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31 Mai 2005

O Nada Admirável Mundo de Aldous Huxley - Parte I

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Esse pesadelo de extrema organização teria a sua figura central no Estado, mais frio dos monstros frios, como diria Nietzsche. Esse passaria a controlar todas as dimensões da existência humana, fazendo uso dos mais requintados métodos para tanto.

“Num país superpovoado e superpopuloso, onde quatro quintos da população recebe menos de duas mil calorias por dia e um quinto goza de uma dieta adequada, podem as instituições democráticas nascer espontaneamente? Ou se fossem impostas de fora, ou de cima, poderiam sobreviver?” Essa indagação realizada por Huxley no fim da década de 50 encontra-se em seu livro O REGRESSO AO ADMIRÁVEL MUNDO NOVO, onde o mesmo manifestava a sua preocupação que tal situação poderia vir a desenvolver.

Além de uma morte desumana, lenta e gradual por inanição, esse estado de coisas poderia acabar gerando um outro mal que se apresentaria na forma de cura, que seria a “organização plena” da sociedade, uma super-organização da vida em sociedade, como ele havia profetizado em seu clássico O ADMIRÁVEL MUNDO NOVO. Na verdade um pesadelo de excessiva organização que, segundo a sua obra, ocorreria, segundo sua expectativa, no século VII d. F (depois de Ford).

Esse pesadelo de extrema organização teria a sua figura central no Estado, mais frio dos monstros frios, como diria Nietzsche. Esse passaria a controlar todas as dimensões da existência humana, fazendo uso dos mais requintados métodos para tanto. Neste mundo descrito pelo mesmo, poderíamos dizer adeus para liberdade, a característica basilar que nos faz sermos o que somos: humanos.

Segundo as suas palavras: “No mundo imaginário de minha fábula, o castigo não é freqüente e é, de um modo geral, suave. O controle quase perfeito exercido pelo governo é realizado pelo reforço sistemático de comportamento desejável, por numerosas espécies de manipulação quase não-violenta, tanto física como psicológica, e pela estandartização da genética. [...] A estandartização da genética com fins práticos pode ser posta de lado. Continuará a haver nas sociedades o controle post-natal pela repressão, como no passado, e, numa extensão cada vez maior, pelos métodos mais eficazes da recompensa e da manipulação científica”.

Uma questão que muitas vezes não é levada em consideração em nossos dias é justamente o ponto que tange sobre a influência dos avanços científicos, sejam eles nas ciências biomédicas, sociais ou exatas, tem sobre a forma de organização da sociedade e, principalmente, de que maneira que o Estado faz e fará uso desses novos conhecimentos para assim melhor efetivar os seus fins totalizantes.

A muitas centúrias passadas a fé religiosa era manipulada por obscuras almas para assim melhor realizar o domínio da sociedade. Hoje, temos os bem vindos avanços das ciências que, por sua deixa, também foram usados para tal fim e que, provavelmente, não deixarão de ser.

Exemplo cabal de tal prática seriam os Estados comunistas que existiram e outros tantos que continuam a existir, onde não apenas os meios de produção pertencem ao Estado, mas todas as pessoas que vivem dentro das fronteiras nacionais socializando de maneira relativamente eqüitativa a miséria para toda a população, onde burocratas jurássicos fazem o papel de senhores da verdade possível e do destino de todos.

Huxley, sobre esse ponto nos dizia que: “A superpopulação conduz à insegurança econômica e à intranqüilidade social. Intranqüilidade e insegurança conduzem ao maior controle por parte dos governos centrais e a um aumento do poder deles. Na ausência de uma tradição constitucional, este poder reforçado será provavelmente exercido de forma ditatorial. Ainda que o comunismo não tivesse sido inventado, isto aconteceria plausivelmente. Dado a esse fato, a probabilidade da superpopulação conduzir, através da intranqüilidade, à ditadura, tornou-se uma certeza virtual. Pode apostar-se, sem receio, que, daqui a vinte, todos os países subdesenvolvidos e superpovoados do mundo estarão sob uma forma de domínio totalitário - provavelmente exercido por um Partido Comunista”.

Bem, esse livro, O REGRESSO AO ADMIRÁVEL MUNDO NOVO, foi escrito 27 anos de depois da publicação do ADMIRÁVEL MUNDO NOVO, ou seja, em 1958. Vinte anos depois dessa data, realmente, os países subdesenvolvidos que não se tornaram ditaduras comunistas, tornaram-se ditadores militares.

Quanto aos dias atuais, temos ainda muitos países comunistas pelo mundo à fora que, por sua deixa, tem grande prestigio em países ditos “emergentes” como o nosso, que não faz muito, saiu de uma ditadura verde-oliva e que, tem atualmente no poder, um grupo político esquerdista que até aqui, tentou implementar inúmeras medidas de controle da sociedade que, graças ao Bom Javé, foram frustradas, com exceção do Estatuto do Desarmamento da população civil. Mas cá estamos, de frente para uma possível reedição do um admirável mundo novo numa versão tropicália.

Bobagem? Então dê tempo ao tempo. Huxley havia dado sete séculos de prazo e, quando se deu conta, estava de cara com as suas ditas e escarradas profecias que, entre nós, se fazem mais vivas do que nunca e muito bem acobertadas, pelo aveludado manto da indiferença demasiadamente humana.

Última modificação em Segunda, 09 Setembro 2013 20:09
Dartagnan Zanela

Professor e ensaísta. Autor dos livros Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos – ensaios sociológicos.

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