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28 Mai 2005

Maquiavel em Meio Aos Pinheirais

Escrito por 

Uma pelo fato de boa parte deles serem analfabetos funcionais e como tal, por terem decorado algumas regras gramaticais acreditam que sabem ler e assim adentrar toda e qualquer seara do saber e do fazer humanos.

Todo aquele que veio a se debruçar sobre as laudas escritas por esse florentino, Nicollo Machiavelli, nos idos da renascença, se espanta com a similaridade que há entre as atitudes sugeridas pelo mesmo para que os governantes pudessem assim se manter no poder com a realidade dos fatos da vilda política. Todavia, isso não é sinônimo de que venham os nossos governantes nos Paços Municipais e bem como as Casas Legislativas tenham tido contato com a obra O PRÍNCIPE.

Uma pelo fato de boa parte deles serem analfabetos funcionais e como tal, por terem decorado algumas regras gramaticais acreditam que sabem ler e assim adentrar toda e qualquer seara do saber e do fazer humanos. Quanto aos que sabem ler, se encontram a uma distância magna do que poderíamos classificar como um homem letrado. Pedir a leitura de Machiavelli para essa gente, é pedir demais.

Talvez, por esse fato, as páginas de Machiavelli são geniais quanto a sua proximidade do universo empírico da vida política, não por que todo tiranete ou candidato a tal sejam pessoas que tiveram contato com sua obra, mas sim, pelo fato de esse chanceler no seu exílio, ter depositado com seu tinteiro e pena em punho aquilo que ele captou da alma humana de seu tempo quando diante do poder apontando-nos todos os caminhos para se conquistar, permanecer no poder e, como perde-lo. E, no nosso caso, compreende-lo.

Poderíamos comentar página a página e compara-las com os desmandos de nossas “autoridades”. Mas tal empreitada seria por demais deprimente. Iria entristecer por demais minh’alma e não é minha intenção com meus libelos procurar uma via para entrar em depressão, mas sim, quanto esse é o assunto, divertir-me com meus olhares e impressões da comédia pastelão da vida pública brasileira.

Fala-nos ele no capítulo XX (Se as fortalezas e muitas outras coisas feitas cotidianamente pelo Príncipe são úteis ou não), que: “[...] os homens a princípio hostis à instituições de um novo governo necessitam, para manter-se, de ajuda, e o príncipe sempre poderá conquista-los facilmente. Eles, por sua vez, vêem-se obrigados a servi-lo com tanto mais lealdade quanto reconheçam a necessidade de eliminar, pelas ações, a péssima opinião que o príncipe fazia a seu respeito. [...] constatar-se-á que ao príncipe é muito mais fácil ganhar a amizade dos que se sentiam satisfeitos com o regime antigo, e que são, assim, seus inimigos, do que daqueles que, por descontentes, tornaram-se seus amigos e aliados, auxiliando-o na conquista do Estado”.

Exemplo dessa postura encontramos aos borbotões em nossa história. Os republicanos que combatiam D. Pedro II e vira e meche estavam indo ao seu encalço para lhe solicitar um cargo para fulano ou cicrano, fazendo assim o Imperador se rir das diabruras deste, como nos aponta Raymundo Faoro (Os donos do poder – vol. II). Recentemente, vemos no congresso nacional, toda aquela corja fisiológica que temia o possibilidade de um governo petista e que hoje lá está para lamber as suas botas enlameadas pelos seus desmandos proto-totalitários.

Ou então, olhemos para as nossas cidades. Quantos vereadores revoltosos que de uma hora para outra se silenciavam e até mesmo defendiam aquele que até apouco condenavam? Não apenas legisladores municipais, mas também “cidadãos” que sempre bravejavam contra o seu governante chinfrim e, de repente, entupeta casa, carro, cachorro e papagaio com propagandas do mequetrefe. E me pergunto: a troco de que? Alias, perguntemos de outro modo: por quanto ou, em troca de que favor? Esses tipos, infelizmente não faltam nestas terras e estão presentes em todos os lados, seja à destra ou à sinistra.

Mas, se você como eu, é um daqueles cidadãos que acredita que é possível edificar-se não um “mundo melhor possível”, mas pelo menos uma cidade melhor, desvencilhe-se de suas ilusões românticas, do mesmo modo que fez o nosso pensador florentino e procure ver a política como ela é para assim, quem sabe, torna-la mais próxima do que deveria ser.

Você pode ficar um pouco enjoado, com náuseas, mas nada que um engove antes e outro depois não resolva.

Última modificação em Segunda, 09 Setembro 2013 20:09
Dartagnan Zanela

Professor e ensaísta. Autor dos livros Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos – ensaios sociológicos.

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