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18 Mai 2005

Reformando a Humanidade

Escrito por 

A idéia do "bom selvagem" acalentou o coração de muitos românticos, mas não resiste ao teste da lógica e da história.

"Junto com os robôs e os chimpanzés, os autistas nos lembram que o aprendizado cultural só é possível porque pessoas neurologicamente normais possuem um equipamento inato para realizá-lo." (Steven Pinker)

Milhões de vidas foi o preço pago em tentativas grotescas de se criar um homem novo. O conceito romântico do "bom selvagem", levantado por Rousseau, assim como absurdas distorções do darwinismo que levaram à eugenia, causaram a morte de milhões de inocentes, tratados como matéria de experimento científico. Avanços científicos deixam cada vez mais claro que os homens possuem características inatas, e que a genética possui influência em nosso comportamento. A cultura é posterior ao homem, emerge quando as pessoas acumulam descobertas. Defensores da "tábula rasa" ignoram isso, repetindo que somos apenas uma folha em branco, aguardando para receber as informações de fora. A tentativa de escrever coisas que na verdade entram em contradição com a natureza humana acaba rasgando esse papel.

A idéia do "bom selvagem" acalentou o coração de muitos românticos, mas não resiste ao teste da lógica e da história. Em primeiro lugar, a sociedade é feita por homens. Portanto, parece sem sentido afirmar que o homem é puro mas a sociedade o corrompe. Em segundo lugar, vários estudos antropológicos demonstraram que diversas sociedades primitivas tinham inúmeras características comuns, entre elas e com o reino animal. Sempre fomos mais propensos à "guerra de clãs" que "comunidades de paz", como os outros animais. O homem luta contra a natureza pela sua sobrevivência, instinto básico e inato. O individualismo, a preferência da família vis-à-vis o resto da sociedade, são marcas comuns em todos os grupos analisados. O conceito de moral da espécie humana evolui, mas determinadas características parecem inalteráveis. Ignorá-las pode ser o caminho da desgraça. As idéias de Rousseau colocadas em prática resultaram no terror dos anos de Robespierre.

Do lado do darwinismo social, que baseia-se na suposição de Spencer de que podemos consultar a evolução para descobrir o que é certo, temos o problema da "falácia naturalista"; a crença de que tudo o que acontece na natureza é bom. Contrariamente ao consenso, a eugenia foi, no começo, uma causa favorita da esquerda, e não da direita. Foi defendida por muitos progressistas e socialistas. Agradava-lhes a idéia de expandir a intervenção do Estado para concretizar um objetivo social. Os nacional-socialistas fizeram uso impróprio da biologia, mas isso não invalida ela como ciência. As idéias usadas por mentes pervertidas não são automaticamente prova de falácia da totalidade dessas idéias. A eugenia é totalmente condenável, além de impraticável, a não ser que um Estado detenha o controle total da vida dos cidadãos. Isso não quer dizer, de forma alguma, que o darwinismo leva automaticamente ao nazismo, o que é absurdo. Hitler foi desumano e perverso porque causou a morte de milhões de pessoas, e não porque suas crenças faziam referência à biologia, como faziam a deus.

Tanto a ideologia nazista como a marxista conduziram ao genocídio, e suas teorias biológicas eram opostas. Os marxistas ignoravam o conceito de raça e eram avessos à idéia de herança genética ou natureza humana. Marx disse que "as circustâncias fazem os homens tanto quanto os homens fazem as circustâncias", e achava que a existência social é que determinava a consciência dos homens. Os seguidores de Marx do século XX defenderam a "tábula rasa", ou pelo menos a metáfora relacionada do material maleável. Mao Tsé-Tung, o genocida chinês que matou bem mais que Hitler, disse que "uma folha de papel em branco não tem borrões, por isso nela as mais novas e belas palavras podem ser escritas". Essas palavras, na prática, foram "morte", "escravidão", "miséria" e "terror". A natureza humana não aceita experimentos toscos!

O nazismo e o marxismo compartilharam o desejo de remodelar a humanidade. Marx defendia a "alteração dos homens em grande escala" como necessária. Hitler pregou "a vontade de recriar a humanidade". A conexão ideológica entre socialismo marxista e nacional-socialismo não é fruto de fantasia, e Hitler mesmo leu Marx atentamente quando vivia em Munique. Para os nazistas, os grupos eram as raças; para os marxistas, eram as classes. Para os nazistas, o conflito era o darwinismo social; para os marxistas, a luta de classes. Para os nazistas, os vitoriosos predestinados eram os arianos; para os marxistas, o proletariado. Além da justificativa direta para o conflito, a ideologia de luta entre grupos desencadeia uma tendência perversa a dividir as pessoas em parte do grupo e excluídos, tratando estes como menos que humanos. Não importa se esses grupos são definidos segundo sua biologia ou sua história. Os judeus foram aniquilados por Hitler, e os kulaks, pequenos proprietários de terras, foram exterminados por Lênin e Stalin.

Os "engenheiros da alma humana" acabam construindo um Estado totalitário de terror, por ignorarem as características básicas da natureza humana. Se as mentes individuais são componentes intercambiáveis de uma entidade superorgânica chamada sociedade, esta, e não o indivíduo, é a unidade de bem-estar. Não há lugar para os direitos do indivíduo. Ocorre que sociedade não pensa, não trabalha, não vive. São indivíduos, que somados, formam a sociedade. E estes possuem uma natureza humana, herdada em seus genes. Quando os homens são "reformados" em nome do bem-estar da sociedade, alguns poucos concentram absurdo poder enquanto a massa é controlada ou exterminada. Os "egoístas" vão para os Gulags. A folha de papel em branco acaba toda manchada de sangue.

Última modificação em Segunda, 09 Setembro 2013 20:13
Rodrigo Constantino

Rodrigo Constantino é economista formado pela PUC-RJ, com MBA de Finanças pelo IBMEC. Trabalha desde 1997 no mercado financeiro, como analista de empresas e administrador de portfolio. É autor do livro "Prisioneiros da Liberdade", da editora Soler.

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