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29 Mai 2005

Nossa Mínima Culpa

Escrito por 

Um país assim só pode ser objeto da mais cobiçosa exploração... Se no que nos concerne como nação, sempre fizemos nossa parte, a máxima culpa dos males brasileiros só pode ser dos outros, não é mesmo?

Depois do futebol, o segundo maior esporte nacional é colocar a culpa nos outros. Portugueses, ingleses, norte-americanos, multinacionais, cada um ao seu tempo, quando não todos ao mesmo tempo, cumprem o papel de bola da vez nesse já histórico joguinho. Seu objetivo consiste em transferir para fora a causa de nossos males, como se fosse da água do mar e não dos furos no casco a responsabilidade pelo afundamento do navio.

Nestes últimos tempos, em que se torna hegemônica a xenofobia esquerdista, ampliam-se enormemente as possibilidades do jogo. FMI, Clube de Paris, G7, G8, Fórum de Davos, Consenso de Washington, Alca, neoliberalismo e globalização são alguns dos novos adversários sobre os quais recaem as causas das dificuldades nacionais. Indo um pouco mais longe, não falta quem as atribua ao idioma inglês e a qualquer um que o balbucie. Mais um passo e haverão de surgir agressões determinadas por sinistras conspirações zodiacais. Tudo serve, desde que não se torne necessário um mea culpa.

Para evitá-lo, decidimos que o Brasil é um país rico, embora o PIB per capita nos situe um pouco acima da linha do miserê. Em inusitada e superfaturada declaração de rendimentos, nos proclamamos ricos. E estamos tão convictos disso que não hesitamos em crer quando nos dizem que norte-americanos, canadenses, europeus e japoneses estariam passando necessidade sem a sistemática exploração do Brasil.

Fica uma dúvida: como construímos essa fortuna que nos drenam? Ora, ora, caro leitor. Como não ser rico um país como o nosso, que transitou pelo século XX e chega ao século XXI gastando com prudência e conduzido por longa série histórica de bons governos? Afinal, fomos ou não dirigidos por admiráveis estadistas, homens sábios, austeros e dedicados exclusivamente ao interesse público, que fugiram do endividamento e combateram ferozmente toda corrupção? Não estamos aí, sob um governo petista, atualizados com o que há de mais moderno em pensamento político..., enfrentando duramente os ladrões que nos assolam?

Pode haver modelo mais bem sucedido do que esse que insistentemente preservamos em todas as constituições republicanas e referendamos em dois plebiscitos? Só alguém muito tolo (como eu mesmo) não notou ainda aquilo que todo cidadão esclarecido percebe: a concepção engenhosa e moderna do nosso sistema, que afasta os demagogos e atrai para a vida pública os maiores talentos que a nação produz. Não é certo que ele gera estabilidade política e instituições sólidas? Não produz ele partidos e programas que se sobrepõem aos grupos de interesse? Não é como conseqüência dele que o eleitor brasileiro, lúcido e participativo, comparece periodicamente às seções de votação movido pelos mais nobres ideais, estimulado à fascinante tarefa de escolher os melhores dentre os muito bons?

Por outro lado, dado que a riqueza de uma nação também se apóia em certos requisitos sociais, nosso povo é orientado a apreciar valores morais elevados. A boa arte, a cultura, a educação, o civismo e a ordem pública têm entre nós a devida reverência, não é mesmo? Admiramos nossos presidentes porque gastam com prudência. Bem sabemos que nossos parcimoniosos legisladores condenam todo privilégio e dedicam pentecostal fidelidade a seus partidos. Orgulhamo-nos de que nossas leis, redigidas com sabedoria, valendo para todos e refletindo a vontade social, valorizam a família, a conduta austera, a iniciativa privada, a propriedade, a justiça e a liberdade exercida com responsabilidade.

Um país assim só pode ser objeto da mais cobiçosa exploração... Se no que nos concerne como nação, sempre fizemos nossa parte, a máxima culpa dos males brasileiros só pode ser dos outros, não é mesmo?

Última modificação em Segunda, 09 Setembro 2013 20:09
Percival Puggina

O Prof. Percival Puggina formou-se em arquitetura pela UFRGS em 1968 e atuou durante 17 anos como técnico e coordenador de projetos do grupo Montreal Engenharia e da Internacional de Engenharia AS. Em 1985 começou a se dedicar a atividades políticas. Preocupado com questões doutrinárias, criou e preside, desde 1996, a Fundação Tarso Dutra de Estudos Políticos e Administração Pública, órgão do PP/RS. Faz parte do diretório metropolitano do partido, de cuja executiva é 1º Vice-presidente, e é membro do diretório e da executiva estadual do PP e integra o diretório nacional.

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