno responder a duas perguntas: (1) Como se caracterizam ações humanas egoístas e altruístas? (2) Qual o critério para se passar do domínio do que é ao que deve ser, mostrando que uma ética altruística é preferível a uma egoística ou o contrário?

John Dewey sustenta que a oposição altruísmo / egoísmo constitui uma falsa dicotomia na caracterização da ação humana. Assim sendo, essa falsa dicotomia tem de se estender às valorações positiva ou negativa da moralidade de uma ação e,  em um domínio mais amplo, às classificações das teorias éticas. Se ele tem razão no que diz respeito à caracterização da ação humana, dificilmente deixará de tê-la no que diz respeito às referidas valoração e classificação. Mas quais suas alegações para considerar que esses dois opostos – por suposição mutuamente exclusivos e exaustivos - constituem na realidade uma falsa dicotomia?

Dewey começa considerando que, quando são tematizadas as noções de egoísmo e altruísmo, geralmente o que está em jogo é uma tentativa de responder uma questão básica: “Os indivíduos humanos sempre agem em função dos seus interesses ou às vezes agem para ajudar ou beneficiar de algum modo os outros?” Indagando de outra maneira: as ações dos indivíduos estão sempre em função do auto-interesse ou há lugar para ações desinteressadas? (Dewey, 1997, p. 231).

Do modo como estão colocadas ambas as indagações, elas não estão situadas no domínio do que deve ser, mas sim no do que é. Desse modo, não seria contraditório se a dissesse que as ações humanas estão sempre em função dos interesses dos agentes, mas não é assim que devem ser. Tampouco seria contraditório se b dissesse que algumas ações humanas são desinteressadas, mas não é assim que devem ser. Disto se conclui que, de um ponto de vista estritamente ético, o que realmente importa não é a caracterização das ações humanas como altruístas ou egoístas, porém qual o modo recomendado como conduta correta e como pode ele ser justificado. [É sempre oportuno lembrar que a teoria da ação humana lida com questões de facto, ao passo que a ética lida com questões de jure, pois não procura dar uma resposta para: “Como agimos?”, mas sim para: “Como devemos agir?”].

De acordo com J. Dewey, uma teoria ética do suposto “tipo altruísta” costuma eleger o benefício feito ao outro como a forma de conduta mais elevada. Se isto não exige uma renúncia radical ao auto-interesse, exige ao menos que ele seja posto de lado ou não levado em consideração em determinadas ações. Por sua vez, uma teoria ética do suposto “tipo egoísta” costuma eleger a busca da auto-realização como a conduta mais elevada. Ela costuma rejeitar a ação desinteressada ou ao menos subordiná-la ao auto-interesse do agente. Para esse tipo de ética,  a finalidade última do agente deve ser sua realização pessoal. Ocorre que, em deter-minadas circunstâncias, a melhor maneira de efetuá-la consiste em dar atenção às necessidades e aos interesses alheios. (Dewey, 1997, p.231).
[obs. nossa: Um exemplo característico do nosso tempo: gerentes de uma grande empresa, fazendo o cálculo da relação custo-benefício, chegam à conclusão de que sai mais barato pagar um plano de saúde para seus funcionários do que arcar com os prejuízos produzidos por muitas faltas e maus desempenhos decorrentes de enfermidades do seu pesso-al].

Dewey entende que todas as ações humanas são e devem ser movidas pelo auto-interesse. O altruísmo é na realidade um “egoísmo disfarçado”(disguised selfishness). Embo-ra ele não tenha esclarecido o sentido desta última expressão, temos razões para acreditar que ele tinha em mente todas aquelas ações cuja finalidade aparente é um benefício prestado ao outro, mas tal fim é apenas um meio para a autopromoção, para o apaziguamento de um sentimento de culpa ou mesmo para alcançar um interesse próprio qualquer.

