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01 Jun 2005

O Nada Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley - Parte II

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A esperança é sempre a última que morre, mesmo sendo a primeira a desistir quando vitoriosa, pois, há mais coisas entre os céus plúmbeos e as terras estéreis que o vão esquerdismo petista moralista.

“Os seres humanos são em boa parte menos racionais e inatamente justos do que os otimistas do século XVIII supunham. Por outro lado, nem são tão moralmente cegos nem tão irrefragávelmente desrazoáveis como os pessimistas do século XX queriam fazer acreditar” (O REGRESSO AO ADMIRÁVEL MUNDO NOVO, p. 71 – 72). Eis aí um dos grandes equívoco de nossa sociedade que se julga tão firmemente alicerçada em princípios democráticos.

Os intelectuais do século XVIII como Voltaire, Thomas Jefferson, Montesquieu e tutti quanti, acreditavam que para que houvesse uma sociedade democrática de fato, bastaria que, em princípio, as pessoas fossem minimamente ilustradas e que, todos fossem submissos a autoridade impessoal da Lei. Dentro destes parâmetros os indivíduos seriam capazes de escolherem seus representantes de maneira minimamente racional.

Tal visão parece um tanto que utópica, mas, é impossível que uma nação se faça livre sem deixar de ser ignorante. Alias, como seria possível ordenar uma sociedade que tem o seu porvir norteado pelos devaneios de uma turba ignara? Como poderá existir uma sociedade com conhecimento pleno de seu papel cívico (cidadão seria a palavra da moda) se essa desconheça o funcionamento dos poderes instituídos da mesma? Crer que seja possível a edificação de instituições deste gênero em uma sociedade neste estado, isto sim, é que é devaneio. Mas, como dizia o poeta: os loucos terão todos os seus excessos perdoados no juízo final.

O que realmente se apresenta de maneira demoníaca é quando se defende uma superorganização da sociedade a partir do Estado ou através de corporações metacapitalistas, como sendo o supra-sumo a ser atingido por uma sociedade que se julga democrática. Tal processo é deveras presente entre nós. Basta visualizar a extrema burocratização que se faz nesta terra brasilis. As vezes falo brincando com meus amigos que, aqui no Brasil, apenas não é regulamentado e tributado os atos de respirar ar fresco e de soltar flatulências, porque o resto...

Mas, o que leva a essa inversão brutal de valores como essa que vemos? Segundo Huxley seria: “A propaganda a favor da ação ditada por impulsos que estão abaixo do verdadeiro interesse que, oferece provas falsas, falsificadas ou incompletas, evita os argumentos lógicos e procura influenciar as suas vítimas pela mera repetição de frases feitas, pela denúncia furiosa de bodes expiatórios, estrangeiros ou domésticos, e pela repetição hábil das mais baixas paixões com os mais elevados ideais, de modo tal que são perpetradas atrocidades em nome de Deus e a mais cínica espécie de realpolitik chega a transformar-se em algo como um princípio religioso ou um dever patriótico” (Idem, p. 76).

Em nossa pátria, por exemplo, tornou-se praticamente um dever patriótico ser anti-estadunidense, pelo simples fato de eles serem estadunidenses. Quanto aos argumentos de nossos governantes, estes, beiram muitas vezes a baixeza de bate boca de lavadeiras. Exemplo cabal deste estado pútrido de espírito são as macaquices encenadas para se evitar uma CPI dos correios ou mesmo, as inúmeras manobras para se desviar a imagem do partido governista em sua ligação com Waldomiro Diniz (praticamente esquecido da Silva) em um esquema de caixa dois eleitoreiro. Mas, ainda, o pior de tudo, são os “argumentos” para se justificar o agigantamento do Estadossauro e sua intromissão em todas as searas da vida humana.

Tal mal se constata pelo fato de que, praticamente, “[...] todas as comunidades civilizadas do mundo moderno são constituídas de uma pequena classe de governantes, corrompidas pelo exercício do poder, e de uma grande classe de governados, também corrompidos, pelo excesso de obediência passiva e irresponsável” (O DESPERTAR DO MUNDO NOVO, p. 61).

Trocando em miúdos: corrompemo-nos uns aos outros através de nossas mais vis fraquezas e depois, para tranqüilidade geral da nação, apontamos apenas para o centro do palco da cena política e acusamo-los, os eleitos, como as únicas maças podres do balaio. Mas se é assim, porque nos esquecemos tão facilmente dos mandos e desmandos da corja que nos espolia? Simplesmente porque por termos decorado o refrão da “canção” da Luka: “tó nem aí, tó nem aí... pode super tributar, superfaturar, fazer a nação falir e culpar os outros que eu não tó nem aí...”.

Por fim, para tentar solucionar esse problema que tanto persiste em ser reeditado, seria necessário que investirmos maciçamente em educação. Porém, quem educará os nossos educadores? A resposta para essa questão é dolorosamente simples: os próprios educadores, pois, como nos dizia Aldous, na obra citada a pouco, que: “O mundo do ser humano é composto de uma série infindável de círculos viciosos dos quais só é possível escapar por um ato, ou melhor, por uma sucessão de atos de vontade inteligentemente dirigida” (Idem, p. 201). Por isso, não seria o mais recomendado que nos tornássemos todos educadores de nós mesmos?

Porém, como tornar isso possível em nosso país? Como efetivar algo dessa monta em uma terra onde o exercício da criticidade se resume em saber na ponta da língua cacoetes como destra, sinistra, imperialismo, etc., para assim se declarar devoto do dito “pensamento crítico”? Talvez, símbolo cabal disso é o estado catatônico em que se encontram muitos fieis do petismo que não sabem o que fazer diante de seus “santos” salvadores da pátria a revelarem as suas faces nefandas, tendo sua fina casca de verniz sendo dissolvida pelo solvente do exercício do poder. Para esses, não há “criticidade” que sobreviva.

Mas não desesperemos! A esperança é sempre a última que morre, mesmo sendo a primeira a desistir quando vitoriosa, pois, há mais coisas entre os céus plúmbeos e as terras estéreis que o vão esquerdismo petista moralista.

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Leia: O NADA ADMIRÁVEL MUNDO NOVO DE ALDOUS HUXLEY – parte I

Última modificação em Segunda, 09 Setembro 2013 20:09
Dartagnan Zanela

Professor e ensaísta. Autor dos livros Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos – ensaios sociológicos.

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