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29 Mai 2005

O Dia Em Que Me Vi Obrigado a Concordar Com Severino

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Desde que Severino foi eleito Presidente da Câmara que não cessam de aparecer - nos jornais e na boca de inúmeros espíritos maledicentes - críticas veementes à sua pessoa, vituperações das mais ferinas e causticantes.

Desde que Severino foi eleito Presidente da Câmara que não cessam de aparecer - nos jornais e na boca de inúmeros espíritos maledicentes - críticas veementes à sua pessoa, vituperações das mais ferinas e causticantes. Alguns chegam mesmo a acusar o referido parlamentar de nepotismo, só porque ele arranjou umas boquinhas no serviço público para toda a sua família - o que mostra que, diferentemente de outros pais-de-família  que andam pelos bares da vida, Severino é um homem dedicado à sua prole, um exemplo de paternidade responsável a ser imitado. (Valioso e oportuno neste país em que muitos pais fazem como J.J. Rousseau: largam seus filhos no meio da rua, entregues ao Deus-dará. Minto. Ele não largou seus filhos na rua: entregou-os a um orfanato. Todos seis.).

Não obstante, a mídia leviana, sequiosa de sensacionalismo e sempre em busca de um bode expiatório para supostas mazelas sem fim do Brasil – país admirável e um paradigma para o mundo de Ordem e Progresso – escolheu o Severino como bola da vez, um boneco de Judas a ser malhado impiedosa e injustamente. A mídia chegou mesmo ao ponto de inventar - pasme leitor! – a existência de um tal de “baixo clero” do qual Severino seria o porta-voz. A expressão “baixo clero”, como todo mundo sabe e ninguém ignora, tem uma acepção fortemente injuriosa, pois se refere a “um grupo de mercenários mesquinhos e sem caráter, unicamente preocupado com seus interesses monetários e corporativistas”.

Disto se depreende –  e mesmo aqueles que capengam no raciocínio lógico são capazes de inferir – que está em jogo uma dupla infâmia. Em primeiro lugar, tal grupo de indivíduos não existe. Reitero: essa suposta súcia ou caterva não existe, ao menos no Congresso Nacional, nas câmaras de deputados dos estados da federação e nas câmaras de vereadores dos mais de 5.000 municípios deste país grande, eterno candidato a grande país. E se por acaso tal coisa começasse a brotar como ervas daninhas em nossas casas do povo, assembléias de insignes legisladores, autênticos cristãos que são, seguiriam o sábio ensinamento bíblico: “Se teu olho é motivo de vergonha, arranca-o!”

Em segundo lugar, pela aplicação da mais rigorosa lógica, se tal grupo de alpinistas sociais não existe, se não passa de uma fantasia malévola da mídia, como pode Severino ser seu porta-voz?! Admitir tal coisa seria admitir que, do nada, pode sair alguma coisa quando até Aldo Rebelo sabe muito bem que Nihil ex  nihilo! Ou seja: “Do nada não sai nada”. Mas a mídia não satisfeita em denegrir respeitáveis cidadãos, extraiu ainda conclusões inteiramente descabidas a respeito daquele aleatoriamente escolhido para ser seu bode expiatório.

Imagine só, caro leitor, como pode alguém ser porta-voz do nada? Só mesmo um notável metafísico alemão – juro que o cacófato foi sem querer – poderia  desempenhar tal papel impossível, pois, para ele, o nada é positivo e operante, tanto que ele afirmou solenemente: Das nicht nichtet (tradução literal:  O nada nadifica). Mas, a esta altura, o perspicaz leitor, deve estar indagando: “O que tem esse metafísico alemão a ver com o nordestino Severino?” Respondo na paleta: nada! – e me recuso a fazer a exegese deste nada, pois ele é um nadacomo outro qualquer.

Adotando o famoso dito de Odorico Paraguaçu – indefectível Prefeito de Sucupira -  “Vamos passar logo dos entretanto aos finalmente”. Em recente declaração - não temendo ser mal interpretado pela mídia que implica até mesmo com sua camisa desabotoada lá pela altura do umbigo. (Ora bolas, queriam que fosse a braguilha?), em recente declaração para a mídia de todo o país, Severino desferiu severinas e acerbas  críticas ao Poder Executivo, mais especificamente ao expediente do qual tem se servido Lulinha Paz e Amor que tem consistido em elevar à terceira potência o número das MP (Mera Prepotência ou Medida Provisória) editadas em 8 anos por FHC!  O my dog!