Dewey concede que, na busca da sua auto-realização, um indivíduo vê-se forçado a desempenhar algumas ações consideradas não-egoístas (unselfish), mas tão-somente como meios indispensáveis para a consecução  dos seus fins. Embora a busca da auto-realização faça com que o indivíduo aja movido pelo auto-interesse, a teoria da auto-realização deve ir até de-terminado ponto, além do qual deve ser complementada por uma teoria da ação desinteressada voltada para o benefício do outro. (Dewey, 1997, p. 232).

De acordo com Dewey, quando Kant tentou fornecer uma visão substantiva da moralidade, produziu um problemático dualismo, pois afirmou que um indivíduo deve agir visando a uma coisa para si e a outra para os outros. Ele deve buscar seu auto-aperfeiçoamento e a felicidade dos outros. Ele pode, mas não deve, agir visando à sua felicidade; ele não deve nem pode agir visando à perfeição dos outros. Vale dizer que, para Kant, cada indivíduo tem de moralizar a si mesmo, pois se trata de uma questão de sua própria motivação interna.

Para Dewey, o referido dualismo kantiano produz uma estranha e complicada situação (a strange plight): um indivíduo deve buscar para os outros um bem que, caso buscasse para si mesmo, tornar-se-ia um mal. Buscar para si mesmo a felicidade é visto por Kant como um empreendimento egoísta e moralmente condenável, porém buscá-la para os outros, altruísta e louvável. Devemos convir que, ao menos à primeira vista, trata-se de uma concepção extrema-mente incongruente. Além disso, Dewey afirma que Kant não esclareceu satisfatoriamente a razão pela qual a busca da própria felicidade  é considerada um mal e a dos outros, um bem. (Dewey, 1997, p.232).

E é oportuno lembrar que tanto Aristóteles (1956) como Thomas Jefferson (1952), entre outros, consideravam a busca da própria felicidade um caminho na direção do maior de todos os bens – o summum bonum – a finalidade última da nossa exis-tência no mundo
Indo mais longe, Dewey afirma que essa é a base de qualquer teoria ética, que tenta estabelecer dois critérios distintos para a ação moral, um tipo de teoria que assume a ação moral como uma combinação de amor próprio racional (rational self-love) e de benevolência racional (rational benevolence), de tal modo que o indivíduo realmente virtuoso combina um interesse racional por seu próprio bem-estar (welfare) com um interesse racional pelo bem-estar do outro. Para Dewey, a grande dificuldade envolvida com essa concepção consiste em encontrar um Princípio Unificador capaz de determinar em que ponto deve terminar o interesse por si mesmo e deve começar o interesse pelos outros. (Dewey, 1997, p.232). De fato, isto está longe de ser uma tarefa fácil.

Última modificação em Quarta, 30 Outubro 2013 20:30
Mario Guerreiro

Mario Antonio de Lacerda Guerreiro nasceu no Rio de Janeiro em 1944. Doutorou-se em Filosofia pela UFRJ em 1983. É Professor Adjunto IV do Depto. de Filosofia da UFRJ. Ex-Pesquisador do CNPq. Ex-Membro do ILTC [Instituto de Lógica, Filosofia e Teoria da Ciência], da SBEC [Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos].Membro Fundador da Sociedade Brasileira de Análise Filosófica. Membro Fundador da Sociedade de Economia Personalista. Membro do Instituto Liberal do Rio de Janeiro e da Sociedade de Estudos Filosóficos e Interdisciplinares da Universidade. Autor de Problemas de Filosofia da Linguagem (EDUFF, Niterói, 1985); O Dizível e O Indizível (Papirus, Campinas, 1989); Ética Mínima Para Homens Práticos (Instituto Liberal, Rio de Janeiro, 1995). O Problema da Ficção na Filosofia Analítica (Editora UEL, Londrina, 1999). Ceticismo ou Senso Comum? (EDIPUCRS, Porto Alegre, 1999). Deus Existe? Uma Investigação Filosófica. (Editora UEL, Londrina, 2000). Liberdade ou Igualdade (Porto Alegre, EDIOUCRS, 2002).

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