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Domingo, 20 Dezembro 2020 21:02

QUEM DÁ QUALIDADE A UM INSTRUMENTO É O SEU USUÁRIO

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Uma faca (bisturi) na mão de um médico salva uma vida, porém facas são usadas por indivíduos enfurecidos para tirar a vida de seus semelhantes.

 

Meus amigos

Ao longo de toda a história de desenvolvimento da humanidade, o homem foi criando instrumentos, meios, que pudessem contribuir para facilitar sua vida, contribuir para sua sobrevivência em melhores condições.

No início, coisas simples, para solucionar seus desafios mais rotineiros, facilitar sua alimentação, a caça, sua proteção contra os desconfortos gerados por circunstâncias adversas do meio ambiente e de episódicos predadores (aí incluídos os seus semelhantes).

Os utensílios domésticos foram se aperfeiçoando, ao longo dos tempos, assim como como as vestimentas, os abrigos.

Com o passar do tempo o ser humano começou a descobrir que instrumentos criados com determinada e específica finalidade poderiam ter sua utilização estendida para outros fins.
Essa constatação, no entanto, possibilitou a ocorrência de desvios de finalidade que violavam o empenho que havia determinado a criação do instrumento.

Uma faca (bisturi) na mão de um médico salva uma vida, porém facas são usadas por indivíduos enfurecidos para tirar a vida de seus semelhantes.

O desenvolvimento tecnológico fantástico alcançado pela humanidade, particularmente, no último século, possibilitou avanço admirável na disponibilização de recursos, meios, instrumentos, que aprimoraram de forma extraordinária a qualidade de vida de parcela significativa da espécie humana.

As áreas de comunicação, aproximando pessoas e favorecendo o acesso à informação, à educação, assim como os meios de transporte, encurtando distâncias e valorizando o uso do tempo podem ser identificados como exemplos.

O que desejo submeter à reflexão do presente leitor é que em todos os casos, os instrumentos criados, independentemente do objetivo que tenha justificado sua criação, não se qualificam por si próprios. Quem lhes dá qualidade é quem deles se utiliza.

Os meios de transporte, facilitaram enormemente a vida das populações em todo o mundo. A compreensão do valor do tempo hoje, se comparado aos tempos em que o homem se deslocava a pé ou montado, se alterou de forma até difícil de se descrever.

Motos, carros, ônibus, aviões, navios, trens, alteraram e continuam alterando impressionantemente a rotina de vida de parcela imensa do contingente humano.
Ocorre que, carros matam seus usuários e outros que não guardam qualquer relação com esses usuários, quando são utilizados de forma irresponsável. O mesmo pode ocorrer com os demais meios de locomoção.

Convido meu amigo a se deter, por exemplo, na análise dos anúncios de venda de automóveis. A única característica que não é sugerida ao potencial comprador do objeto anunciado é a sua condição de meio de transporte. Destaca-se sua beleza, sua potência, seus recursos de comunicação e outras tantas qualidades, mas não se busca convencer a “vítima” da propaganda de que sua locomoção para o trabalho, ou para o lazer ficaria favorecida com a utilização daquele veículo e o porquê.

Na verdade, no entanto, com as observações feitas até aqui, o que gostaria mesmo de submeter à apreciação dos prezados leitores é que entendo que o conceito de instrumentos disponíveis a nós humanos precisaria ser visto de uma forma mais ampla.

Diferentemente dos demais seres do universo, que vivem unicamente sob as imposições da física e da química, ao homem, ainda que igualmente subjugado às mesmas imposições, foi concedida a possibilidade de lidar com a imaterialidade, com a intangibilidade.

O que me proponho a sugerir ao prezado leitor é que essa peculiaridade pode ser entendida como disponibilizadora de um sem número de outros instrumentos dos quais o homem poderá fazer uso a seu critério.

Inteligência, conhecimento, sabedoria, poder, sentimentos os mais diversos, como amor e ódio, bondade, ....

Imagino que o prezado leitor, provocado por esta proposta, terá se permitido, em segundos, identificar inúmeros outros “instrumentos imateriais” dos quais o homem pode se valer na sua rotina do dia-a-dia, para buscar dar satisfação às suas necessidades.

É neste ponto da presente reflexão que gostaria de submeter à consideração dos que me acompanharam até aqui, o tema que dá título a este artigo, afirmando que ao se estender aos “instrumentos intangíveis” as mesmas peculiaridades daqueles que possuem materialidade, cabe registrar que o mesmo raciocínio permitiria que se aplicasse a eles a lógica de quem lhes dá qualidade são seus usuários.