É inteiramente desnecessário lembrar que Medida Provisória é aquela mesma mocréia dos idos tempos do ciclo da Ditadura Draconiana, com a diferença que na Nova República – ciclo da Casa da Mãe Joana que tem se alternado inexoravelmente com o seu contrário – a referida mocréia oxigenou o cabelo, fez um piercing             nas ventas, ganhou um popozão  de silicone e se recusou a ser chamada de Decreto-Lei. Pegava mal, não é mesmo? Foi por um Decreto-Lei que o odiado AI-5 – vexata questio! - foi editado.

Severino declarou que a função du Puder Ligislativu é legislar e a função do Puder Ezékutivu é ezékutar. Como disse certa feita seu conterrâneo, Genoíno: “Isto é isto e não é aquilo, aquilo é aquilo e não é isto” [Uau! Parece até uma sentença pinçada das páginas imortais da Ciência da Lógica de Hegel, que os alemães insistem em chamar de Wissenschaft der Logik]. E assim como não se deve trocar as bolas,  escovar os dentes com creme de barbear e fazer a barba com pasta dental, assim também não cabe ao Legislativo executar e ao Executivo legislar.

Severino foi mais longe ainda assever(in)ando que governar um país com Medidas Provisórias – tal como o Big Boss do Executivo tem feito - não é somente açambarcar uma função própria do Legislativo, mas principalmente pôr em marcha uma ditadura branca. É fechar o Congresso deixando de portas abertas (coisa que vinda do PT - Perda Total - não me surpreende nem um pouco).

O que me surpreende e me deixa deveras perplexo é que eu nunca pensei que fosse concordar com Severino nem uma só vez na minha vida. Mas, um momento! Eu concordo com o que ele disse explicitamente, mas não concordo com o não-dito, que está muito longe de ser o nada ou o completo silêncio, pois se caracteriza pela intenção da sua fala segundo seus mais recônditos propósitos. Vou contar uma historinha que ilustra muito bem o que estou tentando dizer, ao menos para os espíritos mais sagazes e capazes, portanto, de compreender analogias situadas um pouco além do óbvio ululante.

Um velhinho estava passeando por um aprazível parque quando viu um menino se debulhando em copiosas lágrimas (Êta lugar-comum!) às margens de um lago.

__ Por que estás tanto a chorar , ó miúdo? (Bem se nota que ele era português, mas a anedota não).

__ Foi meu irmão, ele é um grande malvado!

__ O que foi que ele fez, meu filho?

__ Afogou sete gatinhos neste lago.

__ Que crueldade! Teu irmão é mesmo um grande malvado!

__ Malvado e egoísta! Ele não deixou nenhunzinho pr’a eu afogar!

Moral da história: Ô Lula, seminino, não sej’egoísta: deix’uns bichanos pr’o Severino afogar, visse!

Última modificação em Segunda, 09 Setembro 2013 20:09
Mario Guerreiro

Mario Antonio de Lacerda Guerreiro nasceu no Rio de Janeiro em 1944. Doutorou-se em Filosofia pela UFRJ em 1983. É Professor Adjunto IV do Depto. de Filosofia da UFRJ. Ex-Pesquisador do CNPq. Ex-Membro do ILTC [Instituto de Lógica, Filosofia e Teoria da Ciência], da SBEC [Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos].Membro Fundador da Sociedade Brasileira de Análise Filosófica. Membro Fundador da Sociedade de Economia Personalista. Membro do Instituto Liberal do Rio de Janeiro e da Sociedade de Estudos Filosóficos e Interdisciplinares da Universidade. Autor de Problemas de Filosofia da Linguagem (EDUFF, Niterói, 1985); O Dizível e O Indizível (Papirus, Campinas, 1989); Ética Mínima Para Homens Práticos (Instituto Liberal, Rio de Janeiro, 1995). O Problema da Ficção na Filosofia Analítica (Editora UEL, Londrina, 1999). Ceticismo ou Senso Comum? (EDIPUCRS, Porto Alegre, 1999). Deus Existe? Uma Investigação Filosófica. (Editora UEL, Londrina, 2000). Liberdade ou Igualdade (Porto Alegre, EDIOUCRS, 2002).

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