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15 Mai 2005

Creio Porque é Absurdo

Escrito por 

A partir da ignorância ou do desconhecimento, apanágio das massas volúveis e de crença fácil, instila-se as crendices no absurdo através da emissão sistemática de falsos conceitos, da alteração vocabular, da mística que pretende oferecer um alvo pelo qual valeria a pena viver.

“Creio porque é absurdo”. Assim Tertuliano (155-220) formulou o primeiro princípio da crença ideológica. No Brasil de hoje grande parte da população está crendo no absurdo induzida pela retórica governamental que deforma a realidade para moldá-la a seus interesses; pela propaganda que perverte a linguagem gerando a miopia política que impede o povo de enxergar o avanço do seu próprio mal; pela “prostituição” de certos meios de comunicação que passam a servir não à opinião pública no sentido de informá-la, mas objetivam conformá-la aos desígnios de domínio dos donos do poder.

A partir da ignorância ou do desconhecimento, apanágio das massas volúveis e de crença fácil, instila-se as crendices no absurdo através da emissão sistemática de falsos conceitos, da alteração vocabular, da mística que pretende oferecer um alvo pelo qual valeria a pena viver. Nesse contexto o mal se banaliza, a mentira enraizada vira verdade, a miopia política se transforma em cegueira dogmática, a razão se transmuta em fé professada através da religião de Estado.

O PT não chegou ao poder por acaso. Foi uma longa marcha pontilhada de ensaios feitos através de administrações municipais e estaduais quase sempre mal-sucedidas ou medíocres. Quando finalmente os petistas obtiveram na quarta tentativa o poder maior da República completaram sua revolução sem tiros.

O símbolo máximo do partido, além da bandeira vermelha, foi e continua a ser um homem. Considerado eternamente como pobre operário sempre em luta pelos pobres e oprimidos, sobre ele se desfecha a crença no absurdo que o sustenta no poder. Ele é o predestinado, o salvador quase divinizado e falar sobre sua incapacidade de governar pode se transformar em preconceito ou crime de lesa majestade. Entretanto, o ex-operário, tendo chegado ao paraíso, nada faz além de voar, festejar, discursar de modo impróprio. Mesmo assim, existe a crença de que será reeleito. Será? Atrás dele manobram os verdadeiros donos do poder, possuidores de codinomes, adestrados nas táticas e técnicas que serviram à ideologia onde prevaleceu a crença no absurdo e que agora é cuidadosamente cultivada entre nós.

Observe por uns instantes o leitor que no sistema comunista, seja o da ex-União Soviética, da China, do Vietnã, da Coréia do Norte, do Camboja, do Leste Europeu, da América Latina, da África, do Afeganistão, morreram aproximadamente cem milhões de pessoas por execução, assassinato, mal-tratos em campos de concentração, fome. Para os sobreviventes do brutal sistema o totalitarismo impôs o terror, a liberdade foi suprimida, a dignidade individual aniquilada, as religiões proibidas, as artes sufocadas. Entretanto, tem sido pacientemente inculcado na sociedade brasileira a crença de que o mal do mundo se originou nos Estados Unidos e, por tabela, reforça-se o anti-semitismo. Não se cansa nosso presidente e nossa diplomacia de provocarem o governo Bush através de discursos e atitudes. Até em novela dissemina-se no Brasil o antiamericanismo, sendo que noticiários insuflam descaradamente o ódio aos norte-americanos. Nenhuma palavra sobre os crimes cometidos pelos comunistas. Nada a respeito das atrocidades de Saddam Hussein, mas constantes inserções de uma militar americana que desrespeitou presos no Iraque, e que por sinal já foi punida.

A Cúpula América do Sul e Países Árabes fez parte da crença no absurdo. Comercialmente ficamos nas intenções, nos acordos que poderão se concretizar, quem sabe. Em todo caso, não é o Brasil que vai ensinar aos árabes a fazer quibe.  Do ponto de vista político a Cúpula pode ter prejudicado a obsessão do governo com relação ao assento no Conselho de Segurança da ONU, pois o Brasil não deve ter causado boa impressão em âmbito mundial ao se transformar em palco para os árabes atacarem os Estados Unidos e Israel. Além disso, serviu de picadeiro não para o presidente Luiz Inácio, mas para Hugo Chávez que brilhou em demagogia e populismo. Considere-se, também, que a régia Cúpula acirrou ainda mais as relações Brasil/Argentina. Finalmente, a Carta de Brasília mostrou com palavras pervertidas, é claro, nas quais paz pode significar guerra, o desprezo pela democracia, pelos direitos humanos e a defesa camuflada, mas presente, do terrorismo.

Depois da Cúpula vem outro espetáculo da política: a marcha dos sem-terra que no caminho vêm invadindo fazendas e mostrando o poderio de sua organização e de seus recursos materiais e financeiros. Ao chegar à Brasília certamente os sem-terra não vão apanhar, como apanharam as mulheres dos militares. Pelo contrário, serão protegidos por aparato policial. E a partir da crença no absurdo o exército revolucionário do MST será considerado um movimento social pacífico e sério. Assim, o mal avulta e cremos que tudo está bem. Duda Mendonça está aí para nos convencer disso.

Última modificação em Segunda, 09 Setembro 2013 20:14
Maria Lúcia V. Barbosa

Graduada em Sociologia e Política e Administração Pública pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e especialista em Ciência Política pela UnB. É professora da Universidade Estadual de Londrina/PR. Articulista de vários jornais e sites brasileiros. É membro da Academia de Ciências, Artes e Letras de Londrina e premiada na área acadêmica com trabalhos como "Breve Ensaio sobre o Poder" e "A Favor de Nicolau Maquiavel Florentino".
E-mail: mlucia@sercomtel.com.br

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