A título de exemplo, convidaria o prezado leitor a tentar diferenciar a atitude de um indivíduo que se vale de sua força física para agredir um seu semelhante, com qualquer que seja o instrumento do qual possa fazer uso no momento, da atitude de um indivíduo que se valha do seu maior conhecimento em determinada área para ludibriar um outro, disso tirando vantagens pessoais e produzindo prejuízo de qualquer ordem ao outro.

Parece fora da dúvida que se considerará crime que alguém, de posse de uma arma, roube um automóvel de outrem. O mesmo se entenderá, caso alguém se valha de um martelo, por exemplo, para agredir um seu semelhante.

O objetivo deste artigo, no entanto, é provocar o leitor a refletir se o uso de instrumentos imateriais não deveria nos indignar tanto, ou em alguns casos, até mais, quando utilizados com o propósito de prejudicar, ludibriar, manipular, gerando benefícios, vantagens, de quaisquer ordens para seu usuário;

Assim, deixo à consideração do leitor as questões colocadas a seguir:

- É correto, honesto, que um professor, em sala de aula, se utilize, de sua maior quantidade de informações sobre a vida em coletividade (instrumento), exercitando militância política, para inocular conceitos, “verdades”, “valores”, em seus alunos? Ou este comportamento é criminoso?

- É correto, honesto, que um funcionário, em uma empresa, se valha das informações que possui, por força do cargo que ocupa (instrumento), para induzir tomadas de decisão que, ainda que produzam prejuízo à empresa, possa lhe trazer algum tipo de benefício pessoal? Ou este comportamento é criminoso?

- É correto, honesto, que um ocupante de um cargo político eletivo, no exercício de seu mandato, se valha da autoridade que lhe é conferida, pelo cargo ocupado (instrumento), para usufruir de facilidades, benefícios pessoais, ainda que seus atos possam redundar em prejuízo para a coletividade que lhe concedeu o direito da ocupação do referido cargo? Ou este comportamento é criminoso?

- É correto, honesto, que empresas de comunicação social, responsáveis por informar a sociedade a respeito da realidade em que vive (instrumento), possa se utilizar da credibilidade que a sua atividade tende a incutir na coletividade, para difundir informações que, a seu ver, contribuem para induzir a formação de uma ambiência favorável à produção de atos e fatos que lhe favoreçam de alguma forma, ainda que em prejuízo de qualquer ordem para aqueles que aceitam tais informações como se verdadeiras fossem? Ou este comportamento é criminoso?

- É correto, honesto, que aqueles aos quais cabe, na sociedade, julgar seus semelhantes pelos seus feitos (instrumento), se valham do poder que lhes é conferido para em suas decisões, adotar procedimento, ainda que ao arrepio da legislação em vigor, camuflado por exercícios falaciosos de dialética, que lhe traga algum benefício pessoal ou mesmo a segmento da sociedade que, por qualquer razão, lhe seja simpático, mesmo que gerando prejuízos à coletividade, seja em razão do descrédito na justiça gerado, seja como agressão ao sentimento de liberdade e respeito ao cidadão, que deve sobrepairar a quaisquer outros? Ou este comportamento é criminoso?

Estou certo de que um sem número de outras questões semelhantes terão vindo à sua mente, leitor, quase ao mesmo tempo.

Triste concluir que a quantidade de criminosos no nosso Brasil é muito maior do que se possa imaginar, quando se constata que instrumentos imateriais que são colocados à disposição do ser humano para que deles se possa produzir o bem coletivo e individual tenham sua destinação desvirtuada criminosa e conscientemente.

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Mario de Oliveira Seixas

Mario de Oliveira Seixas é General-de-Brigada, na reserva do Exército brasileiro. Realizou todos os cursos militares, nos níveis de graduação, mestrado e doutorado, assim como o Curso de Política, Estratégia e Alta Administração do Exército, o de mais elevado nível da carreira. É engenheiro de telecomunicações formado pelo Instituto Militar de Engenharia. No exterior, cursou o British Army Staff College (curso de Comando e Estado-Maior do Exército Britânico) e a Defence School of Language (curso da língua inglesa). Na PUC-Rio, especializou-se em Educação à Distância. Na FAAP, em São Paulo, realizou o Curso de MBA em Excelência Gerencial, com Ênfase na Gestão Pública. De 2005 à 2009 foi o Secretário Municipal de Cooperação nos Assuntos de Segurança Pública da Cidade de Campinas - SP. De 2009 a 2018 foi Superintendente Geral da entidade Movimento Vida Melhor - MVM, em Campinas - SP, cujo propósito é retirar das ruas da cidade adolescentes em risco social.

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