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28 Mai 2005

Violência Natural

Escrito por 

Há um credo bastante disseminado de que a violência é um comportamento aprendido, e não natural dos homens. O determinismo cultural como explicação única dos índices de violência pode levar à adoção de medidas perigosas.

"O problema da violência é que as vantagens de empregá-la ou renunciar a ela dependem do que o outro lado faz." (Steven Pinker)

 

Há um credo bastante disseminado de que a violência é um comportamento aprendido, e não natural dos homens. O determinismo cultural como explicação única dos índices de violência pode levar à adoção de medidas perigosas. O romantismo do "homem bom" selvagem não encontra evidência na História. E acaba que muitos "pacifistas", acreditando nessas coisas, pregam o abrandamento das penas para criminosos, em vez do endurecimento delas.

Os defensores do aprendizado da violência de fora para dentro afirmam que pais agressivos com freqüência têm filhos agressivos, ignorando que isso poderia ter causa hereditária. Psicólogos que ressaltam que as crianças expostas a modelos violentos podem ficar violentas ignoram que elas são expostas também a heróis, drag queens, palhaços, e a simples exposição não diz porque algumas pessoas são mais dignas de imitação que outras. Muitos culpam o individualismo americano pela violência dessa nação, mas a maioria dos países do Terceiro Mundo e ex-repúblicas da União Soviética são bem mais violentas e não possuem nada parecido com a tradição individualista americana. Os filmes de artes marciais são também muito populares em países asiáticos, e nem por isso existem elevados índices de violência neles.

Na verdade, as pessoas eram mais violentas nos séculos anteriores à invenção do cinema e televisão. Os canadenses assistem aos mesmos programas que os americanos mas têm um quarto da taxa de homicídios dos Estados Unidos. Os jogos violentos de computador viraram moda nos anos 90, quando os índices de criminalidade despencaram. Muitas sociedades apresentaram índices assustadores de violência antes de serem inventadas as armas de fogo, e os suiços andam armados mas têm baixas taxas de criminalidade. Na década de 60, o governo americano gastou rios de dinheiro com programas sociais enquanto as taxas de crimes violentos aumentaram espetacularmente. Em todas as culturas, homens matam homens de vinte a quarenta vezes mais do que mulheres matam mulheres, sendo o grosso dos assassinos jovens, entre quinze e trinta anos de idade.

O que podemos concluir, por enquanto, é que aquilo que muitos consideram como causas da violência não passam de falácias. Culpam os filmes, a televisão, a "sociedade", o individualismo cultural, a existência das armas de fogo, a miséria, sempre partindo da premissa de que a violência é ensinada, e não algo que faz parte da natureza humana. Entretanto, a grande maioria dos animais emprega a agressão, de maneira seletiva, para satisfazer seus interesses. Entre nossos primos chimpanzés, há os que matam deliberadamente outros, sugerindo que as forças da evolução, e não apenas idiossincrasias de uma cultura qualquer, preparam-nos para o uso da violência. Sabemos dos efeitos da testosterona, verificamos que a emoção da raiva costuma vir acompanhada do reflexo de mostrar os dentes caninos e cerrar os punhos, e notamos que as perturbações do sistema inibitório do cérebro, como no caso de bebida alcoólica, podem levar a ataques agressivos. Em todas as culturas, os meninos espontaneamente participam de brincadeiras brutas, e crianças mostram sinais de violência muito antes do contato com brinquedos de guerra ou estereótipos culturais. Muitos perguntam como as crianças aprendem a agredir, enquanto deveriam questionar como aprendem a não agredir.

Como disse Richard Dawkins, autor de O Gene Egoísta, "a seleção natural favorece genes que controlam suas máquinas de sobrevivência de modo que elas façam o melhor uso de seu ambiente". O puro auto-interesse é um dos principais motivos de guerras e violência. A aceitação de que a tendência ao uso da violência é algo natural não é sinônimo da aceitação de que ela é boa ou desejável. Nem tudo da natureza é bom! Mas é fundamental para podermos definir políticas eficazes de combate à violência. Oferecer a outra face pode ser estupidez, e não ato nobre de santidade. Tolerar os intolerantes pode ser o caminho da nossa extinção, incluindo o ato de tolerar.

Por isso a política de intimidação anunciada, conhecida como lex talionis, ou lei da retaliação, surgiu. O "olho por olho, dente por dente" passa a mensagem de que não deve-se atacar primeiro, mas caso sejamos atacados, revidaremos em igual proporção. Reduz-se assim o incentivo para a briga, o ganho, pois sabe-se ex ante da punição. Para que a vingança funcione como intimidação, a disposição para executá-la deve ser divulgada, pois a sua finalidade é fazer com que os possíveis atacantes reflitam antes do ato violento. Para não termos uma verdadeira lei da selva, com julgamentos subjetivos sobre a culpa e a pena adequada, um sistema objetivo de leis define as infrações e suas penalidades. Uma autoridade armada parece ser a melhor técnica de redução da violência, devendo estar sempre num contexto democrático e de sociedade aberta, para que o próprio Estado não torne-se o mais violento de todos com o monopólio da coerção.

Quando a imposição da lei desaparece, irrompe todo tipo de violência. A anarquia gera o caos. A complacência com os criminosos, como se não fosse o receio da punição severa um dos principais impeditivos do aumento da criminalidade, gera mais violência. Em 1939, Chamberlain pregou a "paz em nossa época", e o que veio em seguida foi uma guerra mundial e o holocausto, já que o inimigo não concordava com tal romantismo. O pacifismo unilateral é o caminho da desgraça para os pacíficos, e o pacifismo total é uma utopia. Não é a violência que gera mais violência; é a impunidade!

Como disse Steven Pinker, "muitos intelectuais desviaram o olhar da lógica evolucionista da violência, temendo que reconhecê-la equivaleria a aceitá-la ou até a aprová-la". Preferiram adotar a ilusão do bom selvagem, na qual a violência é um produto do aprendizado que vem de fora e penetra nos homens. Com isso, abriram ainda mais as comportas da impunidade, com certeza uma das maiores causas do aumento da violência. Os homens precisam aprender a controlar a violência natural. A certeza da punição ainda é um grande incentivo à este aprendizado. Precisamos tornar o uso da violência um mecanismo inadequado do ponto de vista racional como uma alternativa para o processo evolutivo. Isso só é possível através do conhecimento prévio da punição firme aos crimes, por todos.

Última modificação em Segunda, 09 Setembro 2013 20:09
Rodrigo Constantino

Rodrigo Constantino é economista formado pela PUC-RJ, com MBA de Finanças pelo IBMEC. Trabalha desde 1997 no mercado financeiro, como analista de empresas e administrador de portfolio. É autor do livro "Prisioneiros da Liberdade", da editora Soler.

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