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19 Mai 2005

Notas Sobre o Movimento Estudantil

Escrito por 

O movimento estudantil é mais um sinônimo de alienação do que conscientização. Lembrando aqueles que adoram usar essa palavra, que ela vem do latim alienatio e quer dizer desconhecer.

Uma das coisas mais exaltadas dentro de nossa sociedade é o dito ímpeto da mocidade, o senso de justiça que supostamente habita o âmagos dos indivíduos, quando ainda estão na tenra idade, sedentos por tomar as rédias do mundo, porém, não no devido tempo após uma árdua preparação para tal fim, mas agora e de preferencia o mais rápido possível.

Sentem-se como se fossem uma grande revolução em curso, como uma grande horda de Ulisses em uma aventura homérica nos idos das modernidade. E, nesta volúpia de hormônios pseudo-politizada, temos um grande baluarte deste desencontro da alma humana, em um misto de hipocrisia e impotência, que é o movimento estudantil o qual, militei quando ocupava um lugar nos bancos escolares e acadêmicos e por isso, não posso me eximir da responsabilidade de confessar os meus pecados e bem como minhas ponderações retiradas desta experiência. Obviamente, nesta confissão para a humanidade não terei a maestria do mestre Sto. Agostinho, mas posso expor o que esses olhos virão e o que esta alma fez, quando estava imerso no epicentro deste terremoto que é o movimento estudantil.

Militei durante muito tempo na Federação do Movimento dos Estudantes de História - FEMEH - e em 1998 participei de um encontro a nível nacional, onde o tema era os 150 do Manifesto do Partido Comunista. As palestras foram no geral satisfatórias e bem como as atividades culturais. Mas o que não deixou de chamar minha atenção eram as Assembléias da FEMEH, onde era decidido quais seriam as ações que os estudantes teriam que realizar até o próximo encontro entre outras demandas. E, constantemente, ao invés de termos ações que procurassem ter um real comprometimento com a formação e a condição dos Estudantes e bem como com propostas e projetos para proporcionar uma real contribuição para com as mazelas deste país que em nenhum momento deixavam de aparecer no discurso dos participantes, o que tínhamos? Estudantes entrando constantemente em vias de fato, para defender as prerrogativas de seus grupos políticos partidários e nada mais.

São cenas que nunca mais saíram de minha mente e que, gradativamente, foram lavando minha alma do romantismo barato que é típico desta nossa fase da vida, por que, em todos os encontros que participei cenas como essa se repetiam constantemente, fosse na FEMEH ou na UNE. Tamanha é a manipulação política que infecta o movimento estudantil que no 46º Congresso da UNE, tínhamos como convidado especial para falar sobre justiça e democracia ninguém menos que Fidel Castro, o carniceiro das Antilhas. E o mais curioso é que em todos esses encontros onde todos se manifestavam profundamente indignados com as injustiças do sistema e com a grande penúria que aflige inúmeros de nossos irmãos, nunca vi uma só proposta de ação de auxílio aos que clamam por socorro que não fosse além de uma festiva manifestação de rua em um misto de bandeiraço com balbúrdia desregrada para assim todos aparecerem na tribuna da História como baluartes da luta contra a globalização, que se pretendiam UNE-potentes, mas que não passavam de jovens e adolescentes impotentes sendo manipulados por pessoas sem escrúpulos, que os usavam e usam como massa de manobra massajando seus egos dizendo que eles são o futuro da nação e como tal, devem começar a sê-lo agora.

Todos os regimes totalitários fizeram uso da juventude para destroçarem os seus inimigos com muita eficiência. Hitler tinha a juventude hitlerista; Mao Tse Tung embalou a sua Revolução Cultural com os jovens chineses devidamente tolhidos; Pol Pot idem no Camboja onde ensinava aos infantes que a causa da revolução era mais importante que os seus pais e se eles fossem "traidores" da obra do mundo melhor possível, deveriam ser eliminados. E, não tão distante dos casos extremos citados, a nossa República de bananas de cuecas não fica fora do enredo dessa escola de samba sem harmonia chamada Brasil.

O movimento estudantil é mais um sinônimo de alienação do que conscientização. Lembrando aqueles que adoram usar essa palavra, que ela vem do latim alienatio e quer dizer desconhecer. E dentro dessa perspectiva, o que seriam as massas de estudantes senão um amontoado amorfo de indivíduos se dedicando intensamente em se desencontrar consigo e se deixar levar como massa de manobra na crença pífia de estar contribuindo para o bom caminhar da democracia.

Última modificação em Segunda, 09 Setembro 2013 20:13
Dartagnan Zanela

Professor e ensaísta. Autor dos livros Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos – ensaios sociológicos.

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