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22 Mai 2005

Um Cafezinho "Ético" com Mario Ferreira dos Santos

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Existem em nossa sociedade muitos intelectuais que acabam sendo condenados a um ostracismo perene por intermédio do patrulhamento ideológico intenso que temos a imperar no meio acadêmico.

Existem em nossa sociedade muitos intelectuais que acabam sendo condenados a um ostracismo perene por intermédio do patrulhamento ideológico intenso que temos a imperar no meio acadêmico. Os nomes não são poucos, mas, nesta missiva, destacamos o nome dessa figura hercúlea que foi o filósofo paulista Mário Ferreira dos Santos.

Nascido em 03 de janeiro de 1907, Ferreira dos Santos nos deixou uma extensa obra com aproximadamente 100 títulos publicados, mais 30 manuscritos, aproximadamente e, uma infinidade de artigos, muitos deles publicados com pseudônimos como Dan Andersen, artigos esses, de índole anarquista.

Além de ele ter iniciado uma modalidade de educação à distância, no caso, um curso de filosofia pelo correio, Ferreira dos Santos publicou mais de cem milhões de exemplares de suas obras através de sua editora e livraria LOGOS e outro bom tanto de outros autores, sendo um dos primeiros tradutores de Nietzsche para língua portuguesa. Tamanho era a sua dedicação ao labor filosófico que, em certos momentos, quando os soldos lhe faltavam, ele publicava suas obras de maneira caseira, fazendo uso de um velho mimeografo.

Bem, em sua vida terrena que durou até o dia 11 de abril de 1968, sempre procurou não apenas ser fiel aos seus ensinamentos, mas, como filósofo de fato que era, e não apenas de nome, ele viveu plenamente os seus ditames, pois, como o mesmo dizia: “[...] existir é estar no pleno exercício de seu ser. O alguma coisa que há, se não existe, não está no pleno exercício do ser, portanto, não tenho um ser no pleno exercício, está no exercício do ser do outro” (Filosofia Concreta; 19, 1959, p. 38).

Em outras palavras, se ele não agisse como agiu, seu ser não seria o que se encontrava em suas obras, mas em outro lugar, que no caso seria a negação desta e do que ele afirmava ser, tornando-se algo hediondo, como tudo o mais que se apresenta de maneira mediana em nossa civitas.

Deste modo, quando nos indagamos sobre as questiúnculas éticas que são inerentes ao viver filosófico, o pai da Filosofia Concreta, acusa os filósofos contemporâneos de abandonarem os estudos éticos, pois, segundo ele: “[...] esses confundiram a ética com a moral, emprestando àquela as características variantes que esta última apresenta. [...] Deixaram de reconhecer o que o verdadeiro problema do homem continua sendo o que nele é genuinamente humano: o problema do dever-ser frustrável da vontade”.

Exemplo dessa denuncia que o mesmo fazia nos idos da década de 50 da centúria passada (1957) frente ao que o mesmo qualificou como sendo o estado de confusão que nos levou a nos precipitar em um abismo niilista é justamente o avanço do ateísmo ético.

Mário Ferreira confessou que em sua juventude, teve uma leve inclinação para assim se enveredar por tal caminho. Porém, na época, um padre filósofo (coisa rara nos dias atuais) lhe indagou, se ele realmente era ateu, que lhe apresentasse um conceito claro de que vinha a Ser Deus e refutasse o mesmo, apresentando um contra-argumento. Ele não dispunha de tal resposta, pois, o que lhe levou a tomar tal atitude não era uma questão ética ou ontológica, mas sim, moral, frente à hipocrisia dos ditos seguidores dos Ensinamentos Revelados e das injustiças que habitam o mundo.

Da mesma forma, o leitor pode esforçar-se em relembrar algumas das menções ateístas conhecidas e verá que a maioria absoluta delas apresenta penas uma forte indignação moral frente aos seguidores de alguma doutrina ou, frente as descaminhos de alguns Sacerdotes, ou mesmo frente as injustiças do mundo, mas, em nenhum momento, apresenta-se um conceito claro do que seja Deus e, em seguida, a refutação a este.

Mas, o que isso tem haver com ética? A negação furtiva da existência do Ser Absoluto abre portas para as mais descabidas aventuras niilistas e relativistas pensáveis, pois, se não há nada de superior ao homem, se não há um ethos acima da matéria, o que nos resta é apenas o nada existencial e a perspectiva de a tudo relativizar, digo, validar.

Ou então reflitamos sobre outros pontos pertinentes a nossa época como, por exemplo: as bravatas intestinas que se fazem presentes em nossa mídia quanto aos desmandos do poder, frente aos inúmeros escândalos de corrupção, estes estão sendo tratados como um problema moral ou um problema ético? E quanto a abordagem sobre os quês da guerra no Oriente Médio e sobre o terrorismo, que tipo de abordagem está sendo dada?

Por fim, o ser humano é o único animal que tende para o infinito, pois é o único que tem consciência do infinito e de sua finitude neste plano existencial. Perdida essa noção basilar, estaria o ser humano regredindo a seu estado de animalidade? Não estaria neste ponto, a raiz do nascimento das doutrinas totalitárias como o nacional-socialismo e o comunismo?

O fato de a sociedade hodierna estar a negar a existência de algo superior a nossa mediana mediocridade, não quer dizer que a mesma esteja descrendo da existência de algo superior, mas que, nos entregamos ao deleite fútil de acreditar em qualquer coisa que complemente a nossa vontade de Ser, mesmo que seja o nada maquiado de “Ser”.

Não nos basta discutir o modo que se apresenta as ações humanas diante do mundo, mas sim, compreendermos o princípio que se encontra inerente ao ser humano que desencadeia as ações, pois, se mantermos essa discussão apenas sob a ótica que está sendo apresentada na arena pública de debates, continuaremos a tentar medir a quadratura do circulo.

OBS.: Para maiores informações sobre Ferreira dos Santos, acesse o site: http://www.marioferreira.com.br

Última modificação em Segunda, 09 Setembro 2013 20:13
Dartagnan Zanela

Professor e ensaísta. Autor dos livros Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos – ensaios sociológicos.

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