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22 Mai 2005

Insetopia

Escrito por 

Os que apostam na "reforma" humana, como se fosse possível um mundo onde "cada um contribui com o que pode e retira o que necessita", estão partindo de uma premissa falsa.

"Costuma-se dizer que quem aprecia as leis e as salsichas não deveria ver como são feitas; o mesmo vale para as emoções humanas." (Steven Pinker)

 

Os psicólogos evolucionistas aplicam as teorias de seleção natural de Darwin para a formação da mente humana também, assim como suas derivadas emoções. Há várias razões para que possa evoluir nos organismos a disposição para fazer boas ações, pois ajudando outras criaturas estarão defendendo seus próprios interesses. O mutualismo e a cooperação podem ser explicados pela ótica individualista.

O amor pela família pode ter evoluído pelo "egoísmo" dos genes, neste processo de seleção natural. O altruísmo recíproco também pode evoluir quando organismos trocam favores visando à maximinazação de seus objetivos, o que é comum em outros animais também, como macacos que arrancam piolhos dos outros, mamíferos que cuidam os filhotes dos demais ou morcegos que doam excesso de sangue de uma boa caçada. Os que retribuem favores acabam tendo maiores benefícios no longo prazo que os trapaceiros, pois a disseminação de informações sobre estes pode fazer com que eles sejam evitados. Isso explica porque os homens se preocupam tanto com a imagem perante os outros, e justifica também a origem da fofoca. Assim, solidariedade e confiança impelem as pessoas a oferecer favores. Gratidão e lealdade impelem-nas a retribuir. Culpa e vergonha impedem-nas de prejudicar outras ou deixar de retribuir. Raiva e desprezo impelem-nas a evitar ou punir trapaceiros.

O reconhecimento dessas possíveis causas das emoções morais dos humanos não precisa tornar o mundo um lugar cínico. Afinal, as emoções são genuínas, da mesma forma que o processo pelo qual desenvolvemos a visão não altera o fato de que podemos enxergar. O perigo vem quando as pessoas ignoram evidências fortíssimas desse individualismo, desse foco infinitamente maior no próprio "eu" e na família. São características inatas, e não podem ser mudadas pela "educação". Os que apostam na "reforma" humana, como se fosse possível um mundo onde "cada um contribui com o que pode e retira o que necessita", estão partindo de uma premissa falsa. Defendem que o indivíduo deve submeter seus interesses aos da "comunidade", como as formigas que são insignificantes perante o interesse da colônia. Homens não são insetos gregários!

Aliás, por falar em formigas, no filme Formiguinhaz, o personagem principal desabafa: "Que diabo, esperam que eu faça tudo pela colônia... e quanto às minhas necessidades?". O mesmo personagem diz: "Quando a gente é filho do meio numa família de cinco milhões, não recebe muita atenção". Trata-se de uma brincadeira, já que formigas são parte de um sistema genético onde as operárias são praticamente idênticas, totalmente diferente dos humanos. Mas serve de reflexão para todos os românticos que defendem o socialismo, como se o mundo ideal fosse aquele onde uma massa de seres idênticos abdicasse de seus interesses em prol da colônia. Os homens, felizmente, querem mais!

Para quem ainda acha que tal "egoísmo" humano não é verdadeiro e inerente às nossas características, pode pensar sobre o seguinte dilema hipotético: temos um prédio em chamas, e se corrermos pela porta esquerda, poderemos salvar um x número de crianças, mas se formos pela porta direita, salvaremos o próprio filho. Existe algum número de crianças que faria uma mãe ou pai optarem pela porta esquerda? De fato, essa resposta já é dada na prática pelos talões de cheques, todas as vezes que os pais compram coisas "supérfluas" para os filhos, como bicicletas, brinquedos ou roupas novas, em vez de salvar a vida de crianças carentes e famintas. Não adianta lutar contra a realidade dos fatos: os animais priorizam sua prole, humanos incluídos!

Os socialistas parecem ignorar essa obviedade ululante. B. F. Skinner, por exemplo, um maoísta, escreveu na década de 70 que as pessoas deveriam ser recompensadas por comer em grandes refeitórios comunitários em vez de comer em casa com a família, para economizar recursos. Outros socialistas já defenderam a idéia de separar pais e filhos, para estes serem "educados" pelo Estado, para o "bem geral" da comunidade. Os kibutzim israelenses tentaram adotar políticas de se criar as crianças separadas dos pais também, mas abandonaram-nas. A União Soviética e China forçaram coletivizações, considerando que os indivíduos são insignificantes perante a comunidade, tal como o discurso da formiga malvada no filme já citado. No final, ele deixa transparecer o real motivo dessa postura ditatorial, afirmando que "ELE" é a colônia. Todo socialista é na verdade autoritário, gosta de pensar que suas idéias serão as adotadas pelas massas, e que todos são iguais, mas ele é diferente. Por isso abomina a idéia da liberdade individual, das escolhas alheias e da natural busca pelos próprios interesses na vida. Deveriam todos ser altruístas, sacrificando os próprios objetivos em nome do "todo", personificado nele.

No filme, a formiga principal sonha com a "insetopia", um lugar onde as formigas serão livres para decidirem o que querem, e não irão mais fazer tudo igual. Alguns humanos, que vivem neste local, podendo ter escolhas próprias, trocar voluntariamente em um mercado livre, e focar nos próprios interesses, querem o oposto: a Utopia, exatamente onde vivem as formigas mecanizadas trabalhando como escravas para o bem da colônia. Vai entender...

Última modificação em Segunda, 09 Setembro 2013 20:13
Rodrigo Constantino

Rodrigo Constantino é economista formado pela PUC-RJ, com MBA de Finanças pelo IBMEC. Trabalha desde 1997 no mercado financeiro, como analista de empresas e administrador de portfolio. É autor do livro "Prisioneiros da Liberdade", da editora Soler.

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