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24 Mai 2005

Democracia Russa

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Tal relativismo é completamente hipócrita, já que para condenar os Estados Unidos não se medem esforços. São sempre dois pesos e duas medidas.

"Democracy and socialism have nothing in common but one word: equality. But notice the difference: while democracy seeks equality in liberty, socialism seeks equality in restraint and servitude." (Alexis de Tocqueville)

 

A segunda reforma eleitoral do presidente russo Vladimir Putin está praticamente completa. Várias emendas e novas leis tramitam na Duma, e a essência da reforma é afastar ainda mais os cidadãos da participação real no processo eleitoral. Todas as medidas concentram poder no governo central, colocando em xeque a democracia de facto.

Na primeira tranche das reformas, o controle do Kremlin sobre o processo eleitoral foi bastante aumentado, e o povo agora sequer elege os seus governadores, que passaram a ser apontados diretamente pelo governo central. Agora, o foco está em dificultar a existência de partidos menores, praticamente inviabilizando-os. Um partido precisará ter pelo menos 7% dos votos para participar da Duma, e não poderão formar blocos. O número mínimo de membros necessários   foi para 50 mil, e exige-se organização partidária em pelo menos metade das regiões do país. Tais medidas, somadas, permitirão que as autoridades desqualifiquem com base legal praticamente qualquer partido. Um referendo popular também ficou praticamente inviável sem o apoio do governo. Somente observadores dos partidos participantes das eleições poderão acompanhar as pesquisas. Os observadores independentes estão vetados!

Além dessas medidas sobre eleições, várias outras apontam para um retorno do autoritarismo na Rússia. Putin parece carregar forte herança dos tempos de diretor da KGB. A mídia russa está longe de ser considerada livre, o que ficou evidente na cobertura da guerra com a Chechênia. O caso Yukos foi sintomático dessa postura ditatorial do presidente. Nos discursos, Putin prega a liberdade, mas na prática concentra poderes totalitários. A "democracia administrada" da Rússia parece conter infinitamente mais administração central que democracia. A Casa Branca, sozinha, tem pressionado bastante a Rússia quanto aos grandes desvios da democracia, ainda em sua infância na nação onde os comunistas dominaram completamente o cenário político por mais de 70 anos, com um regime de terror total. A resposta de Putin é que a Rússia terá democracia à "sua maneira".

A elasticidade do conceito de democracia permite que um governo quase ditatorial saia na fotografia como democrático. Até mesmo o ditador Fidel Castro é tratado como presidente por alguns. Deve ser mesmo muito popular, para conseguir 100% dos votos! Os relativistas de plantão aceitam tais distorções absurdas, em nome da ideologia dogmática. Lula disse que não pode forçar o "seu" conceito de democracia aos países árabes, como se fossem infinitos os conceitos de governo do povo para o povo. Tal relativismo é completamente hipócrita, já que para condenar os Estados Unidos não se medem esforços. São sempre dois pesos e duas medidas. A ausência de liberdade individual em uma nação "amiga" passa a ser vista como um simples "detalhe cultural". E assim a Rússia caminha, sem muito barulho e com a condenação de poucos, rumo à "democracia" ao seu estilo próprio; ou seja: inexistente!

O povo russo mais uma vez vai dando adeus à sua liberdade, enquanto os "defensores da democracia" estão mais preocupados em criticar o modelo americano, ou a troca do genocida Saddam Hussein por eleições no Iraque. Fica difícil aceitar os valores incoerentes dessa gente. E quem sofre é o povo russo, com gradual retorno aos tempos de ditadura, embalada agora por uma "democracia" sui generis.

Última modificação em Segunda, 09 Setembro 2013 20:09
Rodrigo Constantino

Rodrigo Constantino é economista formado pela PUC-RJ, com MBA de Finanças pelo IBMEC. Trabalha desde 1997 no mercado financeiro, como analista de empresas e administrador de portfolio. É autor do livro "Prisioneiros da Liberdade", da editora Soler.

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