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24 Mai 2005

Economia e Humanismo

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A Economia é neutra sob o prisma ético,  nada tendo a dizer sobre se um ato ou ação é moralmente bom ou mau, distinção que cabe à Ética e à Moral.

Se nos dermos ao trabalho de folhear uma edição de 1905 da famosa publicação da Universidade de Chicago - o Journal of Political Economy (JPE) -, veremos textos em inglês, enriquecidos com um ou outro gráfico e uma ou outra equação matemática, tratando de problemas tais como crescimento, inflação, formação de preços, desemprego e outros. Se tomarmos uma edição recente do mesmo JPE, poderemos levar um susto, pois veremos páginas e mais páginas com equações matemáticas bastante complicadas e uma ou outra anotação em inglês. Mas veremos que as questões tratadas são praticamente as mesmas que incomodavam os economistas há cem anos. Esta observação foi feita por Milton Friedman, ganhador do Nobel em 1976, em uma discussão travada há cerca de dez anos nos Estados Unidos, sobre o ensino de Economia nas universidades e, mais especificamente, sobre a forte queda observada na demanda pelos cursos de Economia (fenômeno, hoje, mundial).

O que teria acontecido, para que uma profissão que despertou tanto interesse até os anos 80 passasse a ser praticamente desprezada, a ponto de o número de mestrandos estrangeiros matriculados em universidades norte-americanas ser superior ao de mestrandos nascidos nos Estados Unidos? Creio que a resposta está em Hayek que, no discurso que proferiu ao ser laureado com o Nobel em 1974, forjou uma frase que deveria ter dado tratos às bolas de todos os economistas, mas que, infelizmente, passou desapercebida: “o economista que só sabe Economia não pode ser um bom economista”. Para Hayek, Mises, Kirzner e outros expoentes da chamada Escola Austríaca, a Economia é apenas uma das ciências de um campo maior, o da Praxeologia, que é o estudo integral da ação humana, ao lado das demais ciências humanas, especialmente as sociais, como a Política, a Sociologia, o Direito, a Psicologia, a História, a Antropologia, a Ética e outras. É dever de um economista que se pretenda vitorioso na profissão conhecer profundamente a Teoria Econômica, mas isto representa apenas uma condição necessária, porém não suficiente: um bom economista tem que ser também, além de um  técnico, um bom humanista, pois deve estudar profundamente os demais campos do saber humano relacionados, no mundo real, com a Economia. Tem que ter noções firmes de Filosofia, que lhe abrem os horizontes do pensamento; de Antropologia, para que entenda o homem e sua evolução; de Psicologia, para que entenda o comportamento dos agentes; de Direito, para que possa saber a base legal em que pisa; de Sociologia, para que conheça os processos mediante os quais as sociedades evolvem, que são as ordens espontâneas,  fenômenos não darwinianos; de Política, para que saiba, por exemplo, que as altas taxas de juros brasileiras são uma conseqüência de longo prazo de regimes fiscais cronicamente deficitários; e de História, não para prever o futuro, mas para evitar os erros do passado.

Ação humana é qualquer ato, em qualquer dessas ciências, praticado com o objetivo de passar-se de um estado menos satisfatório para um outro, mais satisfatório, sob o ponto de vista do indivíduo. Mises, em seu famoso livro Human Action, de 1948, construiu toda a Teoria Econômica sobre  o conceito de ação. A Economia é neutra sob o prisma ético,  nada tendo a dizer sobre se um ato ou ação é moralmente bom ou mau, distinção que cabe à Ética e à Moral: há atos econômicos, políticos, jurídicos, etc. moralmente neutros, como a compra de um saco de pipocas, moralmente maus, como comprar cocaína e moralmente bons, como comprar leite para crianças. Acredito que, quando os economistas compreenderem a profundidade dos trabalhos da Escola Austríaca e convencerem-se da importância de serem, além de excelentes técnicos, humanistas com elevada cultura geral, poderão contribuir melhor para o bem comum.

Última modificação em Segunda, 09 Setembro 2013 20:10
Ubiratan Iorio

UBIRATAN IORIO, Doutor em Economia EPGE/Fundação Getulio Vargas, 1984), Economista (UFRJ, 1969).Vice-Presidente do Centro Interdisciplinar de Ética e Economia Personalista (CIEEP), Diretor da Faculdade de Ciências Econômicas da UERJ(2000/2003), Vice-Diretor da FCE/UERJ (1996/1999), Professor Adjunto do Departamento de Análise Econômica da FCE/UERJ, Professor do Mestrado da Faculdade de Economia e Finanças do IBMEC, Professor dos Cursos Especiais (MBA) da Fundação Getulio Vargas e da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Coordenador da Faculdade de Economia e Finanças do IBMEC (1995/1998), Pesquisador do IBMEC (1982/1994), Economista do IBRE/FGV (1973/1982), funcionário do Banco Central do Brasil (1966/1973). Livros publicados: "Economia e Liberdade: a Escola Austríaca e a Economia Brasileira" (Forense Universitária, Rio de Janeiro, 1997, 2ª ed.); "Uma Análise Econômica do Problema do Cheque sem Fundos no Brasil" (Banco Central/IBMEC, Brasília, 1985); "Macroeconomia e Política Macroeconômica" (IBMEC, Rio de Janeiro, 1984). Articulista de Economia do Jornal do Brasil (desde 2003), do jornal O DIA (1998/2001), cerca de duzentos artigos publicados em jornais e revistas. Consultor de diversas instituições.

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