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11 Mai 2004

Nietzsche e a Locura

Escrito por 

Decifrar o enigma de Nietzsche é decifrar toda a tragédia do Ocidente. Sua obra está aí para quem quiser fazer isso.

Foi com muita satisfação que vi chegar ao público leitor brasileiro o mais recente livro do Embaixador Meira Pena – Nietzsche e a Loucura – publicado pela Editora UniverCidade (Rio de Janeiro, 2003). Acompanhei a criação das primeiras linhas do texto, pois à época residia em Brasília e via o Embaixador com muita freqüência. O texto original, base do livro, serviu para uma conferência no Instituto Carl Jung, em Zurique. Passei muitas horas na sua biblioteca, falando de Nietzsche, Jung e do cristianismo. Muito aprendi no convívio daqueles deliciosos momentos.

Como sempre, o autor exibe uma grande maestria no manejo da língua portuguesa, o que torna a leitura dos seus textos uma atividade lúdica. Como sempre também ele demonstra a sua imensa erudição e cuidado com o tema sobre o qual se debruça, fazendo a resenha de praticamente toda a literatura relevante, seja clássica, seja de publicação recente. Aqueles interessados em Nietzsche poderão seguir o roteiro bibliográfico, o que lhes garantirá um mergulho profundo no pensamento do e sobre o filósofo.

Algumas discordâncias eu tenho com o ilustre Embaixador sobre a obra do autor alemão. Começando pelo fim, penso que não poderíamos atribuir a Nietzsche maiores simpatias liberais, não obstante a forma categórica como ele se referiu negativamente ao Estado e às idéias coletivistas. Nietzsche sabia pouco da literatura econômica e menos ainda do como funciona o Estado e as unidades privadas de produção. Na sua biografia não consta que tenha tido contato com esse mundo “real”. Ao contrário. Doente desde muito jovem, sua relação com as coisas do Estado se deu por ter exercido a cátedra às expensas do Estado, do qual passou a receber uma renda vitalícia após cair doente. Engajou-se no esforço de guerra, na retaguarda, a cuidar dos feridos, e talvez venha daí a sua forte rejeição ao ente estatal.

A verdade é que Nietzsche nunca trabalhou, tendo levado a vida como um andarilho errante, a vagar em busca de alívio para os muitos males do corpo e da alma.

Se Nietzsche tem uma filosofia política é esta, antes, aristocrática, e não liberal. Essa visão aristocrática é que lhe faz negar as idéias coletivistas. Seu pensamento tangencia a anarquia, é verdade, mas seu cunho é sempre aristocrático. Então não posso concordar com Meira Penna quando ele afirma que o considera “o primeiro dos grandes liberais modernos”. Detestar o Estado não é monopólio dos liberais, penso eu, e um aristocrata anarquista como era Nietzsche pôde muito bem fazê-lo.

Admiro profundamente o manejo que Meira Penna faz das categorias junguianas para esmiuçar o pensamento nietzschiano. Penso, todavia, e cada vez mais penso assim, que não precisamos desse instrumental para pôr o dedo na ferida. Nietzsche levou toda a sua vida sob possessão demoníaca, sendo o próprio Zaratustra a expressão antropomórfica dessa presença nefanda, que o perseguiu do berço ao túmulo. É nesse sentido que a obra de Thomas Mann, Doutor Fausto, ganha monumental relevo para explicar a psicologia e a biografia de Nietzsche, à qual Meira Penna procurou, conscientemente ou não, fazer uma interpretação alternativa.
Na passagem do Doutor Fausto em que o personagem Adriam Leverkühn faz a sua confissão é que vemos brotar por inteiro o sentido da vida de Nietzsche: uma entrega irresoluta ao Demônio, seu pacto de sangue, sua ânsia fáustica que acabou por redundar na danação eterna. Para Mann, seu fim se deu de forma trágica e a sua confissão não serviu para lhe redimir, algo que só faria sentido em um cristão. Nietzsche estava além da redenção. Saiu da vida para os infernos, a sua vida foi ela mesma um inferno.

A tragédia de Nietzsche de alguma forma antecipou e profetizou a tragédia vivida pela Alemanha nas duas Grandes Guerras. Profetizou o que viria a ser o macabro século XX. Profetizou o relativismo moral, a morte do Deus cristão na alma da maioria dos ocidentais, a transformação dos costumes, que na prática aniquilou a tradição. E é aqui que me permito discordar mais uma vez do mestre Meira Penna: não vejo a revolução sexual e dos valores com simpatia. Ao contrário. Penso que a humanidade regrediu milênios com ela. É no afrouxamento dos costumes que vemos repetir-se indefinidamente o drama vivido na intimidade por Nietzsche. A moléstia da sífilis serve bem de metáfora para dizer que a existência desregrada serve apenas para profanar o corpo, um templo do Deus Vivo.

Cada página da obra de Nietzsche, especialmente do belo Zaratustra, é uma comoção. Correm sangue, suor e lágrimas em cada linha. É o testemunho poético da sua imensa solidão, do seu alheamento do mundo, da sua impossibilidade de se relacionar com quem quer que fosse além do seu deus desconhecido. É na verdade o relato de seu embate com o espírito maligno, aquele mesmo que tentou Cristo no deserto. Só Nietzsche dele não sabia, pois qualquer pastor ou pároco de aldeia saberia muito bem lhe dizer de quem se tratava.

Decifrar o enigma de Nietzsche é decifrar toda a tragédia do Ocidente. Sua obra está aí para quem quiser fazer isso. Meira Penna deu uma grande contribuição nesse sentido.

Última modificação em Quarta, 30 Outubro 2013 20:30
José Nivaldo Cordeiro

José Nivaldo Cordeiro é economista e mestre em Administração de Empresas na FGV-SP. Cristão, liberal e democrata, acredita que o papel do Estado deve se cingir a garantia da ordem pública. Professa a idéia de que a liberdade, a riqueza e a prosperidade devem ser conquistadas mediante esforço pessoal, afastando coletivismos e a intervenção estatal nas vidas dos cidadãos.

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