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12 Mai 2004

O Que o Brasil Vai Ser Quando Crescer?

Escrito por 

Assim como as pessoas, as sociedades também têm dificuldade para formar uma personalidade madura. É sempre difícil optar por um caminho – apostar em suas potencialidades - e nele perseverar.

Assim como as pessoas, as sociedades também têm dificuldade para formar uma personalidade madura. É sempre difícil optar por um caminho – apostar em suas potencialidades - e nele perseverar. O mais comum são as crises de identidade que levam a freqüentes redefinições dos projetos de vida. Tudo fica ainda mais dramático quando, feitas as escolhas tidas como acertadas, os resultados visados insistem em ficar aquém do esperado. A muitas pessoas e sociedades faltam as convicções arraigadas que impelem, sobretudo em conjunturas adversas, à perseguição de objetivos permanentes. Se o sucesso demanda muitas condições favoráveis, o fracasso não precisa de muito adubo para germinar.Daí as tantas paisagens de insucesso material e decadência espiritual que o mundo exibe.

No Brasil se fala tanto em mudar tanta coisa que em vez de se ter dinamismo se tem instabilidade. A retórica mudancista convive com a paralisia. Os governos que prometem grandes e espetaculares mudanças são justamente os que exibem inépcia gerencial. Tentam compensar o passivismo administrativo com ativismo verborrágico. A verdade é que, tirante os esporádicos episódios revolucionários, os avanços ocorrem por meio de reformas gradualistas bem concebidas e bem implementadas. Por isso a ênfase nas transformações revolucionárias pode ser sintoma da incapacidade de promover as mudanças setoriais urgentes. O desafio de um bom governo não é, de modo megalomaníaco, tentar mudar “tudo isso que esta aí” e sim superar falhas organizacionais e disfunções sistêmicas. Mesmo porque é fácil apregoar a excelência de modelos que não se submetem ao teste da realidade.

A intelligentzia, os candidatos a cargos públicos e até as autoridades discursam como se fossem semideuses com poder, desde que lhes seja concedido o Poder, para pôr fim às mazelas do País. Nada mais irrealista e contraproducente que acreditar que é preciso partir do zero, de uma nova ordem, para chegar a resultados alvissareiros. Se por um lado o discurso rupturista capta um sentimento difuso de insatisfação na sociedade, por outro, provoca instabilidade e piora o que já não é bom.
A verdade é que o brasileiro médio apresenta a ambigüidade de ser conformista no plano individual e iconoclasta no plano social. É disso que se aproveita o mudancismo matreiro que promete mundos e fundos. Só que quando se depara com o tamanho dos problemas, o transformismo arrogante mostra tendência à inação. Exemplo disso é o gerenciamento dos “programas sociais” no atual governo. A história do Brasil é uma sucessão de grandes chances perdidas. O blablablá ocupa o lugar das sofridas decisões. As autoridades preferem enganar e a opinião pública gosta de ser iludida. Assim como as pessoas, nações experimentam dificuldades para amadurecer, para assumir um projeto de vida e a ele se dedicar com afinco. Muitas dão a impressão de que apenas os dramas e as tragédias coletivas as farão dar saltos qualitativos e quantitativos.

Sinal disso é que passam boa parte de sua história procurando construir uma identidade para si, para suas instituições. Estão sempre em dúvida a respeito do que devem ser – mais ou menos capitalistas, mais ou menos fechadas, mais ou menos laxistas - e do que deve ser priorizado. Não se decidem: sonham com uma economia pujante desincentivando a produção. Classificam o problema do desemprego como o mais preocupante, mas pouca indignação mostram contra os fatores que conspiram contra os investimentos. Admiram a opulência da economia de mercado (alheia) sem dar a devida atenção à necessidade de preparar os cidadãos para que possam competir, com base em regras civilizadas, pelo escasso. Mostram-se ambíguos quanto ao papel do Estado: não definem claramente se o querem como agente econômico ou como instância arbitral e reguladora do jogo social. E como lhes falta determinação para combater com denodo os desequilíbrios estruturais que travam o desenvolvimento sentem-se sempre tentadas a apoiar aventuras populistas. Não têm, ademais, convicção inabalável no papel da propriedade privada para a prosperidade a ponto de relativizarem seu respeito.

Quase dois séculos depois de sua independência, o Brasil ainda não fez opções que possam ser consideradas definitivas. Titubeia ainda quanto a ser uma genuína economia de mercado e ter um governo limitado e desconcentrado. Suas elites intelectuais permanecem socialistas e muitas de suas lideranças políticas acalentam enfeixar muito poder à testa de um Estado intervencionista. Esse tipo de indefinição bloqueia o progresso. Os Estados Unidos não se tornaram poderosos por explorarem outros países, e sim por terem se organizado em torno de dois consensos fundamentais: no campo político, o Estado de Direito, e no econômico, a free market economy. Leva a uma síntese torta flertar com idéias socialistas e praticar o capitalismo pela metade, desrespeitando algumas regras fundamentais do mercado. No plano das idéias se sonha com modelos de sociedade que historicamente produziram resultados ruins, e no mundo real se tem um capitalismo com material genético do mercantilismo.

O século XX mostrou, por mais que se esperneie contra as evidências, que a prosperidade é fruto da liberdade econômica preferencialmente associada à democracia (entendida como governo desconcentrado e controlado pela opinião pública). Sem uma vigorosa economia de mercado não há como haver desenvolvimento. Uma sociedade como a brasileira que a cada eleição discute o modelo econômico está, sem o saber, mergulhada numa crise de identidade. Não faz sentido, nem mesmo num presidencialismo imperial, alguém se arvorar a manobrar as forças sociais para redefinir o curso da história. Megalomanias políticas são particularmente perigosas quando se manifestam em sociedades que, não tendo ainda firmeza a respeito do que querem ser, podem ser arrastadas para situações de crise e desgoverno.

Última modificação em Quarta, 30 Outubro 2013 21:30
Alberto Oliva

Filósofo, escritor e professor da UFRJ. Mestre em Comunicação e Doutor em Filosofia pela UFRJ. Professor-palestrante da EGN (Escola de Guerra Naval) e da ECEME (Escola de Comando e Estado-maior). Pesquisador 1-A do CNPq. É articulista do Jornal de Tarde desde 1993. Possui sigficativas publicações como "Liberdade e Conhecimento", "Ciência e Sociedade. Do Consenso à Revolução", "A Solidão da Cidadania", "Entre o Dogmatismo Arrogante e o Desespero Cético" e "Ciência e Ideologia".

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