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17 Nov 2020

GERAÇÕES PERDIDAS

Escrito por 

Diferentemente do que ocorre em países politicamente melhor estruturados, no Brasil os partidos acabam por se constituir em amontoados de políticos reunidos no entorno de um cacique que se utiliza do conjunto para assegurar sua sobrevivência política.

 

Meus amigos

Acabamos de assistir as eleições municipais de 2020.

Ao longo de cerca de uma semana, registrei alguns aspectos que, do meu ponto de vista, caracterizam as eleições municipais no país.

Sistema inadequado, construído por aqueles que pretendiam se beneficiar, direta ou indiretamente dessa inadequação, eleitores absolutamente alienados das suas responsabilidades no contexto do processo, até em seu prejuízo próprio e candidatos, inacreditavelmente despreparados, incompetentes, aventureiros e/ou desonestos.

As consequências não poderiam ser diferentes das que se mostraram concretas, ao final do evento que marcou o primeiro turno.

No entanto, alguns detalhes merecem ser destacados.

O mais significativo de todos parece ser o inqualificável fiasco do partido dos trabalhadores. Com seu suposto líder (o Pinóquio, como é identificado neste espaço) totalmente desacreditado, desrespeitado, o partido acaba de quase se transformar em mais um partido “nanico”, como costumam ser identificados os partidos sem expressão no contexto nacional. Só ainda não pode ser definido como tal, em razão da sua representação nas esferas mais elevadas do poder. No entanto, a se seguir na mesma direção, provavelmente em 2020, poderá alcançar essa condição.

Totalmente desmoralizado nas eleições de 2018, conseguiu retroagir ainda mais agora. Sem dúvida, foi o grande derrotado.

Outros partidos do que se convencionou identificar como sendo de esquerda, igualmente, para usar um termo consagrado pela crítica que trata dos assuntos da área política, se viram desidratados nesta eleição.

No entanto, não se deve imaginar que tudo são flores, no cenário político brasileiro, a partir dos resultados apontados pela recente eleição.

Antes de qualquer outra análise, há que se registrar que, apesar de partidos não poderem ser identificados como tendo se destacado, algumas figuras o foram.

O brasileiro, pelo seu baixo nível de politização, tende a se deixar sensibilizar pelos indivíduos, ao invés de identificar os partidos que, pelo seu ideário, se coadunem com suas expectativas, com suas convicções.
Na verdade, nem os partidos se distinguem por seus postulados, nem os eleitores, sabem exatamente o que esperar deles.

Diferentemente do que ocorre em países politicamente melhor estruturados, no Brasil os partidos acabam por se constituir em amontoados de políticos reunidos no entorno de um cacique que se utiliza do conjunto para assegurar sua sobrevivência política.

A análise de seus estatutos sinaliza no sentido de uma clara indefinição de objetivos que possam lhes dar substância político-ideológica. Sugerem terem sido elaborados simplesmente para dar cumprimento às formalidades burocráticas existentes.

Assim, o eleitor finda por se deixar sensibilizar pelo personalismo desse ou daquele candidato, que, sabedor disso, se empenha em desenvolver um discurso que, na sua visão, possa cativar determinado segmento da coletividade.

Espremendo as propostas de todos os candidatos, se acabará chegando ao mesmo sumo. Falas vazias sobre educação, saúde e segurança, sem que se apresente qualquer proposta concreta de ação, ou, o que é pior, promessas de soluções fantasiosas e inexequíveis, o que caracteriza, incompetência ou má fé.

Todas as considerações anteriores lamentavelmente só se materializam, na prática, em razão de, nas últimas décadas, os partidos e os personagens que ocuparam o poder em todos os níveis de governo terem se empenhados decisivamente em idiotizar a população, particularmente os mais humildes, construindo “verdades” alienantes.

Com o auxílio indispensável de uma mídia já cooptada por décadas de doutrinação acadêmica, criado o maldito “politicamente correto” e a população sendo direcionada para assumir valores superficiais no contexto da existência humana, o resultado obtido foi a construção de uma geração de cidadãos desinformados, despreparados para a vida em coletividade, para a cidadania, facilmente manipuláveis. Gado humano.

O que se mostra mais angustiante é se ter que acreditar que não há perspectiva de que esse cenário se modifique a curto prazo. Necessitar-se-ia de outras tantas décadas, nas quais as lideranças políticas no país, conscientes dessa realidade podre, se empenhassem obstinadamente em ir revertendo, paulatinamente, o quadro existente.

Como os que têm se favorecido da atual situação não aceitariam que isso viesse a ocorrer sem resistência, não exige esforço se concluir que continuar-se-á perdendo gerações de brasileiros e patinando num desejável esforço de evolução da sociedade no sentido de mais equidade, mais justiça, mais verdadeira liberdade.

Mario de Oliveira Seixas

Mario de Oliveira Seixas é General-de-Brigada, na reserva do Exército brasileiro. Realizou todos os cursos militares, nos níveis de graduação, mestrado e doutorado, assim como o Curso de Política, Estratégia e Alta Administração do Exército, o de mais elevado nível da carreira. É engenheiro de telecomunicações formado pelo Instituto Militar de Engenharia. No exterior, cursou o British Army Staff College (curso de Comando e Estado-Maior do Exército Britânico) e a Defence School of Language (curso da língua inglesa). Na PUC-Rio, especializou-se em Educação à Distância. Na FAAP, em São Paulo, realizou o Curso de MBA em Excelência Gerencial, com Ênfase na Gestão Pública. De 2005 à 2009 foi o Secretário Municipal de Cooperação nos Assuntos de Segurança Pública da Cidade de Campinas - SP. De 2009 a 2018 foi Superintendente Geral da entidade Movimento Vida Melhor - MVM, em Campinas - SP, cujo propósito é retirar das ruas da cidade adolescentes em risco social.

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